{"id":606,"date":"2013-08-25T15:14:02","date_gmt":"2013-08-25T18:14:02","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=606"},"modified":"2017-11-02T14:08:18","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:18","slug":"como-ensinar-literatura-a-uma-crianca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/08\/como-ensinar-literatura-a-uma-crianca\/","title":{"rendered":"Como Ensinar Literatura a uma Crian\u00e7a?"},"content":{"rendered":"<p>Este domingo me ofereceu um desafio liter\u00e1rio incomum: minha filha me pediu que lhe ajudasse a escrever uma reda\u00e7\u00e3o para um concurso. Gabriele tem, aos dez anos, toda a ingenuidade e a fantasia de uma crian\u00e7a que ainda n\u00e3o perdeu a pureza. Ela ainda n\u00e3o conhece quase nada das dificuldades da vida, das frustra\u00e7\u00f5es, dessas coisas que nos fazem desperdi\u00e7ar sorrisos e cabelos com o passar dos anos enquanto vemos esgotarem-se todas as oportunidades que t\u00ednhamos sonhado. Por isso ela acha que \u00e9 poss\u00edvel, da noite para o dia, escrever um texto capaz de ganhar R$ 1.000,00 &#8212; com que pretende comprar um tablet.<\/p>\n<p>Tudo foi muito r\u00e1pido. Eu nem sabia desse concurso at\u00e9 h\u00e1 poucos dias, e antes do domingo nem sonhava que Gabriele quereria participar, ou que eu poderia lhe ajudar. Agora estou aqui, no mato sem cachorro, temeroso de destro\u00e7ar os sonhos de minha filha, mas ao mesmo tempo incapaz de mentir para ela.<\/p>\n<p>O tema n\u00e3o poderia ser dos mais \u00e1ridos: a vida do Bar\u00e3o de Mau\u00e1, um industrial burgu\u00eas do s\u00e9culo XIX que desperdi\u00e7ou boa parte da fortuna da fam\u00edlia (e uma boa parte de fortunas alheias tamb\u00e9m) tentando criar no Brasil uma base industrial e financeira que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o existia. N\u00e3o \u00e9 o tipo de coisa que fala ao cora\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as, e eu imagino o sofrimento que deve ser para uma delas ter que ler sobre a vida sisuda desse homem que aparece nas fotos de penteado estranho e rigoroso terno preto.<\/p>\n<p>Talvez eu esteja traumatizando a menina, mas a minha primeira li\u00e7\u00e3o, ainda pela manh\u00e3, foi a de que n\u00e3o adianta querer obter algo novo ou bom sem ter uma base. Se ela quer ganhar concursos de reda\u00e7\u00e3o, deve adquirir o h\u00e1bito de redigir sempre, porque as pessoas que ganham esses concursos raramente est\u00e3o participando pela primeira vez &#8212; e quando est\u00e3o, tiveram muito tempo para treinar antes. Disse-lhe que isso n\u00e3o deveria servir para desanim\u00e1-la desse concurso, mas para lhe dar a consci\u00eancia de que era preciso continuar, sempre, pois um concurso liter\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 uma loteria que se ganha na pura sorte. S\u00f3 n\u00e3o tive coragem de lhe falar dos outros crit\u00e9rios que entram nesses concursos, e que asseguram que os pr\u00eamios sejam previs\u00edveis. Na literatura brasileira, at\u00e9 a novidade \u00e9 previs\u00edvel.<\/p>\n<p>Depois disso eu lhe disse que n\u00e3o adianta copiar da Wikip\u00e9dia. Isso qualquer um pode fazer e, pior, o jurado, ao perceber o mais remoto ind\u00edcio de c\u00f3pia, provavelmente passar\u00e1 ao pr\u00f3ximo texto da fila, pois ele n\u00e3o tem tempo para ler a Wikip\u00e9dia com caligrafia ruim e erros de portugu\u00eas. Para ganhar o concurso \u00e9 preciso imaginar algo interessante, mesmo que seja sobre uma personalidade absolutamente obtusa.<\/p>\n<p>Meus conselhos foram solenemente ignorados durante horas. O artigo da Wikip\u00e9dia foi v\u00e1rias vezes copiado, com diversas varia\u00e7\u00f5es irrelevantes, resultando sempre em textos sofr\u00edveis. De nada adiantou que eu lhe tentasse convencer que a melhor sa\u00edda seria imaginar-se contando a vida do homem de uma forma l\u00fadica. Tentei fazer com que ela se imaginasse em uma noite do pijama com as amiguinhas, contando-lhes quem foi o tal Bar\u00e3o, mas ela resistiu bravamente, com um argumento infal\u00edvel: suas amigas jamais se interessariam por um tema desses. E que raz\u00e3o expressa nessas palavras. Nem eu me interesso, na maioria dos dias.<\/p>\n<p>A tarde j\u00e1 vai terminando, a pilha de bolas de papel vai se acumulando na lixeira e eu me vejo na pobre Gabriele. Lembro de meus doze anos, preso dentro de casa em um dia de chuva, sem nada para fazer, lendo cl\u00e1ssicos brasileiros e portugueses da biblioteca de minha tia. Os primeiros versos que escrevi e n\u00e3o guardei, os cadernos de notas esquecidos, os beijos que tentei comprar com sonetos e trovas. Depois me olho no espelho e s\u00f3 desejo que ela tenha mais sorte do que eu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este domingo me ofereceu um desafio liter\u00e1rio incomum: minha filha me pediu que lhe ajudasse a escrever uma reda\u00e7\u00e3o para um concurso. Gabriele tem, aos dez anos, toda a ingenuidade e a fantasia de uma crian\u00e7a que ainda n\u00e3o perdeu a pureza. Ela ainda n\u00e3o conhece quase nada das dificuldades da vida, das frustra\u00e7\u00f5es, dessas coisas que nos fazem desperdi\u00e7ar sorrisos e cabelos com o passar dos anos enquanto vemos esgotarem-se todas as oportunidades que t\u00ednhamos sonhado. Por isso ela acha que \u00e9 poss\u00edvel, da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[46],"tags":[45,100,72,55,87,17],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/606"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=606"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/606\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4760,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/606\/revisions\/4760"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=606"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=606"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=606"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}