{"id":6742,"date":"2019-06-06T19:50:15","date_gmt":"2019-06-06T22:50:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=6742"},"modified":"2019-07-17T23:48:58","modified_gmt":"2019-07-18T02:48:58","slug":"o-livro-mais-perigoso-de-todos-os-tempos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2019\/06\/o-livro-mais-perigoso-de-todos-os-tempos\/","title":{"rendered":"O Livro Mais Perigoso de Todos os Tempos"},"content":{"rendered":"\n<p>A  literatura europeia dos s\u00e9culos XIII a XIX est\u00e1 repleta de obras com  t\u00edtulos curiosos em latim e versando sobre problemas espirituais,  feiti\u00e7aria, alquimia, magia e coisas afins. Entre estas obras encontramos os livros de feiti\u00e7aria propriamente ditos, os &#8220;grim\u00f3rios&#8221;, os tratados de teologia escritos por gente supersticiosa e tamb\u00e9m algumas primitivas obras de investiga\u00e7\u00e3o anteriores ao m\u00e9todo cient\u00edfico &#8212; entre estas inclu\u00eddas obras de alquimia.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Honorius-800x572.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6743\" width=\"400\" height=\"286\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Honorius-800x572.jpg 800w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Honorius-120x86.jpg 120w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Honorius-250x179.jpg 250w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Honorius-768x550.jpg 768w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Honorius.jpg 1192w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><figcaption>Frontisp\u00edcio de uma edi\u00e7\u00e3o do Grim\u00f3rio do Papa Hon\u00f3rio impressa em Roma, em franc\u00eas, em meados do s\u00e9culo XVIII. Exemplares realmente antigos dos grim\u00f3rios s\u00e3o dif\u00edceis de encontrar porque eles eram manuscritos.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Dos <a rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"grim\u00f3rios (opens in a new tab)\" href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Grim%C3%B3rio\" target=\"_blank\">grim\u00f3rios<\/a> h\u00e1 muito a se dizer, mas n\u00e3o \u00e9 deles que eu pretendo falar. Com toda sua supersti\u00e7\u00e3o e heresias, esses livros eram, em geral, bastante inofensivos &#8212; exceto pela sua capacidade de fazer as pessoas perderem tempo em estudos infrut\u00edferos.<sup><a href=\"#1\">1<\/a><\/sup> Se voc\u00ea se interessa por esse tipo de literatura, procure por obras com t\u00edtulos curiosos como <em>Picatrix<\/em>, <em>Livro de Abramelin<\/em>, <em>Grande Chave de Salom\u00e3o<\/em>, <em>Lemegeton<\/em> ou <em>Pequena Chave de Salom\u00e3o<\/em> (\u00e0s vezes tamb\u00e9m chamado de <em>Go\u00e9cia<\/em> ou <em>Goethia<\/em>, por causa de uma edi\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas organizada por Aleister Crowley), <em>Livro de S\u00e3o Cipriano<\/em>, <em>Franga Preta<\/em>, <em>Clav\u00edcula de Salom\u00e3o<\/em> etc.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/cad8db96ecd9e6435919e8d2281ebfcc-449x640.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6745\" width=\"337\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/cad8db96ecd9e6435919e8d2281ebfcc-449x640.jpg 449w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/cad8db96ecd9e6435919e8d2281ebfcc-105x150.jpg 105w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/cad8db96ecd9e6435919e8d2281ebfcc-210x300.jpg 210w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/cad8db96ecd9e6435919e8d2281ebfcc.jpg 684w\" sizes=\"(max-width: 337px) 100vw, 337px\" \/><figcaption>Frontisp\u00edcio da primeira edi\u00e7\u00e3o do <em>Formicarius<\/em>, publicado em Basil\u00e9ia, no s\u00e9culo XVI.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Entre os tratados de teologia que tratavam de assuntos sobrenaturais, o <em>Formicarius<\/em>, de Johannes Nieder, e o <em>Magnalia Christii Americana<\/em>, de Cotton Mather s\u00e3o os mais not\u00e1veis &#8212; ambos, inclusive, citados por H. P. Lovecraft em suas obras. O primeiro \u00e9 mais interessante, por comparar a sociedade humana a um grande formigueiro. Essa obra cont\u00e9m um cap\u00edtulo inteiro que descreve de que maneiras Satan\u00e1s procura corromper a igreja, mas este n\u00e3o \u00e9 o seu assunto principal.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses tratados se caracterizavam por ser geralmente impressos, enquanto os grim\u00f3rios tendiam a ser manuscritos, e por receberem edi\u00e7\u00f5es bem cuidadas, semelhantes \u00e0s de b\u00edblias e outros textos lit\u00fargicos. Se voc\u00ea encontra um livro antigo bonito que fala de dem\u00f4nios, o mais prov\u00e1vel \u00e9 que se trate de uma obra com <em>imprimatur<\/em> da Igreja. Entre os livros mais perturbadores desta categoria, o <em>Pseudomonarchia Daemonum<\/em>, de Johann Weyer.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/masticationes-374x640.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6746\" width=\"281\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/masticationes-374x640.jpg 374w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/masticationes-88x150.jpg 88w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/masticationes-176x300.jpg 176w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/masticationes-768x1313.jpg 768w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/masticationes.jpg 877w\" sizes=\"(max-width: 281px) 100vw, 281px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>As obras de investiga\u00e7\u00e3o anteriores ao desenvolvimento do m\u00e9todo cient\u00edfico incluem estudos alqu\u00edmicos e astrol\u00f3gicos e tamb\u00e9m certas obras muita pr\u00f3ximas do que seria, s\u00e9culos depois, a antropologia. Entre estes o mais interessantes \u00e9 o <em>De Masticationes Mortuorum in Tumulis<\/em> (&#8220;Sobre as Mastiga\u00e7\u00f5es dos Mortos nos T\u00famulos&#8221;), de Micha\u00ebl Ranft, que, apesar do nome pomposo, \u00e9 apenas uma tentativa de documentar as lendas de mortos-vivos da Europa Oriental. As obras de investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica ou pr\u00e9-cient\u00edfica tendiam a ser impressas com menos luxo, em formatos mais baratos, como se pode ver na diferen\u00e7a entre o frontisp\u00edcio do <em>Formicarius<\/em>, mais acima, e o da obra de Ranft.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de eivados de ignor\u00e2ncia, esses livros chegavam at\u00e9 a trazer li\u00e7\u00f5es importantes. Ranft, por exemplo, que era bastante c\u00e9tico em rela\u00e7\u00e3o aos eventos que investigava, contribuiu para a conscientiza\u00e7\u00e3o a respeito dos enterros prematuros (o que foi um progresso) e para a cria\u00e7\u00e3o do mito do vampiro moderno (o que \u00e9 uma prova de que o ser humano \u00e9 uma criatura besta que consegue perverter a interpreta\u00e7\u00e3o das obras mais bem-intencionadas).<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns livros, por\u00e9m, eram perniciosos porque iam al\u00e9m da ignor\u00e2ncia e do preconceito, naturais de uma \u00e9poca em que as ci\u00eancias ainda eram muito incipientes, e adentravam o terreno perigoso do \u00f3dio. <\/p>\n\n\n\n<p>Entre essas obras que exploravam o \u00f3dio preconceituoso, nenhuma \u00e9 mais deprimente ou foi mais influente que o <em>Malleus Maleficarum<\/em> (&#8220;Martelo das Feiticeiras&#8221;), de Heinrich Kr\u00e4mmer, com pref\u00e1cio de Jacob Sprenger.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/malleus-452x640.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6748\" width=\"339\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/malleus-452x640.jpg 452w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/malleus-106x150.jpg 106w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/malleus-212x300.jpg 212w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/malleus.jpg 723w\" sizes=\"(max-width: 339px) 100vw, 339px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>O &#8220;Martelo das Feiticeiras&#8221;, \u00e0s vezes reeditado em alem\u00e3o como <em>Hexenhammer, <\/em>\u00e9  um livro mis\u00f3gino, obscurantista, irracional e cruel. Eu j\u00e1 tive esse  livro em m\u00e3os (em uma edi\u00e7\u00e3o da Rosa dos Tempos) e o \u00f3dio que ele me despertou por todas as pessoas e  institui\u00e7\u00f5es que estiveram envolvidas na &#8220;Ca\u00e7a \u00e0s Bruxas&#8221; foi  definitivo. Voc\u00ea n\u00e3o consegue mais usar inocentemente o termo &#8220;Ca\u00e7a \u00e0s  Bruxas&#8221; depois de ler uma obra como o <em>Malleus.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ao  contr\u00e1rio da doutrina normal da igreja, que at\u00e9 ent\u00e3o era c\u00e9tica sobre a  exist\u00eancia real de feiticeiras (estas eram consideradas como pag\u00e3s ou  hereges, n\u00e3o como servas literais de Satan\u00e1s), esse livro consagra uma  reviravolta e passa a pregar abertamente a exist\u00eancia de feiticeiras, de  pactos com o diabo, de missas negras, de h\u00f3stias sangrentas, de  unguentos de gordura humana e toda coisa odiosa que \u00e9 normalmente  associada \u00e0 bruxaria europeia. O livro parece, acima de tudo, ter uma obsess\u00e3o com a a\u00e7\u00e3o de bruxas para tornar os homens impotentes ou fazer seus p\u00eanis encolherem at\u00e9 desaparecer. Tamanha obsess\u00e3o que fica at\u00e9 parecendo que a impot\u00eancia de um p\u00eanis diminuto era algo que incomodava pessoalmente a Kr\u00e4mmer.<\/p>\n\n\n\n<p>A  misoginia do livro \u00e9 t\u00e3o evidente e extrema que se algu\u00e9m resolvesse  denunciar uma mulher como bruxa seria imposs\u00edvel escapar. Qualquer sinal  de felicidade, beleza ou sucesso pessoal podia ser &#8220;prova&#8221; de bruxaria.  No entanto, infelicidade, feiura e fracasso tamb\u00e9m podiam ser, devido  aos castigos de Deus contra os satanistas. Ou seja: a \u00fanica maneira de n\u00e3o ser culpado de bruxaria seria nunca ser acusado de bruxaria.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto  a Europa vivia o apogeu da alquimia, praticada principalmente por  homens, o <em>Malleus<\/em> dirige a sanha inquisidora contra as curandeiras e as  parteiras, revelando uma orienta\u00e7\u00e3o claramente de combate \u00e0 mulher. A  gente chega a se perguntar se esses filhos de chocadeira tinham m\u00e3es ou  irm\u00e3s. Krammer tinha sido expulso de Innsbruck, \u00c1ustria, por causar a  revolta da popula\u00e7\u00e3o e dos prelados locais com a sua insist\u00eancia em  indagar uma mo\u00e7a acusada de bruxaria a respeito de suas pr\u00e1ticas  sexuais, usando uma linguagem que ruborizou a todo mundo. Em suma, \u00e9 a  obra de um tarado vingativo.<\/p>\n\n\n\n<p>O  livro se revestiu de toda autoridade poss\u00edvel, incluindo o <em>imprimatur<\/em>  de um bispo poderoso (Speyer) e a san\u00e7\u00e3o papal atrav\u00e9s da bula <em>Summis desiderantes affectibus <\/em>(&#8220;Desejando  com supremo ardor&#8221;). Por causa disso foi considerado &#8220;o texto oficial&#8221;  da ICAR sobre bruxaria<sup><a href=\"#2\">2<\/a><\/sup> e assim foi adotado em v\u00e1rios pa\u00edses, causando o  aumento da viol\u00eancia da Inquisi\u00e7\u00e3o em geral, e contra bruxas em  particular. <\/p>\n\n\n\n<p>Em suas p\u00e1ginas encontramos doutrinas preconceituosas e cheias de \u00f3dio ao feminino. Come\u00e7a por j\u00e1 adotar a forma feminina no pr\u00f3prio t\u00edtulo: <em>Malleus Maleficarum <\/em>\u00e9 o &#8220;Martelo das Feiticeiras&#8221; (<em>malefic\u00e6<\/em>), no feminino, n\u00e3o o <em>Malleus Maleficorum<\/em>, &#8220;Martelo dos Feiticeiros&#8221; (<em>maleficii<\/em>), no g\u00eanero masculino neutro. Em v\u00e1rios lugares o texto afirma que os homens t\u00eam uma tend\u00eancia  natural a crer em deus e serem pios, enquanto as mulheres t\u00eam uma  tend\u00eancia natural a serem lascivas, vol\u00faveis, est\u00fapidas e descrentes.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o  tantas as coisas perniciosas no livro que ele \u00e9 quase ileg\u00edvel. Ele  acusa as m\u00e3es de filhos natimortos de serem bruxas que os sacrificaram a  Satan\u00e1s. Acusam as mulheres de roubarem o p\u00eanis de seus maridos \u00e0 noite  para lev\u00e1-los aos sab\u00e1s. Acusam as mulheres, em geral, de tend\u00eancias  canibais. Ao fim e ao cabo, sai-se da leitura com a impress\u00e3o de que ser mulher j\u00e1 \u00e9 um pecado.<\/p>\n\n\n\n<p>Como as  mulheres s\u00e3o inerentemente m\u00e1s, o \u00fanico meio atrav\u00e9s do qual podem  salvar suas almas e evitar a perdi\u00e7\u00e3o do mundo seria atrav\u00e9s da  castidade e de uma vida de ora\u00e7\u00e3o. Como a vida mon\u00e1stica \u00e9 para poucos,  Krammer concluiu que as mulheres em geral estavam destinadas a ser  bruxas e que s\u00f3 restava ao estado e \u00e0 igreja fazer o m\u00e1ximo poss\u00edvel  para extirpar a bruxaria do mundo. Ou seja: esse \u00e9 um livro que declara guerra de exterm\u00ednio a todas as mulheres do mundo!<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas quartos das v\u00edtimas da &#8220;Ca\u00e7a \u00e0s Bruxas&#8221; foram mulheres,  em geral as mais belas, as mais talentosas ou as mais geniosas de cada  cidade. Por onde a &#8220;Ca\u00e7a \u00e0s Bruxas&#8221; passasse, deixava um rastro de pavor  nas mulheres (e tamb\u00e9m nos homens, mas principalmente nelas), com a  li\u00e7\u00e3o de que deveriam evitar embelezar-se, deveriam ser em tudo submissas  a todo mundo e que n\u00e3o deveriam ter quaisquer aspira\u00e7\u00f5es \u2014 ou poderiam  acabar na fogueira, depois de passarem por v\u00e1rios instrumentos de  tortura.<\/p>\n\n\n\n<p>O mais extraordin\u00e1rio de tudo isto \u00e9 que boa parte do dano causado pelo <em>Malleus Maleficarum<\/em> ocorreu fora do controle do estado e da Igreja, pelas m\u00e3os de indiv\u00edduos cheios de \u00f3dio e movidos por uma persegui\u00e7\u00e3o pessoal contra o feminino. Sim,  \u00e9 verdade que o <em>Malleus<\/em> tem autor historicamente conhecido, Heinrich Kr\u00e4mmer, um  local de publica\u00e7\u00e3o definido, Col\u00f4nia, uma bula papal a sancionar as teses do autor, indicando que o papa tivera conhecimento de alguma vers\u00e3o do  livro antes de publicado, tem o <em>imprimatur<\/em> do bispo de Col\u00f4nia,  tem a aprova\u00e7\u00e3o da Faculdade de Teologia da Universidade local e  tem uma recomenda\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio imperador do Sacro-Imp\u00e9rio  Romano-Germ\u00e2nico, al\u00e9m de ser precedido de um pref\u00e1cio de Johann  Sprenger, te\u00f3logo respeitado da \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar disso, h\u00e1 evid\u00eancias que sugerem que todo esse endosso que o livro supostamente tinha foi inventado por Kr\u00e4mmer. <\/p>\n\n\n\n<p>O  <em>imprimatur<\/em> de um bispo n\u00e3o quer dizer que uma obra \u00e9 a doutrina oficial  da igreja, apenas que passou por uma censura (muitas vezes desatenta) e n\u00e3o se achou nela nenhuma heresia ou motivo que  justificasse a proibi\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>A  bula papal n\u00e3o sanciona o livro em si, apenas recomenda a pessoa de Heirich Kr\u00e4mmer como um jesu\u00edta honrado e inquisidor autorizado pela igreja.  Kr\u00e4mmer provavelmente solicitou esse apoio do papa para tentar reparar a sua reputa\u00e7\u00e3o, destru\u00edda depois de sua atua\u00e7\u00e3o no Tirol austr\u00edaco, ocasi\u00e3o em que seus m\u00e9todos causaram revolta no povo,  devido \u00e0 sua obsess\u00e3o por interrogar uma acusada sobre pr\u00e1ticas sexuais  aberrantes de que ningu\u00e9m, nem a pr\u00f3pria acusada, tinha ouvido sequer falar. Expulso de Innsbruck pelo bispo, sob a acusa\u00e7\u00e3o de  difundir o conhecimento do pecado em vez de pregar a palavra de Deus, e  com a recomenda\u00e7\u00e3o de recolhimento a um mosteiro (o equivalente medieval  para dizer a um prelado para se internar num hosp\u00edcio e ir se tratar),  Kr\u00e4mmer usou suas conex\u00f5es pol\u00edticas e alguma dose de manipula\u00e7\u00e3o para obter o apoio do papa, que o recomendou ao bispo de  Estrasburgo.<\/p>\n\n\n\n<p>O  pref\u00e1cio de Sprenger parece ter sido&#8230; um pref\u00e1cio! Uma recomenda\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica,  provavelmente escrita por solicita\u00e7\u00e3o amig\u00e1vel. Talvez Sprenger n\u00e3o  tivesse nenhum conhecimento do conte\u00fado do livro, apenas uma  rela\u00e7\u00e3o anterior de amizade com Kr\u00e4mmer, ou com algum amigo comum, e topou  escrever o pref\u00e1cio esperando uma retribui\u00e7\u00e3o futura. Esse tipo de situa\u00e7\u00e3o \u00e9 comum at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9  verdade que ele foi sancionado pela Faculdade de Teologia de Col\u00f4nia,  mas h\u00e1 ind\u00edcios de que foi o decano da Faculdade que o aprovou, forjando  as assinaturas dos demais membros do corpo de doutores. Como Kr\u00e4mmer se tornou depois muito  poderoso, esses te\u00f3logos n\u00e3o tiveram coragem de enfrent\u00e1-lo abertamente,  s\u00f3 dois o fizeram: um afirmou que n\u00e3o recomendara o livro e  outro declarou que nem fora consultado a respeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Enfim,  h\u00e1 grandes evid\u00eancias de que o livro foi o produto de uma fraude  perpetrada por um tarado poderoso e influente, que conseguiu manipular  at\u00e9 o papa e o imperador empregando rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e muito FUD. Uma esp\u00e9cie de Olavo de Carvalho do s\u00e9culo XV.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema \u00e9 que o livro ganhou vida pr\u00f3pria depois de publicado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele  se tornou rapidamente t\u00e3o popular que o bispo de Col\u00f4nia n\u00e3o p\u00f4de  impedir sua reedi\u00e7\u00e3o \u2014 e quando isso foi tentado de novo ele j\u00e1 estava  sendo impresso em toda parte, n\u00e3o somente em Col\u00f4nia. Tanto prest\u00edgio ele adquiriu, que as edi\u00e7\u00f5es seguintes come\u00e7aram a incluir ilustra\u00e7\u00f5es, que naquela \u00e9poca eram car\u00edssimas de se fazer, requerendo a concorrida arte da xilogravura.<\/p>\n\n\n\n<p>Kr\u00e4mmer  rapidamente se tornou um &#8220;astro&#8221; da Inquisi\u00e7\u00e3o e ainda mais influente  que antes, o que lhe permitiu seguir os m\u00e9todos que descreveu no livro. A  partir de um certo ponto, ficou parecendo que ir contra o <em>Malleus<\/em> era  ir contra o papa, a Santa Igreja Cat\u00f3lica e a pr\u00f3pria doutrina crist\u00e3. Mesmo depois da  morte do autor o livro continuou popular e muitos outros tarados como  ele continuaram a us\u00e1-lo. A &#8220;condena\u00e7\u00e3o&#8221; da igreja nunca o  alcan\u00e7ou porque os ca\u00e7adores de bruxas eram poderosos e o papa, mesmo  naquela \u00e9poca, s\u00f3 tinha o poder que lhe era emprestado por suas rela\u00e7\u00f5es  pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p>O livro inspirou a Ca\u00e7a \u00e0s Bruxas at\u00e9 nos pa\u00edses protestantes, embora Kraemmer nunca tenha atuado nestes e ali a autoridade papal n\u00e3o vigorasse.<\/p>\n\n\n\n<p>Por  isso eu o considero perturbador. N\u00e3o \u00e9 apenas ser a obra de um tarado  poderoso, cheio de preconceitos e \u00f3dio, \u00e9 o fato de que, uma vez  conjurados esse \u00f3dio e esses preconceitos na forma de um livro, ele  ressoou na mentalidade coletiva do povo e ganhou vida independente,  deixando atr\u00e1s de si um rastro de \u00f3dio, horror e chacinas que perdurou por s\u00e9culos. Enquanto o mundo redescobria as artes e as ci\u00eancias, vivendo o &#8220;Renascimento&#8221;, por inspira\u00e7\u00e3o desta obra causou-se um profundo dano \u00e0 psicologia coletiva da Europa, da\u00ed nascendo uma s\u00e9rie de comportamentos sexuais e sociais que ainda n\u00e3o superamos at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"footnote\">\n<p><a name=\"1\">1<\/a>O poder de sedu\u00e7\u00e3o desse tipo de literatura n\u00e3o se limitava \u00e0s pessoas ignorantes: at\u00e9 bem recentemente, j\u00e1 no s\u00e9culo XIX, era comum que os mais brilhantes cientistas tivessem algum tipo de envolvimento com o ocultismo, atrav\u00e9s de disciplinas como a alquimia, a astrologia, a teologia ou, mais recentemente, o espiritualismo. Entre os cientistas mais atuantes nesses campos, Isaac Newton e William Crookes foram os mais c\u00e9lebres.<\/p>\n<p><a name=\"2\">2<\/a>Apesar disso, como voc\u00ea ver\u00e1 mais tarde no texto, o <i>Malleus<\/i> <b>nunca foi<\/b>, de fato, um texto oficial da Igreja.<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A literatura europeia dos s\u00e9culos XIII a XIX est\u00e1 repleta de obras com t\u00edtulos curiosos em latim e versando sobre problemas espirituais, feiti\u00e7aria, alquimia, magia e coisas afins. Entre estas obras encontramos os livros de feiti\u00e7aria propriamente ditos, os &#8220;grim\u00f3rios&#8221;, os tratados de teologia escritos por gente supersticiosa e tamb\u00e9m algumas primitivas obras de investiga\u00e7\u00e3o anteriores ao m\u00e9todo cient\u00edfico &#8212; entre estas inclu\u00eddas obras de alquimia. Dos grim\u00f3rios h\u00e1 muito a se dizer, mas n\u00e3o \u00e9 deles que eu pretendo falar. 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