{"id":6135,"date":"2018-12-03T21:08:40","date_gmt":"2018-12-04T00:08:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=6135"},"modified":"2018-12-07T18:40:36","modified_gmt":"2018-12-07T21:40:36","slug":"como-o-facebook-matou-a-blogosfera-literaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2018\/12\/como-o-facebook-matou-a-blogosfera-literaria\/","title":{"rendered":"Como o Facebook Matou a Blogosfera Liter\u00e1ria"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"epigraph\">Se voc\u00ea n\u00e3o paga pelo servi\u00e7o, quem est\u00e1 sendo negociado \u00e9 voc\u00ea.<\/div>\n\n\n\n<p>Quando surgiram as redes sociais, no in\u00edcio do mil\u00eanio, elas pareceram ser a solu\u00e7\u00e3o para um antigo problema que afetava a vida cultural brasileira: a dispers\u00e3o pelo imenso territ\u00f3rio nacional do grande, mas rarefeito, universo dos interessados por formas de arte menos populares. Pareceu, por um breve momento, que esta tecnologia traria a t\u00e3o sonhada conex\u00e3o entre produtores e consumidores de conte\u00fado, facilitando a descoberta de novos talentos e sua entrada no <em>mainstream<\/em> de uma cultura antes dominada por formas massificadas (televis\u00e3o e m\u00fasica pop, por exemplo).<\/p>\n\n\n\n<p>Mas esta foi somente uma fase decorrente do est\u00e1gio embrion\u00e1rio da tecnologia. Quando as empresas mantenedoras de redes sociais aperfei\u00e7oaram seu funcionamento e compreenderam melhor o seu funcionamento e os seus desdobramentos, logo o papel destas deixou de ser positivo, ou mesmo benigno, e passaram a trabalhar <em>contra<\/em> aquilo que um dia elas pareceram estimular.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/www.maxpixel.net-Firewall-Security-Blue-Attack-Internet-Monster-426995-300x225.jpg\" alt=\"Monstro azul de olhos amarelos...\" class=\"wp-image-6136\" width=\"300\" height=\"225\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Sem que eu percebesse o Facebook destruiu a <em>minha<\/em> possibilidade de vir a ter uma carreira liter\u00e1ria. Claro que ele n\u00e3o fez isso magicamente, mas n\u00e3o foi somente porque eu \u201cdeixei\u201d que ele o fizesse: os efeitos do Facebook podem ser agravados quando o usamos inocentemente, mas eles n\u00e3o s\u00e3o de modo algum aleat\u00f3rios, fazem parte do pr\u00f3prio desenho da aplica\u00e7\u00e3o. \u201cSe voc\u00ea n\u00e3o paga por um produto, \u00e9 voc\u00ea quem est\u00e1 sendo negociado.\u201d (Andrew Lewis).<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>As redes sociais n\u00e3o foram criadas para nos servirem, mas para se servirem de n\u00f3s. Em alguns casos, podemos ainda n\u00e3o entender qual \u00e9 a inten\u00e7\u00e3o, mas ela existe ainda assim. A quest\u00e3o \u00e9 que os porcos que se perguntam por que o chiqueiro \u00e9 de gra\u00e7a costumam ser ofendidos com insinua\u00e7\u00f5es de que s\u00e3o paranoicos ou andam lendo muitas teorias de conspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Acompanhar o surgimento e evolu\u00e7\u00e3o das redes sociais desde 2005 me ensinou que toda teoria de conspira\u00e7\u00e3o que <em>n\u00e3o <\/em>envolva alien\u00edgenas, formato da Terra, moto perp\u00e9tuo, parapsicologia ou criaturas sobrenaturais <em>\u00e9 verdadeira. <\/em>A quest\u00e3o \u00e9 que nem sempre algo que realmente existe ser\u00e1 <em>\u00fatil, <\/em>o que quer dizer que nem toda conspira\u00e7\u00e3o \u00e9 bem-sucedida. Se h\u00e1 boatos sobre algo, e esse boato n\u00e3o envolve o rid\u00edculo ou imposs\u00edvel, ent\u00e3o temos uma profecia autocumprida: ou o boato surge de algo real, ou algo real se inspira no boato.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><\/p><p><\/p><p>As redes sociais foram criadas para se servirem de n\u00f3s, e cada nova rede social que surge aperfei\u00e7oa os m\u00e9todos atrav\u00e9s dos quais somos transformados em ingredientes.<\/p>\n<p>A primeira rede social que usei \u2014 o Orkut \u2014 era apenas um f\u00f3rum ampliado. Era poss\u00edvel fazer muita coisa de \u00fatil atrav\u00e9s do Orkut, e inclusive conhe\u00e7o empresas que se lan\u00e7aram atrav\u00e9s dali, al\u00e9m de carreiras de atores, roteiristas, escritores, desenhistas etc. Por\u00e9m, o modelo do Orkut, enquanto \u00fatil para os usu\u00e1rios, era in\u00fatil para a empresa que o criou como experimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso porque a utilidade do Orkut decorria do <em>abuso <\/em>da plataforma. Foram os usu\u00e1rios que deram outra utilidade \u00e0 comunidades, em vez de meramente organizarem pessoas da mesma vizinhan\u00e7a, empresa, fam\u00edlia ou escola. A possibilidade de organizar as pessoas a partir de interesses em comum, ou at\u00e9 mesmo em torno de interesses fict\u00edcios (como a famosa comunidade \u201cEu Nunca Tive um Dinossauro de Estima\u00e7\u00e3o\u201d) foi uma sacada dos usu\u00e1rios \u2014 embora, possivelmente, n\u00e3o tenha surgido no Orkut (segundo me dizem, havia algo parecido no MySpace, antes). Foram eles, tamb\u00e9m, que criaram os perfis <em>fakes <\/em>para serem os propriet\u00e1rios das comunidades, assim evitando que eventual queda do perfil do dono facilitasse o roubo destas. Sem falar dos pseud\u00f4nimos de fato.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso o Facebook copiou e aperfei\u00e7oou, cuidadosamente <em>removendo as brechas atrav\u00e9s das quais os usu\u00e1rios tornavam o Orkut \u00fatil.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo, o Facebook usa uma pol\u00edtica \u201cr\u00edgida\u201d de nomes reais, em vez de perfis criados atrav\u00e9s de meros endere\u00e7os de e-mail. Isso impede os pseud\u00f4nimos e teoricamente \u201cresponsabiliza\u201d os usu\u00e1rios pelo que dizem. Na pr\u00e1tica, aqueles que postem conte\u00fado controverso ficam expostos. Mas, ao mesmo tempo, oferece perfis impessoais (\u201cp\u00e1ginas\u201d) que podem ser manipulados por perfis pessoais ou grupos de perfis pessoais, institucionalizando o fake.<\/p>\n\n\n\n<p>O Facebook tamb\u00e9m n\u00e3o possui uma ferramenta de busca que permita recuperar conte\u00fado que voc\u00ea tenha visto h\u00e1 minutos. Acione F5 e voc\u00ea j\u00e1 dificilmente encontrar\u00e1 o artigo que lhe interessava, e cuja hiperliga\u00e7\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o salvou. Isso torna tudo muito ef\u00eamero. O objetivo, claro, \u00e9 impedir que as pessoas se mantenham presas a informa\u00e7\u00f5es \u201cdo passado\u201d, mas abertas ao \u201cnovo\u201d. Na pr\u00e1tica, cria-se um eterno \u201ctempo presente\u201d no qual \u00e9 poss\u00edvel esquecer informa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o surtiram efeito ontem, repeti-las hoje com varia\u00e7\u00f5es e assim, sucessivamente, at\u00e9 acertar o tom.<img loading=\"lazy\" class=\"alignright wp-image-6140 size-full\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/\u00edndice.jpg\" alt=\"Winston, from 1984\" width=\"300\" height=\"168\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/\u00edndice.jpg 300w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/\u00edndice-120x67.jpg 120w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/\u00edndice-250x140.jpg 250w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n\n\n\n<p>No Orkut, essas postagens repetidas eram f\u00e1ceis de achar e era poss\u00edvel identificar (e expulsar) esse tipo de manipulador. No Facebook esse tipo de chato \u00e9 o usu\u00e1rio padr\u00e3o e desejado. As grandes empresas est\u00e3o sempre a repercutir an\u00fancios e avaliando como foram recebidos\u2014cada vez os redesenhando com base nos que obtiveram melhores resultados.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto \u00e9 \u00f3timo para as empresas de an\u00fancios, mas \u00e9 p\u00e9ssimo para o usu\u00e1rio. Porque significa que o Facebook \u00e9 apenas um lugar aonde vamos assistir an\u00fancios cada vez mais inteligentes. Ele n\u00e3o serve, explicitamente, para nada. Qualquer coisa \u00fatil para a qual o estejamos usando ser\u00e1 detectada e removida. H\u00e1 algum tempo, era f\u00e1cil obter centenas ou at\u00e9 milhares de curtidas (\u201cviraliza\u00e7\u00e3o\u201d) de uma postagem que fosse espirituosa ou interessante. Hoje, n\u00e3o mais. A menos que voc\u00ea pague para ter um alcance maior, o Facebook impedir\u00e1 que sua postagem seja vista por mais que algumas dezenas de pessoas e receba mais do que trinta curtidas e vinte compartilhamentos. N\u00e3o sendo mediante pagamento, isso s\u00f3 ocorre em casos realmente excepcionais, que, inclusive, contam com repercuss\u00e3o via Twitter ou m\u00faltiplos compartilhamentos acionados pelo criador pedindo a amigos via Messenger que divulguem certo conte\u00fado. A viraliza\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea n\u00e3o existe mais no Facebook, <em>nem pode existir, <\/em>porque sempre que um conte\u00fado se torna relevante sem que isso gere receita para a plataforma o algoritmo da rede entende o fato como uma oportunidade de neg\u00f3cio que se perdeu. Para o Facebook, sucesso que n\u00e3o tenha sido comprado \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 de um fabricante que promove um produto, mas v\u00ea o similar concorrente tamb\u00e9m passar a vender mais. Comercialmente falando, \u00e9 preciso desenvolver um meio de que o produto anunciado venda <em>em detrimento <\/em>da concorr\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>Quando comecei a mexer com redes sociais, era f\u00e1cil construir uma comunidade de dezenas de milhares de pessoas e engajar milhares. Houve casos de comunidades surgidas espontaneamente que atingiram centenas de milhares de membros. Em um momento simb\u00f3lico dessa era primordial das redes sociais, <a href=\"https:\/\/link.estadao.com.br\/noticias\/geral,maior-comunidade-do-orkut-e-vendida,10000046819\">a comunidade \u201cEu Odeio Acordar Cedo\u201d foi vendida<\/a> por supostos R$ 50 mil. Havia comunidades onde era preciso criar regras restritivas para entrada de novos membros ou para cria\u00e7\u00e3o de conte\u00fado.<\/p>\n\n\n\n<p>Cheguei a organizar uma publica\u00e7\u00e3o coletiva de uma revista atrav\u00e9s de uma comunidade do Orkut e vendemos 500 exemplares. Teoricamente, seria poss\u00edvel alavancar carreiras ali, e usar a plataforma para divulgar. Tudo desta edi\u00e7\u00e3o foi feito atrav\u00e9s do Orkut: escritores, ilustradores, designers, publicit\u00e1rios, gr\u00e1fica, distribuidora\u2014todos os servi\u00e7os relacionados \u00e0 edi\u00e7\u00e3o foram \u201ccontratados\u201d entre membros da comunidade e remunerados mediante as encomendas feitas pelos membros.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>No Facebook algo assim \u00e9 imposs\u00edvel.<\/strong> O que significa que, a partir do momento em que o Orkut morreu e o Facebook predominou, autores como eu, baseados no interior, voltaram a estar na mesma situa\u00e7\u00e3o de isolamento em que estavam nos anos 1980.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o havia nada que eu pudesse fazer quanto a isso, exceto ter muito dinheiro para me mudar para uma cidade grande, contratar os melhores servi\u00e7os de edi\u00e7\u00e3o e pagar por publicidade positiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas nem tudo foi perda: o Facebook me ofereceu a oportunidade sem igual de me envolver em pol\u00eamicas irrelevantes e perder tempo vendo v\u00eddeos de viol\u00eancia gratuita em vez de escrever. Isso, claro, quando eu n\u00e3o estava ocupado tentando inutilmente denunciar comunidades neonazistas (esses t\u00eam dinheiro, compram o Facebook tranquilamente e s\u00e3o inexpugn\u00e1veis dali).<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>Quando digo, portanto, que o Facebook destruiu a possibilidade de eu vir a ter uma carreira liter\u00e1ria, n\u00e3o quero me colocar como v\u00edtima isolada de uma conspira\u00e7\u00e3o, mas passageiro (como voc\u00ea, leitor) de uma imensa mudan\u00e7a de paradigma que a tecnologia est\u00e1 for\u00e7ando\u2014uma mudan\u00e7a ao fim da qual o livro como o conhecemos j\u00e1 n\u00e3o existir\u00e1 e a ideia de uma carreira liter\u00e1ria talvez n\u00e3o fa\u00e7a mais sentido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se voc\u00ea n\u00e3o paga pelo servi\u00e7o, quem est\u00e1 sendo negociado \u00e9 voc\u00ea. 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