{"id":6056,"date":"2018-11-17T15:00:08","date_gmt":"2018-11-17T18:00:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=6056"},"modified":"2018-11-15T18:42:12","modified_gmt":"2018-11-15T21:42:12","slug":"os-automoveis-e-o-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2018\/11\/os-automoveis-e-o-amor\/","title":{"rendered":"Os Autom\u00f3veis e o Amor"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma teoria segundo a qual o brasileiro urbano de classe m\u00e9dia de antigamente era embalado, desde o \u00fatero da m\u00e3e, pelo barulho de um motor de combust\u00e3o interna. Quando nascia, o aroma de lubrificantes e combust\u00edveis se impregnava em suas narinas com a mesma intensidade do cheiro materno. Quando aprendia a falar, desde cedo entendia, pelas conversas dos mais velhos, que o autom\u00f3vel seria um membro da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 nada surpreendente que a vida sobre rodas seja, fosse desde h\u00e1 muito tempo, um ideal de perfei\u00e7\u00e3o e liberdade \u2014 e o resultado \u00f3bvio disso era que a sua vida afetiva fosse pontuada pela presen\u00e7a do grande casamenteiro moderno, exceto que sua a\u00e7\u00e3o n\u00e3o resultava, via de regra, em casamentos, salvo por exce\u00e7\u00e3o.<br \/><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6057\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/Casal-faz-sexo-no-carro-.jpg\" alt=\"\" width=\"768\" height=\"432\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/Casal-faz-sexo-no-carro-.jpg 768w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/Casal-faz-sexo-no-carro--120x68.jpg 120w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/Casal-faz-sexo-no-carro--250x141.jpg 250w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/>Hoje talvez isso pare\u00e7a fora da normalidade, pois estamos, cada vez mais, migrando rumo a uma sociedade sem autom\u00f3veis. Isso, claro, tem seu lado bom e seu lado ruim. No momento n\u00e3o me ocorre mencionar lado algum, afinal o que me interessa disso tudo \u00e9 lembrar o que de bom a vida tem. Infelizmente, j\u00e1 h\u00e1 alguns anos, a gra\u00e7a de ter um carro diminuiu por causa dos perigos do mundo.<\/p>\n<p>Antigamente era seguro transar dentro do carro \u2014 pelo menos aqui no interior, onde ainda n\u00e3o havia toda a viol\u00eancia dos lugares grandes, de que a gente s\u00f3 ouvia falar no programa do Gil Gomes.<\/p>\n<p>Havia as tais \u201cquebradas\u201d, lugares onde se podia estacionar um carro em paz a fim de desfrutar de quaisquer finalidades para as quais um carro <em>n\u00e3o<\/em> foi feito. Entre os usu\u00e1rios das quebradas reinava um c\u00f3digo de honra quase cavalheiresco: quem chegava primeiro tinha o controle inconteste do lugar, pois a ningu\u00e9m ocorria atrapalhar o pr\u00f3ximo em um momento t\u00e3o importante. Era como um mandamento religioso: \u201cn\u00e3o empateis a foda de vosso irm\u00e3o para que n\u00e3o tenhais a vossa foda empatada um dia.\u201d Se voc\u00ea chegava na quebrada e via algu\u00e9m l\u00e1, dava r\u00e9 com todo respeito e ia ca\u00e7ar outro lugar, mesmo que fosse bem longe.<\/p>\n<p>Havia, claro, quatro categorias de mulheres: as que n\u00e3o topavam transar, as que n\u00e3o topavam transar no carro, as que n\u00e3o topavam transar fora do carro e as que n\u00e3o topavam transar muito longe do carro. As primeiras voc\u00ea levava \u00e0 missa, as segundas voc\u00ea tinha de levar a um motel, para as terceiras voc\u00ea tinha que manter as janelas fechadas e buscar uma quebrada, e para as \u00faltimas voc\u00ea tinha que achar um bom lugar, a quebrada perfeita.<\/p>\n<p>Havia, inclusive, mulheres que preferiam transar no carro, at\u00e9 quando iam a motel. Um amigo me contou que ele e a namorada transavam dentro do carro, com as portas abertas, os bancos reclinados, o som tocando. O motel basicamente oferecia o banheiro, as camisinhas de brinde, as toalhas e o toldo que garantia a privacidade. A namorada dele acreditava que os funcion\u00e1rios dos mot\u00e9is ficavam olhando por uma greta da porta ou filmando os casais com c\u00e2meras escondidas.<\/p>\n<p>Havia quebradas quase mitol\u00f3gicas nos arredores da cidade \u2014 muitas delas com apelidos curiosos. Havia a \u201cCurva do C\u00e9u\u201d, da qual se descortinava uma bela vis\u00e3o da lua, o \u201cBosque\u201d, onde o \u201clobo\u201d ia a fim de comer uma chapeuzinho, mas nenhuma quebrada era t\u00e3o concorrida quanto a do Beira-Rio. Ali havia uma combina\u00e7\u00e3o de tudo de bom que uma quebrada poderia ter.<\/p>\n<p>A quebrada do Beira-Rio ficava a uns quatro quil\u00f4metros do per\u00edmetro urbano, em um lugar onde a rodovia se aproximava de um rio. \u00c0 direita da estrada havia uma subida que terminava em um morro de topo chato. Do outro lado o morro desca\u00eda em uma pirambeira \u00edngreme at\u00e9 uma vargem que seguia a curva do rio. Chegava-se ao topo desse morro por uma curiosa estrada aberta no mato pelo quebrar de galhos e dobrar de tou\u00e7as de capim. Tudo isto feito n\u00e3o pela m\u00e3o humana, mas pela roda do autom\u00f3vel. Nos prim\u00f3rdios, antes mesmo de eu nascer, ali s\u00f3 iam jipes e picapes, mas o tr\u00e1fego frequente foi amansando o terreno e abrindo espa\u00e7o entre a vegeta\u00e7\u00e3o, at\u00e9 que, na minha \u00e9poca, se subia ali em qualquer carrinho besteiro.<\/p>\n<p>Antes de comprar meu pr\u00f3prio carro, e descobrir para que servia aquele lugar, eu achava curioso quando passava por l\u00e1, de \u00f4nibus, via aquela estradinha que parecia n\u00e3o ir a lugar algum e me perguntava se n\u00e3o havia algum s\u00edtio escondido na matinha. Um dia, cinco ou seis meses depois de comprar meu primeiro fusquinha, inventei de subir pela estrada e cheguei a uma tronqueira de arame que separava a parte pertencente ao governo da que decerto pertencia a algu\u00e9m. Al\u00e9m a estrada continuava, ent\u00e3o abri a cerca e segui morro acima, as rodas do fusquinha deslizando no mato molhado. Ent\u00e3o cheguei ao topo do morro, onde n\u00e3o havia nada, parecia at\u00e9 um aeroporto de disco voador. Mas n\u00e3o precisei de mais do que cinco minutos para entender o que era aquele lugar: bitucas de cigarro, camisinhas usadas, garrafas vazias\u2026 n\u00e3o era preciso ser g\u00eanio para perceber.<\/p>\n<p>Nunca tive a oportunidade de frequentar aquela quebrada durante a noite, no entanto. Sempre que tentei a tronqueira j\u00e1 estava aberta, sinal de que algu\u00e9m j\u00e1 havia subido.<\/p>\n<p>Desde essa \u00e9poca o mundo nunca cessou de ficar mais perigoso \u2014 a tal ponto que hoje eu acredito que ningu\u00e9m mais tenha coragem de usar uma quebrada. Algumas foram deliberadamente destru\u00eddas, como a dos Eucaliptos, na qual transplantaram \u00e1rvores clonadas, que logo deitaram raiz e acabaram com o espa\u00e7o. Outras, como a do Beira-Rio, foram cercadas e ganharam \u201cestrutura\u201d: banheiros, mirante e barzinho. Quem fez o investimento deve ter falido, porque as pessoas n\u00e3o iam a tais lugares pensando em beber e admirar a paisagem. Mas o principal motivo para o fim desta tradi\u00e7\u00e3o mineira aqui na regi\u00e3o foi mesmo a viol\u00eancia. T\u00e3o louco est\u00e1 o mundo que os pais preferem deixar os filhos transarem em casa, quando n\u00e3o t\u00eam dinheiro para o motel, do que em um lugar exposto, onde podem ser abordados por criminosos vis, gente sem amor no cora\u00e7\u00e3o e sem alegria na vida, que n\u00e3o ouviu o Evangelho da Quebrada e ficam por a\u00ed, torpemente, empatando a foda alheia e tornando o mundo inteiro menos belo e menos agrad\u00e1vel.<\/p>\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma teoria segundo a qual o brasileiro urbano de classe m\u00e9dia de antigamente era embalado, desde o \u00fatero da m\u00e3e, pelo barulho de um motor de combust\u00e3o interna. 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