{"id":660,"date":"2013-12-05T16:51:13","date_gmt":"2013-12-05T19:51:13","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=660"},"modified":"2017-11-23T20:48:14","modified_gmt":"2017-11-23T23:48:14","slug":"agora-que-a-mascara-caiu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/12\/agora-que-a-mascara-caiu\/","title":{"rendered":"Agora que a M\u00e1scara Caiu"},"content":{"rendered":"<p>Terminado o concurso de novembro da &#8220;Entre Contos&#8221;, a identidade secreta do autor de &#8220;<a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/lit\/2013\/12\/gelo-negro\">Gelo Negro<\/a>&#8221; foi revelada, e agora estamos prontos para algumas reflex\u00f5es que se fazem necess\u00e1rias. A esta altura muitos dos leitores j\u00e1 dever\u00e3o ter percebido algo de estranho neste conto \u2014 os coment\u00e1rios indicam que alguns deles acertaram o alvo. Acho que cabe, agora, prestar alguns esclarecimentos, se bem que eu n\u00e3o acredito que ser\u00e3o lidos.<\/p>\n<h3>Este texto \u00e9 uma s\u00e1tira<\/h3>\n<p>&#8220;Gelo Negro&#8221; foi concebido como uma tese para demonstrar a certo tipo de jovem escritor os inconvenientes e equ\u00edvocos de se recair demais no estrangeirismo e outros v\u00edcios. Basicamente, esta demonstra\u00e7\u00e3o focou em seis problemas que s\u00e3o muito recorrentes nos textos de alguns jovens autores:<\/p>\n<ol>\n<li>Obsess\u00e3o com a ambienta\u00e7\u00e3o nos EUA e Gr\u00e3 Bretanha.<\/li>\n<li>Uso de palavras estrangeiras dispens\u00e1veis para dar um ar &#8220;chic&#8221; ao texto.<\/li>\n<li>Falta de uma ambienta\u00e7\u00e3o convincente, por n\u00e3o se fazer pesquisa.<\/li>\n<li>Uso de elementos culturais caracter\u00edsticos da cultura anglo-americana sem contextualizar.<\/li>\n<li>Predom\u00ednio de refer\u00eancias visuais (cinema, videoclipes) ou sonoras (letras de m\u00fasica) em vez de liter\u00e1rias.<\/li>\n<li>Tentativa de se criar um &#8220;estilo&#8221; mais focado em di\u00e1logos e em a\u00e7\u00e3o para disfar\u00e7as a falta de informa\u00e7\u00e3o real sobre a ambienta\u00e7\u00e3o escolhida (j\u00e1 que o autor nunca foi ao States e n\u00e3o se deu ao trabalho de fazer uma boa pesquisa).<\/li>\n<\/ol>\n<p>Para conseguir incorporar intencionalmente estes elementos, o texto foi escrito para ser e parecer descart\u00e1vel, para ofender intelectualmente quem o leia.<\/p>\n<p>Ah, antes que eu me esque\u00e7a: n\u00e3o me chamo [Sigur\u00f0ur Sigur\u00f0sson]) \u2014 embora facilmente se encontre algu\u00e9m assim chamado l\u00e1 na Isl\u00e2ndia.<\/p>\n<h3>Este texto foi feito totalmente &#8220;nas coxas&#8221;<\/h3>\n<p>Um elogio sem reservas a este texto revelaria falta de no\u00e7\u00e3o de qualidade liter\u00e1ria, passaria recibo de que o leitor \u00e9 superficial e se contenta com textos superficiais. Afinal, este texto foi baseado na leitura de quatro ou cinco artigos da Wikip\u00e9dia, dez ou doze tradu\u00e7\u00f5es do Google Translator e alguma pouca refer\u00eancia visual via Google Images. Se voc\u00ea achou convincente um texto feito com uma pesquisa t\u00e3o rasa, ent\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o tem condi\u00e7\u00e3o de entender porque \u00e9 errado voc\u00ea achar que com uma pesquisa pouco melhor voc\u00ea conseguir\u00e1 produzir uma obra de qualidade. Voc\u00ea continuar\u00e1 teimando que \u00e9 poss\u00edvel escrever um bom livro ambientado nos EUA (ou num Nordeste gen\u00e9rico ou em N\u00e1rnia) tendo como refer\u00eancia somente o que viu nos filmes.<\/p>\n<h3>Coloniza\u00e7\u00e3o cultural n\u00e3o \u00e9 exotismo<\/h3>\n<p>Quando um autor resolve ambientar sua hist\u00f3ria em uma cultura diferente da sua, normalmente temos o chamado &#8220;exotismo&#8221; (do grego, &#8220;olhar de fora&#8221;). O exotismo se diferencia da fantasia por procurar uma ambienta\u00e7\u00e3o real, mesmo que interpretada pelos olhos do autor de uma forma peculiar, da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, por estar baseado no presente (ou em um tempo pr\u00f3ximo, passado ou presente, mas recente) e da fic\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, por buscar uma cultura contempor\u00e2nea ao autor, em vez de uma ambienta\u00e7\u00e3o no passado.<\/p>\n<p>Os exemplos de exotismo na arte universal s\u00e3o abundantes: &#8220;Carmem&#8221; (Georges Bizet), &#8220;O Mandarim&#8221; (E\u00e7a de Queir\u00f3s), &#8220;Adeus \u00e0s Armas&#8221; (Ernest Hemingway), &#8220;Cora\u00e7\u00e3o das Trevas&#8221; (Joseph Conrad), &#8220;Kim&#8221; (Rudyard Kipling), &#8220;O Verde Violentou o Muro&#8221; (Ign\u00e1cio de Loyola Brand\u00e3o), Madame Butterfly (Gioachino Rossini). Grosso modo existem dois tipos de autor ex\u00f3tico: o que admira um pa\u00eds estrangeiro e o que vive ou nasceu em outro pa\u00eds. Os do segundo tipo costumam produzir obras de qualidade liter\u00e1ria muito superior pela &#8220;verdade&#8221; que conseguem dar ao texto.<\/p>\n<p>Mas o exotismo se baseia numa admira\u00e7\u00e3o intelectual genu\u00edna do autor pelo pa\u00eds estrangeiro, \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica. Bizet amava a Espanha, E\u00e7a tinha fascina\u00e7\u00e3o pela China, Hemingway viveu na Espanha durante a Guerra Civil, Joseph Conrad foi marinheiro e mercen\u00e1rio na \u00c1frica, Rudyard Kipling nasceu na \u00cdndia e l\u00e1 viveu at\u00e9 o fim da adolesc\u00eancia, Loyola Brand\u00e3o esteve exilado voluntariamente em Berlim e Rossini experimentou a vaga de admira\u00e7\u00e3o pelo Jap\u00e3o que se seguiu \u00e0 abertura daquele fascinante pa\u00eds ao Ocidente. A rela\u00e7\u00e3o do autor com o pa\u00eds onde ambienta seu exotismo n\u00e3o \u00e9 imposta, mas afetiva.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 o que o exotismo \u00e9: uma rela\u00e7\u00e3o de troca cultural ben\u00e9fica a ambas as partes. Nem a Fran\u00e7a e nem a Espanha se apequenaram com a \u00f3pera Carmem, por exemplo. Mas n\u00e3o podemos usar o termo exotismo quando o autor imita servilmente uma cultura estrangeira, pois esta \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o un\u00edvoca. N\u00e3o existe troca: existe a imposi\u00e7\u00e3o de uma identidade sobre a outra, com a substitui\u00e7\u00e3o de um car\u00e1ter nacional pela idealiza\u00e7\u00e3o de outro. O autor de uma obra ex\u00f3tica se reveste temporariamente das influ\u00eancias estrangeiras para criar, mas depois passa a outras formas e estilos. Nenhum dos autores citados se limitou a falar de Espanha, China, Congo, \u00cdndia, Alemanha ou Jap\u00e3o. Quem duvida, que leia as obras de E\u00e7a imediatamente anteriores e posteriores a &#8220;O Mandarim&#8221;, ou os romances de Loyola Brand\u00e3o ambientados na S\u00e3o Paulo dos anos 80 (&#8220;Bebel que a Cidade Comeu&#8221;) ou at\u00e9 no futuro (&#8220;N\u00e3o Ver\u00e1s Pa\u00eds Nenhum&#8221;).<\/p>\n<p>Mas existem certos jovens que escrevem hist\u00f3rias ambientadas nos Estados Unidos porque foram condicionados a achar que aquele pa\u00eds \u00e9 um lugar &#8220;natural&#8221; para se ambientar as &#8220;boas hist\u00f3rias&#8221;. Eles n\u00e3o se identificaram genuinamente com certo aspecto de sua cultura, mas simplesmente n\u00e3o chegaram a entender o valor de sua pr\u00f3pria cultura, e permitem que a cultura imposta pelo cinema e pela televis\u00e3o ocupe o lugar de sua pr\u00f3pria identidade. Este processo \u00e9 t\u00e3o profundo que alguns chegando a dizer que n\u00e3o criam personagens com nomes brasileiros porque esses nomes &#8220;n\u00e3o soam bem&#8221;. J\u00e1 fui aconselhado (at\u00e9 por donos de editoras) a adotar um pseud\u00f4nimo mais f\u00e1cil de ler e pronunciar pelos ianques.<\/p>\n<p>Este texto subverte este servilismo ambientando a hist\u00f3ria na Isl\u00e2ndia, para dar uma sacudida no leitor e faz\u00ea-lo ver que ambientar a a\u00e7\u00e3o em outro pa\u00eds nunca \u00e9 algo que pode ser visto como &#8220;natural&#8221;. Quem n\u00e3o conhe\u00e7a o pa\u00eds em quest\u00e3o poder\u00e1 se sentir alienado da hist\u00f3ria, ent\u00e3o \u00e9 preciso ter isso em conta. A informa\u00e7\u00e3o a que estamos &#8220;acostumados&#8221; atrav\u00e9s do cinema e da televis\u00e3o \u00e9 unilateral e restritiva: elas nos ensina sobre um pa\u00eds apenas, e sob outros pa\u00edses atrav\u00e9s dos olhos com que os americanos os enxergam. A verdade choca porque \u00e9 diferente do que est\u00e1 no cinema.<\/p>\n<h3>Ok, baby. Let&#8217;s go daqui, que tem um pub very good em Edinburgh.<\/h3>\n<p>Inserir palavras estrangeiras em um texto n\u00e3o demonstra cultura. Pessoas cultas s\u00e3o capazes de fazer o chamado &#8220;code-switching&#8221; (\u00f3 incoer\u00eancia minha usar tal barbarismo!), que \u00e9 a mudan\u00e7a de fluxo de pensamento de uma l\u00edngua para outra. Pessoas inteligentes &#8220;desligam&#8221; o ingl\u00eas quando v\u00e3o falar em portugu\u00eas, ou vice-versa. At\u00e9 eu, que estou longe de ser inteligente, percebo que \u00e9 mais f\u00e1cil pronunciar corretamente voc\u00e1bulos espanh\u00f3is quando estou falando em espanhol, mas quando os insiro numa frase em portugu\u00eas queda complicado expressar <em>una zeta interdental o una d blanda<\/em>. Marretar uma palavra estrangeira num fluxo fon\u00e9tico vern\u00e1culo \u00e9 algo que raramente soa bem, e as pessoas que fazem isso geralmente soam cafonas e convencidas, n\u00e3o sofisticadas.<\/p>\n<p>Isso fica ainda mais rid\u00edculo quando voc\u00ea est\u00e1 transcrevendo di\u00e1logos de personagens estrangeiros. Supostamente os di\u00e1logos de Dostoi\u00e9vski estavam todos em russo e foram traduzidos. Faz sentido manter algumas palavras intraduz\u00edveis, como <em>versta<\/em> (uma unidade de medida eslava para dist\u00e2ncias), <em>dacha<\/em> (um tipo de ch\u00e1cara peculiar \u00e0 R\u00fassia) ou <em>st\u00e1riets<\/em> (membro de um tipo de ordem religiosa que s\u00f3 existe no sul da R\u00fassia). Mas fica pedante e idiota salpicar o texto com termos do tipo <em>tov\u00e1rich<\/em> (amigo), <em>nyet<\/em> (n\u00e3o) ou dobroye \u00fatro (boa noite). Entretanto, \u00e9 exatamente isso que tanto fazem certos jovens autores, que adoram mencionar que seus personagens bebem <em>whisky<\/em> num <em>pub<\/em> do East End. J\u00e1 seria tosco manter isso numa tradu\u00e7\u00e3o, mas fica simplesmente imbecil quando \u00e9 um brasileiro escrevendo sobre a Inglaterra.<\/p>\n<p>Mas as pessoas, \u00e0s vezes, n\u00e3o entendem quando a gente explica. Ent\u00e3o voc\u00ea pega, numa hist\u00f3ria ambientada na Isl\u00e2ndia, e salpica o texto com palavras ou frases em island\u00eas, que o leitor n\u00e3o entender\u00e1 bulhufas. Talvez assim ele entenda onde est\u00e1 o erro de manter tantos termos anglo-sax\u00f5es na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>E antes que me digam que &#8220;todo mundo sabe ingl\u00eas, ou devia saber, mas ningu\u00e9m sabe island\u00eas&#8221;, gostaria de lembrar que a maioria n\u00e3o sabe nem portugu\u00eas direito \u2014 e isto inclui uma parte significativa dos autores que escrevem esse tipo de texto fascinado por brancas bundas ianques, e que n\u00e3o sabem empregar o pret\u00e9rito mais-que-perfeito ou fazer concord\u00e2ncia verbo-nominal.<\/p>\n<h3>Boston, Botucatu ou Baggend \u2014 Tudo \u00e9 igual se n\u00e3o \u00e9 especial<\/h3>\n<p>E antes que voc\u00ea se defenda dizendo que escreve suas hist\u00f3rias ambientando no interior da Para\u00edba, na Zona da Mata Mineira ou na Serra Ga\u00facha, voc\u00ea cometer\u00e1 o mesmo tipo de erro se n\u00e3o tiver liga\u00e7\u00f5es fortes com o seu cen\u00e1rio. Na hora de escrever, se for para desenvolver uma impostura sobre uma cultura diferente, n\u00e3o muda muita coisa entre os franco-canadenses e os bororos. Podem ser muito diferentes, mas em rela\u00e7\u00e3o a voc\u00ea que escreve, o que importa \u00e9 se voc\u00ea vai oferecer algo \u00e0 hist\u00f3ria por meio deles, ou se a nacionalidade \u00e9 apenas um r\u00f3tulo que usa para diferenciar uns dos outros os seus personagens todos iguais.<\/p>\n<p>O mesmo vale para lugares. Ou os lugares acrescentam algo de interessante \u00e0 hist\u00f3ria, ou ent\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 riscos de giz no ch\u00e3o para te lembrar onde p\u00f4r o p\u00e9 na hora de brincar de amarelinha. Fronteiras devem possuir significado, culturas devem ter profundidade. E se voc\u00ea n\u00e3o consegue aumentar o peso de sua hist\u00f3ria ambientando-a na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica dos anos 40, melhor escrever sobre as coisas que voc\u00ea viveu, lugares que conhece, hist\u00f3rias que pessoas de verdade te contaram. Lugares s\u00e3o como personagens: precisam ter vida. E n\u00e3o se d\u00e1 vida a um lugar pesquisando sobre ele na internet.<\/p>\n<p>Eu ambiento minhas hist\u00f3rias em Minas Gerais porque vivo aqui. Nunca sonharia em escrever sobre a Amaz\u00f4nia porque n\u00e3o tenho experi\u00eancia de l\u00e1. Seria artificial, seria &#8220;livresco&#8221;.<\/p>\n<h3>O \u00f3bvio n\u00e3o \u00e9 \u00f3bvio<\/h3>\n<p>Algumas pessoas se incomodaram pela repeti\u00e7\u00e3o dos nomes dos personagens. Quem conhece superficialmente a cultura islandesa (vinte ou trinta pessoas no Brasil) percebeu a import\u00e2ncia desses nomes: Jon Bryndisar tem os cabelos negros e leva um <strong>matron\u00edmico<\/strong> (-ar) em vez de um <strong>patron\u00edmico<\/strong> (-son ou -dottir), isso explica porque o nosso narrador achou que ele era filho de uma prostituta do porto. Ol\u00e1fur Haraldsson era filho do Haraldur Gu\u00f0mundsson, o velho morto \u00e0 janela \u2014 o que tornou o seu crime um parric\u00eddio. Tudo isto \u00e9 muito \u00f3bvio para quem sabe algo da Isl\u00e2ndia, mas \u00e9 invis\u00edvel para os demais.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, por que um autor brasileiro encheria sua hist\u00f3ria de refer\u00eancias obscuras a aspectos de uma cultura estrangeira? Exerc\u00edcio de erudi\u00e7\u00e3o? Quantas ruas de Bangor, Maine, o Stephen King, que nasceu e sempre viveu l\u00e1, se d\u00e1 ao trabalho de nomear, descrever e medir?<\/p>\n<p>Para muitos desses autores, especialmente os que estiveram no exterior, a abund\u00e2ncia e exatid\u00e3o destas refer\u00eancias s\u00e3o uma maneira de exibir que t\u00eam conhecimento real do lugar. Mas isto \u00e9 s\u00f3 uma casca, pois os lugares n\u00e3o s\u00e3o personagens, s\u00e3o apenas glac\u00ea sobre o bolo comum de uma hist\u00f3ria simples. Se esses autores tivessem lido &#8220;O Beijo N\u00e3o Vem da Boca&#8221;, de Loyola Brand\u00e3o, veriam como \u00e9 simples usar refer\u00eancias culturais estrangeiras para apresentar o olhar ex\u00f3tico sobre um outro pa\u00eds. Acompanhar o protagonista em sua visita aos prost\u00edbulos de Berlim, sentir com ele sua dificuldade de manter a naturalidade diante da nudez em p\u00fablico nos parques no ver\u00e3o, padecer com ele a atmosfera opressiva de uma cidade sitiada por um perigo muito real (m\u00edsseis e n\u00e3o orcs)\u2026 Mas ele n\u00e3o nos massacra com informa\u00e7\u00f5es in\u00fateis. A informa\u00e7\u00e3o aparece \u00e0 medida em que se insere na hist\u00f3ria, e isso \u00e9 \u00f3timo.<\/p>\n<p>Mas ali nada \u00e9 \u00f3bvio, e isto \u00e9 prontamente entendido pelo leitor. Porque o autor, em vez de fingir que \u00e9 alem\u00e3o, se mostra como o que \u00e9: um exilado brasileiro em Berlim, vendo a Alemanha de fora com olhos tropicais e mesti\u00e7os. Isto estabelece uma f\u00e1cil empatia com o leitor, e faz o calhama\u00e7o de 400 p\u00e1ginas ser lido com prazer em poucos dias. E somente um brasileiro sacana apelidaria a Kunfursterdam (avenida de Berlim) de &#8220;Ku-dam&#8221; ou descreveria os <em>piercings<\/em> genitais de uma stripper no <em>peep show<\/em>.<\/p>\n<h3>N\u00e3o li sobre isso, mas vi os filmes<\/h3>\n<p>Muito papel j\u00e1 se gastou sobre o escritor que n\u00e3o l\u00ea. Posso falar mal desse idiota \u00e0 vontade, porque ele n\u00e3o chegou at\u00e9 aqui. Se voce chegou, ent\u00e3o, leitor, n\u00e3o se ofenda: esse cara n\u00e3o \u00e9 voc\u00ea.<\/p>\n<p>A internet mudou nosso modo de pensar, nos fez ter uma mente imediatista. Somos incapazes da experi\u00eancia duradoura da leitura. Al\u00e9m do mais, somos exigentes demais com o texto. A maioria desiste ao primeiro percal\u00e7o. H\u00e1 tanto para ler, por que insistir com esse livro que demora cinco p\u00e1ginas descrevendo um engarrafamento em S\u00e3o Paulo? (&#8220;N\u00e3o Ver\u00e1s Pa\u00eds Nenhum&#8221;) Por que aguentar dezenas de p\u00e1ginas de papo de marinheiro? (&#8220;Cora\u00e7\u00e3o das Trevas&#8221;)<\/p>\n<p>Ent\u00e3o os nossos autores jovens n\u00e3o t\u00eam refer\u00eancias liter\u00e1rias, eles veem filmes e leem revistas, assistem videoclipes e conversam. N\u00e3o \u00e9 de espantar que a nova literatura esteja cheia de obras que se inspiram em uma est\u00e9tica visual (<em>cyberpunk<\/em>, <em>steampunk<\/em>, g\u00f3tico, <em>noir<\/em>, mang\u00e1).<\/p>\n<h3>Narrar \u00e9 chato, deixa o personagem falar<\/h3>\n<p>O narrador \u00e9 um ser amado e odiado ao mesmo tempo. T\u00e3o inc\u00f4moda \u00e9 a artificialidade de sua posi\u00e7\u00e3o que ele precisa ser subvertido, da\u00ed surgem os narradores em primeira pessoa, os narradores em terceira pessoa n\u00e3o oniscientes, os narradores em segunda pessoa, os narradores observadores, os narradores-personagem e os personagens-narradores. Mas o narrador manter\u00e1 sempre um problema: ele \u00e9 uma voz estranha \u00e0 din\u00e2mica da hist\u00f3ria, permitindo a dicotomia entre a a\u00e7\u00e3o e o autor.<\/p>\n<p>Mas a est\u00e9tica visual em que se baseia a juventude de hoje n\u00e3o valoriza esse discurso. O narrador \u00e9 apenas algo que atrapalha. Narrar \u00e9 atrapalhar. Eles querem ver ao vivo. Quanto mais o livro ficar parecido com um filme, mais interessante. Por isso \u00e9 preciso reduzir o narrador e permitir que os personagens falem.<\/p>\n<p>Essa maneira de narrar tem uma vantagem: permite a \u00f3tima desculpa da &#8220;agilidade&#8221; narrativa para esconder a falta de refer\u00eancia (e de conhecimentos) de que padece o autor, que n\u00e3o leu nem sabe quase nada daquilo que quer narrar. Ent\u00e3o deixe o personagem falar, j\u00e1 que o narrador n\u00e3o tem nada a dizer. E culpe sempre a percep\u00e7\u00e3o limitada do personagem sobre a realidade. Afinal, personagem existe \u00e9 para levar a culpa mesmo.<\/p>\n<h3>N\u00e3o vim para ofender, mas para esclarecer<\/h3>\n<p>Eu mesmo n\u00e3o era esclarecido, &#8220;but I came aware this year&#8221; (Tommy \u2014 The Who). Quero ver mais gente escrevendo bem, e menos gente sendo colonizada culturalmente sem perceber. Engolir sem mastigar n\u00e3o \u00e9 antropofagia cultural, \u00e9 sexo oral &#8220;deep throat&#8221; no pau dos gringos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o fiz isso pensando que fosse enganar a todos: afinal, eu reutilizei um texto que fora publicado em 2009, na antiga comunidade Novos Escritores do Brasil, do Orkut. Muita gente se lembraria&#8230; Al\u00e9m desta, deixei v\u00e1rias outras pistas de minha identidade. Parab\u00e9ns a quem adivinhou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Terminado o concurso de novembro da &#8220;Entre Contos&#8221;, a identidade secreta do autor de &#8220;Gelo Negro&#8221; foi revelada, e agora estamos prontos para algumas reflex\u00f5es que se fazem necess\u00e1rias. A esta altura muitos dos leitores j\u00e1 dever\u00e3o ter percebido algo de estranho neste conto \u2014 os coment\u00e1rios indicam que alguns deles acertaram o alvo. Acho que cabe, agora, prestar alguns esclarecimentos, se bem que eu n\u00e3o acredito que ser\u00e3o lidos. 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