{"id":6086,"date":"2018-12-06T18:00:20","date_gmt":"2018-12-06T21:00:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=6086"},"modified":"2019-06-05T20:54:38","modified_gmt":"2019-06-05T23:54:38","slug":"a-grande-mudanca-de-paradigma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2018\/12\/a-grande-mudanca-de-paradigma\/","title":{"rendered":"A grande mudan\u00e7a de paradigma"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"epigraph\">Como Marshall McLuhan explica a degenera\u00e7\u00e3o da vida pol\u00edtica do ocidente iluminista.<\/div>\n\n\n\n<p>O mundo inteiro est\u00e1 sofrendo, desde mais ou menos a \u00e9poca da Segunda Guerra Mundial, uma profunda mudan\u00e7a de paradigma cultural, ao fim da qual o ser humano como conhecemos deixar\u00e1 de existir. Caso a pr\u00f3pria humanidade ainda exista dentro de cem anos, seu modo de pensar e de agir ser\u00e1 muito diferente do atual.<\/p>\n\n\n\n<p>A an\u00e1lise desta mudan\u00e7a requer um trabalho muito mais detalhado do que este autor tem condi\u00e7\u00f5es de fazer, mas em linhas gerais, considerando o trabalho de autores como Marx, Engels, McLuhan e Chomsky, as coisas dever\u00e3o ocorrer como descrito a seguir.<\/p>\n\n\n\n<p>Creio que Marshall  McLuhan explica o que est\u00e1 ocorrendo ao mundo bem melhor do que Marx, talvez at\u00e9 do que Chomsky\u2014apesar de ambos concordarem nos pontos essenciais.<\/p>\n\n\n\n<h2>A Vis\u00e3o Tradicional dos Est\u00e1gios da Civiliza\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>Antes de McLuhan, a teoria mais aceita entre os soci\u00f3logos concebia que a humanidade tivera tr\u00eas est\u00e1gios de desenvolvimento antes dos tempos hist\u00f3ricos: selvageria, tribalismo (ou \u201cbarbarismo\u201d) e civiliza\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea encontrar\u00e1 essa triparti\u00e7\u00e3o em autores cl\u00e1ssicos, como Friedrich Engels (<em>Origem da Fam\u00edlia, da Propriedade Privada e do Estado<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<dl><dt>Selvageria<\/dt> <dd>Per\u00edodo no qual o ser humano se apropria dos produtos da natureza e somente cria, de forma geral, ferramentas para possibilitar ou facilitar a obten\u00e7\u00e3o desses produtos.<\/dd>\n<dt>Barbarismo<\/dt> <dd>Em que o ser humano aprende a domesticar animais e a praticar a agricultura, assim adquirindo meios para obter produtos al\u00e9m dos que a natureza espontaneamente proporciona.<\/dd>\n<dt>Civiliza\u00e7\u00e3o<\/dt> <dd>Quando, por fim, o ser humano aprende m\u00e9todos avan\u00e7ados de trabalho em grupo, possibilitando o surgimento de uma classe n\u00e3o trabalhadora, que se dedica a atividades que n\u00e3o est\u00e3o diretamente ligadas \u00e0 produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica: sacerdotes, artistas, administradores etc.<\/dd><\/dl>\n\n\n\n<p>A selvageria, estritamente tal como definida por Engels e seus contempor\u00e2neos, est\u00e1 praticamente extinta nos dias de hoje. Quase toda cultura que existe hoje se caracteriza pela domestica\u00e7\u00e3o de pelo menos algum animal e pela ado\u00e7\u00e3o de pelo menos um cultivo. Entre os raros exemplos de verdadeiros selvagens, restam apenas os ind\u00edgenas ainda n\u00e3o contactados da Am\u00e9rica do Sul, o povo da Ilha Sentinela do Norte (\u00cdndia) e algumas tribos montanhesas da Papua Nova Guin\u00e9. Mesmo entre os ind\u00edgenas n\u00e3o contactados da Am\u00e9rica do Sul e entre os papu\u00e1sios, \u00e9 poss\u00edvel que exista alguma forma rudimentar de pastoreio ou agricultura, restando aos sentineleses o papel de \u00faltimo basti\u00e3o da selvageria como classicamente definida.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft is-resized\"><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/A_Origem_da_Fam%C3%ADlia,_da_Propriedade_Privada_e_do_Estado\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/img.travessa.com.br\/livro\/GR\/d5\/d5568311-3178-4c93-ba3c-2d4c424703d5.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"301\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Uma defini\u00e7\u00e3o diferente de selvageria, mais gentil com os povos ditos \u201cprimitivos\u201d, a recuaria para antes da organiza\u00e7\u00e3o humana em cl\u00e3s e tribos, o que \u00e9 quase a mesma coisa que dizer que ela existiria antes da inven\u00e7\u00e3o da linguagem. Sabemos, por\u00e9m, que todos os povos humanos j\u00e1 encontrados vivem (ou j\u00e1 viviam) em sociedades de algum tipo, por mais rudimentar que fosse. Isto quer dizer que o est\u00e1gio selvagem da esp\u00e9cie humana \u00e9 mais uma teoria do que uma realidade amplamente observada.<\/p>\n\n\n\n<p>A mudan\u00e7a de um hipot\u00e9tico estado selvagem para um est\u00e1gio b\u00e1rbaro (ou tribal) historicamente atestado deve ser encontrada na forma\u00e7\u00e3o dos cl\u00e3s (e mais tarde da tribo), cada um com sua lideran\u00e7a e uma tradi\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria. Isto requer a exist\u00eancia de linguagem para que a lideran\u00e7a n\u00e3o se exer\u00e7a pela mera for\u00e7a e para que a tradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o tenha de ocorrer pelo exemplo direto.<\/p>\n\n\n\n<p>A mudan\u00e7a do est\u00e1gio b\u00e1rbaro (ou tribal) para o civilizado ocorre pela inven\u00e7\u00e3o de alguma forma de escrita. Pelo menos \u00e9 o que McLuhan diz em sua obra <em>A Gal\u00e1xia de Gutenberg<\/em>\u2014mas a teoria dele \u00e9 um pouco mais complicada do que isso.<\/p>\n\n\n\n<h2>Os Est\u00e1gios da Civiliza\u00e7\u00e3o Segundo McLuhan<\/h2>\n\n\n\n<p>Segundo McLuhan, a humanidade teve quatro  est\u00e1gios, n\u00e3o tr\u00eas, e estes n\u00e3o foram marcados por mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas materiais, mas pela forma de transmiss\u00e3o do conhecimento. A terminologia a seguir \u00e9 minha adapta\u00e7\u00e3o da dele, considerando o que mudou, desde 1962:<\/p>\n\n\n\n<dl><dt>Oral (tribal)<\/dt> <dd>Culturas anteriores ao surgimento da escrita;<\/dd>\n<dt>Manuscrito (civiliza\u00e7\u00e3o antiga)<\/dt> <dd>Culturas pouco impactadas pela inven\u00e7\u00e3o da escrita;<\/dd>\n<dt>Impresso (civiliza\u00e7\u00e3o moderna)<\/dt> <dd>Culturas radicalmente afetadas pela inven\u00e7\u00e3o da escrita;<\/dd>\n<dt>Global ou eletr\u00f4nico (civiliza\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna)<\/dt> <dd>Culturas em que a tecnologia subverte o papel da escrita.<\/dd><\/dl>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft is-resized\"><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Marshall_McLuhan#The_Gutenberg_Galaxy_(1962)\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/imgv2-2-f.scribdassets.com\/img\/document\/89110615\/original\/076b951100\/1540335174?v=1\" alt=\"\" width=\"192\" height=\"256\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Para McLuhan, os aspectos materiais de uma civiliza\u00e7\u00e3o decorrem de seus aspectos culturais, <em>n\u00e3o o contr\u00e1rio<\/em>,\n como ensinavam Marx e Engels. A escrita n\u00e3o surgiu como consequ\u00eancia do\n desenvolvimento da civiliza\u00e7\u00e3o (tanto que h\u00e1 casos conhecidos de povos \nantigos que n\u00e3o desenvolveram a escrita). Em vez disso, foi o \ndesenvolvimento da escrita que trouxe profundas transforma\u00e7\u00f5es \u00e0s \nciviliza\u00e7\u00f5es que passaram a ter conhecimento desta. Mais do que isso, \nseria poss\u00edvel, segundo o autor, por meio do estudo das tecnologias \nenvolvidas na escrita entender de que maneira esses impactos se deram.<\/p>\n\n\n\n<p>McLuhan n\u00e3o se interessava diretamente pela escrita, mas nos diferentes modos como a escrita era adotada em cada povo, para entender de que maneira isso transformava a cultura e, por tabela, a civiliza\u00e7\u00e3o material. Assim, a inven\u00e7\u00e3o da escrita d\u00e1 in\u00edcio ao processo de \u201cdestribaliza\u00e7\u00e3o\u201d das culturas humanas\u2014um processo cuja origem no tempo \u00e9 muito incerta e que deve ser entendido como nunca acabado e muito menos como irrevers\u00edvel. A partir da inven\u00e7\u00e3o da escrita, existiram diferentes graus de destribaliza\u00e7\u00e3o das sociedades humanas, determinados por v\u00e1rios fatores, dentre os quais o principal \u00e9 o tempo. Temos vivido sob os efeitos da escrita por apenas alguns milhares de anos (menos que isso, para a maioria dos povos), o que \u00e9 um tempo insignificante se contarmos a hist\u00f3ria da humanidade desde que os primeiros humanos deixaram a \u00c1frica. N\u00e3o se pode cancelar da noite para o dia dezenas de milhares de anos de hist\u00f3ria cultural.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da persist\u00eancia da escrita, os fatores que influenciam o grau de destribaliza\u00e7\u00e3o incluem a taxa de alfabetiza\u00e7\u00e3o, os usos quotidianos da escrita, a natureza do sistema de escrita, os tipos de caracteres encontrados no sistema de escrita, os materiais usados para escrever e as superf\u00edcies nas quais se escreve.<\/p>\n\n\n\n<p>Estes conceitos n\u00e3o s\u00e3o dif\u00edceis de aceitar, quando os tomamos de maneira mais pr\u00f3xima:<\/p>\n\n\n\n<ol><li>Quanto mais prevalente for a alfabetiza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o somente <em>mais pessoas<\/em> estar\u00e3o usando o alfabeto, mas, tamb\u00e9m, as pessoas alfabetizadas ter\u00e3o <em>mais oportunidades<\/em> de usar a escrita para <em>mais coisas diferentes.<\/em><\/li><li>Quanto <em>mais \u00fatil<\/em> a escrita for no dia a dia, <em>menos solenidade e mais import\u00e2ncia<\/em> ter\u00e1 na cultura que dela faz uso, o que significa que seus efeitos ser\u00e3o menos controlados.<\/li><li>Quanto <em>mais f\u00e1cil<\/em> <em>de aprender<\/em>, mais prevalente e mais \u00fatil o sistema de escrita tende a ser.<\/li><li>Quanto <em>mais f\u00e1cil de usar<\/em>, maior a tend\u00eancia de que as pessoas o empreguem espontaneamente.<\/li><li>Quanto <em>mais baratos<\/em> forem os meios utilizados na escrita, maior a tend\u00eancia de que a alfabetiza\u00e7\u00e3o se torne prevalente e menos prov\u00e1vel que as estruturas de poder restrinjam seu uso.<\/li><\/ol>\n\n\n\n<p>Isso nos conduz \u00e0 conclus\u00e3o de que os efeitos culturais da escrita s\u00e3o maiores quando ela se propaga pela popula\u00e7\u00e3o em geral, o que \u00e9 \u00f3bvio, mas, tamb\u00e9m, que certos sistemas de escrita s\u00e3o mais f\u00e1ceis de propagar e de usar. McLuhan ainda adiciona que certos sistemas de escrita ainda possuem uma qualidade <em>inerente<\/em> que os torna mais impactantes no processo de \u201cdestribaliza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2>Os Efeitos Destribalizadores da Escrita<\/h2>\n\n\n\n<p>Os sistemas de escrita alfab\u00e9ticos s\u00e3o mais destribalizadores do que os sistemas logogr\u00e1ficos e sil\u00e1bicos. Dentre os alfabetos, aqueles que desenvolveram letras isoladas (tais como as gregas, latinas, cir\u00edlicas, arm\u00eanias, hebraicas e georgianas) s\u00e3o mais destribalizadores do que aqueles que desenvolveram letras que se \u201cmisturam\u201d umas \u00e0s outras, como o \u00e1rabe, o sir\u00edaco e o mong\u00f3lico. Os sistemas sil\u00e1bicos (<em>abugidas<\/em>) seriam ainda menos destribalizadores e as escritas hierogl\u00edficas e logogr\u00e1ficas viriam em \u00faltimo lugar.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"943\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/boustrophedon.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6155\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/boustrophedon.jpg 1024w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/boustrophedon-120x111.jpg 120w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/boustrophedon-250x230.jpg 250w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/boustrophedon-768x707.jpg 768w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/boustrophedon-695x640.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Para o autor, \u00e9 poss\u00edvel at\u00e9 mesmo afirmar que <em>o conceito de tempo linear s\u00f3 se desenvolveu nas culturas em que a escrita alfab\u00e9tica se inseriu.<\/em>  Isto se explicaria pela distribui\u00e7\u00e3o sequencial dos caracteres ao longo  da linha, que criaria a impress\u00e3o do transcurso do tempo. Podemos ver  um exemplo curioso desse efeito nas culturas do Mediterr\u00e2neo, nas quais a  escrita em zigue-zague (estilo <em>boustroph\u0113d\u00f3n<\/em>, como na imagem \u00e0  esquerda) \u00e9 gradualmente substitu\u00edda pela escrita linear (da esquerda  para a direita), concomitantemente ao desenvolvimento da cultura grega  cl\u00e1ssica e sua expans\u00e3o para a Pen\u00ednsula It\u00e1lica.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez esta tese tenha sua for\u00e7a, pois, quando analisamos a  representa\u00e7\u00e3o do tempo nas culturas ocidentais (destribalizadas e  alfabetizadas) e&nbsp; orientais (nas quais predomina a influ\u00eancia do sistema  de escrita n\u00e3o-alfab\u00e9tico chin\u00eas), vemos que s\u00e3o diferentes. Os  ocidentais concebemos o tempo como uma seta <em>horizontal<\/em> da esquerda para a direita. Nas sociedades orientais, <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/theconversation.com\/language-alters-our-experience-of-time-76761\" target=\"_blank\">a forma convencional de representar o tempo \u00e9 vertical, de cima para baixo.<\/a> \u00c9 como se, para n\u00f3s, o tempo <em>passasse<\/em>, enquanto que para os orientais ele cai.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img src=\"https:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/3\/36\/CMOC_Treasures_of_Ancient_China_exhibit_-_Pi_Pa_Xing_in_running_script%2C_top_view.jpg\" alt=\"\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Os efeitos da destribaliza\u00e7\u00e3o ficaram confinados por mais de dois mil anos, desde a inven\u00e7\u00e3o do alfabeto pelos fen\u00edcios, mas a inven\u00e7\u00e3o da imprensa na Europa trouxe um \u00e2nimo renovado ao processo. Por isso McLuhan deu ao seu livro mais famoso o t\u00edtulo de <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/The_Gutenberg_Galaxy\" target=\"_blank\">A Gal\u00e1xia de Gutenberg<\/a>. O autor reconhece que os chineses j\u00e1 haviam inventado a imprensa antes, mas observa que, pelas caracter\u00edsticas do sistema logogr\u00e1fico de escrita empregado por eles, a tecnologia n\u00e3o teve grande impacto em sua civiliza\u00e7\u00e3o. Na Europa, por\u00e9m, onde os sistemas de escrita se baseavam em umas poucas dezenas de caracteres perfeitamente individualizados, foi poss\u00edvel tirar toda vantagem da imprensa para substituir completamente a produ\u00e7\u00e3o manuscrita de livros. Outros sistemas de escrita que empregam muitos caracteres diferentes (como as escritas da \u00cdndia e do Sudeste Asi\u00e1tico), ou que t\u00eam v\u00e1rias formas diferentes para as mesmas letras (como o \u00e1rabe e o sir\u00edaco) n\u00e3o fazem uso t\u00e3o extensivo das vantagens da imprensa.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft\"><img loading=\"lazy\" width=\"250\" height=\"128\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Arabe-250x128.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-6161\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Arabe-250x128.png 250w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Arabe-120x62.png 120w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Arabe.png 585w\" sizes=\"(max-width: 250px) 100vw, 250px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Podemos observar que um texto escrito em um sistema alfab\u00e9tico tende a parecer mais bonito e harm\u00f4nico quando impresso. Caracteres padronizados tornaram esses sistemas de escrita mais \u00fateis e tamb\u00e9m mais esteticamente flex\u00edveis. Escritas como o \u00e1rabe, por exemplo, n\u00e3o se traduzem t\u00e3o bem quando impressas porque toda a riqueza da intera\u00e7\u00e3o entre as letras fica prejudicada quando o texto \u00e9 reduzido a caracteres repetidos e padronizados.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/qph.fs.quoracdn.net\/main-qimg-530110ec7cfc2bcca115618475933684\" alt=\"\" width=\"301\" height=\"93\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>H\u00e1 claramente uma perda de beleza, mesmo aos olhos de um estrangeiro que n\u00e3o seria capaz de ler coisa alguma em \u00e1rabe, nem para salvar a pr\u00f3pria vida. A beleza \u00e9 autoevidente e as formas impressas parecem esquem\u00e1ticas, em compara\u00e7\u00e3o com a riqueza das formas manuscritas.<\/p>\n\n\n\n<h2>Os Efeitos da Destribaliza\u00e7\u00e3o Sobre a Cultura<\/h2>\n\n\n\n<p>Os diferentes efeitos da escrita sobre diferentes sociedades s\u00e3o parte da explica\u00e7\u00e3o para diferentes paradigmas culturais. McLuhan afirmou que a intelig\u00eancia sovi\u00e9tica tendia a crer com mais facilidade em relatos orais, enquanto a intelig\u00eancia americana exigia documentos tang\u00edveis. De acordo com o autor, os russos acreditavam em informa\u00e7\u00f5es orais mais facilmente porque os povos do leste europeu, em geral, haviam come\u00e7ado seu processo de destribaliza\u00e7\u00e3o s\u00e9culos ap\u00f3s a introdu\u00e7\u00e3o da escrita na Gr\u00e3 Bretanha (que data dos tempos romanos).<\/p>\n\n\n\n<p>Basicamente isto quer dizer que <em>sociedades tribais baseadas em tradi\u00e7\u00f5es orais creem mais facilmente em conhecimentos obtidos oralmente.<\/em> Ao mesmo tempo, <em>a destribaliza\u00e7\u00e3o nos faz duvidar da oralidade e valorizar documentos escritos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Um dos efeitos da destribaliza\u00e7\u00e3o foi o surgimento da religi\u00e3o revelada, que recorreu aos livros para difundir seu conhecimento, e das artes pl\u00e1sticas formais, baseadas em t\u00e9cnicas aperfei\u00e7oadas pela tradi\u00e7\u00e3o. Cada povo reagiu \u00e0 sua maneira, por\u00e9m. Os hebreus produziram registros de seus profetas, os gregos criaram a filosofia e a pol\u00edtica, os romanos desenvolveram a orat\u00f3ria e o sistema postal, os \u00e1rabes criaram uma religi\u00e3o imperialista e os indianos fizeram uma mistura disso tudo e ainda inventaram a gram\u00e1tica, primeira forma de metalinguagem (a escrita sobre a escrita).<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a escrita foi introduzida entre os \u00e1rabes, esta se difundiu devagar, mas no devido tempo ela se tornou t\u00e3o prevalente que tamb\u00e9m eles quiseram ter o seu livro sagrado, o Alcor\u00e3o, cujo nome, ali\u00e1s, significa \u201cA Leitura\u201d. A B\u00edblia crist\u00e3 evoca um simbolismo semelhante, pois <em>biblia<\/em> era apenas o plural em grego de \u201clivros\u201d. Para um povo ainda em processo incipiente de destribaliza\u00e7\u00e3o, os \u00e1rabes viam na escrita um feito maravilhoso, algo como a encarna\u00e7\u00e3o de um deus. Os mu\u00e7ulmanos chegam a crer que o Alcor\u00e3o n\u00e3o foi escrito, mas \u201crevelado\u201d por Gabriel a Maom\u00e9, por determina\u00e7\u00e3o de Al\u00e1. Simbolismo semelhante se v\u00ea em outras lendas sobre a escrita, como o mito grego de Cadmo, que semeou dentes de drag\u00e3o (de que brotaram homens armados) e na lenda de Prometeu (\u201co primeiro a pensar\u201d), que deu aos homens o fogo e a escrita. Os dentes de drag\u00e3o que Cadmo semeou eram as letras de formato anguloso do alfabeto fen\u00edcio e os homens armados representam a civiliza\u00e7\u00e3o grega organizada. No legend\u00e1rio \u00e1rabe, o Alcor\u00e3o \u00e9 o verdadeiro verbo, n\u00e3o encarnado (como Jesus), mas transcrito.<\/p>\n\n\n\n<h2>A Cultura Globalizada e a Comunica\u00e7\u00e3o de Massas<\/h2>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft\"><img loading=\"lazy\" width=\"250\" height=\"258\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/satellites-152495_640-250x258.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-6154\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/satellites-152495_640-250x258.png 250w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/satellites-152495_640-120x124.png 120w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/satellites-152495_640.png 619w\" sizes=\"(max-width: 250px) 100vw, 250px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>At\u00e9 o fim dos anos 1960, o desenvolvimento de conex\u00f5es culturais era bastante previs\u00edvel e parecia haver certas barreiras inevit\u00e1veis ao desenvolvimento uniforme da cultura: alguns povos (e seus sistemas de escrita) eram resistentes \u00e0 modernidade e ningu\u00e9m entendia muito bem porque. Em 1945, houve planos da parte das for\u00e7as americanas de ocupa\u00e7\u00e3o do Jap\u00e3o para substituir todo o sistema de escrita daquele pa\u00eds pelo alfabeto latino. Descobriu-se, ap\u00f3s um estudo formal da profici\u00eancia dos japoneses, que a substitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o traria nenhuma vantagem e ainda seria contraproducente. Entre as na\u00e7\u00f5es do Extremo Oriente, Vietn\u00e3 e Filipinas seguem sendo as \u00fanicas que adotaram o alfabeto Latino. Em ambos os casos, ainda \u00e9 prematuro dizer se houve mudan\u00e7as significativas, porque a difus\u00e3o da escrita entre o povo \u00e9 recente ali.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas algo aconteceu naquela d\u00e9cada que come\u00e7ou a causar a mudan\u00e7a de tudo: a inven\u00e7\u00e3o das telecomunica\u00e7\u00f5es via sat\u00e9lite. McLuhan acreditava que a comunica\u00e7\u00e3o via sat\u00e9lite tornaria o mundo inteiro em uma \u201caldeia global\u201d, na qual a informa\u00e7\u00e3o fluiria rapidamente e atingiria todos os confins da terra t\u00e3o r\u00e1pido quanto a fofoca atravessava de um lado a outro de uma aldeia.<\/p>\n\n\n\n<p>Os efeitos da instantaneidade da comunica\u00e7\u00e3o seriam massivos e trariam uma transforma\u00e7\u00e3o total dos valores e costumes. Em seu livro seguinte, <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Understanding_Media\" target=\"_blank\"><em>Understanding Media<\/em><\/a><em>, <\/em>de 1967, ele predisse quais mudan\u00e7as a comunica\u00e7\u00e3o imediata traria \u00e0 cultura: haveria a desestrutura\u00e7\u00e3o das culturas locais e o surgimento de valores globalizados. Foi tamb\u00e9m nesse livro que McLuhan cunhou sua mais famosa frase: \u201cO Meio \u00e9 a Mensagem\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Com as culturas locais debilitadas e for\u00e7adas a conviver em uma \u201caldeia global\u201d, rela\u00e7\u00f5es tribais reapareceriam porque as dist\u00e2ncias efetivas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s fontes de informa\u00e7\u00f5es erodiriam a confian\u00e7a e criariam autoridades vazias, tal como os livros criaram no passado. Como, segundo Arthur C. Clarke, uma tecnologia bastante avan\u00e7ada \u00e9 indistingu\u00edvel de magia, no passado as pessoas simples consideraram a escrita algo t\u00e3o milagroso que os objetos que continham grande quantidade de coisas escritas, os livros, foram vistos com rever\u00eancia. Em seu exemplo extremo, essa rever\u00eancia possibilitou a fetichiza\u00e7\u00e3o do livro (\u201clivros sagrados\u201d), diminuindo a autonomia do pregador ou profeta local diante do reposit\u00f3rio \u201crevelado\u201d do divino. Da mesma forma, a magia da comunica\u00e7\u00e3o daria \u00e0 informa\u00e7\u00e3o obtida por meio imaterial um car\u00e1ter de sagrado. Diante desta mudan\u00e7a, reagir\u00edamos de maneira an\u00e1loga \u00e0 de nossos antepassados tribais quando da introdu\u00e7\u00e3o da escrita e do livro.<\/p>\n\n\n\n<p>Dizer que <em>o meio \u00e9 a mensagem<\/em> \u00e9 uma forma breve de se dizer que as transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas independem das inten\u00e7\u00f5es de seus controladores. A televis\u00e3o causou uma queda da taxa de natalidade mesmo nos pa\u00edses onde nunca se propagou atrav\u00e9s dela qualquer incentivo \u00e0 anticoncep\u00e7\u00e3o. A redu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 causada pela mensagem expl\u00edcita trazida pela televis\u00e3o, mas por mensagens impl\u00edcitas e pelas novas rela\u00e7\u00f5es familiares surgidas em torno desta. Uma fam\u00edlia que v\u00ea televis\u00e3o tende a dormir mais tarde e a ter menos oportunidades para ter rela\u00e7\u00f5es sexuais. As fam\u00edlias apresentadas nos programas de televis\u00e3o tendem a ter menos filhos porque s\u00e3o fam\u00edlias ricas, principalmente, o que leva as pessoas a introjetarem a ideia de que ter poucos filhos \u00e9 uma coisa \u201cde rico\u201d, e portanto boa.<\/p>\n\n\n\n<p>Influenciadores da internet; YouTubers, blogueiros e tuiteiros em geral;&nbsp; criam e divulgam conte\u00fados diversos por esses e outros canais. O fluxo descontrolado de informa\u00e7\u00e3o que produzem \u00e9 um tipo de fofoca tecnol\u00f3gica. Esta informa\u00e7\u00e3o corre subterraneamente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cultura dita de massas e chega a p\u00fablicos muito mais segmentados, dando a cada consumidor desse tipo de conte\u00fado uma impress\u00e3o de pessoalidade, n\u00e3o de massifica\u00e7\u00e3o. Assim, na aldeia global os efeitos da destribaliza\u00e7\u00e3o come\u00e7am a ser revertidos pela quebra do monop\u00f3lio da informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais do que isso: a informa\u00e7\u00e3o obtida atrav\u00e9s de meios eletr\u00f4nicos nos est\u00e1 afastando de conte\u00fados sequenciais e nos levando a conte\u00fados interativos. Podemos escolher assuntos que nos interessam, superar a limita\u00e7\u00e3o do tempo, saltar para outro conte\u00fado ou para o cap\u00edtulo seguinte do que ainda estamos assistindo, podemos rever partes que j\u00e1 vimos antes, podemos alternar entre conte\u00fados diversos, podemos acompanhar conte\u00fados simultaneamente. N\u00e3o estamos mais for\u00e7ados a acompanhar o fluxo do texto para topar com a informa\u00e7\u00e3o nem mesmo quando lemos conte\u00fados sequenciais: podemos acionar um Control + F no texto ou clicar em uma hiperliga\u00e7\u00e3o que nos leva a outro tema. Os efeitos do formato sequencial do texto escrito em letras ocidentais ficam atenuados. N\u00e3o \u00e9 nada surpreendente que uma \u00e9poca que se acostumou tanto com o conceito de interatividade e com o comportamento n\u00e3o-linear agora desenvolva tantas hist\u00f3rias e mitos em torno da viagem no tempo. Ficou mais f\u00e1cil crer na possibilidade de retornar ao passado, n\u00e3o porque acreditamos ser poss\u00edvel voltar a ele de fato, mas porque nossas mentes cada vez mais concebem o tempo n\u00e3o como uma linha mas como um ciclo. O passado pode ser visitado porque ele \u00e9 cont\u00ednuo com o presente e o futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse ponto da evolu\u00e7\u00e3o cultural, o abismo entre as mentes chinesa e&nbsp;  alem\u00e3, magistralmente explorado por Hermann Hesse em seu romance <em>O Jogo das Contas de Vidro<\/em>, come\u00e7ou a ser abreviado, ou antes, contornado. Entre eles existe uma l\u00edngua de contato (que ainda \u00e9 o ingl\u00eas, mas um dia poder\u00e1 ser um \u201cingl\u00eas internacional\u201d) que lhes permite trocar experi\u00eancias diretamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao aproximar os diferentes povos, por\u00e9m, a \u201caldeia global\u201d parece ter um efeito inesperado por McLuhan, mas previs\u00edvel conforme seu marco te\u00f3rico: em vez de nos tornar a todos membros de uma s\u00f3 tribo, passamos a agir como membros de tribos vizinhas que competem entre si, e cada vez mais nos comportamos de maneira an\u00e1loga aos povos tribais do passado, regredindo certos avan\u00e7os civilizados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como Marshall McLuhan explica a degenera\u00e7\u00e3o da vida pol\u00edtica do ocidente iluminista. 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