{"id":621,"date":"2013-09-28T20:08:01","date_gmt":"2013-09-28T23:08:01","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=621"},"modified":"2017-11-02T14:08:17","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:17","slug":"pelo-direito-de-nao-ler","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/09\/pelo-direito-de-nao-ler\/","title":{"rendered":"Pelo Direito de N\u00e3o Ler"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: right; font-style: italic\">&#8220;Bem, infelizmente, aqui eu tive de me valer do direito de interromper a leitura&#8221; \u2014 Felipe Holloway.<\/p>\n<p>&#8220;Este \u00e9 um livro que quando a gente larga n\u00e3o consegue mais pegar.&#8221; \u2014 Mill\u00f4r Fernandes.<\/p>\n<\/div>\n<p>Sou um escritor e batalho pela aten\u00e7\u00e3o de leitores. Nenhum escritor em s\u00e3 consci\u00eancia pensaria em desaconselhar a leitura, mesmo a de um texto alheio. A nossa arte compete com tantas coisas que desviam a aten\u00e7\u00e3o do leitor que hoje \u00e9 muito dif\u00edcil captur\u00e1-la. S\u00f3 que certos escritores n\u00e3o t\u00eam uma consci\u00eancia muito s\u00e3, e eu me identifico neles. Esta \u00e9 a raz\u00e3o pela qual me meto a defender o direito de n\u00e3o ler.<\/p>\n<p>Quando falo de tal direito n\u00e3o quero dizer que as pessoas n\u00e3o devam ler absolutamente. Ler \u00e9 divertido e necess\u00e1rio. Aconselhar a n\u00e3o ler \u00e9 como aconselhar a n\u00e3o comer. Mas a leitura n\u00e3o deve se tornar uma obriga\u00e7\u00e3o. Se surgem sinais de obrigatoriedade, devemos exercer o direito de n\u00e3o ler.<\/p>\n<p>O exerc\u00edcio deste direito \u00e9 uma medida higi\u00eanica. O direito de n\u00e3o ler \u00e9 a liberdade de escolha. Prazeres s\u00f3 s\u00e3o prazeres se s\u00e3o volun\u00adt\u00e1\u00adrios. Tornar algo obrigat\u00f3rio \u00e9 o come\u00e7o do t\u00e9dio. Em tudo devemos ter a liberdade de n\u00e3o come\u00e7ar e a de, tendo come\u00e7ado, parar quando quisermos.<\/p>\n<p>Vivemos afogados em um mar de informa\u00e7\u00e3o. A maior parte \u00e9 irrelevante ou nociva. Precisamos selecionar o que absorveremos. Os crit\u00e9rios podem ser racionais ou arbitr\u00e1rios, mas devem existir. E se o crit\u00e9rio falhar \u00e0 pri\u00admeira vista, precisamos da liberdade de parar. Ler \u00e9 absorver infor\u00adma\u00ad\u00e7\u00e3o da maneira mais direta poss\u00edvel, e \u00e9 um exerc\u00edcio que demanda tempo. A lei\u00adtura nos afasta da realidade imediata, nos absorve enquanto nos fixa\u00admos no texto. Ler \u00e9 usar uma parte da vida. Descobrir que uma leitura n\u00e3o valeu a pena traz a sensa\u00e7\u00e3o de que o tempo for esperdi\u00e7ado. Parte da vida que temos foi esperdi\u00e7ada.<\/p>\n<p>O leitor n\u00e3o nos deve nenhuma obriga\u00e7\u00e3o. N\u00f3s \u00e9 que lhe devemos. Ele n\u00e3o pode concluir a leitura do que escrevemos e ter a sensa\u00e7\u00e3o de que esper\u00addi\u00ad\u00e7ou um tempo de sua vida. Se o leitor \u00e9 educado (&#8220;n\u00e3o gostei&#8221;) ou sem educa\u00e7\u00e3o (&#8220;o texto \u00e9 uma merda&#8221;), o que importa \u00e9 a rea\u00e7\u00e3o que o motiva a expressar sua opini\u00e3o. Ou bem gosta ou n\u00e3o gosta. Tudo deve se resu\u00admir a isso. Nem todos os leitores est\u00e3o capacitados a oferecer uma an\u00e1\u00adlise embasada sobre as raz\u00f5es de terem ou n\u00e3o gostado. Somos n\u00f3s, os autores, que lhes ajudaremos a adquirir tal capacidade enquanto se diver\u00adtem lendo o que escrevemos. Mais uma vez, n\u00f3s deve\u00admos obriga\u00e7\u00f5es a quem nos l\u00ea, nunca o contr\u00e1rio. Por isso o leitor tem o direito de parar a leitura quando quiser, at\u00e9 mesmo antes de come\u00e7ar. E o m\u00e1ximo que n\u00f3s podemos pedir, mas eles n\u00e3o t\u00eam a obriga\u00e7\u00e3o de dar, \u00e9 uma opini\u00e3o sobre as raz\u00f5es que o fizeram n\u00e3o gostar.<\/p>\n<p>Os crit\u00e9rios dos leitores para decidir se ler\u00e3o ou n\u00e3o o que escre\u00advemos com tanto carinho podem ser arbitr\u00e1rios, ou at\u00e9 injustos. Alguns sele\u00adcio\u00adnam pelo t\u00edtulo, uns pela capa, outros pelo nome do autor, outros ainda pela opini\u00e3o de um terceiro. Mas todos voltam a ler mais dos autores de que gostaram. Ent\u00e3o, n\u00e3o faz sentido reclamar dos crit\u00e9rios malucos que algumas pessoas usam para selecionar o que leem. Quando esse leitor chega at\u00e9 um texto nosso, temos uma oportunidade \u00fanica de cativ\u00e1-lo para que volte, ou de permitir que ele passe a outro blogue neste oceano de informa\u00e7\u00e3o an\u00f3dina sem levar lembran\u00e7as nossas.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o reclamo dos leitores que desistem de mim. Eu lamento que n\u00e3o tenha sido bastante competente para mant\u00ea-los comigo. Eu agrade\u00e7o aos que deixam algum coment\u00e1rio que me oriente melhor sobre a qualidade do que fa\u00e7o, mesmo que sua opini\u00e3o seja abusiva ou a sua aprecia\u00e7\u00e3o, ofen\u00adsiva. Uma opini\u00e3o rude \u00e9 melhor do que o sil\u00eancio de quem vai embora sem dizer porque.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Bem, infelizmente, aqui eu tive de me valer do direito de interromper a leitura&#8221; \u2014 Felipe Holloway. &#8220;Este \u00e9 um livro que quando a gente larga n\u00e3o consegue mais pegar.&#8221; \u2014 Mill\u00f4r Fernandes. Sou um escritor e batalho pela aten\u00e7\u00e3o de leitores. Nenhum escritor em s\u00e3 consci\u00eancia pensaria em desaconselhar a leitura, mesmo a de um texto alheio. A nossa arte compete com tantas coisas que desviam a aten\u00e7\u00e3o do leitor que hoje \u00e9 muito dif\u00edcil captur\u00e1-la. 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