{"id":61,"date":"2013-03-30T10:30:00","date_gmt":"2013-03-30T13:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=61"},"modified":"2018-02-25T22:07:22","modified_gmt":"2018-02-26T01:07:22","slug":"a-poder-de-remedios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/03\/a-poder-de-remedios\/","title":{"rendered":"A Poder de Rem\u00e9dios"},"content":{"rendered":"<p>Os g\u00e2nglios linf\u00e1ticos de Teresa do\u00edam do esfor\u00e7o de simplesmente deixar o carro e andar at\u00e9 a soleira da porta. O sol estava forte, o vento estava seco e ningu\u00e9m parecia se importar. Vivia sozinha fazia tempo, nunca se importara. S\u00f3 a companhia do c\u00e2ncer mudara isso: tinha medo de morrer s\u00f3, de ser encontrada putrefata na sala, com ratos dentro da barriga e vermes lhe saindo dos olhos. Mesmo morta n\u00e3o se imaginava feia: queria que sua \u00faltima imagem fosse a da beleza que guardava congelada na foto, mas isso n\u00e3o aconteceria. N\u00e3o morrera jovem para gozar da juventude eterna, morreria na meia idade, acometida de uma doen\u00e7a que a faria sofrer e enfeiar.<\/p>\n<p>Deixou a chave cair, os dedos estavam fracos tamb\u00e9m. Antes do c\u00e2ncer tivera a tendinite. Aposentara cedo de um servi\u00e7o est\u00fapido e pensara em ganhar a vida. Quarenta anos apenas, ainda com a cara bonita e o corpo mais ou menos no lugar: queria ter ido mais \u00e0 praia, mas veio o c\u00e2ncer t\u00e3o cedo, \u00f3 merda. Morreria antes de gozar do preju\u00edzo que causava ao fundo de pens\u00e3o que confiara em sua sa\u00fade. Bem feito para ela, o fundo de pens\u00e3o ficaria com seu saldo para pagar as aposentadorias de pessoas feias ou bonitas, tristes ou alegres, que morreriam cedo ou tarde, de c\u00e2ncer ou de t\u00e9dio. Recolheu a chave sentindo dor nas costas: aquela merda se propagava por todos os seus nervos. Abriu a porta, entrou  carregando a sacola cheia de rem\u00e9dios e verduras e sentou na sala na frente da televis\u00e3o mordendo uma cenoura e pensando em engolir um comprimido maior que uma cebolinha em conserva. Ou pelo menos t\u00e3o dif\u00edcil quanto.<\/p>\n<p>Era engra\u00e7ado que comesse tanta verdura sabendo que ia morrer. S\u00f3 comera porcarias durante metade de sua vida. Agora que estava apodrecendo rapidamente tinha vontade de chupar laranjas, comer caqui, provar carambola, tomar suco de graviola, p\u00f4r coentro e a\u00e7afr\u00e3o no arroz, beterraba no feij\u00e3o, pimenta calabresa nos tomates. Mas a gente muda muito quando sabe que a morte  finalmente vem, \u00e9 hora de acertar as contas. Era hora de todo o alimento ser puro e natural, porque &#8220;os vermes da terra apreciam um corpo legal.&#8221;<\/p>\n<p>Mas Teresa n\u00e3o contou para ningu\u00e9m. Tem medo de que venham ter pena de sua dor, mais medo ainda de que venham tripudiar de seu sofrimento: foram muitos anos zombando dos carolas, que adorariam contemplar pessoalmente a vingan\u00e7a de deus contra a \u00edmpia. Tinha comprado um quadro com a foto de um homem barbudo, uma figura que ela n\u00e3o conhecia, talvez um escritor ou fil\u00f3sofo de um passado perdido. Pendura aquela exibi\u00e7\u00e3o gratuita de pelos em um prego qualquer. Gostava de contemplar aquele quadro e imaginar que o sujeito de cabelos abundantes e barba comprida, que aparecia como um chuma\u00e7o de algod\u00e3o naquela imagem em preto e branco, era ele mesmo, o divino. Era contra ele que descarregava a sua frustra\u00e7\u00e3o, sua impot\u00eancia:<\/p>\n<p>&mdash; Voc\u00ea \u00e9 um velho de merda, que me roubou quarenta anos que eu poderia ter aproveitado muito melhor!<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, imaginava que os olhos da figura que olhava para a frente e para baixo enquanto segurava um charuto eram curiosos e vivazes, e quase ouvia daqueles l\u00e1bios cobertos de pelugem como um rio de floresta alguma resposta:<\/p>\n<p>&mdash; Por que voc\u00ea queria viver mais quarenta anos, Teresa? Onde foi parar aquela hist\u00f3ria de morrer jovem e ficar bonita para sempre?<\/p>\n<p>Nas vezes em que o barbudo lhe respondia, ca\u00eda triste, comia outro chocolate e ligava a televis\u00e3o em algum filme louco. Ou ligava para um n\u00famero aleat\u00f3rio na lista para xingar. N\u00e3o se importava que a reconhecessem: o que poderia algu\u00e9m fazer? Vir at\u00e9 sua casa para tirar satisfa\u00e7\u00f5es? Seria engra\u00e7ado, cruelmente engra\u00e7ado ver a decep\u00e7\u00e3o no rosto desta pessoa hipot\u00e9tica ao descobrir que os l\u00e1bios que xingavam eram os de uma pobre mulher doente, prestes a morrer.<\/p>\n<p>Mais uma vez cochilou sentada no sof\u00e1, talvez pelo poder dos rem\u00e9dios que ainda faziam efeito. Acordou sobressaltada, a sala estava ainda limpa, a televis\u00e3o ligada em um canal que n\u00e3o conhecia, e parecia ser tarde, bem mais tarde, como se tivesse dormido at\u00e9 depois de anoitecer. Uma gata gemia sobre o muro uma solid\u00e3o premente, sem nenhum macho para se importar com o seu cio.<\/p>\n<p>A primeira coisa que viu foi a express\u00e3o ir\u00f4nica do homem barbudo pendurado na parede com seu charuto. Ele quase parecia saltar da arma\u00e7\u00e3o dos \u00f3culos com dentes e dedos prontos para apontar-lhe e sorrir-lhe.<\/p>\n<p>Levantou-se r\u00e1pido, com uma agilidade que s\u00f3 lhe restava a poder de rem\u00e9dios. Fechou a porta, acendeu a l\u00e2mpada e foi \u00e0 cozinha tomar \u00e1gua. A casa estava muito quieta e parecia que a noite acabava de cair com uma pregui\u00e7a de interior.<\/p>\n<p>Sentia-se mal de novo, vontade de vomitar, ou de morrer, ou de transar quarenta horas sem parar. Qualquer das tr\u00eas coisas lhe faria o mesmo mal, e o mesmo bem.<\/p>\n<p>&mdash; Deus, como eu queria foder gostoso hoje!<\/p>\n<p>Pensou em Rafael, o ex marido. Era um sonhador in\u00fatil e dado a mulherices, com seu brinco de argola na orelha e seu viol\u00e3o mal tocado. Mas era ador\u00e1vel. Xingou novamente, lembrando que ele praticamente sa\u00edra com metade das mulheres solteiras do bairro, a ponto de ter que se mudar de cidade para fugir de pais e parentes ensandecidos. Mulherengo e bobo, mas que gostoso era, que merda se preocupar com um viol\u00e3o desafinado e os fuxicos das amigas! Queria que Rafael estivesse naquela noite, com seus dedos finos de m\u00fasico, e seu caralho grosso e quente. Sentia tanto tes\u00e3o por ele que quase pingava no ch\u00e3o. Mas, que merda, por ego\u00edsmo mandara o maldito embora. Nunca mais o vira. Onde estaria o pobre? Ser\u00e1 que apareceria para assinar o div\u00f3rcio? Teresa pensou que gostaria de pedir-lhe perd\u00e3o, e de lhe dar assim que poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Guardou os rem\u00e9dios, fechou o arm\u00e1rio e foi \u00e0 sala desligar a televis\u00e3o. Antes de chegar at\u00e9 l\u00e1, por\u00e9m, recuou assustada ao ouvir mexerem na fechadura. Por azar estava em um corredor devassado demais: quem abrisse a porta da sala veria todo o percurso at\u00e9 a cozinha. N\u00e3o poderia ir l\u00e1 buscar uma faca, n\u00e3o adiantaria.<\/p>\n<p>A \u00fanica coisa que poderia usar era um pesado trof\u00e9u que recebera no servi\u00e7o, antes da aposentadoria. Agarrou-o como p\u00f4de, encostou-se \u00e0 parede e ficou ouvindo. A porta se abriu gentilmente: ningu\u00e9m a arrombou. Esperou que algu\u00e9m aparecesse no corredor para ter a cabe\u00e7a arrebentada pelo trof\u00e9u, mas n\u00e3o apareceu ningu\u00e9m. Um longo sil\u00eancio foi acontecendo cada vez mais profundamente, at\u00e9 que ela teve a certeza de que n\u00e3o poderia haver ningu\u00e9m na casa. Entrou na sala e verificou que, de fato, n\u00e3o havia ningu\u00e9m l\u00e1, e a porta estava t\u00e3o fechada quanto antes.<\/p>\n<p>Dirigiu-se ao quarto dos fundos, onde gostava de dormir. Naquela noite preferiu deitar no tapete grosso de palhinha, enrolada no edredom. Assim acordava sonhando que era crian\u00e7a ainda, que os m\u00f3veis ficavam muito altos e que tinha muita vida pela frente. Para poder sonhar esses dois segundos, valia a pena passar a noite no ch\u00e3o duro.<\/p>\n<p>Quando j\u00e1 estava bem enrolada, pronta para dormir, lembrou-se e algo assustador: conferira a sala, mas n\u00e3o o quarto da frente! E se algu\u00e9m houvesse entrado sorrateiramente e se refugiado l\u00e1? Era perigoso dormir, algu\u00e9m poderia vir de l\u00e1 no meio da noite e\u2026 matar-lhe? Riu disso: seria uma coisa boa. Quase teve vontade de dormir \u00e0 espera de um furtivo fio de n\u00e1ilon no pesco\u00e7o, uma bala ou um golpe qualquer. Deixara o trof\u00e9u esquecido sobre a mesa da copa, logo ela que era t\u00e3o meticulosa em manter tudo t\u00e3o organizado! Era o come\u00e7o, talvez, da degenera\u00e7\u00e3o. Logo seria incapaz n\u00e3o apenas de arrumar as coisas, mas de lembrar de arrum\u00e1-las, e um dia sequer perceberia a necessidade de arrumar alguma coisa.<\/p>\n<p>Saiu do conforto morno do edredom e foi, descal\u00e7a mesmo, ver quem haveria no quarto da frente. Pegou o trof\u00e9u consigo e foi planejando o que fazer se houvesse mesmo algu\u00e9m l\u00e1 dentro. Daria ao bruto a chance de se mostrar? Ou o mataria r\u00e1pido, com um golpe na t\u00eampora com a quina do pesado metal? Resolveu que n\u00e3o valia a pena: melhor provocar o monstro, para que, talvez, enfurecido, ele a estrangulasse e acabasse com tudo aquilo. Ent\u00e3o, empurrou a porta com o p\u00e9 bem devagar, sem que ela, por\u00e9m, deixasse de ranger como as portas de casas assombradas, e atirou o trof\u00e9u obliquamente em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 cama. Depois entrou no quarto de sopet\u00e3o para ver o que havia.<\/p>\n<p>Era o Rafael. Estava de cuecas, acuado como uma ratazana que o gato encontrou no fundo do beco. De costas para a parede, os bra\u00e7os abertos, a respira\u00e7\u00e3o curta como a de um c\u00e3o, puxando a coberta para si, sem no entanto se cobrir. Olhava para o trof\u00e9u ca\u00eddo misteriosamente sobre a cama, mas n\u00e3o via Teresa. Via a porta que se abrira sozinha, para deixar entrar o objeto misterioso que lhe acertara na barriga enquanto cochilava.<\/p>\n<p>&mdash; Quem est\u00e1 a\u00ed? Quem est\u00e1 a\u00ed? Quem est\u00e1 a\u00ed?<\/p>\n<p>Ainda tinha a mesma mania de repetir perguntas em s\u00e9rie quando ficava nervoso, era t\u00e3o engra\u00e7adinho. Teresa sentiu a umidade descendo por suas pernas novamente, uma jovialidade que s\u00f3 as noites lhe traziam. Lembrou do caralho grosso do Rafael entrando por dentro de seu corpo, fazendo-a gozar. Perdoou imediatamente as escapadelas dele. Perdoaria tudo, n\u00e3o tinha por que se sentir mal. Se fosse preciso, ele que trouxesse as vadias para casa, mas s\u00f3 as limpinhas, para Teresa ter certeza de que n\u00e3o havia risco.<\/p>\n<p>Aproximou-se da cama, p\u00e9 ante p\u00e9, com vontade de tirar a camisola e se atirar sobre ele, implorar-lhe que a comesse com vontade, que lhe enfiasse a pica adentro at\u00e9 encostar no colo do \u00fatero. Come\u00e7ou a puxar a coberta. Rafael se encolheu ainda mais, olhando o movimento do pano como se fosse a fragmenta\u00e7\u00e3o do universo. Ele n\u00e3o tentou segurar a coberta, em vez disso deixou que fosse tirada de si, como se a temesse tanto quanto a um dos<br \/>\ncobertores de Amherst.<\/p>\n<p>Finalmente Teresa o teve \u00e0 sua merc\u00ea, mas estranhava que ele n\u00e3o a olhasse. Levou a m\u00e3o at\u00e9 sua virilha, para tocar o membro rijo que subitamente tinha vontade de chupar. Mas ele estava murcho como uma folha que sofre ao sol do ver\u00e3o. O toque de seus dedos foi recebido com um recolhimento ainda maior de Rafael, como se ainda fosse poss\u00edvel chegar mais perto da parede \u00e0quela altura. Quando Teresa fez men\u00e7\u00e3o de puxar-lhe a cueca ele, ent\u00e3o, perdeu o controle e berrou de uma maneira t\u00e3o atroz que ela quase caiu para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>S\u00f3 ent\u00e3o se deu conta de que ele n\u00e3o a olhava nunca. Que seus olhos percorriam avidamente o quarto, olhando para todos os lados como quem procura. Mas n\u00e3o a viam.<\/p>\n<p>As imagens come\u00e7aram a ficar borradas, Teresa sentiu uma vertigem potente, como se todas as coisas que conhecia estivessem se desmanchando. Ent\u00e3o, subitamente, deu-se conta de Rafael nunca deixara aquela casa, ela \u00e9 que o fizera um dia, a bordo de um ve\u00edculo branco. Mas eventualmente voltara, voltara ao lugar que lhe pertencia, ao quarto que lhe pertencia.<\/p>\n<p>Correu para o jardim batendo as portas atr\u00e1s de si. O pobre Rafael delirava no quarto e discava n\u00fameros aleat\u00f3rios no celular, como se precisasse buscar algu\u00e9m.<\/p>\n<p>L\u00e1 fora, sob a calma lua, Teresa tentou chorar e n\u00e3o conseguiu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os g\u00e2nglios linf\u00e1ticos de Teresa do\u00edam do esfor\u00e7o de simplesmente deixar o carro e andar at\u00e9 a soleira da porta. O sol estava forte, o vento estava seco e ningu\u00e9m parecia se importar. Vivia sozinha fazia tempo, nunca se importara. S\u00f3 a companhia do c\u00e2ncer mudara isso: tinha medo de morrer s\u00f3, de ser encontrada putrefata na sala, com ratos dentro da barriga e vermes lhe saindo dos olhos. 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