{"id":617,"date":"2013-09-19T00:21:28","date_gmt":"2013-09-19T03:21:28","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=617"},"modified":"2017-08-13T01:11:36","modified_gmt":"2017-08-13T04:11:36","slug":"nos-os-ridiculos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/09\/nos-os-ridiculos\/","title":{"rendered":"N\u00f3s, Os Rid\u00edculos"},"content":{"rendered":"<p>Depois que Rafael Draccon afirmou que n\u00e3o publicaria Rubem Fonseca e recebeu as merecidas cr\u00edticas, outros pr\u00f3ceres do mercado editorial n\u00e3o tardaram a sair em sua defesa. Diferentemente de Draccon, que disse o que disse quase que por ingenuidade, os novos artigos s\u00e3o premeditados para alcan\u00e7arem um efeito. E para isso empregam toda a t\u00e9cnica argumentativa que disfar\u00e7a o absurdo \u00f3bvio (&#8220;n\u00e3o publicar Rubem Fonseca&#8221;) e enfatiza um novo modelo de neg\u00f3cio no qual o absurdo \u00e9 o lugar comum.<\/p>\n<p>O artigo que eu me refiro \u00e9 [o de Danilo Venticinque]), publicado na revista \u00c9poca desta semana. Trata-se de um artigo bem escrito e cheio de verdades \u00f3bvias, que preparam o terreno para sutis maldades.<\/p>\n<p>A primeira delas vem logo no come\u00e7o. &#8220;Na pr\u00e9-hist\u00f3ria da literatura&#8221; \u00e9 a express\u00e3o que o autor, num arroubo ofensivo, usa para qualificar o tipo de literatura que se praticava h\u00e1\u2026 dez ou quinze anos. Esta ousadia supera o n\u00edvel da besteira dita por Rafael Draccon. Venticinque, como todo jovem, acredita que vive numa era mais especial do que todas, que o mundo velho n\u00e3o tinha import\u00e2ncia e que o que ele faz \u00e9 essencialmente revolucion\u00e1rio. Este \u00e9 o combust\u00edvel de muitos progressos, mas tamb\u00e9m de muitos erros. Mas, se Draccon afirmou que n\u00e3o publicaria Rubem Fonseca, Danilo Venticinque chamou todos os escritores anteriores \u00e0 gera\u00e7\u00e3o da internet e das redes sociais de &#8220;pr\u00e9-hist\u00f3ricos&#8221;. Machado de Assis, Proust, Fernando Pessoa, Cec\u00edlia Meireles, Ezra Pound, at\u00e9 mesmo talentos recentes, como Patrick S\u00fcsskind e Milan Kundera. Tudo &#8220;pr\u00e9-hist\u00f3rico&#8221;.<\/p>\n<p>Venticinque, obviamente, n\u00e3o diz isso de forma impensada. Ele est\u00e1 defendendo Rafael Draccon, os seus valores, e o sistema editorial que ele representa. Venticinque discorda *da ressalva* feita por Rafael Draccon em sua tentativa de retrata\u00e7\u00e3o. E vai mais al\u00e9m: &#8220;excetuando os g\u00eanios incontest\u00e1veis (e rar\u00edssimos), que editora preferiria um eremita das letras a um escritor que sabe vender seu trabalho?&#8221;<\/p>\n<p>O argumento parece bom, mas peca num ponto \u00f3bvio: n\u00e3o h\u00e1 g\u00eanios incontest\u00e1veis, exceto os mortos. Kafka e Fernando Pessoa s\u00e3o s\u00f3 dois exemplos de autores que morreram praticamente sem reconhecimento algum. Ent\u00e3o, o que o colunista quer dizer \u00e9 que, a menos que voc\u00ea seja um g\u00eanio *reconhecido como tal* pelo sistema, voc\u00ea precisar\u00e1 saber vender o seu trabalho.<\/p>\n<p>Reconhe\u00e7o que Venticinque tem raz\u00e3o quando diz que mudou a maneira como consumimos informa\u00e7\u00f5es. Discordo, por\u00e9m, de sua an\u00e1lise desta mudan\u00e7a. Quando ele diz que &#8220;na disputa pela aten\u00e7\u00e3o dos jovens leitores, um livro concorre com fotos de gatos, not\u00edcias de celebridades e v\u00eddeos de com\u00e9dia&#8221;, ele est\u00e1 sugerindo que a literatura deve aceitar esta concorr\u00eancia como algo leg\u00edtimo e natural e procurar assimilar uma linguagem semelhante. Isto me parece absurdo, pois o tipo de coisa que a literatura \u00e9 n\u00e3o se confunde, na dificuldade de realiza\u00e7\u00e3o, por exemplo, com uma foto de gato ou uma not\u00edcia de celebridade. Ent\u00e3o, \u00e9 in\u00fatil (e at\u00e9 injusto) querer que o autor concorra contra produtos culturais levianos. <\/p>\n<p>Ocorre que, do ponto de vista de Venticinque, \u00e9 necess\u00e1rio travar este combate porque o que importa \u00e9 vender livros, mesmo que sejam vendidos para quem n\u00e3o os ler\u00e1. A literatura deve, entre outros pap\u00e9is, oferecer um tipo de reflex\u00e3o social e cultural que v\u00e1 al\u00e9m dos produtos imediatos para o consumo em massa. Mas quando ela se iguala com fotos de gatos e v\u00eddeos de com\u00e9dia, ela est\u00e1 se desvalorizando. O autor que se submete a essa pantomima est\u00e1 denegrindo o valor do seu trabalho, e depois vai reclamar o que quando descobrir coment\u00e1rios grosseiros e sem sentido, feitos por gente que comprou o livro pela capa ou que o leu por acaso? <\/p>\n<p>Penso que n\u00e3o h\u00e1 nenhum dem\u00e9rito em buscar divulgar o pr\u00f3prio trabalho, eu mesmo fa\u00e7o isso como posso. O problema est\u00e1 em rebaixar este trabalho, que requer mais tempo e mais cuidado, ao n\u00edvel de uma foto de gato na internet, como faz o Danilo Venticinque. Eu n\u00e3o acho que o p\u00fablico das fotos de gato esteja interessado no tipo de coisa que eu escrevo, ent\u00e3o n\u00e3o preciso competir com elas. Devo buscar outro tipo de p\u00fablico, e come\u00e7o a suspeitar que n\u00e3o encontrarei esse p\u00fablico nas redes sociais.<\/p>\n<p>Venticinque acha que &#8220;o sil\u00eancio \u00e9 o caminho mais curto para a irrelev\u00e2ncia&#8221;, mas ele est\u00e1, obviamente, se referindo \u00e0 irrelev\u00e2ncia no &#8220;mercado&#8221;. Porque o sistema que ele representa \u00e9 o de vender livros e o conte\u00fado nem tem a mesma import\u00e2ncia. A irrelev\u00e2ncia no mercado editoral resultaria desta postura resistente. Enquanto cada vez mais editores brasileiros pensam assim, escritores brasileiros come\u00e7am a escrever em outras l\u00ednguas, sob pseud\u00f4nimo e [se lan\u00e7am no exterior](http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/1235347-escrevi-em-ingles-para-ser-lida-diz-autora-lilian-carmine.shtml). No Brasil, Bruna Britto estaria fadada a ser tachada de &#8220;irrelevante&#8221; por editores como Venticinque e Draccon.<\/p>\n<p>Ocorre que este posicionamento me parece ser apenas outra faceta do forte preconceito que o p\u00fablico leitor (e os editores) t\u00eam contra o autor brasileiro. Considerado inerentemente inferior ao estrangeiro, o escritor nacional s\u00f3 consegue se sobressair caso se exponha, bote maquiagem na cara, encene algum tipo de arte marcial, pinte a bunda de vermelho ou pendure uma melancia no pesco\u00e7o. Pelos m\u00e9ritos de sua obra ele nunca se criar\u00e1 em um mercado acostumado a publicar os best-sellers anglo-americanos de forma autom\u00e1tica. Mas assim vemos que n\u00e3o \u00e9 que tenha mudado tanto a forma como consumimos conte\u00fado, \u00e9 que mudou muito pouco a barreira que existe contra o nosso escritor, barreira que deriva da p\u00e9ssima qualidade de nosso ensino.<\/p>\n<p>Digo isso porque n\u00e3o concordo com o julgamento generalizado nas redes sociais, de que os autores brasileiros cl\u00e1ssicos s\u00e3o toscos e chatos. Eles s\u00e3o, essa \u00e9 a sua trag\u00e9dia, melhores do que os nossos leitores. Um pa\u00eds que tem dois ter\u00e7os de seus cidad\u00e3os abaixo do limite da alfabetiza\u00e7\u00e3o funcional n\u00e3o tem gabarito para dar valor a uma obra como o &#8220;Grande Sert\u00e3o&#8221;. Nosso p\u00fablico n\u00e3o gosta do autor nacional porque foi obrigado a l\u00ea-lo na escola, n\u00e3o entendeu nada (porque a escola n\u00e3o conseguiu alfabetiz\u00e1-lo perfeitamente) e ficou com esse despeito que o inculto tem por aquele que &#8220;fala dif\u00edcil&#8221;. Ent\u00e3o, se voc\u00ea quer atingir a esse p\u00fablico semi letrado, precisa pensar em fotos de gato como par\u00e2metro de seu estilo, ou vai ser tachado de &#8220;pedante&#8221;. E aqueles que praticam uma literatura que se ombreia com fotos de gato tacham de &#8220;pr\u00e9-hist\u00f3ricos&#8221; autores que est\u00e3o consagrados pelo tempo, s\u00e3o objeto de estudo em outros pa\u00edses e levam o nome de nosso pa\u00eds l\u00e1 fora.<\/p>\n<p>O que mudou n\u00e3o foi a literatura, s\u00e3o os valores de nossa juventude. Exibir-se para obter fama f\u00e1cil \u00e9 uma coisa t\u00e3o comum que nem mais surpreende. Para aparecer na televis\u00e3o uma mulher aceita dizer ao marido, diante das c\u00e2meras, que, antes de conhec\u00ea-lo, [se prostitu\u00eda em troca de cheeseburgers](http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=QsNwQxaLdkE). Essa disposi\u00e7\u00e3o para o exibicionismo se torna um atalho f\u00e1cil para compensar a falta de talento: um livro ruim pode ser bem promovido e vender como p\u00e3o quente. H\u00e1 quem se prostitua por cheeseburgers, h\u00e1 quem tope qualquer neg\u00f3cio para divulgar seu livro, e esse autor \u00e9 o modelo desejado pelas editoras, que pensam em cortar seus custos diante da amea\u00e7a justamente das novas formas de consumir conte\u00fado. Quem caminha para a irrelev\u00e2ncia \u00e9 esse modelo editoral ditador, que em seus espasmos produz figuras caricatas como o Draccon e o Venticinque. &#8220;\u00c9 a evolu\u00e7\u00e3o natural de uma gera\u00e7\u00e3o que perdeu a vergonha de se expor para divulgar seus livros.&#8221;<\/p>\n<p>O fecho do artigo resume o posicionamento do autor de uma forma lapidar: &#8220;Os escritores da pr\u00e9-hist\u00f3ria achariam tudo isso rid\u00edculo. Para os novos autores, rid\u00edculo \u00e9 n\u00e3o ser lido.&#8221; <\/p>\n<p>Acho que o tema merece mais reflex\u00f5es, que eu n\u00e3o estou disposto a fazer a essa hora da madruga.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois que Rafael Draccon afirmou que n\u00e3o publicaria Rubem Fonseca e recebeu as merecidas cr\u00edticas, outros pr\u00f3ceres do mercado editorial n\u00e3o tardaram a sair em sua defesa. Diferentemente de Draccon, que disse o que disse quase que por ingenuidade, os novos artigos s\u00e3o premeditados para alcan\u00e7arem um efeito. E para isso empregam toda a t\u00e9cnica argumentativa que disfar\u00e7a o absurdo \u00f3bvio (&#8220;n\u00e3o publicar Rubem Fonseca&#8221;) e enfatiza um novo modelo de neg\u00f3cio no qual o absurdo \u00e9 o lugar comum. 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