{"id":6365,"date":"2019-04-01T11:18:49","date_gmt":"2019-04-01T14:18:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=6365"},"modified":"2019-07-17T23:48:58","modified_gmt":"2019-07-18T02:48:58","slug":"quando-voce-tinha-morrido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2019\/04\/quando-voce-tinha-morrido\/","title":{"rendered":"Quando Voc\u00ea Tinha Morrido"},"content":{"rendered":"\n<p>Uma das grandes injusti\u00e7as desse mundo \u00e9 a maneira como os nossos amigos e conhecidos nos matam quando nos afastamos. Pela maneira como somos mortos, podemos ter uma ideia vaga de como realmente eles nos enxergam.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando chegamos a uma certa idade temos de escolher entre acompanhar de perto os nossos amigos ou evitar fazer perguntas sobre eles quando encontramos um amigo comum. Ou sabemos deles, ou nos arriscamos a ouvir o que n\u00e3o queremos:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Carlos, h\u00e1 quanto tempo!? Como est\u00e1? E a Maria, sua mulher?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Morreu.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel para estas situa\u00e7\u00f5es. N\u00e3o h\u00e1 como rapidamente cavar um buraco no ch\u00e3o e se jogar, n\u00e3o tem jeito de bater asas e sair voando. \u00c9 preciso dizer alguma coisa, sempre equivocada, e tentar segurar o tempo denso que se forma, prestes a chover dos olhos dos dois.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o caso envolve amigos mais distantes, sem risco de l\u00e1grimas, a conversa fica mais franca e pode continuar at\u00e9 os detalhes, a\u00ed descobrimos como foi o falecimento:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Fala a\u00ed, Jorge! Quanto tempo! Tem visto o pessoal da turma do cient\u00edfico?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Alguns. O Carlos virou professor, a Let\u00edcia casou com um pol\u00edtico e foi para Belo Horizonte, o Leonardo trabalha no hospital, o Zez\u00e3o morreu.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Pera\u00ed, o Zez\u00e3o morreu? Morreu de que? Quando foi isso?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Ih, rapaz! Foi h\u00e1 muito tempo. Ele tinha vinte e nove anos, acho. Ataque do cora\u00e7\u00e3o, parece que foi por coca\u00edna, segundo me disseram.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Mas isso \u00e9 absurdo! Logo o Zez\u00e3o! Coca\u00edna! N\u00e3o posso crer.<\/p>\n\n\n\n<p>O amigo sempre dir\u00e1 que \u00e9 &#8220;a pura verdade&#8221;, mas voc\u00ea ficar\u00e1 com aquilo na cabe\u00e7a, sem poder crer, claro, porque Zez\u00e3o n\u00e3o parecia algu\u00e9m que se envolveria pesado com drogas. Ent\u00e3o, tempos depois, voc\u00ea encontra outro antigo colega de turma:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Augusto, meu amigo! Tudo bem? Tem visto a turma?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Ah, alguns. O Jorge est\u00e1 na f\u00e1brica de cal\u00e7ados, a Aninha tem um restaurante, o Pacheco virou pastor, o Zez\u00e3o morreu&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; N\u00e3o! Ent\u00e3o \u00e9 verdade! Zez\u00e3o morreu! Foi de que mesmo?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Superdosagem de coca\u00edna, cara! O cora\u00e7\u00e3o do cara parou.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora a certeza de que Zez\u00e3o n\u00e3o era algu\u00e9m que se envolveria com drogas come\u00e7a a ruir. Voc\u00ea tenta fazer as suas pesquisas, mas ningu\u00e9m sabe do Zez\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o guardou o telefone dele, voc\u00ea n\u00e3o o v\u00ea pelas ruas (a cidade n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o pequena a esse ponto) e a terceira pessoa que lhe d\u00e1 not\u00edcias tem a mesma vers\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Certeza absoluta. Foi mandado para Juiz de Fora, todo espumandinho pela boca. Coitado, morreu.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft\"><img src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/image-300x300.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6366\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>A partir dessa segunda confirma\u00e7\u00e3o, voc\u00ea mesmo se convenceu. Sim, Zez\u00e3o est\u00e1 morto h\u00e1 quinze anos. Foi levado \u00e0s pressas para Juiz de Fora, mas n\u00e3o resistiu, o cora\u00e7\u00e3o parou por causa de anos de uso de coca\u00edna. Deus o tenha em paz, se isso for poss\u00edvel. Vida que segue.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o voc\u00ea encontra outro colega de turma. Desta vez ele \u00e9 que estava longe, n\u00e3o sabe nada do que aconteceu nos \u00faltimos vinte anos, porque estava trabalhando no Paran\u00e1 e acabou de chegar.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Bem, Jaj\u00e1, eu n\u00e3o costumo encontrar todo mundo, mas sei que alguns est\u00e3o por a\u00ed. O Bet\u00e3o \u00e9 guarda de seguran\u00e7a no Ita\u00fa, o Ven\u00e2ncio virou m\u00fasico, a Leleta casou com um carinha rico e foi para o Rio de Janeiro, o Emerson trabalha na prefeitura e o Zez\u00e3o morreu.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Como?? Zez\u00e3o morreu!? Que merda \u00e9 essa?<\/p>\n\n\n\n<p>Da\u00ed voc\u00ea repete a hist\u00f3ria toda: Juiz de Fora, a coca\u00edna. Alguns elementos dram\u00e1ticos a mais: ele era ainda t\u00e3o novo, os pais ficaram arrasados, quem poderia imaginar.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia seguinte, voc\u00ea est\u00e1 trabalhando e seu telefone toca:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Fala, mano, aqui \u00e9 o Jaj\u00e1. Tenho uma not\u00edcia muito estranha para voc\u00ea. Zez\u00e3o est\u00e1 vivo! Viv\u00edssimo, ou melhor, n\u00e3o muito vivo que isso ele nunca foi.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Voc\u00ea s\u00f3 pode estar brincando comigo, Jaj\u00e1. Tr\u00eas pessoas diferentes me confirmaram que ele est\u00e1 morto, e faz mais de vinte anos que eu n\u00e3o vejo o sujeito. De onde voc\u00ea tirou que ele est\u00e1 vivo?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Estou agora diante dele.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o pode ser. N\u00e3o pode ser verdade. N\u00e3o pode nunca ser verdade;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Quer falar com ele?<\/p>\n\n\n\n<p>Antes que voc\u00ea possa dizer se quer ou n\u00e3o quer, uma voz anasalada o cumprimenta, entre risadas que parecem surgidas das trevas do tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Zez\u00e3o, homem! Ent\u00e3o voc\u00ea est\u00e1 vivo mesmo! Mas que&#8230; <\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Pior voc\u00ea n\u00e3o sabe, Z\u00e9G\u00ea. Tem mais de vinte anos que os caras da turma que eu encontro dizem que <em>voc\u00ea morreu.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das grandes injusti\u00e7as desse mundo \u00e9 a maneira como os nossos amigos e conhecidos nos matam quando nos afastamos. Pela maneira como somos mortos, podemos ter uma ideia vaga de como realmente eles nos enxergam. Quando chegamos a uma certa idade temos de escolher entre acompanhar de perto os nossos amigos ou evitar fazer perguntas sobre eles quando encontramos um amigo comum. 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