{"id":6758,"date":"2019-06-08T19:30:18","date_gmt":"2019-06-08T22:30:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=6758"},"modified":"2019-07-17T23:48:58","modified_gmt":"2019-07-18T02:48:58","slug":"a-alma-nua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2019\/06\/a-alma-nua\/","title":{"rendered":"A Alma Nua"},"content":{"rendered":"\n<p>Acordei  de um sono pesado e sem sonhos, sentindo a boca seca devido a muito  tempo sem beber \u00e1gua, e os m\u00fasculos algo doloridos de tanto ficar  deitado. Depois de um breve suspiro, que n\u00e3o me aliviou muito por causa  do ar opressivo do quarto, dei-me conta de que a cama estava  anormalmente dura, certamente porque dormira em uma casa alheia \u2014 coisa que raramente fa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Tentando  entender onde estava e o que me acontecera, levei a m\u00e3o direita \u00e0 cabe\u00e7a, um gesto muito caracter\u00edstico meu e de que qualquer pessoa  confusa. Bem, de fato n\u00e3o levei a m\u00e3o \u00e0 cabe\u00e7a porque algo me  impediu. Meu gesto foi interrompido por algo duro a poucos cent\u00edmetros  da altura de minha barriga.<\/p>\n\n\n\n<p>Rapidamente  me certifiquei de que a mesma coisa que impedia a minha m\u00e3o de alcan\u00e7ar a  minha testa parecia distribu\u00edda por sobre mim, pelo menos at\u00e9 onde eu  alcan\u00e7ava com o movimento de meus bra\u00e7os, tolhido pelo pouco espa\u00e7o. N\u00e3o consegui nem me virar de lado. Finalmente me dei conta  de um cheiro detest\u00e1vel de flores\u2026 cravos! Evito esse perfume a todo  custo, porque me lembra o cheiro das flores postas no  caix\u00e3o de minha av\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p>Caix\u00e3o!?<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o come\u00e7ou se formar em minha cabe\u00e7a uma ideia absurda. Meu c\u00e9rebro passou a funcionar alucinadamente. Foi ontem, mas parece que foi h\u00e1 tr\u00eas dias. Sim, eu estranhei que minha mulher estivesse t\u00e3o sorridente e receptiva, ela que geralmente reclama tanto de dores de cabe\u00e7a, de cansa\u00e7o e da minha falta de tato para com ela e os problemas  dom\u00e9sticos. Principalmente estranhei que estivesse assim menos de  uma semana depois de descobrir que eu vinha mantendo um caso com outra mulher. Mas eu estava realmente com sede e tinha a louca fantasia  de me reconciliar com a minha mulher e, quem sabe, um dia ter as duas dentro de uma mesma casa, para facilitar. Ou, pelo menos, manter o  relacionamento e evitar as dores e despesas de um div\u00f3rcio  litigioso.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois  de uma desconfian\u00e7a inicial, ent\u00e3o, eu aceitei a ta\u00e7a de vinho. Apesar  de que eu detesto vinho \u2014 onde eu estava com a cabe\u00e7a?<\/p>\n\n\n\n<p>Minutos  depois eu me sentira mal. Vinho sempre me faz um pouco de mal desde que  me operei de ves\u00edcula. \u00c9 s\u00f3 tomar e a boca amarga, a cabe\u00e7a  d\u00f3i. Dessa vez n\u00e3o foi diferente, s\u00f3 foi pior. Ent\u00e3o tudo ficou escuro. Na escurid\u00e3o eu me lembrei de vozes agitadas, femininas. As crian\u00e7as gritando, a minha mulher chorando. Depois tudo ficou  silencioso.<\/p>\n\n\n\n<p>E acordei agora.<\/p>\n\n\n\n<p>Meu Deus! Vou morrer sufocado aqui, esse ar parece grosso como leite coalhado!<\/p>\n\n\n\n<p>Debato-me  dentro do caix\u00e3o com todas as for\u00e7as. No come\u00e7o imagino, com  pavor, que estou sobre os regulamentares e tradicionais sete palmos \u2014  mas, em vez disso, sinto o caix\u00e3o balan\u00e7ar e me lembro de que um de  meus investimentos recentes fora um jazigo perp\u00e9tuo no cemit\u00e9rio  municipal. Ent\u00e3o n\u00e3o estou na terra, estou em uma gaveta no t\u00famulo  da fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso me d\u00e1 esperan\u00e7as. Come\u00e7o a me debater com mais for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Obviamente  o caix\u00e3o foi feito com solidez para n\u00e3o se desfazer no  transporte, mas n\u00e3o se imaginou que tivesse de ser feito forte para resistir \u00e0 a\u00e7\u00e3o do ocupante. Os parafusos que seguram a tampa n\u00e3o s\u00e3o grande coisa, ent\u00e3o a tampa come\u00e7a a se desprender e uma greta estreita se abre. Consigo enfiar o dedo por ela, mas o ar que entra n\u00e3o \u00e9  melhor do que o bafo opressivo que eu estava respirando: tem mais  oxig\u00eanio, mas fede horrivelmente a decomposi\u00e7\u00e3o e a outra coisa.  Ent\u00e3o me lembro que nas duas gavetas de baixo est\u00e3o os meus pais, mortos  h\u00e1 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Continuo  me debatendo. Por fim a tampa do caix\u00e3o se desprende o suficiente para eu faz\u00ea-lo tombar e assim consigo sair e me virar de lado. A gaveta \u00e9  estreita, deve ter menos de sessenta cent\u00edmetros de altura por um  metro e vinte de largura, mas esse espa\u00e7o j\u00e1 me alivia um pouco.<\/p>\n\n\n\n<p>Caindo  fora do caix\u00e3o eu me dou conta de que minha m\u00e3o tocou algo pegajoso e  seco e est\u00e1 ardendo. \u00c9 cal viva, que puseram dentro do t\u00famulo para  eu n\u00e3o feder e sumir mais cedo.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar  da cal me queimar, apoio as m\u00e3os no ch\u00e3o e come\u00e7o a chutar a paredinha  de tijolos que fecha o t\u00famulo. Ela cede com alguma facilidade porque a  argamassa ainda n\u00e3o acabou de secar. Isto quer dizer que eu devo ter  sido enterrado h\u00e1 poucas horas. Um buraco se abre e vejo que l\u00e1 fora est\u00e1 escuro.<\/p>\n\n\n\n<p>Com alguma dificuldade eu me enfio pelo buraco aberto e deslizo para fora da gaveta do t\u00famulo. O cemit\u00e9rio est\u00e1 escuro e silencioso.<\/p>\n\n\n\n<p>Bato  as m\u00e3os na roupa para remover a cal que me irrita a pele e descubro que  meus bolsos est\u00e3o vazios. Estou sem a chave do carro, sem o telefone  celular, sem carteira. Sem essas coisas eu me sinto nu. Estou sem os meus \u00f3culos e assim eu mal enxergo onde estou.<\/p>\n\n\n\n<p>E\n agora? O que fazer? Devo sair do cemit\u00e9rio e tentar ligar para a minha \namante? Devo tentar o meu irm\u00e3o? Ou a minha mulher mesmo? N\u00e3o, melhor \nn\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p>Que \nobst\u00e1culos terei de enfrentar para provar que estou vivo? Como vou \nrecuperar o meu dinheiro, o meu emprego, a minha casa e o meu carro? \nComo minha fam\u00edlia reagir\u00e1 quando eu aparecer? Eles me enterraram h\u00e1 \npouco! Como vou explicar isso para a justi\u00e7a, o governo e a igreja?<\/p>\n\n\n\n<p>Estas s\u00e3o perguntas que ser\u00e3o respondidas se eu for contratado por uma editora para terminar esta hist\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acordei de um sono pesado e sem sonhos, sentindo a boca seca devido a muito tempo sem beber \u00e1gua, e os m\u00fasculos algo doloridos de tanto ficar deitado. Depois de um breve suspiro, que n\u00e3o me aliviou muito por causa do ar opressivo do quarto, dei-me conta de que a cama estava anormalmente dura, certamente porque dormira em uma casa alheia \u2014 coisa que raramente fa\u00e7o. 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