{"id":619,"date":"2013-09-20T00:45:22","date_gmt":"2013-09-20T03:45:22","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=619"},"modified":"2017-11-02T14:08:17","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:17","slug":"o-rabo-que-abana-o-cachorro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/09\/o-rabo-que-abana-o-cachorro\/","title":{"rendered":"O Rabo que Abana o Cachorro"},"content":{"rendered":"<p>Na minha postagem anterior ficou parecendo at\u00e9 que eu sou contra o autor fazer divulga\u00e7\u00e3o do seu trabalho. N\u00e3o \u00e9 nada disso. N\u00e3o h\u00e1 nada de errado se o autor opta por divulgar seu trabalho, do jeito que pode. O que est\u00e1 errado \u00e9 a invers\u00e3o de prioridades que est\u00e1 ocorrendo: esta disponibilidade do escritor em divulgar o que faz ser percebida pelas editoras como um fator para dar prefer\u00eancia a tais autores.<\/p>\n<p>A tese de Danilo Venticinque diz que nenhuma editora preferiria um autor recluso, a menos que ele fosse um g\u00eanio \u00f3bvio. Ponhamos de lado tempora\u00adria\u00admente o fato de que nenhum g\u00eanio \u00e9 \u00f3bvio e foque\u00admos num simples racioc\u00ednio que serve para explicar o que eu quis dizer:<\/p>\n<ul>\n<li>Se dois autores t\u00eam talento semelhante, mas somente um deles tem disponibilidade e talento para fazer autodivulga\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o a editora prefere o segundo ao primeiro. O que significa que o cri\u00adt\u00e9rio para se discernir entre autores de talento equivalente \u00e9 uma quest\u00e3o extraliter\u00e1ria. Houve uma \u00e9poca em que os autores pobres tinham grande dificuldade para serem reconhecidos. Houve uma \u00e9poca em que os autores das regi\u00f5es perif\u00e9ricas tinham grande dificul\u00addade de serem reconhecidos. Isto n\u00e3o ocorria porque eram autores piores, mas porque tinham menos poder de influenciar no mercado. A injusti\u00e7a que se pratica nesse caso \u00e9 id\u00eantica \u00e0 que se praticava, no passado, quando a editora ignorava quem residia nos cafund\u00f3s do pa\u00eds, sem sequer avaliar sua obra. Disponibilidade para divulga\u00e7\u00e3o envolve residir em uma metr\u00f3pole de vida cultural intensa, de forma que a editora possa organizar eventos e vender muitos livros l\u00e1. O autor que n\u00e3o reside e\/ou n\u00e3o tem contatos em uma cidade assim estar\u00e1 bloqueado por um fator extraliter\u00e1rio.<\/li>\n<li>Se dois autores t\u00eam capacidade equivalente de autodivulga\u00e7\u00e3o, mas somente um deles escreve obras de qualidade, cabe perguntar se para a editora a qualidade faz alguma diferen\u00e7a neste caso, ou se a capacidade de ambos os autores para a autopromo\u00e7\u00e3o justificaria que ambos fossem contratados. Nesse caso, temos novamente um crit\u00e9rio extraliter\u00e1ria determinando que uma obra de qualidade inferior receba a mesma aten\u00e7\u00e3o que uma obra de boa qualidade, apenas porque o seu autor consegue se ombrear com os bons autores em termos de divulga\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<li>As editoras fariam diferen\u00e7a entre um extraordin\u00e1rio talento para a autopromo\u00e7\u00e3o e um talento liter\u00e1rio? Evidente que n\u00e3o. A\u00ed est\u00e1 Paulo Coelho que n\u00e3o nos deixa mentir. Seu talento liter\u00e1rio n\u00e3o justifica a aten\u00e7\u00e3o que teve e tem, nem a difus\u00e3o que a sua obra alcan\u00e7ou. Mas ele \u00e9 um g\u00eanio do marketing pessoal como pou\u00adcos. O que equivale a dizer que se voc\u00ea tem uma capacidade sobre\u00adnatural para se promover, voc\u00ea ser\u00e1 percebido como um autor genial mesmo que n\u00e3o seja. O &#8220;g\u00eanio \u00f3bvio&#8221; a que Venticinque alude n\u00e3o \u00e9 necessariamente um g\u00eanio liter\u00e1rio. Donde conclu\u00edmos, novamente, que s\u00e3o fatores extraliter\u00e1rios que definem a publica\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Estes tr\u00eas pontos nos sugerem que, de fato, as editoras n\u00e3o est\u00e3o mais interessadas em boas obras liter\u00e1rias, mas em autores dotados de capacidade para autopromo\u00e7\u00e3o. Assim como as gravadoras n\u00e3o se interessam mais por talentos leg\u00edtimos, preferindo grupos ensa\u00adia\u00addos por &#8220;produtores&#8221; e praticantes de estilos musicais estudados segundo prioridades de marketing.<\/p>\n<p>Houve um tempo em que as gravadoras tinham &#8220;olheiros&#8221; nas casas de shows para detectar jovens artistas talentosos. Quando um desses olheiros percebia algu\u00e9m dotado de potencial, tratava de fazer com que assinasse um contrato. Assim foram descobertos os maiores nomes da m\u00fasica popular mundial, entre as d\u00e9cadas de 1950 e 1980. Esta n\u00e3o foi a \u00e9poca de ouro da m\u00fasica popular devido a um mero acaso: isto se deveu \u00e0 busca deliberada pelo talento por parte daqueles que detinham o poder dos est\u00fadios.<\/p>\n<p>Hoje as gravadoras n\u00e3o mant\u00eam mais esse tipo de profissional e os artistas, por mais talentosos que sejam, n\u00e3o conseguem contatos atrav\u00e9s de seus shows. O que faz sucesso s\u00e3o personalidades histri\u00f4nicas, que mais dan\u00e7am (ou d\u00e3o pulos a que chamam de dan\u00e7a) do que cantam, que se esmeram mais no figurino do que no arranjo, que investem mais em cen\u00e1rio do que em produ\u00e7\u00e3o musical. O produto que se vende \u00e9 o artista, n\u00e3o a m\u00fasica. Quantos nomes da m\u00fasica pop tocam o tempo todo no r\u00e1dio, mas voc\u00ea n\u00e3o consegue se lembrar de mais do que uma ou duas de suas m\u00fasicas de sucesso, nem sempre recente. Qual foi a m\u00fasica que Ivete Sangalo, Daniel, Cl\u00e1udia Leitte e Carlinhos Brown emplacaram nos \u00faltimos meses? N\u00e3o importa, eles sempre est\u00e3o nos programas da televis\u00e3o. Se voc\u00ea \u00e9 um artista de talento, n\u00e3o se iluda achando que participando dos raros festivais da can\u00e7\u00e3o ou concursos televisivos voc\u00ea vai a algum lugar. Quem vai \u00e9 o artista jovem, de boa apar\u00eancia, vestido conforme a moda.<\/p>\n<p>Algo equivalente aconteceu com as editoras. Elas tamb\u00e9m est\u00e3o perdendo o interesse por jovens de talento. Elas n\u00e3o procurar\u00e3o mais os ganhadores de concursos. O que atrai agora \u00e9 aquele cara que tem um blogue dotado de bom visual, mesmo que sua escrita seja apenas correta. Est\u00e3o interessadas no sujeito que vive numa capital, pois noites de aut\u00f3grafos l\u00e1 atrair\u00e3o mais gente do que em Afogados da Ingazeira ou Jampruca. Querem um cara jovem e de boa apar\u00eancia (e todos sabemos o que isto significa, n\u00e3o \u00e9?). A boa apar\u00eancia \u00e9 essencial porque o produto que se vende n\u00e3o \u00e9 o livro, mas o autor. O autor tem que ter dentes bonitos para sorrir para a fila de aut\u00f3grafos. Tem que ter corpo sarado e &#8220;modificado&#8221; segundo a \u00faltima tend\u00eancia. Tem que estar dispon\u00edvel para a televis\u00e3o, se ela o convidar, tem que ter o pesco\u00e7o grosso para carregar a melancia que for preciso. E se escrever bem, melhor ainda. Mas nem precisa.<\/p>\n<p>Quero deixar bem claro que eu n\u00e3o estou aqui para execrar os autores que se autopromovem. Eles sempre existiram e o fato de ser &#8220;arroz de festa&#8221; nunca denegriu a literatura de ningu\u00e9m. Na verdade este estere\u00f3tipo do autor recluso sempre foi minorit\u00e1rio. O que estou criticando \u00e9 essa invers\u00e3o de valores ocorrida na literatura nacional, segundo alguns editores e articulistas. A eleva\u00e7\u00e3o do marketing pessoal acima da excel\u00eancia do trabalho. Isso \u00e9 pensar que o rabo abana o cachorro.<\/p>\n<p>Entre as raz\u00f5es de minha cr\u00edtica, uma secund\u00e1ria, mas n\u00e3o irrelevante, \u00e9 o fato de que esta exig\u00eancia de autopromo\u00e7\u00e3o \u00e9 feita aos autores nacionais, mas n\u00e3o aos estrangeiros. Certamente h\u00e1 autores do mundo todo que se promovem, mas v\u00e1rios dos best-sellers mais vendidos foram escritos por pessoas que n\u00e3o se enquadram no modelo proposto por Draccon e Venticinque. E n\u00e3o estou falando de obscuros nomes da periferia, mas exatamente dos autores das obras de maior sucesso: J. K. Rowling, Stig Larsson, George R. R. Martin, James Redfield, Khaled Hosni&#8230; Todos s\u00e3o pr\u00e9-hist\u00f3ricos, segundo a vis\u00e3o desses editores. Porque n\u00e3o t\u00eam blogue, n\u00e3o s\u00e3o arroz de festa, n\u00e3o aparecem em reality shows, n\u00e3o t\u00eam a &#8220;boa apar\u00eancia&#8221; que se quer.  Estes autores n\u00e3o se promovem com a f\u00faria almejada pelos nossos editores nem mesmo em seus pa\u00edses de origem, MUITO MENOS NO BRASIL. Mas eles fazem sucesso aqui porque seus livros j\u00e1 fizeram sucesso l\u00e1 fora. E os nossos autores t\u00eam de concorrer contra eles em uma luta desigual por aten\u00e7\u00e3o porque as nossas editoras seguem o caminho do menor esfor\u00e7o e preferem publicar tradu\u00e7\u00f5es do que investir no risco da novidade nacional. Claro que isto ocorre porque o neg\u00f3cio editorial est\u00e1 em crise. Livrarias fecham e editoras t\u00eam de reinventar-se.<\/p>\n<p>As editoras precisam cortar custos como nunca. O horizonte para c\u00e1lculo da Taxa Interna de Retorno ficou mais curto. N\u00e3o d\u00e1 para ter &#8220;autores de cat\u00e1logo&#8221;, nem para usar as sobras de um best-seller para publicar um livro de arte. Toda edi\u00e7\u00e3o tem que se pagar, e tem que sobrar para pagar custos acess\u00f3rios e recuperar os inevit\u00e1veis preju\u00edzos dos fracassos. Publicar tradu\u00e7\u00f5es \u00e9 um caminho de menor esfor\u00e7o, ainda que seja um caminho que mata a galinha dos ovos de ouro.<\/p>\n<p>Nossos leitores j\u00e1 s\u00e3o colonizados, e tendentes a achar &#8220;chique&#8221; qualquer porcaria que venha de fora. &#8220;Importado&#8221; ou &#8220;tipo exporta\u00e7\u00e3o&#8221; sugerem qualidade. Uma tradu\u00e7\u00e3o de um livro que j\u00e1 fez sucesso nos lugares certos tem um apelo. &#8220;Dez semanas na lista dos mais vendidos do New York Times&#8221; \u00e9 uma chamada que provavelmente assegurar\u00e1 pelo menos v\u00e1rias semanas na nossa lista de mais vendidos. N\u00e3o se questiona a origem da lista do N.Y.T., e nem porque o jornal tem esse renome, e nem porque n\u00f3s achamos que estar no New York Times d\u00e1 status. Se um livro esteve semanas na lista do N.Y.T., seu autor n\u00e3o precisa vir aqui fazer pajelan\u00e7a para vender, basta que sua obra seja traduzida a toque de caixa e ele j\u00e1 come\u00e7a a ser sucesso. A longo prazo, nosso mercado encolhe ainda mais para o autor nacional, a menos que ele se enquadre em um papel predeterminado, &#8220;popificado&#8221;.<\/p>\n<p>No fim o que nos espera \u00e9 o deserto. O que aconteceu com a TV aberta e com a m\u00fasica popular brasileira n\u00e3o serviu de li\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na minha postagem anterior ficou parecendo at\u00e9 que eu sou contra o autor fazer divulga\u00e7\u00e3o do seu trabalho. N\u00e3o \u00e9 nada disso. N\u00e3o h\u00e1 nada de errado se o autor opta por divulgar seu trabalho, do jeito que pode. 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