{"id":600,"date":"2013-08-10T10:55:19","date_gmt":"2013-08-10T13:55:19","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=600"},"modified":"2017-11-02T14:08:18","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:18","slug":"os-melhores-momentos-acontecem-depois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/08\/os-melhores-momentos-acontecem-depois\/","title":{"rendered":"Os Melhores Momentos Acontecem Depois"},"content":{"rendered":"<p>Fernando Pessoa escreveu em 1914 um poema chamado &#8220;Uns Versos Quaisquer&#8221;, que pode ser interpretado como um breve ensaio sobre a saudade, ou ainda melhor, sobre a &#8220;saudade falsa&#8221;, este sentimento que tanto faz parte da <b>minha<\/b> poesia (nem tanto da dele).<\/p>\n<p>Vive o momento com saudade dele<br \/>\n&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;J\u00e1 ao viv\u00ea-lo&#8230;<br \/>\nBarcas vazias, sempre nos impele<br \/>\n&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Como a um solto cabelo<br \/>\nUm vento para longe, e n\u00e3o sabemos,<br \/>\nAo viver, que sentimos ou queremos.<\/p>\n<p>A ideia de que o momento j\u00e1 deva ser vivido com saudades e que a vida est\u00e1 sempre a nos impelir para longe do que queremos, eis o centro de uma parte significativa da poesia de Pessoa, que coincide com o centro de boa parte da melhor poesia que j\u00e1 se escreveu.<\/p>\n<p>Tomei consci\u00eancia desta diverg\u00eancia temporal entre o momento e saudade quando comecei a perceber que as minhas lembran\u00e7as n\u00e3o coincidem com os fatos documentados, e que as coisas de que mais sinto falta n\u00e3o foram necessariamente as que mais valorizei quando as vivi. Esta discrep\u00e2ncia \u00e9 resultante de viver o momento j\u00e1 com saudades dele, viver j\u00e1 pensando na lembran\u00e7a, pesar cada dia como pren\u00fancio de um futuro, em vez de viv\u00ea-lo rendido a si mesmo. Tenho vivido muito com essa ideia de planejar, pouco com a de realizar. O fruto agora \u00e9 eu ter de me entender com entulhos de momentos que n\u00e3o tiveram import\u00e2ncia alguma, mas ocuparam muito espa\u00e7o em minha vida, que atrapalham a lembran\u00e7a dos pequenos instantes que, em retrospecto, valem a pena ou teriam valido.<\/p>\n<p>&#8220;Saudades falsas&#8221; s\u00e3o uma rea\u00e7\u00e3o natural a isto. Se vinte minutos de um ver\u00e3o quase esquecido teriam valido mais do que semanas, por que n\u00e3o estender estes minutos, mesmo que na fantasia. Por que n\u00e3o revisit\u00e1-los, na imagina\u00e7\u00e3o se n\u00e3o for poss\u00edvel reencontrar os atores para uma remontagem, como um grupo de teatro que encena uma pe\u00e7a antiga.<\/p>\n<p>Infelizmente a companhia debandou, os atores est\u00e3o ocupados com novas montagens, ou interessados em remontar outras pe\u00e7as que n\u00e3o a minha. Sobra tentar abrevi\u00e1-la como um mon\u00f3logo, ou transformar o drama em uma obra de fic\u00e7\u00e3o em prosa, esta forma de solit\u00e1rio teatro que ser\u00e1 encenado na mente do leitor, e n\u00e3o sobre um palco.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o os melhores momentos n\u00e3o aconteceram de fato, ou aconteceram muito pouco, ou aconteceram de outra forma. Os melhores momentos acontecem agora, depois de terminado o ensaio. Nenhuma fic\u00e7\u00e3o seria melhor do que a escrita de al\u00e9m-t\u00famulo, porque somente ent\u00e3o o autor teria controle completo das lembran\u00e7as, conheceria o encadeamento de todos os fatos, e poderia selecionar melhor sobre que escrever.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fernando Pessoa escreveu em 1914 um poema chamado &#8220;Uns Versos Quaisquer&#8221;, que pode ser interpretado como um breve ensaio sobre a saudade, ou ainda melhor, sobre a &#8220;saudade falsa&#8221;, este sentimento que tanto faz parte da minha poesia (nem tanto da dele). Vive o momento com saudade dele &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;J\u00e1 ao viv\u00ea-lo&#8230; Barcas vazias, sempre nos impele &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Como a um solto cabelo Um vento para longe, e n\u00e3o sabemos, Ao viver, que sentimos ou queremos. 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