{"id":6346,"date":"2019-03-07T11:29:09","date_gmt":"2019-03-07T14:29:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=6346"},"modified":"2019-07-17T23:48:58","modified_gmt":"2019-07-18T02:48:58","slug":"por-que-certa-parte-da-esquerda-odeia-a-logica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2019\/03\/por-que-certa-parte-da-esquerda-odeia-a-logica\/","title":{"rendered":"Por que certa parte da esquerda odeia a l\u00f3gica?"},"content":{"rendered":"\n<p>Correndo o risco de perder muitas amigas feministas, ouso postar aqui uma cr\u00edtica a um <a href=\"http:\/\/revistaursula.com.br\/blog\/2019\/02\/24\/guias-de-falacias-estilistica-rastaquera-de-isopor\/#\">artigo recente da revista \u00darsula<\/a>, de autoria de Louren\u00e7o Fernandes, no qual se encontra um ataque bastante virulento a um certo tipo de debate que costuma ocorrer atualmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, \u00e9 preciso salientar que o fen\u00f4meno analisado por Fernandes \u00e9 um problema real e que merece, sim, uma cr\u00edtica. Ocorre que tal cr\u00edtica me parece ter sido feita de maneira inepta, n\u00e3o s\u00f3 por recorrer a uma linguagem desnecessariamente agressiva (portanto, divisiva), mas tamb\u00e9m por revelar uma incompreens\u00e3o daquilo que se deseja criticar e uma tend\u00eancia ideol\u00f3gica que julgo inapropriada para algu\u00e9m que se diz progressista e de esquerda.<\/p>\n\n\n\n<p>O texto come\u00e7a muito mal ao se apresentar como uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 efic\u00e1cia da argumenta\u00e7\u00e3o racional para demolir certos argumentos utilizados por defensores de minorias:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>N\u00e3o \u00e9 por acaso que \u201caquele carinha\u201d \u00e9 um homem jovem, na maioria dos casos. J\u00e1 tem tempo que vemos como os grupos conservadores tendem a aderir mais frequentemente a esse tipo de comportamento. E eles se valem do manual para desqualificar exatamente os argumentos de grupos marginalizados de qualquer tipo, seja em g\u00eanero, religi\u00e3o, cor, ou sexualidade. Apenas com l\u00f3gicas e fatos, eles v\u00e3o esmagar os seus sonhos de uma sociedade mais justa, suas preocupa\u00e7\u00f5es por reconhecimento do seu grupo social, ou qualquer outra luta que voc\u00ea considere importante. Apenas com argumentos l\u00f3gicos e cient\u00edficos, eles v\u00e3o esmagar suas tentativas pat\u00e9ticas de defender as pol\u00edticas em favor das pessoas trans ou das religi\u00f5es afrobrasileiras.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>N\u00e3o me parece correto rejeitar a l\u00f3gica porque ela destr\u00f3i certos argumentos, \u00e9 como detestar a luz porque revela o que a escurid\u00e3o esconde, \u00e9 como detestar a verdade. Se \u00e9 poss\u00edvel destruir a argumenta\u00e7\u00e3o em favor de certas minorias utilizando apenas a l\u00f3gica, isto n\u00e3o quer dizer que a l\u00f3gica esteja errada, quer dizer que a argumenta\u00e7\u00e3o destru\u00edda era falha. Essa rea\u00e7\u00e3o al\u00e9rgica \u00e0 argumenta\u00e7\u00e3o racional n\u00e3o soa como o tipo de coisa que uma pessoa inteligente e honesta faria. Quando a l\u00f3gica o derrota, voc\u00ea estava sendo irracional. Quando seus argumentos n\u00e3o se sustentam, eles s\u00e3o falhos. Quando voc\u00ea se irrita contra quem o critica com l\u00f3gica, voc\u00ea est\u00e1 admitindo sua inferioridade intelectual e almejando a suprimir o debate.<\/p>\n\n\n\n<p>Certamente os sonhos de justi\u00e7a e reconhecimento merecem nosso comprometimento, mas eles tamb\u00e9m merecem ser defendidos democraticamente e de maneira racional, em vez de transformados em artigos de f\u00e9, sobre os quais pese um an\u00e1tema.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro ponto no qual o artigo chega \u00e0s raias do absurdo \u00e9 em seu elitismo:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Mesmo a voga dos manuais de fal\u00e1cias nas l\u00f3gicas inglesas do XIX era destinada \u00e0s boas maneiras das discuss\u00f5es nos parlamentos, isto \u00e9, por membros j\u00e1 eleitos e muito bem estabelecidos da sociedade inglesa. Pensar que isso pode ser estendido tal e qual para as discuss\u00f5es entre duas pessoas aleat\u00f3rias em qualquer parte da internet beira a loucura, e reveste esse manual, agora in\u00fatil, de um verniz enganoso de bom-senso.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Para o autor, a prerrogativa de emitir opini\u00f5es embasadas na l\u00f3gica (bem como a de receber tais opini\u00f5es) seria um privil\u00e9gio de classe. Estender essa pr\u00e1tica seria uma \u201cloucura\u201d, as massas devem se contentar com discursos mentirosos e manipuladores, com prega\u00e7\u00f5es enviesadas e publicidade sub-rept\u00edcia.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o ocorre ao autor que a difus\u00e3o dos princ\u00edpios de l\u00f3gica argumentativa se deu por espelhamento da difus\u00e3o de pr\u00e1ticas de manipula\u00e7\u00e3o de massas. As massas do s\u00e9culo XIX n\u00e3o precisavam de entender l\u00f3gica argumentativa porque a democracia era quase inexistente, a publicidade era algo muito limitado e a vida c\u00edvica das pessoas se expressava em poucos eventos anuais, como os com\u00edcios e as elei\u00e7\u00f5es. No s\u00e9culo XX, a difus\u00e3o da publicidade atrav\u00e9s da \u201cgrande imprensa\u201d e a populariza\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massas permitiram aos demagogos fascistas tanger povos inteiros, como Mussolini o fez na It\u00e1lia e Hitler, na Alemanha.<\/p>\n\n\n\n<p>Difundir princ\u00edpios de l\u00f3gica argumentativa \u00e9 uma tentativa de proteger o povo, em geral, de mentirosos e fascistas. A popularidade destes princ\u00edpios reflete a opress\u00e3o propagand\u00edstica que sufoca as individualidades. Ao qualificar de \u201cloucura\u201d a difus\u00e3o dos m\u00e9todos racionais de argumenta\u00e7\u00e3o, o autor n\u00e3o s\u00f3 resvala no elitismo como parece compactuar com as pr\u00e1ticas de uma \u00e9poca em que a democracia ainda n\u00e3o existia e ainda ataca uma ferramenta pensada como defesa contra o fascismo. Uma verdadeira rajada de metralhadora no pr\u00f3prio p\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Curioso \u00e9 que o pr\u00f3prio autor n\u00e3o consegue negar a efic\u00e1cia da argumenta\u00e7\u00e3o l\u00f3gica para desarmar os manipuladores:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Mas vale sublinhar que essa divis\u00e3o entre o falso e o verdadeiro n\u00e3o \u00e9 definitivamente eficaz: um enganador continua podendo, por hip\u00f3tese, lan\u00e7ar m\u00e3o de uma fal\u00e1cia que n\u00e3o seja detectada por ningu\u00e9m e conven\u00e7a todos os ouvintes; ou seja, o argumento falacioso ainda tem efic\u00e1cia persuasiva.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Aqui \u00e9 bem \u00f3bvio que somente ser\u00e1 poss\u00edvel que ningu\u00e9m detecte a fal\u00e1cia se ningu\u00e9m conhecer o conceito de l\u00f3gica argumentativa. Se o argumento falacioso ainda tem efic\u00e1cia persuasiva \u00e9 porque a ignor\u00e2ncia generalizada dos princ\u00edpios l\u00f3gicos faz com que os manipuladores tenham curso livre. Assim como o desconhecimento do direito leva as pessoas a cometerem atos que as tornam vulner\u00e1veis juridicamente. Assim como o desconhecimento das regras de tr\u00e2nsito leva os motoristas a se envolverem em acidentes. Os ouvintes s\u00e3o manipulados facilmente porque n\u00e3o conseguem discernir as t\u00e9cnicas falaciosas de debate.<\/p>\n\n\n\n<p> Um ponto em que o artigo parece que acerta a m\u00e3o \u00e9 reconhecer que a \u00e9tica deve preceder \u00e0 l\u00f3gica:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>A distin\u00e7\u00e3o entre o orador honesto e o sofista \u00e9 \u00e9tica; mas quando se sup\u00f5e que a \u00e9tica correspondente necessariamente \u00e0 forma do argumento utilizado, a pergunta se engessou a tal ponto que n\u00e3o pode mais realmente dar conta de todas os diferentes tipos e situa\u00e7\u00f5es de discuss\u00f5es reais, nem, por acaso, da \u00e9tica<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O problema \u00e9 que a \u00e9tica, tal como ele a descreve, \u00e9 um fator subjetivo. N\u00e3o temos como ler a mente das pessoas e saber se est\u00e3o mentindo. Analisar a forma de um argumento pode n\u00e3o ser a solu\u00e7\u00e3o ideal, mas tentar adivinhar se a pessoa est\u00e1 agindo com honestidade a partir de seu car\u00e1ter \u00e9 mais ou menos como ler o futuro na borra do caf\u00e9 ou nas cartas do tar\u00f4. O que fica ainda mais dif\u00edcil quando analisamos um conte\u00fado distante de n\u00f3s, como o discurso de um pol\u00edtico. Se n\u00e3o conseguimos adivinhar a insinceridade de pessoas que convivem conosco no dia a dia, como podemos avaliar a \u00e9tica de uma personalidade p\u00fablica que s\u00f3 conhecemos por discursos? Ent\u00e3o, esse trecho n\u00e3o est\u00e1, de fato, acertando a m\u00e3o: est\u00e1 defendendo uma abordagem subjetiva e irracional de um fato concreto (o discurso pol\u00edtico), gerando um interdito \u00e0 an\u00e1lise objetiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Aparentemente, os grandes inimigos do autor do texto s\u00e3o a democracia e a objetividade. Isto decorre de uma ideia preconcebida segundo a qual a l\u00f3gica argumentativa seria limitada: \u201cOs exclu\u00eddos seriam, imagina-se, os sofistas, mas a verdade \u00e9 que se excluem com isso todos os que usam de argumentos que n\u00e3o se encaixam na estreiteza da escolaridade desses manuais.\u201d Claro que aqui o autor est\u00e1 empregando, com muito gosto, uma tentativa de perverter o sentido do que seja l\u00f3gica argumentativa. Fica parecendo, nas palavras dele, que a l\u00f3gica argumentativa seria uma camisa de for\u00e7a horr\u00edvel que escraviza o pensamento e oprime mulheres, transexuais e negros. <\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img src=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/-xP-attXYvA4\/ThYBi6mCvhI\/AAAAAAAAAFU\/RbSKt6lyUlk\/s1600\/Maquinita2.jpg\" alt=\"\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Na verdade, tudo o que a l\u00f3gica argumentativa requer \u00e9 que as ideias se sucedam de maneira racional, que as premissas conduzam a uma conclus\u00e3o. As \u201cfal\u00e1cias\u201d intencionais nada mais s\u00e3o do que tentativas, estas sim engenhosas e complicadas, de turvar a simplicidade do racioc\u00ednio l\u00f3gico. Se o seu posicionamento pol\u00edtico \u00e9 tal que a exig\u00eancia de conex\u00e3o entre suas ideias lhe pare\u00e7a intoler\u00e1vel, \u00e9 porque o seu posicionamento pol\u00edtico \u00e9 indefens\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o ponto mais baixo do texto \u00e9 quando ele se mete a usar \u201cexemplos\u201d de circunst\u00e2ncias em que seria \u201cobrigat\u00f3rio\u201d empregar argumentos considerados falaciosos.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro exemplo envolve uma incompreens\u00e3o do que significa o ataque pessoal:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Falar mal de uma pessoa ou dos antecedentes de sua vida n\u00e3o \u00e9 considerado pertinente a uma discuss\u00e3o; \u00e9 a famosa ad hominem. Essa regra exclui completamente a possibilidade de que a vida e os atos da pessoa sejam importantes na discuss\u00e3o. Por tr\u00e1s de um v\u00e9u de pluralismo e democracia, ocorre a neutraliza\u00e7\u00e3o de todos os participantes, bons ou maus. Se isso j\u00e1 n\u00e3o poderia dar certo nem numa discuss\u00e3o de internet, o que dizer de uma discuss\u00e3o pol\u00edtica hipot\u00e9tica em que o defensor da causa \u00e9 diretamente respons\u00e1vel pelos lucros advindos da decis\u00e3o? \u00c9 realmente irracional apontar a conex\u00e3o entre uma pessoa que defende uma empresa criminosa e os lucros dessa empresa? O fato de a pessoa ganhar pessoalmente com os ganhos da empresa n\u00e3o conta na hora de pesar seus argumentos?<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>\u00c9 claro que uma pessoa comprometida desta forma tenderia a defender sua posi\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m \u00e9 claro que apontar esta circunst\u00e2ncia \u00e9 necess\u00e1rio. O que n\u00e3o \u00e9 claro \u00e9 que o debate se limite a isso. A exist\u00eancia do conceito de ataque pessoal (\u201cad hominem\u201d) n\u00e3o significa que o debate, uma vez identificada esta fal\u00e1cia, deva terminar, excluindo totalmente outros fatores. Se \u00e9 justo usar o conceito de envolvimento pessoal para <em>suspeitar<\/em> do envolvimento de determinada pessoa, n\u00e3o \u00e9 justo que a suspeita d\u00ea fim ao debate.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Tomar alguma ocorr\u00eancia passada como regra esperada para o futuro, sem confirma\u00e7\u00e3o da conex\u00e3o entre uma coisa e outra, \u00e9 considerado, em geral uma generaliza\u00e7\u00e3o apressada. Mas, se uma pol\u00edtica p\u00fablica muito ruim, de resultados terr\u00edveis, est\u00e1 para ser copiada pelo nosso governo, configura generaliza\u00e7\u00e3o apressada buscar impedir que a pol\u00edtica seja instaurada? E quando se faz isso por precau\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, sem comprova\u00e7\u00e3o definitiva da rela\u00e7\u00e3o entre a pol\u00edtica p\u00fablica e o p\u00e9ssimo resultado, a decis\u00e3o agora ficou irracional?<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Obviamente que o conceito de generaliza\u00e7\u00e3o apressada n\u00e3o se aplica ao caso citado, sen\u00e3o tangencialmente. Muito mais produtivo aqui seria fazer o contr\u00e1rio: alegar que a pol\u00edtica proposta n\u00e3o tem evid\u00eancias pr\u00e1ticas de sucesso, ao mesmo tempo em que j\u00e1 tem evid\u00eancias, ainda que prec\u00e1rias, de insucesso. O autor n\u00e3o se d\u00e1 conta de que as mesmas cartas est\u00e3o dispon\u00edveis para os dois lados do jogo, desde que tenham o discernimento de us\u00e1-las. Abolir o baralho n\u00e3o far\u00e1 com que os jogadores compulsivos deixem de perder dinheiro e abolir o debate racional n\u00e3o tornar\u00e1 os incompetentes e est\u00fapidos menos vulner\u00e1veis \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o pelos espertos. Na verdade, ao aumentar a quantidade de pessoas incompetentes para detectar os embustes, tornar\u00e1 a todos mais vulner\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Se uma decis\u00e3o p\u00fablica incide diretamente sobre uma popula\u00e7\u00e3o de certo tipo e ela diz, com todas as letras, que n\u00e3o est\u00e1 satisfeita com a situa\u00e7\u00e3o, por exemplo, de destitui\u00e7\u00e3o de suas terras. Se o grupo tenta argumentar que n\u00e3o podem destituir suas terras porque \u00e9 ruim ficar sem suas terras, isso configura um c\u00edrculo vicioso? O interesse dos indiv\u00edduos n\u00e3o pode ser princ\u00edpio de si mesmo?<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>N\u00e3o, o interesse dos indiv\u00edduos n\u00e3o pode ser princ\u00edpio de si mesmo, porque se assim for n\u00e3o haver\u00e1 meios de se obter abrigo legal para ideias de prote\u00e7\u00e3o a interesses coletivos. A base do contrato social \u00e9 que os direitos individuais s\u00f3 est\u00e3o devidamente protegidos enquanto aceitos como coletivos. Todos t\u00eam o direito \u00e0 seguran\u00e7a pessoal, por exemplo, mas eu n\u00e3o tenho o direito de matar voc\u00ea s\u00f3 porque \u00e9 do meu interesse faz\u00ea-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os direitos coletivos criados para proteger os direitos individuais temos, por exemplo, o direito \u00e0 propriedade privada, que o autor parece querer defender no trecho em quest\u00e3o. O que torna ileg\u00edtima a decis\u00e3o p\u00fablica de destituir um grupo de suas terras n\u00e3o \u00e9 o mero fato de esse grupo estar insatisfeito, mas a viola\u00e7\u00e3o de direitos gerais. A exemplo do item anterior, se \u00e9 poss\u00edvel usar argumentos \u201cl\u00f3gicos\u201d (com aspas e a devida v\u00eania) para atacar esta popula\u00e7\u00e3o desassistida, \u00e9 igualmente poss\u00edvel, e at\u00e9 mais f\u00e1cil, utilizar argumentos l\u00f3gicos para defend\u00ea-la.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Se um projeto de lei aparece sob autoria de um not\u00f3rio p\u00e9ssimo deputado, que toda a sua vida lutou contra os interesses de determinado grupo social, \u00e9 irracional que esse grupo se oponha ao projeto antes de terminar de verificar sua pertin\u00eancia? Isso seria, por acaso, algum tipo de fal\u00e1cia gen\u00e9tica?<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Sim, seria, mas seria muito e seria com for\u00e7a. Rejeitar de plano um projeto \u201cantes de terminar de verificar sua pertin\u00eancia\u201d \u00e9 uma forma de intoler\u00e2ncia e de irracionalidade. Equivale a demonizar o advers\u00e1rio e considerar que somente um lado do debate pol\u00edtico pode possuir a virtude. A esquerda, que tanto boicote sofreu devido ao estigma de meramente ser de esquerda, <em>n\u00e3o tem o direito<\/em> de recair nesse pensamento restritivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Esquece-se de que foi um racista (Lyndon Johnson) que implementou os direitos civis dos negros nos EUA, que foi um corrupto (Paulo Maluf) que criou as primeiras regras sanit\u00e1rias para restaurantes e hot\u00e9is no Brasil, que foi um entreguista (Fernando Henrique Cardoso) que estabilizou nossa pol\u00edtica monet\u00e1ria, que foi um ditador (Get\u00falio Vargas) que modernizou as rela\u00e7\u00f5es trabalhistas no pa\u00eds, que foi um general golpista (Henrique Lott) que defendeu a nossa democracia por tr\u00eas vezes contra tentativas de golpes. Por mais que um deputado tenha sido p\u00e9ssimo em toda a sua carreira, ele sempre pode come\u00e7ar a mudar ou pode, mesmo sem ter mudado, propor leis que sejam do interesse de seu grupo particular de poder, mas tamb\u00e9m sejam do interesse da sociedade em geral.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais adiante o autor volta a enfatizar sua obsess\u00e3o com a subjetividade e a sua vis\u00e3o da racionalidade como um empecilho, em vez de uma ferramenta:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Quando as formalidades dos manuais de fal\u00e1cias passam para o ambiente pol\u00edtico (ret\u00f3rico), portanto, elas deixam de ser funcionais. Frequentemente elas funcionam como fantasmas de regras que s\u00f3 atravancam o discurso e n\u00e3o deixam que as verdadeiras quest\u00f5es se coloquem. Isso porque, na \u00e2nsia de legislar o logos, elas voluntariamente deixam de lado o ethos (o car\u00e1ter de quem fala) e o pathos (as vontades e sentimentos das pessoas interessadas), o que significa, justamente, a exclus\u00e3o de qualquer quest\u00e3o pol\u00edtica. O pol\u00edtico, por envolver a vida das pessoas, est\u00e1 necessariamente misturado com o car\u00e1ter dos disputantes e com o interesse dos ouvintes nessas disputas.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Quais seriam as \u201cverdadeiras quest\u00f5es\u201d da pol\u00edtica? Como se pode legislar a \u00e9tica do indiv\u00edduo? Como podemos avaliar a sinceridade das emo\u00e7\u00f5es de um interlocutor? Por que temos de concluir que a pol\u00edtica n\u00e3o pode ser voltada para a verdade, mas para a \u00e9tica e para as emo\u00e7\u00f5es? A resposta \u00e9 simples: o autor, sem o saber, est\u00e1 defendendo abertamente os valores do fascismo.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><ul style=\"list-style-type: none\"><li>O fascismo n\u00e3o v\u00ea o mundo apenas sobre os aspectos materiais e superficiais pelos quais o homem aparece enquanto indiv\u00edduo, senhor de si, autocentrado, sujeito \u00e0 lei natural e que o induz instintivamente a uma vida de prazer ego\u00edsta moment\u00e2neo; ele n\u00e3o v\u00ea somente o indiv\u00edduo, mas a na\u00e7\u00e3o e o pa\u00eds, indiv\u00edduos e gera\u00e7\u00f5es ligados por uma lei moral.<\/li><li>[&#8230;]<\/li><li>Nenhuma a\u00e7\u00e3o \u00e9 isenta de julgamento moral; nenhuma atividade pode ser desprovida do valor que um prop\u00f3sito moral confere a tudo.<\/li><li>[&#8230;]<\/li><li>N\u00e3o acreditamos em uma solu\u00e7\u00e3o \u00fanica, seja esta econ\u00f4mica, pol\u00edtica ou moral, em uma solu\u00e7\u00e3o linear para os problemas da vida, porque [&#8230;] a vida n\u00e3o \u00e9 linear e n\u00e3o pode ser reduzida a um segmento tra\u00e7ado por necessidades primordiais.<\/li><li>[&#8230;]<\/li><li>O conceito de liberdade n\u00e3o \u00e9 absoluto, porque nada \u00e9 absoluto na vida.<\/li><\/ul><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Todas estas s\u00e3o frases de autoria de Mussolini e Giovanni Gentili, contidas na obra \u201cDoutrina do Fascismo\u201d. Como acompanho o debate pol\u00edtico de esquerda no Brasil j\u00e1 faz algum tempo, n\u00e3o me surpreendo de ver esses valores compartilhados por quem se diz esquerdista.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, ent\u00e3o, se eu disse l\u00e1 no come\u00e7o que a cr\u00edtica do texto \u00e9 v\u00e1lida em princ\u00edpio, por que me dediquei a desconstruir a argumenta\u00e7\u00e3o que ele emprega? N\u00e3o terei cometido, ali\u00e1s, uma fal\u00e1cia semelhante \u00e0 culpa por associa\u00e7\u00e3o, ou ao <em>ad Hitlerum<\/em>?<\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, \u00e9 verdade que existe uma grande imprecis\u00e3o no entendimento geral do que sejam fal\u00e1cias \u2014 e isso n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 no Brasil. N\u00e3o devemos considerar isso um perigo, no entanto. Mesmo uma pequena dose de conhecimento pode ser a semente para um aprofundamento maior. Parafraseando o pr\u00f3prio Louren\u00e7o Fernandes, o perigo n\u00e3o est\u00e1 na formalidade, mas na \u00e9tica de quem emprega a formalidade. <\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, n\u00e3o nos cabe atacar a ferramenta por culpa da incompet\u00eancia de quem a usa. A mesma pedra que quebra a vidra\u00e7a cont\u00e9m a s\u00edlica de que ela \u00e9 feita. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 v\u00e1lido pensar que os bons argumentos s\u00e3o um obst\u00e1culo \u00e0s boas causas. Funciona exatamente ao contr\u00e1rio: as boas ideias sempre podem ser defendidas atrav\u00e9s de bons argumentos e se \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil demolir os argumentos que defendem uma causa, talvez o problema esteja na causa ser indefens\u00e1vel, n\u00e3o na crueldade de quem a demole com argumentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Se h\u00e1 um interesse difundido pela argumenta\u00e7\u00e3o l\u00f3gica, devemos aliment\u00e1-lo e convencer essas pessoas a irem al\u00e9m, a aprenderem mais e a aperfei\u00e7oarem o seu entendimento. \u00c9 uma pena que o autor do artigo prefira combater o conhecimento e celebrar a \u00e9poca em que este era dom\u00ednio de alguns privilegiados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Correndo o risco de perder muitas amigas feministas, ouso postar aqui uma cr\u00edtica a um artigo recente da revista \u00darsula, de autoria de Louren\u00e7o Fernandes, no qual se encontra um ataque bastante virulento a um certo tipo de debate que costuma ocorrer atualmente. Em primeiro lugar, \u00e9 preciso salientar que o fen\u00f4meno analisado por Fernandes \u00e9 um problema real e que merece, sim, uma cr\u00edtica. Ocorre que tal cr\u00edtica me parece ter sido feita de maneira inepta, n\u00e3o s\u00f3 por recorrer a uma linguagem desnecessariamente [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6347,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[181],"tags":[207,234,249,28,68],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6346"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6346"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6346\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6358,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6346\/revisions\/6358"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6347"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6346"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6346"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6346"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}