{"id":6359,"date":"2019-04-02T10:15:16","date_gmt":"2019-04-02T13:15:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=6359"},"modified":"2019-07-17T23:48:58","modified_gmt":"2019-07-18T02:48:58","slug":"consideracoes-sobre-a-ingratidao-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2019\/04\/consideracoes-sobre-a-ingratidao-politica\/","title":{"rendered":"Considera\u00e7\u00f5es sobre a Ingratid\u00e3o Pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"\n<p>H\u00e1 alguns anos, mais precisamente em julho de 2013, deparei-me, algo chocado, com um texto de Stephen Kanitz para a revista Veja intitulado &#8220;Por que me odeias se eu nunca te ajudei?&#8221; Eu tinha certo respeito pelo autor, a quem eu considerava um raro economista que tinha palavras humanistas, em vez de falar somente em n\u00fameros frios que tinham de ser preservados, mesmo \u00e0 custa de sangue, suor, l\u00e1grimas e ossos. Nesse dia eu pressenti que algo mudara.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqueles foram os dias de impacto das infames &#8220;Jornadas de Junho&#8221;, que pariram o pa\u00eds que hoje temos. Coincidentemente, Kanitz, que at\u00e9 ent\u00e3o se manifestava de maneira quase neutra em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica, de uma semana para outra, ap\u00f3s publicar esse artigo, quase como se obedecesse a um comando de controle remoto, se tornou mais um cr\u00edtico acerbo do governo. Bastou a sensa\u00e7\u00e3o de que o governo perdera apoio popular e ele em seguida perdeu o apoio de uma parte significativa da imprensa (Kanitz inclu\u00eddo) como se esses ve\u00edculos estivesse contidos a contragosto, ansiosos por alguma senha que os autorizasse a ladrar.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse choque me impediu, na \u00e9poca, de refletir mais profundamente sobre o artigo de Kanitz, pois eu passei a v\u00ea-lo como um &#8220;duas caras&#8221;, como um aproveitador que surfava a onda de popularidade do governo e que saltou imediatamente para a onda de oposi\u00e7\u00e3o assim que o vento virou. N\u00e3o sei se o leitor compartilha do meu sentimento, mas considero esse tipo de gente absolutamente detest\u00e1vel. Por causa de meu nojo da aparente invers\u00e3o de Kanitz, deixei de considerar que ele tivesse raz\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O tempo, somente ele, foi capaz de me trazer elementos para analisar com frieza a pergunta inquietante que estava no pr\u00f3prio t\u00edtulo do artigo. Apesar de ser ateu e marxista, confesso que uma base de valores crist\u00e3os ainda existe dentro de mim,<a name=\"valores\" href=\"#1\"><sup>1<\/sup><\/a> pendente de desconstru\u00e7\u00e3o, e isso me condicionava a entender a pergunta como uma alus\u00e3o a uma falha de car\u00e1ter. A ideia de odiar a quem nos ajuda me parece coisa que somente os canalhas fazem.<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente, talvez porque o PT \u00e9 um partido nascido de movimentos sociais de uma igreja, \u00e9 muito prevalente entre os filiados e simpatizantes exatamente esta percep\u00e7\u00e3o moralista de base crist\u00e3. Por causa disso, tendem a se sentir &#8220;tra\u00eddos&#8221; pelo povo que os abandonou na hora mais escura, apesar de todos os progressos e programas trazidos pelas pol\u00edticas do partido no poder. Em uma primeira an\u00e1lise, e me d\u00f3i muito dizer isso, a avalia\u00e7\u00e3o moralista reflete uma vis\u00e3o condescendente da cidadania, mas o problema \u00e9 mais profundo que isso: existe a\u00ed, tamb\u00e9m, uma incompreens\u00e3o filos\u00f3fica que vai at\u00e9 o osso.<\/p>\n\n\n\n<p>Por mais bela que seja a ideologia da gratid\u00e3o, que est\u00e1 no cerne do cristianismo e dos valores <em>professados<\/em> (mas raramente praticados) por nossa cultura, continua sendo uma &#8220;ideologia de escravos&#8221;, nas palavras de Nietzsche.<a href=\"#2\" name=\"escravos\"><sup>2<\/sup><\/a> A gratid\u00e3o \u00e9 uma corrente invis\u00edvel que nos prende a pessoas que detestamos por causa de favores que nos foram prestados, muitas vezes sem que ped\u00edssemos. Somos obrigados a ter gratid\u00e3o para que a sociedade n\u00e3o nos veja como canalhas e, por causa disso, verdadeiros canalhas, dotados de dinheiro, escolhem quem, quando e como ajudam, para construir a rede de favores e gratid\u00f5es que os proteger\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f3dio a quem nos ajuda pode ser uma viola\u00e7\u00e3o da moral crist\u00e3, e muitas vezes \u00e9 uma falha de car\u00e1ter mesmo, por\u00e9m deve ser interpretado como um grito de independ\u00eancia daquele que, normalmente, n\u00e3o tem ag\u00eancia nem sobre as prioridades de sua vida. Aquele que gosta de comer feij\u00e3o, mas recebe uma doa\u00e7\u00e3o de macarr\u00e3o. Aquela que queria ter uma motocicleta, mas ganhou uma bicicleta. Aquele que queria ser artista, mas ganhou a oportunidade de ser pescador.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft\"><img src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/517px-Portrait_of_Friedrich_Nietzsche-259x300.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6361\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>O tempo todo a sociedade nos imp\u00f5e papeis que n\u00e3o queremos, nos condiciona a seguir caminhos que n\u00e3o s\u00e3o aqueles que desej\u00e1vamos trilhar, nos d\u00e1 de presente objetos que n\u00e3o s\u00e3o aqueles que quer\u00edamos possuir. Quase sempre esses papeis s\u00e3o escolhidos para n\u00f3s por quem acredita que est\u00e1 ajudando, esses caminhos s\u00e3o decididos por planejamentos que n\u00e3o nos consultaram, esses objetos s\u00e3o escolhidos por crit\u00e9rios que envolvem somente a conveni\u00eancia de quem os compra para distribuir. O \u00f3dio que nasce da recep\u00e7\u00e3o desta ajuda n\u00e3o \u00e9 uma falha de car\u00e1ter, \u00e9 a alergia que o esp\u00edrito humano tem quando percebe, mesmo que vagamente, a viola\u00e7\u00e3o de seu livre-arb\u00edtrio.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso foi poeticamente expresso por Nietzsche, em \u201cAssim Falava Zaratustra\u201d, pondo na boca de seu profeta as seguintes palavras:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Envergonho-me de ter visto sofrer ao que sofre, por causa de sua vergonha; e, quando acudi em seu aux\u00edlio, feri-lhe rudemente em seu orgulho.<\/p><p>Grandes favores n\u00e3o tornam ningu\u00e9m agradecido, antes vingativo; e mesmo o pequeno benef\u00edcio, n\u00e3o sendo esquecido, torna-se um verme roedor.<\/p><p>[&#8230;]<\/p><p>Eu, por\u00e9m, sou dos que d\u00e3o: agrada-me dar, como amigo, aos amigos. Colham, todavia, os estranhos e os pobres, por si mesmos, o fruto da minha \u00e1rvore: \u00e9 menos humilhante para eles.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>As ideologias pol\u00edticas de direita, que parecem ter entendido Nietzsche muito melhor que a esquerda, apesar de o perverterem para seus fins, se aproveitaram desta constata\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica para propor uma \u00e9tica &#8220;p\u00f3s-crist\u00e3&#8221; na qual &#8220;fazer o bem&#8221; deixou de ser uma virtude. Comparem as palavras do fil\u00f3sofo com as de Stephen Kanitz:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Isto  inclui pobres e mendigos, que no fundo acabam detestando as pessoas que  d\u00e3o as esmolas, as bolsas fam\u00edlia, a sa\u00fade e a educa\u00e7\u00e3o gr\u00e1tis.<\/p><p>Pobre quer oportunidade, para poder pagar pelo que precisa, por m\u00e9rito pr\u00f3prio.<\/p><p>Pobres querem pagar pelo seu transporte com dinheiro ganho honestamente, e n\u00e3o \u201c<em>redistribu\u00eddo<\/em>\u201d dos cofres p\u00fablicos.<\/p><p>Pobre quer pagar diretamente o seu m\u00e9dico e seu professor, \u00fanica forma de garantir um atendimento decente e humanizado.<\/p><p>Pobre n\u00e3o quer sa\u00fade gr\u00e1tis, educa\u00e7\u00e3o gr\u00e1tis e a\u00ed ter que aceitar um m\u00e9dico qualquer, ou um professor desmotivado j\u00e1 que a <em>cavalo dado n\u00e3o se olha os dentes<\/em><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel que Kanitz, se n\u00e3o leu Nietzsche, chegou \u00e0s mesmas conclus\u00f5es que ele pela leitura de autores que o leram. Estas ideias, conforme definidas por Kanitz, n\u00e3o s\u00e3o essencialmente nietzscheanas, s\u00e3o o discurso &#8220;meritocr\u00e1tico&#8221; dos &#8220;neolibs&#8221;, da direita moderna. \u00c0 parte o fato de que Kanitz n\u00e3o tem como saber exatamente o que os pobres realmente querem (no m\u00e1ximo ele pode expressar o que pessoas de classe m\u00e9dia alta, como ele mesmo, acham que os pobres querem), este posicionamento \u00e9 um exemplar perfeito da ideologia direitista contempor\u00e2nea.<\/p>\n\n\n\n<p>A direita conseguiu instrumentalizar perfeitamente o mal-estar civilizat\u00f3rio resultante do problema da caridade, transformando a virtude crist\u00e3 em um v\u00edcio. Um pouco mais adiante em seu artigo, Kanitz declara, com todas as letras, que as pol\u00edticas de estado minam a democracia porque criam depend\u00eancia:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Al\u00e9m do mais, pobre que vive de esmola morre de medo que um dia estes \u201c<em>altru\u00edstas no poder\u201d<\/em> mudem de ideia ou mudem de causa priorit\u00e1ria, e v\u00e1 deix\u00e1-los na mis\u00e9ria novamente. \u00c9 o mesmo <em>stress<\/em> de todos n\u00f3s que tememos perder o emprego.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O que a direita n\u00e3o faz, nem Kanitz o fez em seu artigo, \u00e9 ler o par\u00e1grafo de Nietzsche seguinte aos citados anteriormente:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-large\"><p>Dever-se-iam, por\u00e9m, suprimir totalmente os mendigos. Na verdade, desgosta-se uma pessoa por lhes dar; e desgosta-se por lhes n\u00e3o dar. Assim sucede com os pecadores e com as consci\u00eancias manchadas! Crede-me, meus amigos: os remorsos impelem a morder.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O que o fil\u00f3sofo diz \u00e9 que <em>a exist\u00eancia de desigualdades cria desconfortos morais que s\u00e3o resolvidos pelo \u00f3dio e pela viol\u00eancia<\/em>. No jarg\u00e3o de Zaratustra, &#8220;mendigo&#8221; \u00e9 todo aquele que vive a pedir o que lhe falta. A desigualdade cria desconfortos porque ela n\u00e3o \u00e9 natural, \u00e9 resultante de uma pervers\u00e3o do estado de natureza, criada pela civiliza\u00e7\u00e3o. Suprimir totalmente os mendigos n\u00e3o \u00e9 uma conclama\u00e7\u00e3o ao genoc\u00eddio dos pobres,<a href=\"#3\" name=\"mendigos\"><sup>3<\/sup><\/a> mas a aspira\u00e7\u00e3o por uma sociedade em que ningu\u00e9m mais se sentisse impelido a pedir ou dar. Os doadores n\u00e3o se sentiriam for\u00e7ados pela compaix\u00e3o e os pedintes n\u00e3o seriam constrangidos pela necessidade. N\u00e3o necessariamente se suprimiria a desigualdade, se suprimiria a vulnerabilidade que quebra o orgulho a tal ponto que alguns aceitam pedir, e quebra a \u00e9tica a tal ponto que alguns aceitam dar.<\/p>\n\n\n\n<p>O que a direita diz \u00e9 que a exist\u00eancia da desigualdade \u00e9 um fato dado, que os mais favorecidos n\u00e3o t\u00eam responsabilidade alguma pelos &#8220;pedintes&#8221;, que a nega\u00e7\u00e3o da d\u00e1diva \u00e9 uma esp\u00e9cie de novo dever moral nessa religi\u00e3o dos novos tempos e que somente os pobres podem salvar-se a si mesmos (ainda que joguem contra a mesa com um baralho de cartas marcadas).<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Kanitz n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simpl\u00f3rio (os grandes luminares intelectuais da direita n\u00e3o o s\u00e3o, as sandices mais evidentes s\u00e3o perpetradas por seus seguidores e diluidores, a eles lhes basta n\u00e3o insistirem muito em desmentir as vers\u00f5es distorcidas e atenuadas do pr\u00f3prio pensamento). Ele explica a rea\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de um tra\u00e7o cultural:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Por isto o PT a longo prazo poder\u00e1 passar a ser o partido mais odiado de todos. Mesmo se mantendo por muitos mais anos no poder.<\/p><p>No Brasil este sentimento \u00e9 ainda pior.<\/p><p>Nossa cultura exige, corretamente, que se diga <strong>Obrigado<\/strong>, a cada favor e benesse.<\/p><p>Quem recebe uma benesse no Brasil faz quest\u00e3o de dizer que aquilo n\u00e3o \u00e9 um favor, mas uma simples troca.<\/p><p>Eu n\u00e3o estou recebendo um favor de voc\u00ea mas efetuando uma troca, a obriga\u00e7\u00e3o de lhe devolver o mesmo favor no futuro.<\/p><p>Estou, por assim dizer, assinando uma promiss\u00f3ria, e quitando j\u00e1 este seu d\u00e9bito com um cr\u00e9dito meu, mesmo que seja pago no futuro.<\/p><p>A troca por uma obriga\u00e7\u00e3o futura \u00e9 muito mais digna para o pobre ou o recebedor do que um simples agradecimento, como se faz nos pa\u00edses anglo-sax\u00f5es.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A raiz do \u00f3dio estaria, segundo Kanitz, na atitude brasileira frente aos favores prestados. Apesar da p\u00e1tina de cristianismo, o brasileiro teria, segundo o autor, um esp\u00edrito eminentemente pr\u00e1tico, no qual todos os atos geram consequ\u00eancias e obriga\u00e7\u00f5es. Diante de um favor, somos obrigados a retribuir; se n\u00e3o podemos, sentimo-nos em falta, pomo-nos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para o futuro. Esse \u00e9 o verme roedor de que fala Nietzsche: a qualquer momento, agora ou nunca, podemos ser cobrados pelo favor pendente, essa d\u00edvida inadimplida que carregamos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso o povo n\u00e3o saiu \u00e0s ruas para defender o governo diante dos ataques da oposi\u00e7\u00e3o: a destrui\u00e7\u00e3o daquele a quem devemos \u00e9 uma forma de cancelar as nossas d\u00edvidas sem que n\u00f3s mesmos tenhamos de pag\u00e1-las ou de matar-lhes.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a passividade dos receptores menos favorecidos das pol\u00edticas governamentais se explica por esse desejo secreto de &#8220;queima da promiss\u00f3ria&#8221;, a ades\u00e3o em massa da classe m\u00e9dia reflete o &#8220;desejo de morder&#8221; a que Nietzsche aludiu. Diferente das classes populares, que apenas intuem seus desejos e os sublimam de maneira muitas vezes ca\u00f3tica, a classe m\u00e9dia sabe muito bem o que quer e costuma express\u00e1-lo de maneira muito enf\u00e1tica e materialista.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/\u00edndice.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6363\" width=\"182\" height=\"263\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>As classes m\u00e9dias em geral n\u00e3o est\u00e3o acostumadas ou n\u00e3o se sentem confort\u00e1veis com a ideia de abrir m\u00e3o dos an\u00e9is para salvar os dedos. A ascens\u00e3o social cria uma falsa sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a, aliada a um desejo profundo de ag\u00eancia: aquele que se desconecta da realidade de mis\u00e9ria imediata quer fazer os seus pr\u00f3prios planos e orgulhar-se de suas conquistas &#8212; n\u00e3o quer, de maneira nenhuma, que lhe digam o que fazer, ou quando fazer. Assim, quando uma pol\u00edtica p\u00fablica de benef\u00edcio geral impacta um plano seu em particular, esse indiv\u00edduo de classe m\u00e9dia se sente prejudicado, <em>mesmo que de outras maneiras esteja beneficiado pelas mesmas pol\u00edticas<\/em>, porque a sua necessidade de planejar a pr\u00f3pria vida encontrou um obst\u00e1culo.<\/p>\n\n\n\n<p>Se o &#8220;verme roedor&#8221; na consci\u00eancia do pobre \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o de que \u00e9 devedor de favores que nunca poder\u00e1 retribuir, na consci\u00eancia do indiv\u00edduo de classe m\u00e9dia o inc\u00f4modo surge de sua aguda percep\u00e7\u00e3o de que ainda n\u00e3o conquistou a liberdade que \u00e9 considerada o distintivo final do sucesso.<\/p>\n\n\n\n<p>Ser livre n\u00e3o \u00e9 meramente ter comida na mesa, casa pr\u00f3pria e carro novo. Estas coisas o indiv\u00edduo de classe m\u00e9dia sempre enxergar\u00e1 como conquistas suas e qualquer argumenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que parta de uma racionaliza\u00e7\u00e3o destas conquistas como resultantes de fatores conjunturais que o beneficiaram cair\u00e1 em ouvidos moucos. O indiv\u00edduo de classe m\u00e9dia, devido \u00e0 ideologia predominante em nossa cultura, <em>n\u00e3o quer ouvir nada que lhe diga que ele n\u00e3o \u00e9 o conquistador daquilo que possui <\/em>porque esta sensa\u00e7\u00e3o (mesmo que seja mentirosa) \u00e9 a pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o de classe m\u00e9dia e da ascens\u00e3o social que permite a algu\u00e9m diferenciar-se do pobre. Qualquer debate pol\u00edtico que se deseje vencer precisa come\u00e7ar, portanto, concedendo esse ponto \u00e0 classe m\u00e9dia, n\u00e3o porque \u00e9 verdade, mas porque remover essa muleta ideol\u00f3gica resultaria em mostrar ao indiv\u00edduo de classe m\u00e9dia que a sua liberdade \u00e9 uma ilus\u00e3o resultante de fatores conjunturais que podem ser tempor\u00e1rios. \u00c9 mais f\u00e1cil que um indiv\u00edduo abra m\u00e3o de sua pr\u00f3pria vida do que de seus valores. \u00c9 mais f\u00e1cil que um indiv\u00edduo cometa atos que destruir\u00e3o o seu patrim\u00f4nio do que admitir que o seu patrim\u00f4nio n\u00e3o \u00e9 realmente fruto exclusivo de seus atos.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f3dio, no caso da classe m\u00e9dia, \u00e9 a cortina de fuma\u00e7a que protege as ilus\u00f5es daqueles que aspiram a ser como os ricos, mas ainda est\u00e3o perto demais dos pobres para que se sintam psicologicamente seguros.<\/p>\n\n\n\n<p>Como seria poss\u00edvel escapar dessa armadilha ideol\u00f3gica, adotando pol\u00edticas p\u00fablicas progressistas sem causar a rea\u00e7\u00e3o al\u00e9rgica descrita por Nietzsche e Kanitz, de formas diferentes em momentos diferentes?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o adianta culpar a canalhice do povo, n\u00e3o adianta xingar a classe m\u00e9dia de ingrata. R\u00f3tulos podem at\u00e9 identificar, mas nada resolvem. Estar escrito veneno em um frasco n\u00e3o altera o resultado se voc\u00ea ainda assim resolver beber o conte\u00fado. R\u00f3tulos podem ser importantes, mas o que define mudan\u00e7as s\u00e3o as atitudes que tomamos diante da realidade que eles descrevem. Por fim, r\u00f3tulos podem ser enganadores porque eles refletem interpreta\u00e7\u00f5es moralizantes da realidade. A realidade n\u00e3o \u00e9 inerentemente moral, somos n\u00f3s que criamos interpreta\u00e7\u00f5es moralizantes da realidade, para servi\u00e7o de nossas ideologias.<a href=\"#4\" name=\"realidade\"><sup>4<\/sup><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Tampouco adianta afirmar que a etimologia do nosso &#8220;muito obrigado&#8221; \u00e9 a causadora desse sentimento de inadimpl\u00eancia do recebedor em rela\u00e7\u00e3o ao doador. Em espanhol se diz <em>gracias<\/em> (&#8220;agradecimentos&#8221;) assim como em ingl\u00eas se diz <em>thank you <\/em>(&#8220;agrade\u00e7o-lhe&#8221;) e n\u00e3o me consta que a realidade cultural dos pa\u00edses de l\u00edngua hisp\u00e2nica seja muito diferente da nossa. Uma fal\u00e1cia frequente do pensamento direitista \u00e9 atribuir ag\u00eancia a seres inanimados, a entidades abstratas, como fez Kanitz, ao culpar o &#8220;muito obrigado&#8221; &#8212; e como fazem os esquerdistas, com desagrad\u00e1vel frequ\u00eancia, quando culpam &#8220;o capitalismo&#8221;, &#8220;o sistema&#8221; e outros conceitos que n\u00e3o s\u00e3o seres.<\/p>\n\n\n\n<p>O que adianta \u00e9 explicar \u00e0s pessoas que os favores n\u00e3o geram d\u00edvidas porque s\u00e3o pagos de outras formas. Isso \u00e9 conscientiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Algo que se faz atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o, esse alho que irrita a toda classe pol\u00edtica brasileira, desde sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez n\u00e3o haja povo do mundo t\u00e3o orgulhoso da pr\u00f3pria ignor\u00e2ncia quanto o brasileiro. Em nenhum lugar do mundo a ignor\u00e2ncia parece ser t\u00e3o tr\u00e1gica quanto entre n\u00f3s. Por causa da preval\u00eancia desta, o povo anda de cabe\u00e7a baixa, n\u00e3o consegue pensar em termos de longo prazo e, portanto, n\u00e3o concebe outra forma de pagar a &#8220;d\u00edvida&#8221; do servi\u00e7o sen\u00e3o com servi\u00e7os imediatos. Assim se faz a venda do voto, assim se constroem as claques que repercutem as vozes dos pol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando fazemos algo por algu\u00e9m a quem respeitamos, devemos sempre fazer quest\u00e3o de cancelar a d\u00edvida no pr\u00f3prio ato. De alguma maneira devemos deixar claro que n\u00e3o se trata de uma boa a\u00e7\u00e3o moralista, mas de um ato pensado pelas suas consequ\u00eancias pr\u00f3prias. Quando um pai d\u00e1 dinheiro ao filho para pagar seus estudos, n\u00e3o o faz pensando que o filho um dia o amparar\u00e1 na velhice; ele o faz porque lhe compraz ver o sucesso do filho, porque \u00e9 da natureza da paternidade experimentar o prazer da felicidade dos pr\u00f3prios filhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Algo semelhante poderia ter sido feito pelos governos que adotaram pol\u00edticas assistencialistas. Poderiam ter dito que o faziam porque assim engrandeciam o Brasil. Talvez tenham tentado dizer, mas essa verdade n\u00e3o chegou aos rinc\u00f5es, n\u00e3o se internalizou no imagin\u00e1rio coletivo nacional. O \u00f3dio que explodiu nas ruas em 2013 nasceu da falta desta no\u00e7\u00e3o de que a d\u00edvida era impessoal (para com o Brasil) em vez de vinculada a um partido ou pol\u00edtico em particular. Talvez por ainda estar muito vinculado \u00e0s suas origens cat\u00f3licas, o PT n\u00e3o conseguiu passar al\u00e9m da virtude moral da caridade e atingir o ideal de supress\u00e3o total dos mendigos. N\u00e3o pela elimina\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria, mas pela <em>elimina\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o nociva entre quem d\u00e1 e recebe &#8220;caridade&#8221;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<div class=\"footnote\">\n<p><a name=\"1\" href=\"#valores\"><sup>1<\/sup><\/a> Conforme eu mesmo j\u00e1 sentenciei, <em>\u00e9 mais f\u00e1cil tirar um homem de dentro da igreja do que tirar a igreja de dentro de um homem<\/em>.<\/p>\n<p><a name=\"2\" href=\"#escravos\"><sup>2<\/sup><\/a> A fonte da conceitua\u00e7\u00e3o do cristianismo como uma religi\u00e3o de escravos est\u00e1 em \u201cAl\u00e9m do Bem e do Mal: Prel\u00fadio a uma Filosofia do Futuro\u201d.<\/p>\n<p><a name=\"3\" href=\"#mendigos\"><sup>3<\/sup><\/a> Esta \u00e9 uma pervers\u00e3o muito frequente das palavras do fil\u00f3sofo alem\u00e3o. Em seu \u201c<a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.recantodasletras.com.br\/e-livros\/3242531\" rel=\"noopener noreferrer\">Julgamento de Nietzsche no Orkut<\/a>\u201d, Alexandre Anello analisa, entre muitas outras, a acusa\u00e7\u00e3o de que Nietzsche seria, por causa desta frase, um higienista social.<\/p>\n<p><a name=\"4\" href=\"#realidade\"><sup>4<\/sup><\/a> Aqui recorro mais uma vez ao livro \u201cAl\u00e9m do Bem e do Mal\u201d, mais especificamente a um dos \u201cAforismos e Interl\u00fadios\u201d do autor.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 alguns anos, mais precisamente em julho de 2013, deparei-me, algo chocado, com um texto de Stephen Kanitz para a revista Veja intitulado &#8220;Por que me odeias se eu nunca te ajudei?&#8221; Eu tinha certo respeito pelo autor, a quem eu considerava um raro economista que tinha palavras humanistas, em vez de falar somente em n\u00fameros frios que tinham de ser preservados, mesmo \u00e0 custa de sangue, suor, l\u00e1grimas e ossos. 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