{"id":6399,"date":"2019-05-22T21:47:08","date_gmt":"2019-05-23T00:47:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=6399"},"modified":"2020-06-15T21:16:45","modified_gmt":"2020-06-16T00:16:45","slug":"por-que-sonhamos-com-ditadores-benevolentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2019\/05\/por-que-sonhamos-com-ditadores-benevolentes\/","title":{"rendered":"Por que sonhamos com ditadores benevolentes?"},"content":{"rendered":"\n<p>Voc\u00ea provavelmente j\u00e1 encontrou em alguma obra liter\u00e1ria, ou em um  filme que assistiu recentemente, a ideia do ditador benevolente. Antes  de dizer que n\u00e3o, pense outra vez, preste aten\u00e7\u00e3o que essa ideia  costuma vir bem embrulhada. Tanto assim que, nem quando o ditador se  comporta da maneira como normalmente os tiranos se comportam a gente  consegue detestar completamente a ideia. <em>Guerra nas Estrelas<\/em>  pode ter sido um \u00e9pico sobre a Rebeli\u00e3o contra o Imp\u00e9rio Gal\u00e1tico, mas  o personagem de mais impacto na cultura pop \u00e9 o vil\u00e3o Darth Vader, e o  livro que os f\u00e3s mais compraram \u00e9 o &#8220;Manual do Imp\u00e9rio&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/statics.livrariacultura.net.br\/products\/capas_lg\/403\/\n42987403.jpg\" alt=\"\" width=\"271\" height=\"385\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>As ditaduras &#8212; qualquer que seja a cor do uniforme ou o  m\u00e9todo (cient\u00edfico ou m\u00edstico) que o l\u00edder use para manter o poder em suas  garras &#8212; parecem muito mais prevalentes na fic\u00e7\u00e3o do que na realidade. Mais do que isso: essas ditaduras permanecem est\u00e1veis na  fic\u00e7\u00e3o, enquanto os rebeldes sobrevivem precariamente. Este \u00e9 um fator digno de aten\u00e7\u00e3o porque n\u00f3s, humanos, somos um tipo de macaco que busca seguran\u00e7a &#8212; mesmo que desconfort\u00e1vel. A estabilidade das ditaduras nos fascina, ent\u00e3o a  preval\u00eancia e longevidade delas na fic\u00e7\u00e3o serve de propaganda, mesmo  que a obra em si se insurja contra ela. Cinquenta anos depois do  primeiro <em>Guerra nas Estrelas<\/em> temos jovens f\u00e3s da s\u00e9rie  comprando o &#8220;Manual do Imp\u00e9rio&#8221; e os novos filmes ainda mostram a  rebeli\u00e3o prec\u00e1ria. N\u00e3o \u00e9 surpresa que tantos se identifiquem com uma  carreira burocr\u00e1tica no Imp\u00e9rio em vez de arriscar a vida pela honra em  uma luta que nunca terminar\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img src=\"https:\/\/cdn.vox-cdn.com\/thumbor\/9-LrKQGzeyc32oNUoE-rG-AP3qU=\/0x0:\n612x306\/1200x800\/filters:focal(231x79:327x175)\/cdn.vox-cdn.com\/uploads\/\nchorus_image\/image\/52403587\/vaderrogueone.0.jpeg\" alt=\"\"\/><figcaption>&#8220;Vinde a mim, \u00f3 v\u00f3s que estais cansados da \ninstabilidade e da mudan\u00e7a, eu vos ofere\u00e7o a continuidade, a \nperman\u00eancia e a previsibilidade. E tamb\u00e9m uns uniformes \nsupimpas.&#8221;<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Se uma ditadura j\u00e1 \u00e9 fascinante pela promessa de estabilidade, ela \nse torna ainda mais sedutora quando nos lembramos que, est\u00e1vel ou n\u00e3o, \nas ditaduras correspondem mais fidedignamente aos arqu\u00e9tipos de nossa \ncultura. H\u00e1 certo apoio na literatura e na antropologia para se \nconcluir que as ditaduras fict\u00edcias que vemos nas obras de cultura pop \ns\u00e3o, de fato, manifesta\u00e7\u00f5es do arqu\u00e9tipo do &#8220;rei sagrado&#8221; e do \nher\u00f3i.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo come\u00e7ou porque as religi\u00f5es modernas (no nosso caso espec\u00edfico \nfalamos do Cristianismo) causaram uma ruptura no processo tradicional \nde narrativa m\u00edtica. <\/p>\n\n\n\n<p>Antes do Cristianismo (e das outras religi\u00f5es &#8220;axiais&#8221;, como o Isl\u00e3 \ne o Budismo) n\u00e3o havia c\u00e2none, nem dogmas e nem <em>doxa. <\/em>As \nreligi\u00f5es eram baseadas em tradi\u00e7\u00f5es, facilmente reinterpretadas e \nressignificadas e os mitos eram refabulados constantemente por quem os \ncontasse. As pessoas se sentiam confort\u00e1veis na cria\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias \nsobre deuses, reis e her\u00f3is &#8212; n\u00e3o s\u00f3 porque essas hist\u00f3rias refletiam \na &#8220;ordem natural&#8221; das coisas em uma sociedade civilizada primordial, \nmas, tamb\u00e9m, porque essas hist\u00f3rias continham li\u00e7\u00f5es morais simples, \natrav\u00e9s das quais os valores culturais eram repassados.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/i.pinimg.com\/originals\/75\/b7\/6c\/\n75b76cd59d7cc2f54fd8b7fe92077ea6.jpg\" alt=\"\" width=\"274\" height=\"446\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Tudo que voc\u00ea precisa fazer para come\u00e7ar a entender a import\u00e2ncia \ndos mitos primordiais, mesmo diante do Cristianismo, \u00e9 imaginar o \ncabelo dessa est\u00e1tua grega arcaica transformando-se em um v\u00e9u azul. Se \nvoc\u00ea tem uma boa imagina\u00e7\u00e3o e algum conhecimento da hist\u00f3ria da arte, \nentender\u00e1 aonde quero chegar.<\/p>\n\n\n\n<p>Os s\u00edmbolos criados pela mitologia correspondem aos &#8220;arqu\u00e9tipos&#8221; de  que nos falava Plat\u00e3o e que Jung &#8220;pop-pularizou&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Deuses, reis e her\u00f3is explicavam o mundo e criavam a indentidade e a \ncultura dos povos. A imortalidade dos deuses espelhava o anseio humano \npela <em>estabilidade, <\/em>a presen\u00e7a dos reis evocava essa qualidade \ne a interven\u00e7\u00e3o do her\u00f3i possu\u00eda o cond\u00e3o de <em>reparar, restaurar ou \nrecriar<\/em> uma estabilidade que fora debilitada, destru\u00edda ou \ncorrompida.<\/p>\n\n\n\n<p>Muito antes que os modernos autores de &#8220;fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica&#8221; \nconcebessem as hist\u00f3rias de her\u00f3is intr\u00e9pidos explorando as vastid\u00f5es \ndesconhecidas do espa\u00e7o, j\u00e1 existiam as hist\u00f3rias de her\u00f3is intr\u00e9pidos \nexplorando as vastid\u00f5es desconhecidas da terra: Jas\u00e3o e os argonautas, \no Rei Artur e os cavaleiros da T\u00e1vola Redonda em sua busca pelo \ngraal.<\/p>\n\n\n\n<p>Muito antes de conhecermos uma &#8220;guerra fria&#8221; entre na\u00e7\u00f5es que se \nenfrentavam e se insultavam, mas nunca se engajavam em conflito, \ntivemos a Guerra de Troia, que come\u00e7ou com um ass\u00e9dio de dez anos \u00e0 \ncidade, durante o qual bem pouca a\u00e7\u00e3o realmente aconteceu, a n\u00e3o ser \nalgumas provoca\u00e7\u00f5es e enfrentamentos pontuais.<\/p>\n\n\n\n<p>Muito antes de termos os super her\u00f3is apoiando os EUA em sua guerra \ncontra inimigos estrangeiros, os gregos enxergavam os seus deuses \nintervindo nos pr\u00f3prios campos de batalha e determinando os rumos da \nguerra. Os her\u00f3is, semideuses, eram pouco mais que X-Men (estes, \ninclusive, partilham do sentido tr\u00e1gico dos her\u00f3is semidivinos).<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e9rcules e Teseu s\u00e3o dois personagens cujos atributos curiosamente \nevocam aos dois mais famosos super her\u00f3is modernos (Super-Homem e \nBatman, respectivamente).<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e9rcules era um semideus, dotado de for\u00e7a e vigor sobrenaturais. \nEncontrava seres sobrenaturais (O Le\u00e3o de Nemeia, a Hidra de Lerna, o \nJavali de Erimanto, as \u00c9guas de Diomedes, a Cor\u00e7a dos P\u00e9s de Bronze, os \nP\u00e1ssaros de Est\u00ednfale, o Touro de Creta, C\u00e9rbero) em lugares que eram, \n\u00e0s vezes, sobrenaturais tamb\u00e9m (as Hesp\u00e9rides, a terra de Geri\u00e3o, a \nC\u00f3lquida, a terra das Amazonas, o reino de Hades). Assim como o \nSuper-Homem luta contra inimigos poderosos e visita outras dimens\u00f5es e \nplanetas. <\/p>\n\n\n\n<p>Teseu era um ser humano dotado de intelig\u00eancia e ast\u00facia  excepcionais, que triunfava contra inimigos mais fortes (at\u00e9 alguns  sobrenaturais) empregando sua l\u00e1bia, sua arg\u00facia e sua capacidade de  fazer aliados.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e9rcules estava predestinado a uma vida sofrida e um mart\u00edrio \nprecoce, porque este \u00e9 o destino do her\u00f3i: ou morre cedo e se torna \ndeus, ou vive o bastante para se tornar um vil\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Teseu se tornou um rei s\u00e1bio, fundador de cidades, criador de leis e \npai de uma na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e9rcules representa o arqu\u00e9tipo do her\u00f3i semidivino. Teseu \nrepresenta o arqu\u00e9tipo do rei s\u00e1bio, que triunfa pela sua \ncapacidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O Cristianismo, ao mesmo tempo em que desterrou as hist\u00f3rias para o \nterreno do mito e procurou controlar a cria\u00e7\u00e3o de novos mitos atrav\u00e9s \nda fixa\u00e7\u00e3o do c\u00e2none b\u00edblico, n\u00e3o deixou de criar seus pr\u00f3prios \nsuper-her\u00f3is, os santos. N\u00e3o menos sobrenaturais que os her\u00f3is gregos, \nos santos, alguns dos quais dotados de origens misteriosas, executam \natos de coragem e de ast\u00facia, al\u00e9m de f\u00e9, e triunfam contra poderes \nmaiores que os seus.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/qph.fs.quoracdn.net\/main-qimg-\nf795fa46231f7406b588232f0dfb8acc\" alt=\"\" width=\"301\" height=\"245\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Jesus n\u00e3o foi o primeiro a padecer injustamente por causa de uma \nt\u00fanica (esse da imagem \u00e9 H\u00e9rcules). Elementos arquet\u00edpicos foram \namplamente utilizados na cria\u00e7\u00e3o dos her\u00f3is crist\u00e3os &#8212; principalmente \nde Jesus, o her\u00f3i original, composto de dezenas de pe\u00e7as retiradas de \ndiferentes mitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando nos afastamos do mundo antigo e o Cristianismo se fixa mais \nprofundamente, com sua ideia de B\u00edblia e de cessa\u00e7\u00e3o das profecias, a \ncria\u00e7\u00e3o do mito enfrenta um obst\u00e1culo. Felizmente, com o Cristianismo \ncome\u00e7a a se desenvolver uma coisa nova, a <em>literatura.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Assim como &#8220;mito&#8221; \u00e9 o nome que damos \u00e0 religi\u00e3o na qual n\u00e3o cremos \n(e &#8220;her\u00f3i&#8221; \u00e9 o santo para quem n\u00e3o rezamos), literatura \u00e9 o destino de \ntudo aquilo que n\u00e3o cabe no c\u00e2none. Quando certos livros n\u00e3o podem ser \nadotados pela religi\u00e3o, eles permanecem no universo profano, fora do \ncontrole da religi\u00e3o. Inicialmente a sua sobreviv\u00eancia foi dif\u00edcil, \nporque n\u00e3o se pensava na preserva\u00e7\u00e3o do que fosse &#8220;menos importante&#8221;, \nmas logo a humanidade encontrou um lugar para os mitos: as escritas que \nn\u00e3o se transformavam em escrituras.<\/p>\n\n\n\n<p>As hist\u00f3rias mitol\u00f3gicas deixam de ser &#8220;religiosas&#8221; e passam a ser \numa esp\u00e9cie de passatempo. Em alguns casos recebem umas tinturas de \nreligi\u00e3o para serem melhor aceitas, e vida que segue.<\/p>\n\n\n\n<p>O aprofundamento da separa\u00e7\u00e3o do homem quotidiano em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua \ncapacidade de criar mitos origina o conceito do folclore, a fonte mais \nantiga da literatura.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a literatura se afasta gradualmente do folclore, ela se torna \nerudita e se aproxima das filosofias, das ci\u00eancias e da pr\u00f3pria \nreligi\u00e3o. O folclore se fossiliza, se perde, mas o desejo humano de \ninventar e difundir hist\u00f3rias nunca morre, apenas muda de meio e de \nforma.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir do s\u00e9culo XVI, e mais notadamente a partir do s\u00e9culo XVIII, \no cristianismo experimenta os &#8220;reavivamentos&#8221;, que os crist\u00e3os adeptos \nde igrejas &#8220;reavivadas&#8221; descrevem como uma esp\u00e9cie de renova\u00e7\u00e3o de sua \nf\u00e9. Na pr\u00e1tica, os &#8220;reavivamentos&#8221; s\u00e3o fen\u00f4menos de histeria coletiva \ncausados pelo confronto entre a modernidade e a tradi\u00e7\u00e3o, em regi\u00f5es \nonde as institui\u00e7\u00f5es tendem a se modernizar enquanto os costumes \npermanecem iguais. Esta descri\u00e7\u00e3o corresponde de maneira surpreendente \naos EUA, mas tamb\u00e9m pode ser encontrada na Alemanha, na Holanda e em \nalguns bols\u00f5es reformados pelo mundo afora.<\/p>\n\n\n\n<p>O &#8220;reavivamento&#8221; se baseia na recupera\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de profetismo, \nque o cristianismo mainstream considerava encerrada desde a constru\u00e7\u00e3o \ndo Segundo Templo, e na continuidade da revela\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de pastores \nque recebem t\u00edtulos pomposos como &#8220;ap\u00f3stolo&#8221; ou, de maneira at\u00e9 \nrid\u00edcula, no mormonismo, &#8220;profeta, vidente e revelador&#8221;. Esses \nmovimentos d\u00e3o origem a religi\u00f5es que se dividem em dois grupos:<\/p>\n\n\n\n<p>Os pentecostais e neopentecostais: recuperam o profetismo, mas n\u00e3o \npossuem a no\u00e7\u00e3o de revela\u00e7\u00e3o continuada. Suas igrejas ainda professam a \ncontinuidade da doutrina crist\u00e3 desde os tempos apost\u00f3licos.<\/p>\n\n\n\n<p>Para-protestantes ou para-crist\u00e3os: n\u00e3o s\u00f3 recuperam o profetismo \ncomo criam uma nova tradi\u00e7\u00e3o de revela\u00e7\u00e3o. Aqui a coisa fica \ninteressante, porque esses movimentos n\u00e3o se limitam a recriar uma \n&#8220;conex\u00e3o direta&#8221; do fiel com Deus, eles criam novos conceitos e at\u00e9 \nnovas escrituras. Exemplos disso podem ser vistos entre os Adventistas, \nos Morm\u00f3ns (Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos \u00daltimos Dias) e as \nTestemunhas de Jeov\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos esses movimentos s\u00e3o &#8220;reacion\u00e1rios&#8221; em termos culturais porque \nsurgem como rea\u00e7\u00e3o ao progresso dos costumes, buscando retornar a um \nestado ideal segundo sua concep\u00e7\u00e3o da antiguidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Lado a lado com o &#8220;reavivamento&#8221; crist\u00e3o surge o &#8220;espiritualismo&#8221;,  que \u00e9 um fruto precoce do contato dos europeus com as civiliza\u00e7\u00f5es  orientais, notadamente a da \u00cdndia. Tamb\u00e9m esses movimentos tendem a  criar suas pr\u00f3prias mitologias e revela\u00e7\u00f5es, como podemos ver, por  exemplo, nas obras de Chico Xavier.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 no s\u00e9culo XX, surge a literatura de fic\u00e7\u00e3o &#8220;cient\u00edfica&#8221;, cujos \nmaiores expoentes s\u00e3o, de fato, pouco mais que fantasias com tema \ncient\u00edfico. A fic\u00e7\u00e3o &#8220;cient\u00edfica&#8221; recria antigos mitos em uma roupagem \nmoderna, transformando &#8220;anjos&#8221; em alien\u00edgenas, por exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p>Simultanemante a isso surge o cinema, cuja linguagem visual \u00e9 \nimediatamente posta a servi\u00e7o dos antigos mitos. O primeiro filme \nencenado (isto \u00e9, n\u00e3o capturado espontaneamente) \u00e9 a &#8220;Viagem \u00e0 Lua&#8221;, de \nGeorges M\u00e9lies, uma fantasia cient\u00edfica. Um dos primeiros filmes \nitalianos \u00e9 uma vers\u00e3o da Divina Com\u00e9dia. Um dos primeiros filmes \nfranceses foi uma biografia de Napole\u00e3o, um dos fundadores do estado \nfranc\u00eas moderno. <\/p>\n\n\n\n<p>Nos Estados Unidos, pa\u00eds onde o cinema deitou ra\u00edzes mais profundas \ne desde muito cedo, ele foi capaz de criar o mito do faroeste a partir \nde alguns poucos relatos exagerados de testemunhas oculares ainda \nvivas.<\/p>\n\n\n\n<p>O super her\u00f3i; cria\u00e7\u00e3o do per\u00edodo entre-guerras que sobreviveu e \ndura at\u00e9 hoje; \u00e9 uma express\u00e3o do mito moderno, incorporando todos os \npoderes exagerados dos antigos semideuses e inventando novos. Eles \nincorporam os medos e esperan\u00e7as da humanidade durante a guerra fria, \nminimizando o perigo iminente (a radia\u00e7\u00e3o lhe d\u00e1 poderes em vez de \nc\u00e2ncer), glamourizando a morte (cair em um tonel de produtos qu\u00edmicos \nlhe torna um monstro, n\u00e3o um cad\u00e1ver), emprestando uma aura positiva ao \nsofrimento (a raiva e os traumas o tornam mais forte em vez de lhe \ndestruir moralmente). Nessas hist\u00f3rias \u00e9 frequente que, tal como nos \nmitos, o inimigo seja um estrangeiro (ou alien\u00edgena, que \u00e9 o mesmo \nconceito transferido para a fic\u00e7\u00e3o &#8220;cient\u00edfica&#8221;) ou um traidor a \nservi\u00e7o do estrangeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo o que voc\u00ea v\u00ea ou l\u00ea em uma hist\u00f3ria de super-her\u00f3is, qualquer \nque seja o meio (revistinha, televis\u00e3o, cinema etc.), \u00e9 intencional e \u00e9 \nmito.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses elementos empregados na constru\u00e7\u00e3o dessas hist\u00f3rias \ncorrespondem a &#8220;arqu\u00e9tipos&#8221; &#8212; os elementos essenciais de nossa \ncultura, que herdamos de um passado distante e que n\u00e3o podem ser \nfacilmente ignorados.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Jung, um dos mais proeminentes estudiosos dos arqu\u00e9tipos (e  proponente inicial do termo), eles n\u00e3o s\u00e3o meramente cria\u00e7\u00f5es culturais  deliberadas. Se assim fossem, haveria maior variedade entre as diversas  culturas. Na verdade eles s\u00e3o respostas culturais a caracter\u00edsticas  profundas de nossa psicologia coletiva, que herdamos de um passado  imemorial. Os arqu\u00e9tipos est\u00e3o, culturalmente falando, em um n\u00edvel  anterior ao surgimento de todas as culturas humanas conhecidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Vejamos o medo do escuro, por exemplo &#8212; especialmente em lugares \nabertos. Esse medo evoca o tempo em que nossos ancestrais eram macacos \nindefesos nas savanas da \u00c1frica, sujeitos ao ataque iminente de \npredadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos meios atrav\u00e9s dos quais esse macaco pelado primordial se  tornou o senhor de todo o planeta foi atrav\u00e9s do desenvolvimento de  la\u00e7os sociais. O ser humano n\u00e3o seria &#8220;humano&#8221; se n\u00e3o fosse um animal  social porque somente a vida em sociedade permitiu que a coletividade  adquirisse for\u00e7a bastante para criar tecnologia e estabelecer limites  que puseram os predadores definitivamente &#8220;fora&#8221; de nosso espa\u00e7o  comum.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/main-qimg-4f9806c48655523202cb00fef1a182d3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6413\" width=\"219\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/main-qimg-4f9806c48655523202cb00fef1a182d3.jpg 438w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/main-qimg-4f9806c48655523202cb00fef1a182d3-88x150.jpg 88w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/main-qimg-4f9806c48655523202cb00fef1a182d3-175x300.jpg 175w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/main-qimg-4f9806c48655523202cb00fef1a182d3-374x640.jpg 374w\" sizes=\"(max-width: 219px) 100vw, 219px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>O arqu\u00e9tipo do l\u00edder forte e s\u00e1bio \u00e9 muito antigo e muito importante \nporque era assim que funcionavam as sociedades primitivas. Diante da \nimin\u00eancia da morte, seguir a lideran\u00e7a de algu\u00e9m capacitado a tomar as \ndecis\u00f5es corretas era o meio mais prov\u00e1vel de sobreviv\u00eancia. Temos medo \nde errar e morrer, por isso sonhamos com um Grande Papai que saiba \ntodas as respostas e tome as r\u00e9deas da situa\u00e7\u00e3o nos momentos de crise. \nEsse arqu\u00e9tipo \u00e9 t\u00e3o significativo que ele se manifesta de diversas \nmaneiras e em diversas fases da hist\u00f3ria humana. Aqui \u00e0 esquerda, por \nexemplo, vemos um exemplo popular do l\u00edder s\u00e1bio e divinamente \nescolhido, Artur, o rei dos bret\u00f5es, o homem que se fez rei por direito \ndivino e reinou com sabedoria e com m\u00e3o de ferro.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/qph.fs.quoracdn.net\/main-qimg-\ne714483a3d3c8fb977eaf3503a6d4252\" alt=\"\" width=\"195\" height=\"310\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m dotado de uma armadura e tamb\u00e9m coroado por esfor\u00e7o pr\u00f3prio  (mas com uma certa dose de direito divino), o <em>Doutor Destino<\/em>  reina sobre a Latv\u00e9ria com mais do que uma metaf\u00f3rica m\u00e3o de ferro.  Gostamos de pensar que Artur era um rei s\u00e1bio, mas isso \u00e9 basicamente  porque ele \u00e9 representado com um rosto louro ang\u00e9lico em vez de uma  m\u00e1scara de metal com uma express\u00e3o de caveira. Na pr\u00e1tica, tanto Artur  quanto o Doutor Destino s\u00e3o tiranos e correspondem ao mesmo arqu\u00e9tipo.  Mais do que isso, os efeitos de seu governo sobre a Bretanha e sobre a  Latv\u00e9ria s\u00e3o semelhantes. <\/p>\n\n\n\n<p>E, a prop\u00f3sito, a Bretanha de Artur \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o tanto quanto a \nLatv\u00e9ria, mas, tamb\u00e9m, porque acreditamos que o arqu\u00e9tipo representado \nem Artur n\u00e3o \u00e9 moderno, que \u00e9 algo que pertence a uma \u00e9poca mais antiga \ne inocente. Mas, \u00e9 mesmo?<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/qph.fs.quoracdn.net\/main-qimg-\n967b20c33dcf9ac01448bbc392b51b50\" alt=\"\" width=\"420\" height=\"250\"\/><figcaption>Ele tamb\u00e9m \u00e9 um \ndesclassificado (um meio-sangue) e tamb\u00e9m \u00e9 chamado a liderar seu povo \ncontra poderosos inimigos. Tamb\u00e9m ele encontra uma arma m\u00edtica que \u00e9, \nao mesmo tempo, o s\u00edmbolo de seu poder e o instrumento de sua a\u00e7\u00e3o. Ele \ntamb\u00e9m se chama Artur.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>O que torna o rei Artur igual ao Doutor Destino e ao Aquaman \u00e9 que o  seu poder tem uma origem fora da vontade do povo. Aos s\u00faditos dos tr\u00eas n\u00e3o  restou alternativa sen\u00e3o aceitar o jugo imposto pela tradi\u00e7\u00e3o religiosa  (Artur da Bretanha), pela tecnologia quase m\u00e1gica (Doutor Destino) ou  pelo poder realmente m\u00e1gico de um artefato divino (Aquaman). <\/p>\n\n\n\n<p>A partir do momento em que Artur da Bretanha retirou Excalibur da \npedra e foi reconhecido como o &#8220;verdadeiro rei de toda a Bretanha&#8221;, \nquem quer que o recusasse seria um traidor e encontraria a morte.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir do momento em que o Doutor Destino exibiu seu poder aos \ncidad\u00e3os da Latv\u00e9ria, eles s\u00f3 podiam aceit\u00e1-lo ou ser por ele \ntorturados e mortos.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir do momento em que Artur Curry recupera o Tridente de  Netuno, as escolhas dos cidad\u00e3os de Atl\u00e2ntida ficam tamb\u00e9m restritas a  aceit\u00e1-lo ou se tornarem inimigos. A submiss\u00e3o \u00e9 a escolha mais  l\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>A unidade da Bretanha sob Artur foi mostrada como a oportunidade  perdida de trazer uma era dourada, posta a perder, infelizmente, pela  maldade humana. A unidade da Latv\u00e9ria sob o Doutor Destino \u00e9 o que  mant\u00e9m um pequeno pa\u00eds em um papel t\u00e3o relevante na pol\u00edtica mundial. A  unidade da Atl\u00e2ntida sob Artur Curry resolve uma crise din\u00e1stica e  ajuda o pa\u00eds a sobreviver a uma guerra.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo na vida real abundam exemplos de tiranos benevolentes que \najudaram pa\u00edses em crise ou pa\u00edses pequenos a lutarem acima de seu \npeso. Khaddafi, na L\u00edbia, \u00e9 o grande exemplo. Depois dele a L\u00edbia se \ntornou o que era antes: outro pa\u00eds miser\u00e1vel da \u00c1frica.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 um claro padr\u00e3o aqui: somos um tipo de macaco que gosta de viver \ncom ordem e em seguran\u00e7a, nem tanto de viver em liberdade. Tendemos a \nassociar l\u00edderes poderosos a lideran\u00e7as seguras e ben\u00e9ficas porque \nestamos acostumados a ver esse padr\u00e3o na Hist\u00f3ria (caso da L\u00edbia) e \nporque nossa mitologia nos transmite isso. E nossa mitologia \u00e9 assim \nporque ela responde aos arqu\u00e9tipos que trazemos no fundo de nossa alma \ncoletiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Eis porque nas hist\u00f3rias de super-her\u00f3is e no cinema, nossos mitos \nmodernos, gostamos de imaginar que l\u00edderes poderosos s\u00e3o bons para n\u00f3s, \ne, muitas vezes, nos sentimos ansiosos para destruir a democracia, que \ntanto nos incomoda com a inseguran\u00e7a que traz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea provavelmente j\u00e1 encontrou em alguma obra liter\u00e1ria, ou em um filme que assistiu recentemente, a ideia do ditador benevolente. Antes de dizer que n\u00e3o, pense outra vez, preste aten\u00e7\u00e3o que essa ideia costuma vir bem embrulhada. Tanto assim que, nem quando o ditador se comporta da maneira como normalmente os tiranos se comportam a gente consegue detestar completamente a ideia. Guerra nas Estrelas pode ter sido um \u00e9pico sobre a Rebeli\u00e3o contra o Imp\u00e9rio Gal\u00e1tico, mas o personagem de mais impacto na cultura pop [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6413,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[181],"tags":[13,103,68],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6399"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6399"}],"version-history":[{"count":16,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6399\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7235,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6399\/revisions\/7235"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6413"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6399"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6399"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6399"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}