{"id":655,"date":"2013-11-17T11:52:48","date_gmt":"2013-11-17T14:52:48","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=655"},"modified":"2017-11-02T14:08:17","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:17","slug":"apaixonei-me-pela-vila-e-agora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/11\/apaixonei-me-pela-vila-e-agora\/","title":{"rendered":"Apaixonei-me pela Vil\u00e3, e Agora?"},"content":{"rendered":"<p>Tenho uma rela\u00e7\u00e3o de amor e de respeito com os meus personagens. Antes que voc\u00ea, leitor, me elogie por tal postura, devo confessar que isso \u00e9 uma maldi\u00e7\u00e3o nos dias de hoje. O p\u00fablico n\u00e3o quer, de fato, personagens respeit\u00e1veis, mas anti-her\u00f3is. Her\u00f3is n\u00e3o s\u00e3o mais cr\u00edveis, ningu\u00e9m mais leva a s\u00e9rio quem se move por um ideal. E por causa disso a rela\u00e7\u00e3o de respeito que tenho por meus personagens, especialmente os que se parecem demais comigo, \u00e9 um fator de descr\u00e9dito da minha fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o acho correto construir um personagem dentro de determinadas premissas, negativas ou positivas, e depois revel\u00e1-lo t\u00e3o diferente disso, monstruoso, vilanesco.<\/p>\n<p>N\u00e3o que eu seja do tipo manique\u00edsta, que acredita em her\u00f3is impolutos (os her\u00f3is cl\u00e1ssicos estavam muito longe disso) e em vil\u00f5es sem reden\u00e7\u00e3o. Trata-se de um sentimento de frustra\u00e7\u00e3o por investir demais no lado bom de um personagem que mais tarde ser\u00e1 mau.<\/p>\n<p>Tenho conseguido, \u00e0s vezes, romper com essa maldi\u00e7\u00e3o. Criar personagens que realmente transitam do sublime ao nojento em poucas p\u00e1ginas, mas isso \u00e9 somente porque a pr\u00f3pria transi\u00e7\u00e3o era necess\u00e1ria, porque a mal\u00edcia do personagem era caso pensado desde a concep\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O que estou tentando dizer n\u00e3o \u00e9 apenas uma dificuldade para fazer meus personagens cometerem atos bons e maus ao longo da hist\u00f3ria \u2014 essa dificuldade n\u00e3o me afeta ou \u00e9 f\u00e1cil de contornar, estou falando da dificuldade de dedicar tempo a criar um personagem com que o leitor simpatize e depois revelar que ele \u00e9 um monstro.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o dilema que estou enfrentando agora, ao tentar concluir o meu romance fant\u00e1stico &#8220;Serra da Estrela&#8221;. Dediquei quase doze p\u00e1ginas para construir Maria das Dores como um exemplo de mulher guerreira, uma l\u00edder de seu pequeno povo, algu\u00e9m que conseguiu, na base da ra\u00e7a e da intelig\u00eancia, extrair da cultura moderna o que ela tinha de necess\u00e1rio para melhorar a vida de sua comunidade, uma mulher bonita e dotada de uma sensua\u00adli\u00addade bruta e sedutora. Mas Maria das Dores estava origi\u00adnal\u00admente destinada a ser a maior antagonista da hist\u00f3ria. Ela cometeria as maiores enormidades, causaria morte e destrui\u00e7\u00e3o, por motivos ego\u00edstas, amea\u00e7aria a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia de seu povo. A mesma Maria das Dores que se deixa seduzir t\u00e3o singelamente pela minha protagonista, esta \u00e9 a mesma que tem desejos de poder t\u00e3o desmedidos que a levam a aliar-se com as mais hediondas for\u00e7as.<\/p>\n<p>Isto est\u00e1 me doendo. Gastei muita energia para torn\u00e1-la uma personagem ador\u00e1vel, para imbu\u00ed-la de boas energias, e agora tenho que fazer com que ela se revele um monstro pior que os monstros que movem a hist\u00f3ria. Porque estes s\u00e3o coitados amaldi\u00e7oados, enquanto ela deliberadamente busca a monstruosidade, por uma esp\u00e9cie de inveja do poder brutal que a monstruosidade traz, ou pelo medo que inspira, ou apenas por impulso autodestrutivo \u2014 ainda n\u00e3o sei completamente, porque a hist\u00f3ria ainda est\u00e1 nos seus 55% por a\u00ed.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que eu tenho medo de destruir minha pobre Maria das Dores, tenho a certeza que este tipo de personagem agrada mais aos leitores de hoje do que se ela fosse apenas uma pobre hero\u00edna fr\u00e1gil em um universo habitado por monstros, se ela usasse apenas a sua intelig\u00eancia para sobreviver e vencer estes combates contra o bem e o mal. Seria clich\u00ea, ela seria uma esp\u00e9cie de Velma, do Scooby-Doo. N\u00e3o \u00e9 isso que o meu leitor quer, mas eu tenho pena dela, pobrezinha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tenho uma rela\u00e7\u00e3o de amor e de respeito com os meus personagens. Antes que voc\u00ea, leitor, me elogie por tal postura, devo confessar que isso \u00e9 uma maldi\u00e7\u00e3o nos dias de hoje. O p\u00fablico n\u00e3o quer, de fato, personagens respeit\u00e1veis, mas anti-her\u00f3is. Her\u00f3is n\u00e3o s\u00e3o mais cr\u00edveis, ningu\u00e9m mais leva a s\u00e9rio quem se move por um ideal. 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