{"id":6323,"date":"2019-03-14T19:59:20","date_gmt":"2019-03-14T22:59:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=6323"},"modified":"2019-07-17T23:48:58","modified_gmt":"2019-07-18T02:48:58","slug":"porque-a-visao-positivista-da-historia-esta-obsoleta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2019\/03\/porque-a-visao-positivista-da-historia-esta-obsoleta\/","title":{"rendered":"Porque a vis\u00e3o positivista da hist\u00f3ria est\u00e1 obsoleta"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Que crit\u00e9rios determinam que o positivismo \u00e9 uma vis\u00e3o obsoleta da hist\u00f3ria?<\/strong> Esta  pergunta foi feita por mim mesmo, no Quora, para ser respondida por quem se  interessasse. A inten\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, desde o in\u00edcio era eu mesmo escrever uma resposta \u2014 motivada pelos coment\u00e1rios recebidos em <a href=\"https:\/\/pt.quora.com\/Quais-foram-as-maiores-distor%C3%A7%C3%B5es-de-fatos-sobre-a-hist%C3%B3ria-do-Brasil-que-voc%C3%AA-aprendeu-na-escola-e-s%C3%B3-depois-percebeu-que-estavam-incorretas\/answer\/Jose-Geraldo-Gouvea\">minha resposta sobre as distor\u00e7\u00f5es da Hist\u00f3ria do Brasil<\/a> que me foram ensinadas na escola.<\/p>\n\n\n\n<p>Confesso  que fiquei inseguro se poderia fazer isso, mas n\u00e3o encontrei nas regras de l\u00e1  nenhuma proibi\u00e7\u00e3o de fazer perguntas a mim mesmo \u2014 apesar de que isso \u00e9  incomum. \u00c9 uma resposta muito longa e eu n\u00e3o espero que todos os <em>trolls<\/em>  que andam patrulhando a internet tenham paci\u00eancia para l\u00ea-la, mas, se voc\u00ea  tem gosto pelo estudo da hist\u00f3ria, talvez considere interessantes essas  observa\u00e7\u00f5es que passo a fazer.<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>De qual positivismo falamos?<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/360px-35._Portrait_of_Wittgenstein-216x300.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6326\" width=\"162\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/360px-35._Portrait_of_Wittgenstein-216x300.jpg 216w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/360px-35._Portrait_of_Wittgenstein-108x150.jpg 108w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/360px-35._Portrait_of_Wittgenstein.jpg 360w\" sizes=\"(max-width: 162px) 100vw, 162px\" \/><figcaption>Ludwig Wittgenstein<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Temos  de come\u00e7ar explicando a diferen\u00e7a o \u201cpositivismo\u201d propriamente dito, uma corrente filos\u00f3fica de origem francesa, e o  \u201cpositivismo l\u00f3gico\u201d, outro movimento filos\u00f3fico, surgido mais tarde entre pensadores de l\u00edngua alem\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<ul><li>O positivismo comteano foi fundado pelo franc\u00eas Auguste Comte na primeira metade do s\u00e9culo XIX.<\/li><li>O positivismo l\u00f3gico surgiu na \t\u00c1ustria e da Alemanha entre as guerras mundiais.<\/li><li>Os grandes luminares do positivismo comteano foram, al\u00e9m de Comte, Henri de Saint-Simon, Pierre-Simon Laplace e \u00c9mil Durkheim.<\/li><li>Os grandes luminares do positivismo l\u00f3gico foram Ludwig Wittgenstein, Rudolf Carnap e Thomas Kuhn.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>O\n positivismo comteano definia a ci\u00eancia como \u201cdescri\u00e7\u00e3o\u201d da realidade, \nenquanto o positivismo l\u00f3gico a propunha como \u201cexplica\u00e7\u00e3o\u201d da realidade.\n S\u00f3 isto basta para negar que as duas escolas sejam a mesma coisa. \nApesar do nome, o \u201cpositivismo l\u00f3gico\u201d <strong>ignora Auguste Comte.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<h2><strong>Positivismo e Marxismo.<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/300px-Auguste_Comte-207x300.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6325\" width=\"207\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/300px-Auguste_Comte-207x300.jpg 207w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/300px-Auguste_Comte-104x150.jpg 104w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/300px-Auguste_Comte.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 207px) 100vw, 207px\" \/><figcaption>Auguste Comte.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Os marxistas tendem a \u201cdenunciar\u201d o positivismo, mas, na  verdade, \u201cpositivismo\u201d e \u201cmarxismo\u201d est\u00e3o no mesmo contexto filos\u00f3fico e compartilham muitas semelhan\u00e7as conceituais. Ambos tinham por objetivo desenvolver uma abordagem \u201cmoderna\u201d do estudo  da Hist\u00f3ria, para substituir a vis\u00e3o teol\u00f3gica que prevalecera at\u00e9  ent\u00e3o. Ambos, inclusive, reivindicam como antecessores os historiadores  do Iluminismo, como Edward Gibbon (autor de <em>Decl\u00ednio e Queda do Imp\u00e9rio Romano<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p>Embora  se baseiem em pressupostos semelhantes, logo de sa\u00edda surgiram  diverg\u00eancias conceituais e metodol\u00f3gicas irreconcili\u00e1veis entre os dois:<\/p>\n\n\n\n<p>O positivismo \u00e9 uma filosofia \u201cmonista\u201d, para a qual todas as ci\u00eancias devem seguir m\u00e9todos baseados em um m\u00e9todo comum (o \u201cm\u00e9todo cient\u00edfico\u201d). Nele h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o relevante com o conceito de \u201cdemarca\u00e7\u00e3o\u201d entre as \u201cci\u00eancias\u201d, vistas como campos separados do conhecimento que n\u00e3o devem contaminar-se reciprocamente. O historiador, por exemplo, deve preservar a sua independ\u00eancia metodol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>O marxismo \u00e9 pluralista: ele concebe que, no m\u00ednimo, existam tr\u00eas diferentes m\u00e9todos cient\u00edficos, correspondentes \u00e0s ci\u00eancias exatas (que produzem conhecimentos amplamente test\u00e1veis), as ci\u00eancias \u201chist\u00f3ricas\u201d (que produzem conhecimentos test\u00e1veis pelo estudo dos registros de observa\u00e7\u00f5es) e as ci\u00eancias \u201chumanas\u201d (cujos m\u00e9todos s\u00e3o desenvolvidos conforme a necessidade de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento). Apesar de conceber os diversos m\u00e9todos cient\u00edficos como <em>diferentes, <\/em>o marxismo os v\u00ea como complementares. A demarca\u00e7\u00e3o estrita \u00e9 um obst\u00e1culo ao entendimento do fen\u00f4meno observado. O historiador deve recorrer, sempre que seja necess\u00e1rio, ao apoio de outras ci\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>O positivismo \u00e9 \u201cfixista\u201d, ou seja, concebe o fato como algo imut\u00e1vel e finito, de que s\u00f3 temos conhecimento incompleto porque temos registros incompletos. O marxismo \u00e9 \u201cdial\u00e9tico\u201d, ou seja, concebe os fatos como din\u00e2micos e abertos, e seu estudo sob diversos \u00e2ngulos pode produzir interpreta\u00e7\u00f5es divergentes. O foco do positivismo \u00e9 obter o conhecimento perfeito de um passado determinado. O foco do marxismo \u00e9 compreender o processo das mudan\u00e7as no passado: o \u201cfato hist\u00f3rico\u201d \u00e9, na verdade, apenas um aspecto de uma evolu\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>Por esses motivos, o positivismo nega a possibilidade de interpreta\u00e7\u00e3o dos fatos hist\u00f3ricos, pois isso seria cometer anacronismo: os fatos do passado pertencem ao passado e somente no passado podem ser encontradas as explica\u00e7\u00f5es sobre eles. Desta forma, um autor do passado, contempor\u00e2neo aos fatos, tem mais autoridade para explic\u00e1-lo do que um autor do presente. O marxismo, por sua vez, considera que o historiador tem n\u00e3o s\u00f3 a possibilidade mas a <em>obriga\u00e7\u00e3o<\/em> de interpretar os fatos que estuda, porque, mesmo estando afastado temporal e espacialmente deles, beneficia-se do distanciamento e pode ter acesso a documentos, informa\u00e7\u00f5es e conhecimentos que n\u00e3o estavam ao alcance de um contempor\u00e2neo.<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos  resumir as diverg\u00eancias dizendo que o historiador positivista se  apresenta como um erudito independente que trabalha com suas fontes de  maneira neutra, enquanto o historiador marxista se apresenta como um  pesquisador multidisciplinar que tem uma abordagem cr\u00edtica das fontes.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, \u201cneutralidade\u201d \u00e9 um termo enganoso, porque abordar acriticamente os textos do passado significa <em>aceitar sem questionamentos a vers\u00e3o produzida pelos autores do passado.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O  marxismo antecipa, ent\u00e3o, a atitude moderna diante da hist\u00f3ria,  enquanto o positivismo \u00e9 a pr\u00f3pria ep\u00edtome do academicismo da \u00e9poca  cl\u00e1ssica.<\/p>\n\n\n\n<h2>O Marxismo e a Hist\u00f3ria Nova.<\/h2>\n\n\n\n<p>Apesar \ndessa modernidade, por todo o s\u00e9culo XIX, a vis\u00e3o marxista ficou \u00e0 \nmargem do pensamento hist\u00f3rico porque n\u00e3o tinha uma metodologia pr\u00f3pria.\n No m\u00e1ximo, havia historiadores com uma \u201cvis\u00e3o marxista\u201d, que se \ndebru\u00e7avam sobre os mesmos documentos usados pelos positivistas. S\u00f3 \ncome\u00e7ou a se falar em um \u201cm\u00e9todo marxista\u201d para o estudo da Hist\u00f3ria nos\n anos 1930, quando a URSS, j\u00e1 consolidada, implantava um curr\u00edculo \npr\u00f3prio para o ensino superior. Essa \u201chist\u00f3ria marxista\u201d, por\u00e9m, nunca \nse constituiu num m\u00e9todo de todo independente. O marxismo est\u00e1 na \nfilosofia da hist\u00f3ria e n\u00e3o propriamente na \u201cpr\u00e1xis\u201d.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/RS-CV-1900B.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6327\" width=\"200\" height=\"293\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/RS-CV-1900B.jpg 200w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/RS-CV-1900B-102x150.jpg 102w\" sizes=\"(max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><figcaption>Capa de uma edi\u00e7\u00e3o da <em>Revue de Synth\u00e8se Historique<\/em><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>A\n oposi\u00e7\u00e3o que o positivismo enfrentou n\u00e3o foi dos marxistas, mas a dos \npr\u00f3prios acad\u00eamicos da Europa, e mais tarde dos Estados Unidos, que \npassaram a denunciar a esterilidade do positivista comtiano. Esta \noposi\u00e7\u00e3o come\u00e7ou ainda na virada do s\u00e9culo XX, com a <em>Revue de Synth\u00e8se<\/em>,\n de Henri Berr, para quem o positivismo cometia \u201cexcessos de erudi\u00e7\u00e3o\u201d e\n deixava as diferentes \u00e1reas do conhecimento demasiadamente separadas.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/RO40245966-194x300.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6328\" width=\"146\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/RO40245966-194x300.jpg 194w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/RO40245966-97x150.jpg 97w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/RO40245966-415x640.jpg 415w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/RO40245966.jpg 619w\" sizes=\"(max-width: 146px) 100vw, 146px\" \/><figcaption>Uma edi\u00e7\u00e3o da revista <em>Annales<\/em> de 1936.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Mesmo pouco reconhecida no come\u00e7o, a <em>Synth\u00e8se<\/em>  atraiu colaboradores de peso, como o antigo positivista Durkheim. No  p\u00f3s-guerra, come\u00e7ou a ganhar influ\u00eancia e deu origem \u00e0 \u201cHist\u00f3ria Nova\u201d,  criada por disc\u00edpulos de Berr, Marc Bloch e Lucien Febvre, que fundaram,  em 1929, em Estrasburgo, <em>Les Annales d\u2019Histoire \u00c9conomique et Sociale<\/em>. Esta revista j\u00e1 cont\u00e9m em seu pr\u00f3prio t\u00edtulo um desafio aberto ao positivismo, por acrescentar \u00e0 hist\u00f3ria (que Fustel de Coulanges considerava uma disciplina &#8220;pura&#8221;) elementos econ\u00f4micos (derivados, principalmente, do marxismo) e sociais (derivados do marxismo e do positivismo renovado de \u00c9mile Durkheim, entre outros).<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>Porque o positivismo comteano entrou em crise.<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Por\n volta da primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XX o ressentimento com o positivismo\n j\u00e1 era difundido, porque o positivismo era visto como uma vertente do \nacademicismo, que come\u00e7ava a ser questionado em diversas frentes.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft\"><img loading=\"lazy\" width=\"230\" height=\"324\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/25299331_10155919452280489_3141494546857989211_n.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6330\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/25299331_10155919452280489_3141494546857989211_n.jpg 230w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/25299331_10155919452280489_3141494546857989211_n-106x150.jpg 106w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/25299331_10155919452280489_3141494546857989211_n-213x300.jpg 213w\" sizes=\"(max-width: 230px) 100vw, 230px\" \/><figcaption>Marc Bloch, co-fundador da <em>Annales<\/em> foi tamb\u00e9m um her\u00f3i de guerra franc\u00eas, que serviu na primeira guerra como soldado e na segunda como membro da resist\u00eancia.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>O  abandono do positivismo ocorreu gradualmente e por diversos motivos,  sendo um dos mais fortes a tese do esgotamento da hist\u00f3ria, segundo a  qual \u201ctoda a hist\u00f3ria fora escrita\u201d a partir dos limitados documentos do  passado que havia. Ocorre que, como bem observou Marc Bloch, ainda <strong>continuaram a ocorrer descobertas de documentos<\/strong>,  que traziam novos elementos para a revis\u00e3o do conhecimento  estabelecido. Se o positivismo fazia parecer que tudo j\u00e1 fora escrito,  qualquer tentativa de reescrever a hist\u00f3ria passava a ser em oposi\u00e7\u00e3o ao  positivismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse\n momento, tornou-se problem\u00e1tico o aspecto tradicionalista da Igreja \nPositivista e suas rela\u00e7\u00f5es com os conservadores. A revis\u00e3o dos \nconhecimentos hist\u00f3ricos a partir de novos dados era uma amea\u00e7a \u00e0s \ninstitui\u00e7\u00f5es estabelecidas, amea\u00e7ando, portanto, a posi\u00e7\u00e3o dos \npositivistas e seus aliados pol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0\n luz da filosofia, positivismo e marxismo padecem, ambos, do v\u00edcio da \nlinearidade. O positivismo nega, por princ\u00edpio, que os fatos hist\u00f3ricos \npossam ser conectados de qualquer forma n\u00e3o sequencial. Cada evento \nhist\u00f3rico \u00e9 \u00fanico e contextualizado. O marxismo afirma, por princ\u00edpio, \nque existe um mecanismo geral na hist\u00f3ria (a luta de classes) e que os \nfatos hist\u00f3ricos n\u00e3o s\u00e3o \u00fanicos, mas seguem padr\u00f5es. Da\u00ed agruparem as \nsociedades segundo \u201cmodos de produ\u00e7\u00e3o\u201d econ\u00f4mica e est\u00e1gios de \ndesenvolvimento cultural. O positivismo v\u00ea a hist\u00f3ria como uma evolu\u00e7\u00e3o \ndo passado rumo ao presente. O marxismo a v\u00ea como um processo que ter\u00e1 \num fim predeterminado: a revolu\u00e7\u00e3o comunista.<\/p>\n\n\n\n<p>Os\n marxistas reivindicavam bases cient\u00edficas e propunham que o historiador\n devia aproximar-se das demais ci\u00eancias para obter elementos que \nembasassem sua an\u00e1lise dos fatos hist\u00f3ricos. Com isso, quaisquer que \nfossem os v\u00edcios originais de sua filosofia, eles se viam obrigados a \nmanter uma mente aberta a novos conhecimentos e fontes, e tamb\u00e9m a \ncontribuir com outros campos do conhecimento. Friedrich Engels, por \nexemplo, escreveu sua obra <em>A Origem da Fam\u00edlia, da Propriedade Privada e do Estado<\/em> a partir de sua leitura de um antrop\u00f3logo americano Henry Morgan.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto\n isso, apesar de reivindicar neutralidade conceitual, Auguste Comte \nhavia constitu\u00eddo n\u00e3o um partido pol\u00edtico, nem uma escola, mas uma \nIgreja. A funda\u00e7\u00e3o desta apresenta um car\u00e1ter muito simb\u00f3lico da real \natitude positivista diante da necess\u00e1ria revis\u00e3o do conhecimento a \npartir de novos dados. Partiram para a atividade pol\u00edtica no campo \nconservador e tentaram \u201csacralizar\u201d seu m\u00e9todo.<\/p>\n\n\n\n<p>A\n longo prazo, este isolacionismo passou a ser visto como uma postura \nintelectualmente castradora, relegou a filosofia comteana ao largo do \npensamento cient\u00edfico geral, e transformou a influ\u00eancia positivista em \numa esp\u00e9cie de obscurantismo reacion\u00e1rio \u2014 exatamente o oposto da \nReligi\u00e3o da Raz\u00e3o que Comte havia planejado. Todos os defeitos \nnormalmente apontados no marxismo existem em grau triplamente maior \nnaquilo em que o positivismo degenerou no s\u00e9culo XX.<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>As contradi\u00e7\u00f5es internas do positivismo comteano.<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Analisemos\n por que raz\u00e3o o positivismo est\u00e1 equivocado e obsoleto em seus pr\u00f3prios\n termos. Para entender isso, precisamos de uma defini\u00e7\u00e3o feita por um \nhistoriador incontestavelmente positivista. Para isso recorremos a \nFustel de Coulanges:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>A\n Hist\u00f3ria \u00e9 uma ci\u00eancia pura(\u2026). O historiador n\u00e3o deve ter outra \nambi\u00e7\u00e3o que a de ver bem os fatos e compreend\u00ea-los com exatid\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 \nem sua imagina\u00e7\u00e3o ou l\u00f3gica que ele os procura, mas sim na observa\u00e7\u00e3o \nminuciosa dos textos, da mesma maneira que o qu\u00edmico encontra os seus em\n experi\u00eancias minuciosamente conduzidas.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Numa_Fustel_de_Coulanges-220x300.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6331\" width=\"220\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Numa_Fustel_de_Coulanges-220x300.jpg 220w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Numa_Fustel_de_Coulanges-110x150.jpg 110w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Numa_Fustel_de_Coulanges.jpg 293w\" sizes=\"(max-width: 220px) 100vw, 220px\" \/><figcaption>Fustel de Coulanges \u00e9 mais relevante dos historiadores positivistas franceses e o \u00fanico cujas obras ainda s\u00e3o amplamente lidas e citadas.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Isso\n significa que a hist\u00f3ria deve ser entendida como uma ci\u00eancia natural: \nsua compreens\u00e3o estaria apenas na observa\u00e7\u00e3o dos registros pelo \nhistoriador, sem qualquer an\u00e1lise. Analisar \u00e9 opinar. Opini\u00e3o \u00e9 algo \nsubjetivo. Uma opini\u00e3o moderna \u00e9 anacr\u00f4nica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e9poca em que os\n fatos ocorreram. Portanto, para o positivista, tentar explicar fatos \u00e9 \nmentir sobre eles, que falam por si e s\u00e3o auto-evidentes, bastando ao \nhistoriador descobrir os documentos e traz\u00ea-los ao conhecimento do \np\u00fablico. O historiador n\u00e3o produz conhecimento, ele \u00e9 um mero \ntransmissor do conhecimento que h\u00e1 nos textos hist\u00f3ricos.<\/p>\n\n\n\n<p>Observe\n que Coulanges se refere a \u201ctextos\u201d, n\u00e3o a documentos. Foi somente com a\n Escola dos Annales que se difundiu o conceito de que as fontes \nhist\u00f3ricas poderiam estar em documentos, monumentos ou resqu\u00edcios \nmateriais.<\/p>\n\n\n\n<p>Tanto \nos marxistas antigos quanto os positivistas tinham obsess\u00e3o por \ndocumentos escritos. Isso os levou a cometer a primeira grande besteira \ndo historicismo euroc\u00eantrico: <strong>a afirma\u00e7\u00e3o de que os povos desprovidos de escrita n\u00e3o possu\u00edam hist\u00f3ria<\/strong>,\n afirma\u00e7\u00e3o muito usada como justificativa para a domina\u00e7\u00e3o e a \ndestrui\u00e7\u00e3o cultural dos povos africanos e asi\u00e1ticos durante o \nneocolonialismo. Contribuiu, tamb\u00e9m, para que o estudo desses povos \nfosse relegado \u00e0 antropologia, negando-lhes a possibilidade de terem sua\n hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 \nesse, no entanto, o maior dos problemas do positivismo, embora seja \nmuito, muito grande. O que torna o positivismo absurdo \u00e9 que ele n\u00e3o \nquestiona a validade dos documentos hist\u00f3ricos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os\n nossos pais costumavam ter um prov\u00e9rbio segundo o qual \u201cpapel aceita \ntudo\u201d. Diziam isso sempre que algu\u00e9m usasse algum livro como argumento \npara uma discuss\u00e3o. Os positivistas, por\u00e9m, n\u00e3o conheceram esse \nprov\u00e9rbio em sua inf\u00e2ncia, pois a sua an\u00e1lise dos documentos hist\u00f3ricos \nse limitava \u00e0 autenticidade destes. Isto \u00e9, lhes interessava saber se o \ndocumento n\u00e3o tinha sido forjado e se o seu conte\u00fado estava de acordo \ncom o conhecimento estabelecido. Uma vez que o documento era verdadeiro e\n incontroverso, consideravam v\u00e1lido o seu conte\u00fado, porque questionar \nesse conte\u00fado seria um anacronismo. O confronto entre os documentos era \nfeito unicamente pelo aspecto quantitativo: a verdade hist\u00f3rica seria \naquela expressa pela maior quantidade de fontes, pura e simplesmente.<\/p>\n\n\n\n<p>A\n depend\u00eancia do conte\u00fado textual leva a um problema: o conflito de \nvers\u00f5es. Ora, sabemos que cada pa\u00eds escreve suas pr\u00f3prias hist\u00f3rias e \nproduz as suas lendas. O que se deve fazer quando dois povos vizinhos \nnarram de maneira divergente a mesma hist\u00f3ria? Deve a vers\u00e3o de um pa\u00eds \nmais populoso prevalecer porque ele pode produzir mais fontes para \namparar suas afirma\u00e7\u00f5es? Segundo o positivismo, sim! Desta forma, a \nvers\u00e3o euroc\u00eantrica da hist\u00f3ria (baseada em muitas fontes) prevalecia \nsobre narrativas confrontantes, porque careciam de fontes. Que os \npr\u00f3prios europeus, em suas guerras coloniais, haviam tratado de destruir\n bibliotecas inteiras a fim de suprimir as fontes discordantes? Isso n\u00e3o\n vinha ao caso!<\/p>\n\n\n\n<p>O \nmais grave de todos os problemas, no entanto, \u00e9 que o positivismo \n\u201cesteriliza\u201d a hist\u00f3ria. Como os fatos s\u00e3o considerados \u00fanicos e \nirrepet\u00edveis, a hist\u00f3ria n\u00e3o tem um \u201cmecanismo\u201d subjacente, o que o \npositivista nos diz \u00e9 que os fatos do passado s\u00e3o desconectados. Isso \nleva ao estudo de datas e nomes, sem que se saiba por que, criando \naquela hist\u00f3ria sem sal que todos detestamos na escola.<\/p>\n\n\n\n<p>Desse\n problema ainda deriva o seu corol\u00e1rio: se a hist\u00f3ria \u00e9 autorreferente e\n depende totalmente do contexto, os fatos s\u00e3o inexplic\u00e1veis, a \nconsequ\u00eancia disso \u00e9 que n\u00e3o se produz conhecimento. Esta hist\u00f3ria n\u00e3o \nnos ajuda a refletir, ela n\u00e3o nos traz li\u00e7\u00f5es nem sobre quem realmente \nsomos, nem sobre os riscos que corremos. Isto torna a hist\u00f3ria uma mera \nliteratura.<\/p>\n\n\n\n<p>Um \nexemplo disso \u00e9 a vis\u00e3o positivista sobre o ind\u00edgena brasileiro. O \ncanibalismo, tra\u00e7o cultural encontrado entre v\u00e1rios povos das Am\u00e9ricas, \u00e9\n mostrado de maneira acr\u00edtica, o que permite que se construa, \nparalelamente \u00e0 \u201cneutralidade\u201d aparente, uma vis\u00e3o deste como um h\u00e1bito \nb\u00e1rbaro e cruel, que apoia a narrativa de selvageria e de indig\u00eancia \nmoral dos nativos. Essa vis\u00e3o, por\u00e9m, n\u00e3o ajuda a entender porque o \ncanibalismo existe e certos povos o praticam, mas outros n\u00e3o. Para o \npositivista, a quest\u00e3o do canibalismo \u00e9 assunto para a antropologia, n\u00e3o\n para a hist\u00f3ria. Ora, como n\u00e3o temos aulas de antropologia nas escolas,\n um conhecimento muito significativo para a compreens\u00e3o de nosso passado\n fica restrito aos c\u00edrculos acad\u00eamicos, enquanto a apresenta\u00e7\u00e3o \u201cfria\u201d \ndos fatos relativos ao canibalismo ind\u00edgena deixa espa\u00e7o para o \ndesenvolvimento e a perpetua\u00e7\u00e3o de explica\u00e7\u00f5es preconceituosas (ou \nsimplesmente falsas, ou irrelevantes).<\/p>\n\n\n\n<p>Isto\n nos leva a um corol\u00e1rio bastante deprimente: uma vis\u00e3o estritamente \npositivista da hist\u00f3ria sonega informa\u00e7\u00e3o \u00fatil, enquanto enumera s\u00e9ries \nde nomes e datas que pouco significam para o estudante.<\/p>\n\n\n\n<p>Desse\n corol\u00e1rio ainda podemos extrair um segundo: a hist\u00f3ria positivista \nfornece os argumentos de sua pr\u00f3pria irrelev\u00e2ncia, justificando aquele \nque diz que <strong>n\u00e3o se deve estudar hist\u00f3ria. <\/strong>Afinal, mesmo a \nnecessidade de estud\u00e1-la n\u00e3o pode ser explicada, tudo \u00e9 um eterno \n\u201cporque sim\u201d que se alterna com um \u201cs\u00f3 sei que foi assim\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente,\n ao isolar a hist\u00f3ria como uma forma de literatura sem finalidade \npr\u00e1tica, o positivismo impede o di\u00e1logo interdisciplinar, o que acaba \npor dificultar o desenvolvimento de outras ci\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>O problema metodol\u00f3gico.<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O\n monismo metodol\u00f3gico, a ideia de que todas as ci\u00eancias deveriam seguir \nparadigmas id\u00eanticos, ou t\u00e3o semelhantes quanto isto fosse poss\u00edvel, era\n uma obsess\u00e3o dos positivistas, mas o monismo n\u00e3o se sustenta como \nm\u00e9todo.<\/p>\n\n\n\n<p>Filosoficamente\n falando, o monismo seria a cren\u00e7a de que todas as coisas possuem a \nmesma ess\u00eancia, enquanto o pluralismo defenderia que existem diferentes \ness\u00eancias. Em filosofia da ci\u00eancia, podemos dizer que, em um n\u00edvel \nbastante b\u00e1sico, a realidade \u00e9 monista, porque tudo que existe se baseia\n em part\u00edculas elementares.<\/p>\n\n\n\n<p>A\n controv\u00e9rsia do positivismo \u00e9 que ele acredita que os mesmos princ\u00edpios\n que governam rea\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas e \u00f3rbitas planet\u00e1rias se aplicariam aos \nacontecimentos da hist\u00f3ria. Os fatos das ci\u00eancias naturais obedecem a \n\u201cleis\u201d, que explicam seu funcionamento e permitem fazer predi\u00e7\u00f5es. Uma \nvez calculada a \u00f3rbita de um corpo celeste, \u00e9 poss\u00edvel saber em que \nponto ele estava em qualquer momento dado no passado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao\n pretender uma abordagem monista da hist\u00f3ria, o positivismo deixa aberta\n uma brecha para a vis\u00e3o teol\u00f3gica: caso venham a ser conhecidas as \n\u201cleis\u201d que governam os fatos hist\u00f3ricos, ser\u00e1 poss\u00edvel prev\u00ea-los. Esta \nconcep\u00e7\u00e3o deriva de uma frase de Her\u00f3doto, segundo a qual se estuda o \npassado a fim de melhor compreender o presente, para estarmos preparados\n para o futuro. Voc\u00ea, marxista, deve ter sentido um estranho inc\u00f4modo ao\n ler isto, porque a ideia de que haveria \u201cleis\u201d nos processos hist\u00f3ricos\n e de que seria poss\u00edvel idealizar os fatos futuros se parece \ndesconfortavelmente com a vis\u00e3o marxista. Por isto eu disse, l\u00e1 no \ncome\u00e7o, que o marxismo e o positivismo partilham semelhan\u00e7as \nconceituais.<\/p>\n\n\n\n<p>A supera\u00e7\u00e3o do positivismo exigiu a aceita\u00e7\u00e3o de que <strong>n\u00e3o se pode estudar ci\u00eancias sociais empregando somente m\u00e9todos quantitativos e an\u00e1lises impessoais das fontes. <\/strong>Com\n o tempo, firmou-se a ideia de que as ci\u00eancias sociais precisavam criar \nseus pr\u00f3prios m\u00e9todos. No caso da hist\u00f3ria, a ideia de que os \nhistoriadores poderiam trabalhar a hist\u00f3ria segundo seus pr\u00f3prios \ntermos, sem ter de recorrer a \u201cleis\u201d atemporais e sem a ideia de um \n\u201csentido\u201d externo ao processo hist\u00f3rico.<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>Por que o positivismo permaneceu influente.<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>A\n influ\u00eancia positivista sobre o ensino de hist\u00f3ria demorou a se \ndissolver porque esta ideologia foi abra\u00e7ada pelos reacion\u00e1rios e \nconservadores do mundo todo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9\n f\u00e1cil entender por que o positivismo ganhou a aten\u00e7\u00e3o dos \nconservadores: a aridez do estudo de nomes e datas facilita a interdi\u00e7\u00e3o\n do debate sobre o passado e o presente. Sob a pretens\u00e3o da \nneutralidade, o positivismo repassa como verdades inquestion\u00e1veis os \nelementos que foram selecionados para preserva\u00e7\u00e3o por aqueles que \ndetiveram o poder no passado. Se voc\u00ea \u00e9 daqueles que criticam a hist\u00f3ria\n dizendo que ela \u00e9 escrita pelos vencedores, voc\u00ea est\u00e1 criticando o \npositivismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa \nfidelidade ao documento oficial permite aos detentores do poder utilizar\n uma abordagem positivista para perpetuar a pr\u00f3pria lenda nacional, \nescondendo aquilo que n\u00e3o interessa porque, segundo as palavras de \nHeisenberg, \u201cpara o positivismo, a realidade \u00e9 apenas aquilo que pode \nser conhecido com clareza\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Rui\n Barbosa, um positivista, comandou a destrui\u00e7\u00e3o dos documentos sobre a \nescravid\u00e3o no Arquivo Nacional, para, segundo ele, \u201capagar a mancha\u201d que\n este passado deixava na Hist\u00f3ria do Brasil. Somente um positivista \nteria tal devo\u00e7\u00e3o pelo documento que suporia que a queima dos registros \nequivaleria ao cancelamento da exist\u00eancia de suas consequ\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>O\n marxismo foi a primeira escola de filosofia das ci\u00eancias sociais que se\n insurgiu contra o eurocentrismo, o formalismo e o reacionarismo; \nencontrados no positivismo comteano. Ao longo do tempo o marxismo se \nesgotou tamb\u00e9m, mas nunca chegou ao estado de degenera\u00e7\u00e3o do \npositivismo, que migrou do terreno da filosofia da ci\u00eancia para o das \nideologias pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao\n cabo de tudo, devido \u00e0 rivalidade entre socialistas e conservadores, \nn\u00e3o foi o marxismo que destronou o positivismo, mas a Escola dos \nAnnales. Ainda bem que foi assim, porque, por mais bem intencionados que\n tenham sido os marxistas, foi esta que conseguiu efetivamente \nsubstituiu a abordagem positivista. A tal ponto que os pr\u00f3prios \nmarxistas parecem ter concedido a derrota. Quando fiz a faculdade de \nhist\u00f3ria, a minha professora de Hist\u00f3ria Antiga, marxista \u201croxa\u201d, dizia \nque era perfeitamente adequado um historiador trabalhar segundo os \nm\u00e9todos da Escola dos Annales, mesmo tendo uma vis\u00e3o marxista. Segundo \nela, a vis\u00e3o marxista se aplica ao geral, enquanto a \u201cHist\u00f3ria das \nMentalidades\u201d (segundo ela a chamava) forneceria as bases para a \npesquisa e os elementos estruturais para a constru\u00e7\u00e3o da narrativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Diferente\n do positivismo, que advogava uma esp\u00e9cie de \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d, no \ncontexto da \u201cHist\u00f3ria Nova\u201d, o conhecimento hist\u00f3rico nunca \u00e9 conhecido \nem sua totalidade, sempre pode ser reinterpretado, sempre podem surgir \nnovos elementos, sempre podem ocorrer \u201cinsights\u201d que o revalorizem. \nPrincipalmente pode ser que cada \u00e9poca tenha interesses espec\u00edficos. \nPortanto, a hist\u00f3ria n\u00e3o pode ser gen\u00e9rica e impessoal.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto,  sim, no terreno acad\u00eamico, a dicotomia entre marxismo e positivismo  est\u00e1 superada h\u00e1 pelo menos quarenta anos no Brasil. \u00c9 espantoso, portanto, que um movimento como o Escola Sem Partido apare\u00e7a justamente propagando a mesma ideologia segundo a qual Auguste Comte um dia criou o positivismo e sua igreja.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Que crit\u00e9rios determinam que o positivismo \u00e9 uma vis\u00e3o obsoleta da hist\u00f3ria? Esta pergunta foi feita por mim mesmo, no Quora, para ser respondida por quem se interessasse. A inten\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, desde o in\u00edcio era eu mesmo escrever uma resposta \u2014 motivada pelos coment\u00e1rios recebidos em minha resposta sobre as distor\u00e7\u00f5es da Hist\u00f3ria do Brasil que me foram ensinadas na escola. 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