{"id":610,"date":"2013-08-29T21:45:10","date_gmt":"2013-08-30T00:45:10","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=610"},"modified":"2017-08-13T01:13:46","modified_gmt":"2017-08-13T04:13:46","slug":"pingos-nos-is","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/08\/pingos-nos-is\/","title":{"rendered":"Pingos nos Is"},"content":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s causar f\u00faria na blogosfera liter\u00e1ria e nas redes sociais com as suas opini\u00f5es sobre literatura, o escritor e editor Rafael Draccon resolveu se explicar. N\u00e3o devia, mas resolveu.<\/p>\n<p>Digo que n\u00e3o devia porque explica\u00e7\u00f5es nunca explicam de verdade. Toda explica\u00e7\u00e3o \u00e9 um remendo. De que adianta agora dizer que n\u00e3o disse? Quantos ler\u00e3o o desmentido? Mas, pior, quantos acreditar\u00e3o na sinceridade do desmentido, escrito com a cabe\u00e7a fria e analisando ponto a ponto o que foi publicado? Por isso, na necessidade de contestar o teor, teria sido melhor simplesmente dizer que que a entrevista o cita de forma fragment\u00e1ria, deturpando seu pensamento, e deixar o caso morrer. Quando se diz uma besteira, a melhor coisa a fazer \u00e9 deixar que a esque\u00e7am. Quanto mais desmentimos, mais lembramos aos outros que dissemos.<\/p>\n<p>Digo isso porque a resposta de Rafael Draccon \u00e9 mais espantosa do que as declara\u00e7\u00f5es originais. Se na entrevista original pod\u00edamos enxergar a humanidade, fr\u00e1gil e tola, de um jovem deslumbrado pelo sucesso que se arvora em julgador de toda a literatura, como um \u00cdcaro que ousa ir perto demais do sol, neste desmentido o editor assume o ar burocr\u00e1tico de algu\u00e9m teleguiado por  rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e especialistas de marquetagem. E mesmo nesta insincera e calculada explica\u00e7\u00e3o, o autor ainda escorrega.<\/p>\n<p>Escorrega porque segue um script muito conhecido, e que n\u00e3o convence. Comecemos pelas juras de amor a Rubem Fonseca. \u00c9 poss\u00edvel que Draccon realmente goste deste autor, visto que o citou. Citamos o que temos \u00e0 mente. Ningu\u00e9m cita um obscuro escritor javan\u00eas do s\u00e9culo XVI ou um poeta maldito do interior da Turquia. Tamb\u00e9m ningu\u00e9m cita Paulo Coelho, nem os que dizem gostar de seus livros. Mas soa falso fazer declara\u00e7\u00f5es de amor a um autor que, dias antes, voc\u00ea disse que n\u00e3o publicaria, e cuja obra e estilo situou num outro mundo, em outra \u00e9poca.<\/p>\n<p>> Na mat\u00e9ria citada, contudo, para minha surpresa acabou se utilizando<br \/>\n> o t\u00edtulo: &#8220;Rubem Fonseca hoje n\u00e3o seria publicado&#8221;.<\/p>\n<p>O jornalista foi muito feliz na escolha do t\u00edtulo. T\u00edtulos s\u00e3o escolhidos de forma a sintetizar o esp\u00edrito do texto. E a afirmativa de que n\u00e3o publicaria Rubem Fonseca \u00e9 a s\u00edntese daquilo que Rafael Draccon **\u00c9**. Por mais que o autor renegue a frase, ela o perseguir\u00e1 doravante. Rafael Draccon \u00e9 o editor que um dia afirmou que n\u00e3o publicaria Rubem Fonseca.<\/p>\n<p>> Primeiro, a refer\u00eancia n\u00e3o foi ao escritor em si. Na ocasi\u00e3o me referi<br \/>\n> ao &#8220;estilo Rubem Fonseca&#8221; no sentido de se optar pelo isolamento e n\u00e3o<br \/>\n> exposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o n\u00e3o faz diferen\u00e7a. A refer\u00eancia sendo ao estilo de Rubem Fonseca, e sendo o estilo nomeado a partir da personalidade do autor, a refer\u00eancia recai diretamente sobre este. <\/p>\n<p>> Outro detalhe importante: a referencia n\u00e3o foi ao mercado editorial<br \/>\n> por inteiro, mas especificamente na \u00e1rea de literatura fant\u00e1stica nacional.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, nesse caso, seria melhor escolher um exemplo da pr\u00f3pria literatura fant\u00e1stica, mas a\u00ed se esbarra em um pequeno detalhe, a n\u00e3o ser uma gera\u00e7\u00e3o jovem, de autores desenraizados que cresceram lendo best-sellers sem qualidade, que autor da literatura fant\u00e1stica nacional foi &#8220;publicado&#8221;? N\u00e3o existe essa pe\u00e7a. Nossa literatura fant\u00e1stica \u00e9 um bicho recente, que ainda se estranha com o resto do zool\u00f3gico liter\u00e1rio nacional, e que, talvez por isso, precisa arranh\u00e1-lo.<\/p>\n<p>> O contexto era o seguinte: se hoje um autor de literatura fant\u00e1stica<br \/>\n> brasileira chegar em uma editora e afirmar que n\u00e3o pretende dar<br \/>\n> entrevistas, participar de palestras ou mesmo do o corpo a corpo com<br \/>\n> leitores do pais inteiro, ele n\u00e3o ser\u00e1 publicado, pois as regras do<br \/>\n> mercado da literatura fant\u00e1stica BR de hoje exigem isso.<\/p>\n<p>N\u00e3o discordo que estas sejam as regras, a d\u00favida \u00e9 se tais regras s\u00e3o justas e se fazem sentido literariamente. A resposta \u00e9 que n\u00e3o, e mesmo corrigindo o contexto, Rafael Draccon reafirma, agora sem a possibilidade de alegar que est\u00e1 sendo mal interpretado, que o mercado para a literatura fant\u00e1stica nacional est\u00e1 pervertido.<\/p>\n<p>A primeira pervers\u00e3o est\u00e1 nas exig\u00eancias que se faz ao autor. Considerando que dificilmente um autor poder\u00e1 se profissionalizar no g\u00eanero (e isso \u00e9 t\u00e3o verdade que at\u00e9 o bem-sucedido Draccon faz bico de editor para completar o or\u00e7amento), com que tempo e dinheiro poder\u00e1 ele estar \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para ir a palestras e eventos liter\u00e1rios frequentes? Draccon est\u00e1 selecionando um autor filhinho de papai que n\u00e3o precisa trabalhar (e de fato existe uma boa quantidade de autores que s\u00e3o exatamente isso, e n\u00e3o \u00e9 de hoje), e est\u00e1 exigindo que este autor tenha gastos expressivos para se promover (n\u00e3o suponho que a editora v\u00e1 pagar todas as passagens e hospedagens para estes eventos).<\/p>\n<p>Que profissionalismo \u00e9 esse que exige que o autor pague para se promover? Esse \u00e9 o tipo de oportunidade que eu dispenso. Se eu tiver que pagar para me promover, fa\u00e7o isso por conta pr\u00f3pria porque, mesmo tendo menos alcance, tamb\u00e9m gasto menos. A ideia de ser contratado por uma editora \u00e9 justamente a de ter gente especializada para me promover.<\/p>\n<p>Obviamente a maioria dos autores aceita participar de eventos e dar palestras &#8212; especialmente se n\u00e3o tiverem que arcar com os custos &#8212; mas ser\u00e1 justo excluir do universo liter\u00e1rio aqueles que, mesmo tendo talento, enfrentam obst\u00e1culos intr\u00ednsecos ou extr\u00ednsecos para participar?<\/p>\n<p>> Isso \u00e9 algo que explico em toda palestra que fa\u00e7o: hoje em dia todo<br \/>\n> mundo est\u00e1 escrevendo um livro, logo \u00e9 preciso um diferencial. Existem<br \/>\n> muitos escritores \u00f3timos, mas as grades s\u00e3o pequenas. Para dar uma ideia,<br \/>\n> a Fantasy publica uns 8 ou 9 livros por ano apenas. Muitas vezes tem-se<br \/>\n> dez excelentes t\u00edtulos em uma mesa para uma vaga por exemplo, mas a verba<br \/>\n> e as possibilidades s\u00e3o restritas. Logo, \u00e9 preciso crit\u00e9rios.<\/p>\n<p>Este par\u00e1grafo \u00e9 outro espanto. Se \u00e9 verdade que hoje todo mundo est\u00e1 escrevendo um livro, como os sovi\u00e9ticos da velha piada de Soljen\u00edtsin, e mesmo sendo verdade que o livro para ser publicado precisa de um diferencial, mesmo assim Draccon mete os p\u00e9s pelas m\u00e3os no meio do par\u00e1grafo.<\/p>\n<p>Primeiro n\u00e3o \u00e9 verdade que existem &#8220;muitos escritores \u00f3timos&#8221;. Existem alguns escritores geniais, v\u00e1rios escritores \u00f3timos, muitos escritores bons, numerosos escritores leg\u00edveis e um n\u00famero indefinido de escritores. Se \u00e9 que voc\u00eas me entendem. N\u00e3o digo isso porque sou mais especialista do que todos em literatura nacional, apenas porque sei, pela experi\u00eancia da hist\u00f3ria, que a qualidade n\u00e3o \u00e9 prevalente. \u00c9 antes a exce\u00e7\u00e3o do que a regra. <\/p>\n<p>Enxergar qualidade demais no mundo liter\u00e1rio \u00e9 fruto de nossa falta de costume com a cr\u00edtica: n\u00e3o se pode apontar os erros de ningu\u00e9m, ou voc\u00ea \u00e9 maldito pela panelinha. Criou-se um ambiente de compadrio (ou &#8220;brodagem&#8221;, como se diz hoje) no qual os elogios s\u00e3o intercambiados com seguran\u00e7a. Um autor at\u00e9 submete \u00e0 revis\u00e3o do outro a cr\u00edtica que faz de sua obra. Isso acontece na Litfan, mas tamb\u00e9m no resto: a ind\u00fastria do pref\u00e1cio garante que nenhum livro saia do prelo sem uma louva\u00e7\u00e3o contratada.<\/p>\n<p>As grades das editoras s\u00e3o realmente pequenas, mas ficam ainda menores porque editores como Rafael Draccon preferem ocup\u00e1-las com pessoas que tenham algo al\u00e9m de uma boa hist\u00f3ria. Pessoas que se disponham a apresentar-se em eventos, dar palestras, mostrar seu rosto bonito e seu corpo sarado parta promover a pr\u00f3pria obra. Quando a qualidade fica secund\u00e1ria, a grade para os livros bons fica ainda mais restrita, e Rubem Fonseca acaba n\u00e3o sendo publicado.<\/p>\n<p>> Da maneira como foi colocada, passou-se a impress\u00e3o de que se exerce<br \/>\n> na Fantasy uma esp\u00e9cie de censura em rela\u00e7\u00f5es a opini\u00f5es. Isso<br \/>\n> aconteceu porque se confundiu livro e autor.<\/p>\n<p>Na verdade, uma editora deveria publicar livros, e n\u00e3o autores. Ent\u00e3o, n\u00e3o deveria importar muito a pessoa, o indiv\u00edduo que escreve. Mas quando voc\u00ea personaliza o processo, criando contratos de longo prazo garantindo a publica\u00e7\u00e3o daquilo que um autor escreva, irrelevante \u00e0 qualidade, quando voc\u00ea quer entrevistar pessoalmente os seus futuros contratados, como quem vai contratar um funcion\u00e1rio, a\u00ed voc\u00ea cria um ambiente prop\u00edcio para se confundir livro e autor.<\/p>\n<p>Muitos autores gostam de se manter reservados **exatamente** porque n\u00e3o gostam que sua obra se confunda consigo. Esta reserva permite \u00e0 liberdade, permite que o autor fuja do estere\u00f3tipo. Houve um tempo em que certos autores conseguiam manter v\u00e1rios pseud\u00f4nimos, escrevendo temas diferentes. Esta \u00e9 a tal &#8220;liberdade criativa&#8221;, coisa de que Rafael Draccon parece nunca ter ouvido falar, muito embora esta tenha sido a fonte das obras que ele cresceu lendo.<\/p>\n<p>> N\u00e3o h\u00e1 problema algum de um escritor ter sua opini\u00e3o sobre uma obra.<br \/>\n> Ela pode ser positiva, negativa ou isenta, n\u00e3o importa. O que existe<br \/>\n> em rela\u00e7\u00e3o aos autores \u00e9 apenas uma indica\u00e7\u00e3o para que evitem ataques<br \/>\n> pessoais a outros autores.<\/p>\n<p>Mas quando voc\u00ea vincula o autor \u00e0 necessidade de palestrar, dar entrevistas, apresentar-se, fazer cosplay, o diabo a quatro, voc\u00ea est\u00e1 expondo exatamente a pessoa dele. Isso quer dizer que as pessoas tender\u00e3o tamb\u00e9m a atac\u00e1-lo pessoalmente, e n\u00e3o h\u00e1 nada de errado nisso. Se voc\u00ea p\u00f5e numa palestra um autor que tem problemas de fala ou medo de palco, ser\u00e1 natural que as pessoas critiquem sua pessoa, ainda que tenham gostado de seu livro. E se voc\u00ea n\u00e3o contrata autores com esses problemas, ent\u00e3o voc\u00ea est\u00e1 praticando discrimina\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 para isso que Draccon gosta de fazer entrevistas com seus contratados? <\/p>\n<p>> Esse tipo de situa\u00e7\u00e3o costuma virar uma bola de neve e parar em f\u00f3runs que<br \/>\n> tiram do autor foco, paci\u00eancia e energia que ele deveria estar investindo<br \/>\n> no texto e no pr\u00f3prio trabalho. \u00c9 um tempo que deveria estar aplicando em<br \/>\n> aprimoramento, pesquisa e contato com leitores. Al\u00e9m disso, se o escritor<br \/>\n> atrasar metas em contrato por causa disso, ele pode ser cortado. J\u00e1 se a<br \/>\n> pessoa se prop\u00f5e a ser um critico liter\u00e1rio ou um blogueiro, ela pode ter<br \/>\n> outra postura. Vai do que se quer pra si.<\/p>\n<p>E Rafael Draccon determina que o autor n\u00e3o pode se propor a fazer duas coisas. Voc\u00ea n\u00e3o pode ser contista e blogar, n\u00e3o pode escrever um romance e criticar uma obra alheia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s causar f\u00faria na blogosfera liter\u00e1ria e nas redes sociais com as suas opini\u00f5es sobre literatura, o escritor e editor Rafael Draccon resolveu se explicar. N\u00e3o devia, mas resolveu. Digo que n\u00e3o devia porque explica\u00e7\u00f5es nunca explicam de verdade. Toda explica\u00e7\u00e3o \u00e9 um remendo. De que adianta agora dizer que n\u00e3o disse? Quantos ler\u00e3o o desmentido? Mas, pior, quantos acreditar\u00e3o na sinceridade do desmentido, escrito com a cabe\u00e7a fria e analisando ponto a ponto o que foi publicado? 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