{"id":6038,"date":"2018-10-16T22:25:33","date_gmt":"2018-10-17T01:25:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=6038"},"modified":"2019-06-05T21:13:30","modified_gmt":"2019-06-06T00:13:30","slug":"os-casacos-azuis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2018\/10\/os-casacos-azuis\/","title":{"rendered":"Os Casacos Azuis"},"content":{"rendered":"\n<p>A escurid\u00e3o \u00e9 um lugar confort\u00e1vel para a minha gente. Estamos acostumados a ela desde h\u00e1 tantos s\u00e9culos que nem nos lembramos mais; por\u00e9m; quando a noite \u00e9 alta, a lua est\u00e1 redonda e uma brisa fria vem cortando; os homens olham para cima com receio e as mulheres, com medo, para os lados. O desconforto de nossa lembran\u00e7a ainda n\u00e3o foi esquecido, apesar de estarmos aquietados. Achamos gra\u00e7a nesse medo que vemos nos olhos do povo, sinal de uma grandeza perdida.<\/p>\n\n\n\n<p>Somos poucos agora que o t\u00e9dio das eras nos devorou. \u201cA vida \u00e9 uma vela que se consome quanto mais queima e estar desperto \u00e9 arder\u201d. Chamaram-me de louco quando o disse da primeira vez, mas hoje os que zombavam est\u00e3o no p\u00f3 e suas almas, ningu\u00e9m sabe onde. Acredito que a vida, seja de que tipo for, tem algo em comum: uma quantidade predeterminada de horas para permanecer alerta. Estou aqui, desperto em minha habita\u00e7\u00e3o, com muita sede e fome, mas completamente \u00edntegro, vestindo uma roupa casual, pensando em ca\u00e7ar novamente atrav\u00e9s da noite universal.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>Os dois jovens caminhavam pela estrada de terra entre os arbustos, tentando furar a fila dos peregrinos. Entre os espinheiros e as tou\u00e7as de capim ela se escondia e picou o p\u00e9 de Helena atrav\u00e9s do cal\u00e7ado fino. O rapaz se assustou com o grito dela, por\u00e9m, a mo\u00e7a manteve a presen\u00e7a de esp\u00edrito:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014Esta n\u00e3o \u00e9 das venenosas, bobinho\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o se levantou e continuou a andar. Aproximaram-se da estrada principal, que estava ocupada por uma multid\u00e3o que avan\u00e7ava devagar, arrastando os p\u00e9s na poeira dos dias. Ningu\u00e9m se importou que eles se juntassem \u00e0 fila, ningu\u00e9m tinha pressa, diante da certeza da Salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014De qualquer maneira, querido, logo isso n\u00e3o importar\u00e1, porque estaremos com os Santos Anjos do Senhor, eles lavar\u00e3o de n\u00f3s toda dor e toda l\u00e1grima.<\/p>\n\n\n\n<p>O rapaz continuou em sil\u00eancio. Odiava discordar de Heleninha e em troca de migalhas de seu amor jurara seguir com ela at\u00e9 o fim do mundo. Isso fora um m\u00eas antes, e o fim do mundo, afinal, acontecera, ou era, pelo menos, o que parecia estar acontecendo, com toda a hist\u00f3ria de Gl\u00f3ria do Senhor, de Santos Anjos, Arrebatamento.<\/p>\n\n\n\n<p>O Lugar Santo j\u00e1 estava perto. Podiam ver o brilho de sua luz oscilando acima das colinas. Essa proximidade n\u00e3o fazia ningu\u00e9m ter mais pressa, e todos seguiam com uma calma irrazo\u00e1vel, porque a hist\u00f3ria recorrente era que haveria lugar para todos.<\/p>\n\n\n\n<p>A estrada de terra estreita ligava a rodovia principal ao lugar entre as colinas onde se manifestara a Gl\u00f3ria. Era uma art\u00e9ria compactada pelos passos de incont\u00e1veis milhares em poucos dias, talvez milh\u00f5es desde primeiro de setembro, quando tudo come\u00e7ara, com o convite que os Santos Anjos haviam feito aos Justos e Piedosos do mundo, e estendido a quem se confessasse, cresse e quisesse ir \u00e0 presen\u00e7a do Senhor.<\/p>\n\n\n\n<p>A estrada se estreitava ao passar por entre um bosque de eucaliptos. Al\u00e9m das \u00faltimas das \u00e1rvores perfumosas estava o ve\u00edculo sem soldas e sem m\u00e1cula que descera dentre as nuvens. Helena, por\u00e9m, come\u00e7ou ter n\u00e1useas e tontura. Atrasando a multid\u00e3o, empurraram-na de lado para n\u00e3o atrapalhar o fluxo incessante. Te\u00f3filo a apoiou nos bra\u00e7os e a ajudou a subir o barranco baixo, onde havia uma pedra achatada de onde se descortinava a atividade al\u00e9m dos eucaliptos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014Tenho frio, Te\u00f3filo. Promete que n\u00e3o me deixar\u00e1 aqui fora? Leva-me at\u00e9 eles, at\u00e9 a Salva\u00e7\u00e3o. Promete!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014Prometo que a levarei \u00e0 Salva\u00e7\u00e3o, Heleninha!<\/p>\n\n\n\n<p>Te\u00f3filo teria preferido que a salva\u00e7\u00e3o viesse mais tarde, que houvesse tempo para a carnalidade do amor. Naquele momento, ainda por cima, sua vontade maior n\u00e3o era chegar ao Arrebatamento, mas continuar ali a observar como as criaturas vestidas de azul-escuro entravam e sa\u00edam, sempre levando para dentro, nunca trazendo para fora, os peregrinos que chegavam diante da Gl\u00f3ria com olhos cheios de l\u00e1grimas.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma velhinha se aproximou a mancar, chorando e tossindo. Um dos Anjos a abra\u00e7ou e a levou pela rampa at\u00e9 a Porta Luminosa. Instantes depois um saiu, outro ou o mesmo n\u00e3o se podia saber, porque todos pareciam iguais. Havia dezoito deles, sempre seis a montar guarda do per\u00edmetro, nunca permitindo que mais de uma pessoa se aproximasse de cada vez, seis estavam dentro, sempre andando de um lado a outro, conforme se via pelas janelas, e seis entrando e saindo com os peregrinos.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m se lembra de onde vem o Mal, porque o ser humano n\u00e3o tem mem\u00f3ria, \u00e9 um inseto a voejar em torno da l\u00e2mpada, que tamb\u00e9m ela se apagar\u00e1 um dia. Para quem \u00e9 mariposa, a l\u00e2mpada \u00e9 o seu sol e o c\u00f4modo de sua casa \u00e9 um universo. N\u00e3o sou muito melhor que esses ef\u00eameros insetos, mas algo me faz mais duradouro, repelido pela l\u00e2mpada que sou capaz de ver que um dia se queimar\u00e1, e vejo as gera\u00e7\u00f5es que v\u00eam e v\u00e3o e nunca se lembram de mim, ou de minha ca\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Terminei de me vestir e sa\u00ed. A pesada porta de pedra cedeu facilmente \u00e0 minha for\u00e7a de seis homens. Selei-a com um juramento e subi as longas escadarias que desembocam no \u00e1trio externo de meu esconderijo, j\u00e1 tento nas narinas o distante bafejo de uma brisa viva, que traz o cheiro do s\u00e9culo novo, em que viverei mais um per\u00edodo de minha vig\u00edlia \u00e0 espera do escuro final.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta \u00e9 uma cidade maior do que eu me lembrava, e muito diferente. Da \u00faltima vez em que despertara nela, encontrei multid\u00f5es que se acotovelavam pelas ruas, sempre com muita pressa, cada um preocupado com o seu destino apenas, nada com o de seu pr\u00f3ximo. Foi uma \u00e9poca feliz em que pude viver livremente e aprender mais sobre esse pa\u00eds que surgiu durante meu sono. Eu esperava encontrar a cidade maior, mais apressada ainda, cheia de ainda mais viol\u00eancia e amor \u2014 mas o que encontrei foram ruas vazias, com ve\u00edculos abandonados e o assobio no vento nas esquinas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014Arrependei-vos, porque \u00e9 chegada a Hora do Ju\u00edzo!<\/p>\n\n\n\n<p>A voz cansada de um pregador de rua me fez recuperar os cuidados autom\u00e1ticos com que me previno. Recolhi-me \u00e0 formalidade que eu ainda lembro, desejando muito que ainda servisse para esta \u00e9poca. Caminhei at\u00e9 a criatura pat\u00e9tica. Ele estava, por sorte, de costas para minha exibi\u00e7\u00e3o de descuido.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014Aonde foram todos, cavalheiro?<\/p>\n\n\n\n<p>Indaguei-lhe, com mais polidez do que ele mereceria em outros tempos. Ele se voltou, n\u00e3o me viu como sou, inseto que \u00e9, fascinado na brevidade de seu voejar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014Todos v\u00e3o \u00e0 Casa do Senhor.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele me deu as costas e desapareceu em um beco escuro. Era a minha oportunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Minutos depois estava sozinho e descia a longa avenida que mal reconhecia. Meus cal\u00e7ados rangiam no estranho cal\u00e7amento, mas o que mais temia era aquele vazio irreal que se abatera sobre o mundo. Tinha a sensa\u00e7\u00e3o de que poderia voar livre por este logradouro um dia t\u00e3o devassado e ningu\u00e9m saberia. N\u00e3o voei, por\u00e9m, corri com uma rapidez sobre-humana na dire\u00e7\u00e3o de onde ouvia murm\u00farios.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014Pare, Drax! \u2014 Uma voz me interrompeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhei ao redor, confuso. Meu nome verdadeiro, dito pela boca de um homem.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014Quem sabe quem sou?<\/p>\n\n\n\n<p>Ele saiu de dentro de um restaurante, a comer um p\u00e3o recheado com vegetais e algo mais que n\u00e3o identifiquei ainda.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014Fantasia extraordin\u00e1ria, <em>man<\/em>, faz muito tempo que n\u00e3o vejo um f\u00e3 do Drax em um <em>cosplay<\/em> t\u00e3o perfeito!<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo desconhecedor de certas palavras que empregava, percebi que ele n\u00e3o me reconhecera, de fato, mas imaginava que eu seria algu\u00e9m que tentava me personificar. Quase n\u00e3o pude evitar o riso ao me dar conta disto, mas tal circunst\u00e2ncia me pareceu, \u00fatil, apesar de momentaneamente eu me amaldi\u00e7oar por ter revelado tanto de mim \u00e0quele maldito irland\u00eas. Eu realmente deveria t\u00ea-lo devorado em vez de fazer amizade com um jornalista. Por L\u00facifer!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014Muito bem, <em>man<\/em>! \u2014 eu lhe respondi, utilizando, sempre que poss\u00edvel, o mesmo linguajar que ele parecia preferir \u2014 poderia me ajudar a entender o que est\u00e1 havendo com o mundo? Aonde foi toda a gente da cidade?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014Muito prazer, meu nome \u00e9 Johnny.<\/p>\n\n\n\n<p>Estranhei um ingl\u00eas t\u00e3o dedicado a pronunciar o portugu\u00eas sem erros, apesar de ainda ter um jeito t\u00e3o arrevesado de escolher as palavras, decerto fruto da \u00e9poca. Mais estranho ainda um ingl\u00eas ser t\u00e3o informal. De qualquer maneira, n\u00e3o confiei o suficiente para me revelar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014Encantado, meu nome \u00e9\u2026 tamb\u00e9m John.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014Que coincid\u00eancia, somos xar\u00e1s!<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sei ainda o que quer dizer esta g\u00edria ex\u00f3tica de que nunca ouvira falar. Johnny, por\u00e9m, n\u00e3o se deu conta de meu desconforto, loquaz que s\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014Voc\u00ea me perguntava aonde foram todos\u2026 H\u00e1, esses carolas de uma figa. Est\u00e3o todos em fuga para as montanhas, dizem que \u00e9 o Arrebatamento, o fim dos tempos, que os Anjos do Senhor vieram buscar todos os que t\u00eam f\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014Anjos do Senhor? Arrebatamento? Que montanhas?<\/p>\n\n\n\n<p>Por um momento fui tomado pelo pavor de prestar contas de meus dias, mas logo me recompus. Tinha de haver um erro. Em Dite, durante as peregrina\u00e7\u00f5es de minha alma, me haviam informado sobre os Sinais. Eu saberia reconhecer a Hora Verdadeira, ent\u00e3o eu precisava verificar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014As montanhas, ora. Siga o facho de luz.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhei para onde seus dedos apontavam e vi dois longos fachos luminosos que oscilavam pela escurid\u00e3o. N\u00e3o constava que fosse um dos sinais. Aliviado, fui at\u00e9 o bar de onde sa\u00edra Johnny. Estava vazio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014Preciso de \u00e1gua.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele abriu uma porta, sem cerim\u00f4nias, e tirou de dentro uma garrafa de \u00e1gua mineral \u201ccom g\u00e1s\u201d. Sorvi um ter\u00e7o dela em um gole cont\u00ednuo, lavando de minha boca o ran\u00e7o de eras. A \u00e1gua parecia amarga \u2014 outro poss\u00edvel sinal.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014O que h\u00e1 com essa \u00e1gua, al\u00e9m de anormalmente fria?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014\u00c9 uma \u00e1gua de fonte natural, sem qualquer composto qu\u00edmico, a melhor que h\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Percebi uma torneira atr\u00e1s do balc\u00e3o. Dirigi-me at\u00e9 ela e enchi um copo daquela \u00e1gua. Estava \u00e0 temperatura ambiente e amargava como a outra, s\u00f3 n\u00e3o tinha g\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014Sua \u00e1gua de fonte natural \u00e9 da mesma natureza que esta, apenas gaseificada industrialmente, man. Agora diga-me porque toda \u00e1gua est\u00e1 amarga?<\/p>\n\n\n\n<p>O Johnny pareceu um tanto surpreso por tal informa\u00e7\u00e3o \u2014 e muito incr\u00e9dulo. Mesmo assim me respondeu:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014Essa da torneira est\u00e1 amarga por causa do cloro. Vem c\u00e1? De onde voc\u00ea \u00e9? Quem \u00e9 voc\u00ea? Voc\u00ea fala estranho\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Notei que ele come\u00e7ava a perceber algo de minha identidade e espaventei-o com um envultamento comum antes de sair de l\u00e1. N\u00e3o o drenei, por\u00e9m, porque recompenso com meu autocontrole os que me s\u00e3o \u00fateis.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>O veneno avan\u00e7ando por suas veias e corrompendo sua jovem vida, Helena se esva\u00eda e o torpe Te\u00f3filo n\u00e3o se dava conta. Em seus del\u00edrios ela abandonou o corpo, vagou pelos espa\u00e7os, viu, como eu, o engano dos sinais, com os olhos de sua alma. Ent\u00e3o me viu, tamb\u00e9m, n\u00e3o como o monstro que realmente sou, mas com a beleza de um ser que lentamente base as asas entre as nuvens cinzas de uma bela noite de luar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014Quem \u00e9 ele, Te\u00f3filo? Quem \u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p>Ela perguntou, de dentro das trevas de seu del\u00edrio, mesmo antes de me ver como um homem. Te\u00f3filo olhava ao redor, sem identificar ningu\u00e9m espec\u00edfico que pudesse ser o alvo do interesse s\u00fabito de Helena. A longa fila andava ainda, e ainda Helena piorava e ele n\u00e3o sabia se cumpriria a promessa ou se, por covardia, a deixaria morrer ali mesmo. No fundo, ele sabia e sempre soubera. Os covardes t\u00eam pressentimentos verdadeiros com mais frequ\u00eancia que os bravos.<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, era evidente que algo de portentoso acontecia ao mundo, mas os esp\u00edritos ind\u00f3ceis n\u00e3o aceitavam com facilidade as vers\u00f5es correntes. Te\u00f3filo tinha o esp\u00edrito inquieto dos que ouvem a voz do medo, o salvador de vidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seus del\u00edrios, Helena me chamou. Ouvia-a desde muito alto e de muito longe. Vi a sua alma inteiramente nua, li-a desde o dia em que nasceu. Ela estava por um fio prateado, prestes a perder-se diante das m\u00e3os in\u00fateis de seu amado morno. Lendo-a foi que penetrei no mundo novo, ouvi a hist\u00f3ria do Arrebatamento, tive a certeza da aus\u00eancia dos Sinais e comecei a planejar meu curso. Enquanto ela me via apenas como asas lentas, <em>flap-flap<\/em> entre as nuvens que se ajuntavam, eu a amei, vendo-a somente como um espectro p\u00e1lido que relutava em se perder. Voei at\u00e9 ela, porque eu primeiro ato n\u00e3o podia ser outro que tom\u00e1-la de quem a perdera antes de t\u00ea-la.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014Q-quem \u00e9 voc\u00ea? \u2014 Um rapaz imberbe e vacilante se assustou com a minha chegada repentina e recuou, aos trope\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014Afasta-te, porque tu a deixaste perder-se.<\/p>\n\n\n\n<p>Empurrei-o de lado e me aproximei. Ela estava l\u00edvida, os olhos revirados, a vida j\u00e1 quase rendida.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014Beberei de ti o veneno que te mata, Helena dos Santos. Compartilho contigo a vida que tenho muita, em troca do calor que tenho pouco. Logo ser\u00e1s apenas Helena e ser\u00e1s minha.<\/p>\n\n\n\n<p>O rapaz reagiu com horror ao ato, mas n\u00e3o teve coragem suficiente para me atacar com as m\u00e3os. Em vez disso, atirou-me uma pedra, mas n\u00e3o t\u00e3o grande que pudesse ao menos causar-me dor \u2014 ele n\u00e3o era forte para tanto \u2014 e conclu\u00ed o meu feito r\u00e1pido e me ergui de seu seio. Restava apenas esperar que o tempo agisse sobre sua carne.<\/p>\n\n\n\n<p>Te\u00f3filo n\u00e3o se afastara, o que ainda era um pouco de coragem em um frangote t\u00e3o pouco iluminado. Ele tinha outra pedra \u00e0 m\u00e3o, mas tamb\u00e9m a consci\u00eancia de que ela seria t\u00e3o in\u00fatil quanto a primeira fora. Em seus olhos se mesclavam o medo e o fasc\u00ednio de quem encontra algo muito temido e muito ansiado. Estendi o bra\u00e7o, segurei-o pelo pesco\u00e7o e dele fiz o meu servi\u00e7al. Ele me aceitou sem resistir.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>Quando Drax me sorveu e eu o sorvi, nossas almas foram temporariamente a mesma, aprendi dele tanto quanto ele aprendeu de mim. Por um momento eu ainda n\u00e3o podia me mover, enquanto meu sangue se convertia. Mesmo ainda presa de meu torpor de morte, lembro-me de Drax transformar-se em algo terr\u00edvel e belo, que ainda amo e ainda desejo mais que a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/imagem_alien27.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6039\" width=\"439\" height=\"254\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/imagem_alien27.jpg 585w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/imagem_alien27-120x70.jpg 120w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/imagem_alien27-250x145.jpg 250w\" sizes=\"(max-width: 439px) 100vw, 439px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Ele deu um berro que atraiu a aten\u00e7\u00e3o do povo que caminhava. Seus olhos ficaram vermelhos e se encheram de uma f\u00faria imposs\u00edvel a um humano normal, porque ele n\u00e3o era nada disso. Desembainhou uma espada, que brilhou ao luar, e arremeteu enlouquecido contra a Gl\u00f3ria de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>O fio azulado da l\u00e2mina cortou pelo meio um Anjo do Senhor, e logo outro, antes que reagissem, tomados de surpresa por uma viol\u00eancia al\u00e9m da que esperavam dos humanos. Os que ca\u00edram ao ch\u00e3o sangraram um icor azul arroxeado e ali permaneceram inertes, como cad\u00e1veres materiais.<\/p>\n\n\n\n<p>A multid\u00e3o parou por um instante, incr\u00e9dula de ver o sangue ang\u00e9lico derramado.<\/p>\n\n\n\n<p>Sa\u00edram de dentro do Ve\u00edculo dois anjos que portavam longos objetos pontiagudos a espargir fa\u00edscas rosadas e verdes. Nem eu sabia o que poderiam ser, mas Drax, apesar de rec\u00e9m-nascido do sono dos s\u00e9culos, pressentiu, pelo sopro de um antigo esp\u00edrito guerreiro, qual era o significado oculto de tal Portento e se ocultou entre as pessoas assustadas que n\u00e3o sabiam para onde ir.<\/p>\n\n\n\n<p>Os Anjos deitaram aquelas fagulhas ao redor de si, e onde ca\u00edram aquelas cores t\u00e3o belas o ch\u00e3o ficou escuro. Alguns tocados pelo Fogo Divino ficaram terrivelmente mutilados e se retorceram pelo ch\u00e3o em agonias horr\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>Drax correu por entre o povo e os Anjos, esquecidos de sua Santidade, vieram atr\u00e1s, com os estranhos objetos faiscantes que destru\u00edam os corpos que ficavam pela frente. Ent\u00e3o a multid\u00e3o come\u00e7ou a berrar de medo e a tentar debandar. A press\u00e3o dos que vinham de tr\u00e1s n\u00e3o diminuiu, porque quem estava longe nada via, e continuava a andar em dire\u00e7\u00e3o ao Arrebatamento t\u00e3o esperado.<\/p>\n\n\n\n<p>O vale se apinhou de gente, houve grande pisoteio e confus\u00e3o. Cercados de gente desesperada, os Anjos s\u00f3 sabiam fulminar e fulminar, perdendo a express\u00e3o ang\u00e9lica e revelando faces r\u00edspidas e cru\u00e9is. De repente Drax, como nenhum humano faz, voou atrav\u00e9s da Porta Luminosa com a rapidez de um lobo que salta \u00e0 gargante de sua presa. Ningu\u00e9m quase o viu passar. Os Anjos o pressentiram pelo movimento do ar, mas n\u00e3o puderam fazer nada para impedir que ele penetrasse na Gl\u00f3ria do Senhor.<\/p>\n\n\n\n<p>No instante seguinte ouvimos ru\u00eddos do lado de dentro. Dois Anjos, aos peda\u00e7os, arremessados para fora, e fumegantes ossos humanos. A Gl\u00f3ria do Senhor, ent\u00e3o, produziu um grande rugido e chamas brancas surgiram por debaixo, calcinando o ch\u00e3o. Os Anjos que estavam por perto emitiram um grito algo e agudo, e eis que at\u00e9 ent\u00e3o ningu\u00e9m os ouvira falar. Rolaram pelo ch\u00e3o, atingidos pelo calor branco, mas logo ficaram im\u00f3veis. A Gl\u00f3ria do Senhor ent\u00e3o adernou e tocou o ch\u00e3o, deformando-se e produzindo fagulhas.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns da multid\u00e3o se aproveitaram disso para tentar tomar dos cad\u00e1veres os seus bast\u00f5es faiscantes, mas queimaram as m\u00e3os seriamente ao tentarem faz\u00ea-lo. Ent\u00e3o Drax, todo sujo de sangue azul e verde, saiu carregando um recipiente de pl\u00e1stico enorme, que jogou ao ch\u00e3o com desprezo. Quando sorriu, seus dentes pontiagudos brilharam ao luar como presas de lobo.<\/p>\n\n\n\n<p>A tampa do objeto se desprendeu e vimos derramar-se pelo ch\u00e3o uma riqueza em joias, dentes de ouro, pr\u00f3teses de platina, e diversos pedras de formato curioso, ovaladas e verdes, ou irregulares e castanhas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem eu, nem Helena, saber\u00edamos dizer o que era, mas havia m\u00e9dicos e historiadores entre os que desejavam o Arrebatamento. Quando trocaram ideias ouvimos muitas maldi\u00e7\u00f5es, e a voz deles tentando guiar o povo pela estrada afora, de volta \u00e0 cidade e \u00e0 vida normal.<\/p>\n\n\n\n<p>Ouvi um farfalhar e olhei para tr\u00e1s. Era meu mestre Drax que vinha a caminhar por entre o capim-gordura \u00famido de orvalho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014Mestre, o senhor \u00e9 um her\u00f3i\u2026 A humanidade\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Ele n\u00e3o me deixou terminar:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014N\u00e3o sei quem eram esses prateados de casaco azul, mas eu n\u00e3o posso admitir que venham ca\u00e7ar o meu gado desse jeito!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A escurid\u00e3o \u00e9 um lugar confort\u00e1vel para a minha gente. Estamos acostumados a ela desde h\u00e1 tantos s\u00e9culos que nem nos lembramos mais; por\u00e9m; quando a noite \u00e9 alta, a lua est\u00e1 redonda e uma brisa fria vem cortando; os homens olham para cima com receio e as mulheres, com medo, para os lados. O desconforto de nossa lembran\u00e7a ainda n\u00e3o foi esquecido, apesar de estarmos aquietados. Achamos gra\u00e7a nesse medo que vemos nos olhos do povo, sinal de uma grandeza perdida. 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