{"id":6275,"date":"2018-12-27T21:10:40","date_gmt":"2018-12-28T00:10:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=6275"},"modified":"2019-06-05T20:11:12","modified_gmt":"2019-06-05T23:11:12","slug":"a-estranha-onomastica-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2018\/12\/a-estranha-onomastica-brasileira\/","title":{"rendered":"A Estranha Onom\u00e1stica Brasileira"},"content":{"rendered":"\n<p>O Brasil tem uma antiga tradi\u00e7\u00e3o de nomes curiosos, \u00e0s vezes rid\u00edculos, que os pais d\u00e3o aos seus filhos; um h\u00e1bito que vem desde os primeiros anos ap\u00f3s a independ\u00eancia. \u00c9 uma tradi\u00e7\u00e3o que passou por diversas fases conforme a orienta\u00e7\u00e3o cultural do pa\u00eds e sua pol\u00edtica externa. Embora eu n\u00e3o seja uma autoridade no assunto, tentarei compartilhar com voc\u00eas um pouco do que sei sobre o assunto.<\/p>\n\n\n\n<p>Logo que o pa\u00eds se tornou independente, as fam\u00edlias mais abastadas e pr\u00f3ximas do poder quiseram mostrar que haviam cortado de fato seus la\u00e7os com Portugal e houve as que decidiram batizar seus filhos com nomes em tupi, l\u00edngua amer\u00edndia que ainda era bastante conhecida no pa\u00eds (mesmo entre gente branca, em lugares remotos) at\u00e9 a segunda metade do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n\n\n\n<p>O tupi j\u00e1 era uma l\u00edngua moribunda quando esse h\u00e1bito apareceu e pouco se beneficiou do modismo. Devido ao pouco conhecimento da l\u00edngua por aqueles que se propuseram a us\u00e1-lo na onom\u00e1stica nacional, muitas crian\u00e7as foram registradas com nomes de sonoridade horr\u00edvel e\/ou significado impr\u00f3prio. Em muitos casos os nomes foram escolhidos sem atentar para o g\u00eanero em que eram normalmente empregados pelos ind\u00edgenas, de que resultou, por exemplo, que o nome do deus solar dos tupis, Araci, se tornasse um nome feminino. Entre os muitos nomes curiosos que encontramos nos registros daquele \u00e9poca est\u00e3o Marimbondo, Ipanema (\u201c\u00e1gua sem vida\u201d), Iraj\u00e1 (\u201ccolm\u00e9ia\u201d) e Ubirat\u00e3 (\u201clan\u00e7a de guerra\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">Tamb\u00e9m se tornou comum, especialmente entre os mais progressistas, homenagear atrav\u00e9s de seus filhos os grandes nomes da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. Muitos desses nomes \u201crepublicanos\u201d tamb\u00e9m eram impr\u00f3prios, pois foram usados como prenomes quando originalmente eram sobrenomes. Assim encontramos brasileiros que se chamam Napole\u00e3o, Voltaire, Diderot, Rousseau, Marat, Benjamin Constant etc.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">Como o franc\u00eas era uma l\u00edngua popular na \u00e9poca, membros das elites davam nomes franceses aos seus filhos mesmo quando n\u00e3o queriam homenagear a Revolu\u00e7\u00e3o. Foi assim que entraram em nossa l\u00edngua nomes como Jean, Bertrand, Denis (correspondente ao portugu\u00eas Dinis), Eduardo (correspondente ao portugu\u00eas Duarte), Francine, Ren\u00e9 etc. Nessa \u00e9poca, no Rio Grande do Norte, uma fam\u00edlia resolveu adotar o costume romano de <b>numerar<\/b> os filhos, mas fez isso em franc\u00eas\u2026 <span class=\"qlink_container\"><a class=\"external_link\" href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Jer%C3%B4nimo_Vingt-un_Rosado_Maia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow noreferrer\" data-qt-tooltip=\"wikipedia.org\">Alguns dos numerosos e numerados filhos da fam\u00edlia Rosado<\/a><\/span> se tornaram not\u00e1veis: Dix-Sept, que foi governador do estado, Dix-Huit, prefeito, Vingt, deputado federal, e Ving-Un, um agr\u00f4nomo, escritor e benem\u00e9rito da cidade de Mossor\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">Enquanto isso, pessoas de temperamento mais voltado para as ci\u00eancias e as modernidades preferiam dar aos seus filhos nomes em homenagem aos grandes s\u00e1bios da Europa, l\u00edderes militares not\u00e1veis, cientistas do passado e escritores: Victor Hugo, Washington, Galileu, Napole\u00e3o, N\u00e9lson, Wellington, Bismarck, etc. Um nome que surgiu nessa \u00e9poca e ainda \u00e9 popular foi o de Allan Kardec.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">Na \u00e9poca em que a fam\u00edlia Rosado estava numerando seus filhos o Brasil j\u00e1 se tornara uma rep\u00fablica e o franc\u00eas perdia rapidamente popularidade face ao ingl\u00eas. O mesmo fen\u00f4meno do s\u00e9culo anterior se repetiu com sobrenomes americanos: Washington, Jefferson, Lincoln, Wilson, Roosevelt, Kennedy, Jackson \u2014 at\u00e9 Nixon, Johnson e Clinton. Suspeito que Eisenhower escapou pela simples incapacidade das pessoas imaginarem como escreveriam o seu nome.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">Mas, por que isso aconteceu e continua a acontecer? Por que tantos brasileiros gostam de dar a seus filhos nomes que chegam a ser constrangedores?<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/PIXNIO-1668448-640x480.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6276\" width=\"320\" height=\"240\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/PIXNIO-1668448-640x480.jpg 640w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/PIXNIO-1668448-640x480-120x90.jpg 120w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/PIXNIO-1668448-640x480-250x188.jpg 250w\" sizes=\"(max-width: 320px) 100vw, 320px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">Creio que isto acontece porque para os brasileiros, especialmente os mais pobres, dar aos filhos um nome \u201cespecial\u201d \u00e9 uma maneira de se sentirem especiais e de fazerem com que seus filhos se sintam da mesma maneira. Nomes \u201cbonitos\u201d como Jefferson ou Giovanni (este \u00faltimo um equivalente a \u201cJo\u00e3o\u201d, em portugu\u00eas) n\u00e3o s\u00e3o apenas incomuns, tamb\u00e9m contrastam com a escassez de sobrenomes entre as fam\u00edlias mais pobres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">O problema dos sobrenomes \u00e9 antigo no pa\u00eds e afeta at\u00e9 mesmo pessoas que pertencem a estratos m\u00e9dios da sociedade. S\u00e3o maioria os brasileiros, entre eles este que vos escreve, que n\u00e3o t\u00eam registro de sua \u00e1rvore geneal\u00f3gica. Para a maioria de n\u00f3s o conceito de \u201cancestral\u201d \u00e9 uma coisa que recua aos bisav\u00f3s, quando muito. N\u00e3o sabemos os nomes de nossos trisav\u00f3s e raros de n\u00f3s sabemos de onde v\u00eam nossas fam\u00edlias. Al\u00e9m disso, especialmente entre as classes populares, \u00e9 alta a propor\u00e7\u00e3o de pessoas com ancestralidade ind\u00edgena e africana \u2014 que oferecem um desafio \u00e0 onom\u00e1stica porque estes povos tiveram negada sua identidade anterior e foram proibidos de usar seus nomes e sobrenomes ancestrais. Poucas gera\u00e7\u00f5es depois, haviam esquecido sua conex\u00e3o geneal\u00f3gica e se identificavam pelos nomes simples pelos quais eram chamados. Quando absolutamente necess\u00e1rio, eram chamados pelos nomes de seus pais ou m\u00e3es (Jos\u00e9 da Bernardina, Maria do Ant\u00f4nio), ou de seus c\u00f4njuges (indistingu\u00edveis do caso anterior). Se mesmo isso n\u00e3o bastasse, eram associados \u00e0 terra onde residiam, atrav\u00e9s do nome do propriet\u00e1rio. Como diz Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, na apresenta\u00e7\u00e3o de \u201cMorte e Vida Severina\u201d:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p class=\"ui_qtext_para\">\u2014 O meu nome \u00e9 Severino, <br \/>&nbsp;como n\u00e3o tenho outro de pia. <br \/>&nbsp;Como h\u00e1 muitos Severinos, <br \/>&nbsp;que \u00e9 santo de romaria, <br \/>&nbsp;deram ent\u00e3o de me chamar <br \/>&nbsp;Severino de Maria <br \/>&nbsp;como h\u00e1 muitos Severinos <br \/>&nbsp;com m\u00e3es chamadas Maria, <br \/>&nbsp;fiquei sendo o da Maria <br \/>&nbsp;do finado Zacarias. <br \/>&nbsp;<br \/>&nbsp;Mais isso ainda diz pouco: <br \/>&nbsp;h\u00e1 muitos na freguesia, <br \/>&nbsp;por causa de um coronel <br \/>&nbsp;que se chamou Zacarias <br \/>&nbsp;e que foi o mais antigo <br \/>&nbsp;senhor desta sesmaria. <br \/>&nbsp;<br \/>&nbsp;Como ent\u00e3o dizer quem falo <br \/>&nbsp;ora a Vossas Senhorias? <br \/>&nbsp;Vejamos: \u00e9 o Severino <br \/>&nbsp;da Maria do Zacarias, <br \/>&nbsp;l\u00e1 da serra da Costela, <br \/>&nbsp;limites da Para\u00edba. <br \/>&nbsp;<br \/>&nbsp;Mas isso ainda diz pouco: <br \/>&nbsp;se ao menos mais cinco havia <br \/>&nbsp;com nome de Severino <br \/>&nbsp;filhos de tantas Marias <br \/>&nbsp;mulheres de outros tantos, <br \/>&nbsp;j\u00e1 finados, Zacarias, <br \/>&nbsp;vivendo na mesma serra <br \/>&nbsp;magra e ossuda em que eu vivia.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">Entre os escravos e trabalhadores de uma mesma propriedade, para diminuir as ambiguidades surgidas da aus\u00eancia de genealogia, surgiu o uso de nomes incomuns, raramente usados, escolhidos entre os personagens da B\u00edblia e os santos da Igreja, ou ent\u00e3o recolhidos de antigas obras liter\u00e1rias. Era tamb\u00e9m comum o uso de nomes compostos, n\u00e3o s\u00f3 por aumentarem a variedade, mas porque as combina\u00e7\u00f5es podiam resultar sonoras, assim como Homer Simpson certa vez quis se chamar \u201cMax Power\u201d. Entre os escravos negros era especialmente comum o uso de nomes raros de personagens da antiga literatura greco-romana ou medieval, geralmente dados pelos seus senhores, para que nunca houvesse na propriedade dois com o mesmo nome. Assim voltaram a ter uso nomes esquecidos, como Orozimbo, Ambr\u00f3sio, Pancr\u00e1cio, Cunegundes, Agr\u00edcola, Cincinato, Hor\u00e1cio, Or\u00edgenes, Jer\u00f4nimo e outros. Alguns dos nomes usados com essa finalidade se tornaram comuns mais tarde, como Jer\u00f4nimo e Hor\u00e1cio, outros ca\u00edram no esquecimento, como Orozimbo e Cunegundes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">Embora tais nomes fossem usados principalmente entre negros e mamelucos, n\u00e3o eram de modo algum exclusivos deles. Sempre que uma fam\u00edlia tivesse um sobrenome comum, aumentava a probabilidade de escolher um prenome incomum. A quest\u00e3o dos sobrenomes \u00e9 outro problema, pois remete \u00e0 quest\u00e3o da alforria dos escravos e da cristianiza\u00e7\u00e3o dos \u00edndios. Obviamente os \u00edndios n\u00e3o tinham sobrenomes e os africanos n\u00e3o os tinham mais ou n\u00e3o tinham a permiss\u00e3o de us\u00e1-los por n\u00e3o serem \u201ccrist\u00e3os\u201d. Foi necess\u00e1rio, ent\u00e3o, inventar sobrenomes para esta gente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">Felizmente, Portugal tinha a experi\u00eancia anterior com a inven\u00e7\u00e3o de sobrenomes em larga escala. Fora no s\u00e9culo XVI, quando os crist\u00e3os-novos (judeus e mouros conversos) tiveram de se assimilar \u00e0 for\u00e7a. N\u00e3o podendo mais usar nomes \u00e1rabes ou hebraicos, tiveram de escolher nomes portugueses. Em alguns casos, foram nomes inventados, pela simples tradu\u00e7\u00e3o de seus nomes originais. Em outros casos, por\u00e9m, adotaram nomes portugueses que eram cognatos ou que soavam parecidos com o nome que usavam originalmente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">Nessa \u00e9poca o uso de sobrenomes ainda era incipiente em Portugal e basicamente restrito \u00e0s fam\u00edlias nobres. Quando vemos um nome como \u201cPedro \u00c1lvares Cabral\u201d n\u00e3o devemos imaginar que se trata de algu\u00e9m com dois sobrenomes, mas um Pedro, filho de um \u00c1lvaro, da fam\u00edlia Cabral, ou de alguma maneira ligado a um lugar chamado Cabral. Sobrenomes precedidos da preposi\u00e7\u00e3o \u201cde\u201d geralmente indicavam origem geogr\u00e1fica. Sobrenomes sem ela geralmente indicavam origem geneal\u00f3gica. Mas tudo isso j\u00e1 estava meio confuso e cheio de exce\u00e7\u00f5es, com a assimila\u00e7\u00e3o dos crist\u00e3os-novos ficou ainda mais dif\u00edcil de entender. Tanto que ocorreu, entre os s\u00e9culos XVII e XVIII, uma mudan\u00e7a radical nas conven\u00e7\u00f5es onom\u00e1sticas portuguesas, que acabaram adotando o h\u00e1bito de p\u00f4r o nome do pai por \u00faltimo, enquanto na Espanha (e anteriormente no pr\u00f3prio Portugal) este vinha primeiro que o da m\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">As alforrias e cristianiza\u00e7\u00f5es se tornaram relevantes a ponto de influenciar a onom\u00e1stica brasileira e ent\u00e3o essas pr\u00e1ticas, datadas dos s\u00e9culos XVI e seguintes, foram reutilizadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">Em alguns casos, sobrenomes portugueses tradicionais; como Silva, Costa, Sousa e Lima; foram usados de maneira inconsistente para diferenciar ind\u00edgenas (Silva ou Costa), judeus (Lima e Sousa). Em outros casos foram usados nomes dos santos do dia ou da festividade religiosa mais pr\u00f3xima (Natal, Ascens\u00e3o, Assun\u00e7\u00e3o, de Jesus, dos Santos, de Assis). Esses nomes acabaram por se tornar sobrenomes de fato antes do fim do pr\u00f3prio s\u00e9culo XIX.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">Como muita gente descende de ind\u00edgenas e de africanos alforriados, muita gente compartilha esses sobrenomes, especialmente Silva, Oliveira e Sousa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">At\u00e9 aqui explicamos o desejo de dar aos filhos nomes incomuns, mas n\u00e3o \u00e9 esse o \u00fanico motivo pelo qual nos deparamos frequentemente com nomes curiosos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">H\u00e1 casos em que nomes normais se tornaram \u201cengra\u00e7ados\u201d com o passar do tempo por causa de mudan\u00e7a sem\u00e2ntica. At\u00e9 os anos 1950, por exemplo, era bem comum o nome \u201cMarciano\u201d e sua vers\u00e3o feminina. Era uma refer\u00eancia a Marte, o deus romano da guerra, e cognato de \u201cM\u00e1rcio\u201d. Esse nome n\u00e3o causava risos porque a ideia de \u201cmarciano\u201d como o habitante do planeta marte, um homenzinho verde com anteninhas pontudas na cabe\u00e7a, ainda n\u00e3o fazia parte do imagin\u00e1rio popular. Diz-se que houve muitas mulheres chamadas \u201cPrivada\u201d, antes que essa palavra, que era usada no sentido de \u201crecatada\u201d, \u201ct\u00edmida\u201d, se tornasse um eufemismo para o vaso sanit\u00e1rio. No tempo em que n\u00e3o se usava a palavra como sin\u00f4nimo de \u201cfantasma\u201d era comum mulheres se chamarem Alma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">Em alguns casos, tornou-se imposs\u00edvel usar certas combina\u00e7\u00f5es de nomes porque produzem cac\u00f3fatos. Isso pode ser porque a pron\u00fancia da l\u00edngua mudou (anteriormente n\u00e3o havia tais cac\u00f3fatos) ou porque as pessoas n\u00e3o eram t\u00e3o maliciosas. Houve um dia em que ningu\u00e9m achava engra\u00e7ado um homem se chamar Jacinto Pinto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">Outros casos de nomes curiosos derivam da importa\u00e7\u00e3o de nomes e sobrenomes estrangeiros, como o famoso caso do mafioso italiano Tommaso Buscetta, que fugiu para o Brasil sem saber que aqui seu nome seria imposs\u00edvel passar despercebido. Em um pa\u00eds que recebeu milh\u00f5es de italianos, este sobrenome, comum na It\u00e1lia, \u00e9 relativamente raro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">A partir de meados do s\u00e9culo XX come\u00e7ou uma mudan\u00e7a no paradigma onom\u00e1stico nacional. Surgiu o h\u00e1bito de inventar nomes pela combina\u00e7\u00e3o aleat\u00f3ria de s\u00edlabas, como \u201cGilmar\u201d, originalmente uma combina\u00e7\u00e3o de \u201cGilda\u201d e \u201cMarcos\u201d ou de \u201cGilberto\u201d e \u201cMarta, ou pela combina\u00e7\u00e3o de sufixos ex\u00f3ticos com nomes comuns, ou nem tanto, resultando em nomes que n\u00e3o existem em nenhuma l\u00edngua, mas tampouco s\u00e3o portugueses: G\u00edlson, Ja\u00edlson, Eliete, Josete etc.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/s2.glbimg.com\/rAVktgy0VHsqpCgIJSY0fxgWWmE=\/s.glbimg.com\/et\/pr\/f\/original\/2015\/05\/21\/nomes.jpg\" alt=\"Duas jovens com cartazes em que seus nomes est\u00e3o escritos: Pulcl\u00e9ria e Schanohana.\" width=\"310\" height=\"250\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">Foi tamb\u00e9m nessa \u00e9poca que os craques estrangeiros de futebol e os cantores de m\u00fasica pop passaram a \u201cinspirar\u201d os pais brasileiros a dar nomes a seus filhos como Walter (de Fritz Walter), Michael Jackson (e in\u00fameras variantes como Maikel, Maicon, Mayke etc), Madonna, John Lennon, Elton John, Riquelme, Resenbrink etc. Nem preciso dizer que alguns desses nomes s\u00e3o escritos de maneira inimagin\u00e1vel e irreconhec\u00edvel, pois geralmente os pais e os oficiais de cart\u00f3rio que fazem esses registros s\u00e3o semianalfabetos. Como resultado da populariza\u00e7\u00e3o dos nomes \u201cbonitos\u201d, voltou a ser moda entre as classes m\u00e9dias e altas o uso de nomes tradicionais portugueses, para diferenciarem-se dos \u201cnomes de pobre\u201d que se tornaram t\u00e3o comuns.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">Tudo acima escrito explica a maioria dos nomes incomuns que vemos pelo Brasil, e tamb\u00e9m alguns dos mais engra\u00e7ados, mas h\u00e1 casos que simplesmente desafiam qualquer tentativa de sistematiza\u00e7\u00e3o. Por que, em nome do Menino Jesus, algu\u00e9m mentalmente s\u00e3o daria a uma crian\u00e7a um nome como esses?<sup><a href=\"#note\">*<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">Se quiser encontrar uma lista de nomes curiosos, o melhor conselho \u00e9 encontrar uma base de dados de nomes de cidad\u00e3os brasileiros. Um bom lugar para come\u00e7ar \u00e9 pesquisar os elencos dos times brasileiros. Para isso, a Wikip\u00e9dia \u00e9 sua amiga.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"footnote\"><a name=\"note\">*<\/a> Preferi n\u00e3o incluir uma lista de nomes reais para evitar constrangimentos a essa gente, que certamente j\u00e1 padece de suficientes problemas em sua vida di\u00e1ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil tem uma antiga tradi\u00e7\u00e3o de nomes curiosos, \u00e0s vezes rid\u00edculos, que os pais d\u00e3o aos seus filhos; um h\u00e1bito que vem desde os primeiros anos ap\u00f3s a independ\u00eancia. \u00c9 uma tradi\u00e7\u00e3o que passou por diversas fases conforme a orienta\u00e7\u00e3o cultural do pa\u00eds e sua pol\u00edtica externa. Embora eu n\u00e3o seja uma autoridade no assunto, tentarei compartilhar com voc\u00eas um pouco do que sei sobre o assunto. 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