{"id":6770,"date":"2019-06-11T19:34:58","date_gmt":"2019-06-11T22:34:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=6770"},"modified":"2019-07-17T23:48:58","modified_gmt":"2019-07-18T02:48:58","slug":"palmas-para-o-isentao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2019\/06\/palmas-para-o-isentao\/","title":{"rendered":"Palmas para o \u201cIsent\u00e3o\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>Entre os grandes flagelos do debate pol\u00edtico na atualidade, o \u201cisent\u00e3o\u201d \u00e9 um dos mais desagrad\u00e1veis pelas sua capacidade de abortar o confronto leg\u00edtimo de ideias, o que, a longo prazo, impede a defesa honesta de posi\u00e7\u00f5es. Diante do \u201cisent\u00e3o\u201d, esse sofista moderno, que habita o muro como quem se instala em um castelo, todas os opini\u00f5es s\u00e3o id\u00eanticas em irrelev\u00e2ncia. Se queremos recuperar um pouco de nossa civilidade, precisamos desterrar os \u201cisent\u00f5es\u201d de volta ao limbo, em vez de os idolatrarmos como os modelos filosoficamente superiores de virtude.<\/p>\n\n\n\n<p>O termo \u201cisent\u00e3o\u201d surgiu como uma ironia, mas todo o sarcasmo embutido na palavra n\u00e3o bastou para impedir que a atitude ganhasse respeito gradualmente, at\u00e9 hoje o \u201cisent\u00e3o\u201d se sentir \u00e0 vontade para cobrar isen\u00e7\u00e3o de todo mundo que n\u00e3o se comporte como ele.<\/p>\n\n\n\n<p>A raiz do comportamento \u201cisent\u00e3o\u201d est\u00e1 em um dos pilares do p\u00f3s-modernismo, o relativismo. Para os p\u00f3s-modernos, n\u00e3o h\u00e1 posi\u00e7\u00f5es inerentemente boas ou m\u00e1s, todas elas s\u00e3o \u201copini\u00f5es\u201d e devem receber a mesma aten\u00e7\u00e3o. O passo seguinte \u00e9 concluir que n\u00e3o h\u00e1 posi\u00e7\u00f5es v\u00e1lidas ou inv\u00e1lidas, mas que todas dependem da perspectiva do emissor e do receptor. <\/p>\n\n\n\n<p>Nada disso \u00e9 dito abertamente porque os \u201cisent\u00f5es\u201d sabem que a mente racional regurgitaria uma ideia que demite a pr\u00f3pria racionalidade como um par\u00e2metro. Ent\u00e3o, o evangelismo dos relativistas n\u00e3o se concentra em atacar o conceito de verdade, mas as suas manifesta\u00e7\u00f5es. N\u00e3o podendo ou n\u00e3o ousando dizer \u00e0s pessoas que a verdade n\u00e3o existe, buscam conduzi-las \u00e0 mesma conclus\u00e3o atrav\u00e9s de questionamentos indiretos. Da\u00ed temos a falsa isonomia, que consiste em buscar um equivalente oposto a tudo de bom ou mau de que se tenha conhecimento a fim de criar a impress\u00e3o de isonomia. A atitude \u201cisentona\u201d me parece ser um dos meios \u00fateis a essa finalidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Acredito que para o debate continuar, precisamos, primeiro, definir quem \u00e9 essa figura de nosso besti\u00e1rio pol\u00edtico, o \u201cisent\u00e3o\u201d. N\u00e3o me refiro aqui a pessoas que procuram ser neutras, mas a quem evita se comprometer. Ser neutro \u00e9 uma coisa, ser escorregadio \u00e9 outra. Diante de posi\u00e7\u00f5es polarizadas, o \u201cisent\u00e3o\u201d n\u00e3o busca o terreno comum ao centro, ele busca demonstrar que ambos os lados est\u00e3o errados. Faz isso de duas maneiras: tentando identificar pontos negativos na proposi\u00e7\u00e3o prevalente e, ao mesmo tempo, ressaltando supostos pontos positivos da posi\u00e7\u00e3o prejudicada. O efeito disso n\u00e3o \u00e9 atrair os lados beligerantes para um objetivo comum, \u00e9 silenciar o debate sem que se chegue a uma solu\u00e7\u00e3o do impasse, permitindo, ent\u00e3o, que uma nova vers\u00e3o impere, agora em uma arena esvaziada.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pr\u00e1tica, o que o \u201cisent\u00e3o\u201d quer n\u00e3o \u00e9 a isen\u00e7\u00e3o, mas a neutralidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o termo \u201cisent\u00e3o\u201d come\u00e7ou a ser utilizado, h\u00e1 uns poucos anos, ele buscava ridicularizar os que se punham \u201cem cima do muro\u201d em debates polarizados. O argumento em defesa dessa atitude seria que os \u201cextremismos\u201d conduziriam a um conflito e que seria necess\u00e1rio chegar a um terreno comum. N\u00e3o resta a menor d\u00favida de que esse argumento original \u00e9 correto, o problema \u00e9 que ele n\u00e3o se aplica aos \u201cisent\u00f5es\u201d, como vimos acima.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro porque a caracter\u00edstica do \u201cterreno comum\u201d \u00e9 ser um ponto pac\u00edfico entre terrenos confrontantes e devidamente individualizados. Para se chegar a um acordo civilizado entre opini\u00f5es polarizadas, n\u00e3o \u00e9 preciso que ningu\u00e9m abra m\u00e3o de seus \u201cextremismos\u201d ideol\u00f3gicos, mas que ambos os lados concordem em uma t\u00e1tica em prol de objetivos comuns. Mas n\u00e3o \u00e9 assim que o \u201cisent\u00e3o\u201d opera: em nome de um mundo que n\u00e3o esteja polarizado entre o preto e o branco, ele almeja um mundo cinza. <\/p>\n\n\n\n<p>O segundo ponto problem\u00e1tico \u00e9 que os \u201cisent\u00f5es\u201d n\u00e3o buscam a neutralidade real, mas a hegemonia do debate atrav\u00e9s do silenciamento dos extremos. Acredito que a proposi\u00e7\u00e3o de uma \u201cterceira via\u201d para superar as anteriores \u00e9 essencialmente fascista, pois nega a pluralidade. A atitude a que estou chamando de \u201cisentona\u201d pode parecer filos\u00f3fica e bonitinha, mas \u00e9 uma cunha para se derrubar a intelig\u00eancia democr\u00e1tica e semear o pensamento \u00fanico. Veja bem que esta verdade n\u00e3o precisa que os \u201cisent\u00f5es\u201d sejam feios, sujos e malvados &#8212; ela tamb\u00e9m vigora com gente bonita, limpinha e com toda apar\u00eancia de bem-intencionada.<\/p>\n\n\n\n<p>E nem sempre o \u201cisent\u00e3o\u201d percebe que est\u00e1 destruindo a verdade. Muitas vezes ele sinceramente cr\u00ea que sempre ser\u00e1 poss\u00edvel encontrar um meio-termo, mesmo quando este obviamente n\u00e3o existe. Um exemplo desta situa\u00e7\u00e3o seria a busca \u201cisentona\u201d de um meio-termo entre uma posi\u00e7\u00e3o genocida e uma posi\u00e7\u00e3o humanista. Enquanto o genocida pretende exterminar \u201ctodos os membros do grupo X\u201d, o humanista n\u00e3o aceita que ningu\u00e9m seja morto por pertencer a um grupo qualquer. Um exemplo de meio termo \u201cisent\u00e3o\u201d nesse caso seria propor um exterm\u00ednio \u201climitado\u201d dos membros do grupo X, com o que o genocida pode concordar, por ser uma meta mais modesta. Mas o humanista n\u00e3o pode concordar com isto porque ainda envolve matar pessoas inocentes. Aqui encontramos o grande problema da busca da isen\u00e7\u00e3o pelo amor da pr\u00f3pria isen\u00e7\u00e3o: ela pode nos levar a concluir que aqueles que n\u00e3o querem tolerar o intoler\u00e1vel \u00e9 que s\u00e3o radicais, enquanto os que aceitam praticar um mal menor s\u00e3o flex\u00edveis!<\/p>\n\n\n\n<p>Existem tr\u00eas consequ\u00eancias muito problem\u00e1ticas desse pensamento \u201cisent\u00e3o\u201d: 1) deslegitima\u00e7\u00e3o do que \u00e9 justo, 2) atenuamento da injusti\u00e7a e 3) cinismo generalizado.<\/p>\n\n\n\n<p>A deslegitima\u00e7\u00e3o do justo ocorre quando pessoas que defendem metas corretas e positivas s\u00e3o questionadas por causa de suas imperfei\u00e7\u00f5es. Como o \u201cisent\u00e3o\u201d se julga moralmente superior e cr\u00ea que n\u00e3o \u00e9 ideologizado, ele v\u00ea com certo ran\u00e7o o brilho dos que se erguem com bandeiras significativas. Apontar os p\u00e9s de barro dos \u00eddolos \u00e9 uma maneira atrav\u00e9s da qual se \u201cdemonstra\u201d \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica a \u201chipocrisia\u201d dos que parecem virtuosos. Dos her\u00f3is, exige-se nada menos que a santidade, mas, mesmo assim, ainda ser\u00e1 sempre poss\u00edvel convencer ao povo da exist\u00eancia de pecados imagin\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Por uma quest\u00e3o ideol\u00f3gica, o relativista n\u00e3o consegue crer que as pessoas possam ser sinceras. As vicissitudes da condi\u00e7\u00e3o humana aparecem aqui como um questionamento da validade moral da ades\u00e3o do indiv\u00edduo a um conceito abstrato. A impossibilidade ou a dificuldade de se aproximar do ideal significa que o adepto nunca estar\u00e1 \u00e0 altura de suas ideias. O fato de que esse tipo de argumento seja falacioso (<em>argumentum ad hominem<\/em>) n\u00e3o assusta aos relativistas porque, como sabemos, eles j\u00e1 partem do princ\u00edpio de que a l\u00f3gica \u00e9 apenas uma conven\u00e7\u00e3o, a racionalidade n\u00e3o existe e todos os par\u00e2metros est\u00e3o \u00e0 mesa para serem redefinidos. H\u00e1 at\u00e9 os que acreditam que a racionalidade \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u201cpris\u00e3o intelectual\u201d que impede a mente de al\u00e7ar voo livremente.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/isento.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-6771\" width=\"375\" height=\"413\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/isento.png 500w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/isento-120x132.png 120w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/isento-250x275.png 250w\" sizes=\"(max-width: 375px) 100vw, 375px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>O atenuamento da injusti\u00e7a ocorre de v\u00e1rias maneiras, sempre sutis, mas as tr\u00eas mais curiosas s\u00e3o a humaniza\u00e7\u00e3o, a relativiza\u00e7\u00e3o hol\u00edstica e a invers\u00e3o da prioridade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cHumaniza\u00e7\u00e3o\u201d aqui se refere a utilizar aspectos da vida pessoal de um emissor como argumento em favor de suas ideias. Qualquer argumenta\u00e7\u00e3o em favor do \u201clugar de fala\u201d precisa estar atenta para n\u00e3o cometer esse erro &#8212; por mais que seja v\u00e1lido e importante ouvir aqueles que normalmente n\u00e3o s\u00e3o ouvidos. O problema \u00e9tico aqui \u00e9 que a moral \u201cilibada\u201d ou a \u201csinceridade\u201d dos princ\u00edpios de uma pessoa t\u00eam tanto valor quando suas m\u00e1culas morais e sua insinceridade. Podem servir para avaliarmos a biografia do indiv\u00edduo, mas n\u00e3o suas ideias. A \u201chumaniza\u00e7\u00e3o\u201d a que me refiro n\u00e3o \u00e9 a humaniza\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo sabidamente detest\u00e1vel (como Hitler), embora isso tamb\u00e9m ocorra, refiro-me a encarnar uma ideia em uma pessoa, para que respeitemos a ideia em fun\u00e7\u00e3o da biografia de quem a defende.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cRelativiza\u00e7\u00e3o hol\u00edstica\u201d quer dizer a nega\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio da controv\u00e9rsia. N\u00e3o se trata de dizer que uma ideia ruim n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o ruim assim ou que uma ideia boa n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o boa. O tipo de relativiza\u00e7\u00e3o \u201cisentona\u201d a que me refiro consiste em dizer que n\u00e3o h\u00e1 polaridade de ideias, que ambas as ideias s\u00e3o partes complementares de uma mesma pe\u00e7a. Um exemplo dessa argumenta\u00e7\u00e3o \u00e9 a \u201cteoria da ferradura\u201d, segundo a qual \u201cos extremos se tocam\u201d. Quando a frase foi proferida, sua inten\u00e7\u00e3o pode ter sido boa, pode ter sido a de alertar contra os perigos do extremismo, mas hoje, tanto tempo depois, este conceito \u00e9 empregado para negar a pr\u00f3pria exist\u00eancia de oposi\u00e7\u00e3o entre princ\u00edpios que s\u00e3o naturalmente opostos. Para o \u201cisent\u00e3o\u201d, tanto faz se voc\u00ea defende os direitos humanos (social-democracia) ou se defende o exterm\u00ednio seletivo de seres humanos (nacional-socialismo), caso voc\u00ea defenda ardorosamente melhores sal\u00e1rios, jornadas de trabalho mais humanas, educa\u00e7\u00e3o gratuita e sa\u00fade universal voc\u00ea pode se tornar exatamente \u201cum Hitler\u201d sem precisar construir nenhum campo de concentra\u00e7\u00e3o. A sa\u00edda \u201cisentona\u201d para os \u201cperigos\u201d desse extremismo \u00e9 uma esp\u00e9cie de apatia moral, como se o \u201cisent\u00e3o\u201d se colocasse fora da sociedade, como mero espectador de sua derrocada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cInvers\u00e3o da prioridade\u201d significa considerar a \u201cisen\u00e7\u00e3o\u201d como um posicionamento, em vez de uma atitude. Embora o \u201cisent\u00e3o\u201d se apresente como um true neutral; ao definir a neutralidade como um fim, em vez de um princ\u00edpio, o \u201cisent\u00e3o\u201d est\u00e1 disposto a descartar evid\u00eancias que exigiriam uma tomada de posi\u00e7\u00e3o. Para o \u201cisent\u00e3o\u201d, qualquer elemento que d\u00ea raz\u00e3o a um dos extremos se revela como uma amea\u00e7a, porque significa que sua isen\u00e7\u00e3o \u00e9 insustent\u00e1vel. Assim, para justificar sua continuada neutralidade diante de um conflito que persiste, o \u201cisent\u00e3o\u201d passa a atacar a informa\u00e7\u00e3o, agindo, agora, como um leg\u00edtimo obscurantista. Em casos extremos, o \u201cisent\u00e3o\u201d pode chegar a fabricar evid\u00eancias para deslegitimar ou fortalecer os lados opostos, de forma a manter o \u201cequil\u00edbrio\u201d, para que ele possa continuar a enxergar uma isonomia.<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo: uma isonomia entre um professor universit\u00e1rio com um discurso pol\u00edtico bastante tradicional e um pol\u00edtico \u201ccontroverso\u201d com um discurso confrontativo baseado no \u00f3dio e no voluntarismo. Para o \u201cisent\u00e3o\u201d, ambos s\u00e3o \u201cextremistas\u201d de alguma forma. Outro exemplo \u00e9 a busca do compromisso entre os que prop\u00f5em a destrui\u00e7\u00e3o da natureza em nome do lucro e aqueles que acreditam que \u00e9 preciso parar a destrui\u00e7\u00e3o para tentar assegurar a sobreviv\u00eancia da pr\u00f3pria humanidade. Os primeiros podem aceitar uma redu\u00e7\u00e3o da devasta\u00e7\u00e3o, e ser\u00e3o chamados de razo\u00e1veis, ainda que seus atos conduzam ao apocalipse, enquanto os segundos ser\u00e3o chamados de radicais, apesar de buscarem a salva\u00e7\u00e3o do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Um quarto mal desse sistema de coisas \u00e9 aumentar a credibilidade do jornalismo marrom, porque esse tipo de imprensa n\u00e3o hesita em tomar partido claro por um lado, o majorit\u00e1rio. Como a imprensa sensacionalista n\u00e3o busca o equil\u00edbrio, ela passa mais credibilidade. De certa forma, ela <em>tem<\/em> mais credibilidade. As <em>fake news<\/em> s\u00e3o mais cr\u00edveis exatamente porque n\u00e3o nos pedem desculpas nem t\u00eam medo de assumir uma vers\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns desses \u201cisent\u00f5es\u201d se refugiam na covardia pol\u00edtica de adotar e pregar o voto nulo, vendo na sua mera absten\u00e7\u00e3o uma virtude, um poder. Outros preferem agir como divas quando as luzes est\u00e3o focadas sobre eles, \u201cchupando e assoprando\u201d para demonstrarem que n\u00e3o se comprometeram realmente, nem quando a realidade exigia um posicionamento. Exemplo claro disso foi o Mano Brown \u201capoiando\u201d a candidatura de Haddad e falando mal do PT em p\u00fablico, municiando o advers\u00e1rio. Nada \u00e9 mais paradigm\u00e1tico do \u201cisent\u00e3o\u201d que se acha a \u00faltima bolacha do pacote do que essa atitude. Em vez de humildemente emprestar sua bandeira a uma luta alheia, o \u201cisent\u00e3o\u201d aproveita o momento de necessidade do seu advers\u00e1rio para se pavonear como moralmente superior. Afinal, o melhor momento para se discutir a legitimidade da cadeia de comando \u00e9 exatamente quando o oficial em comando est\u00e1 organizando a defesa contra o ataque inimigo. N\u00e3o h\u00e1 momento melhor, a n\u00e3o ser, talvez, organizando justi\u00e7amentos de dissidentes dentro dos pres\u00eddios da ditadura. A\u00ed ent\u00e3o \u00e9 o m\u00e1ximo da biografia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre os grandes flagelos do debate pol\u00edtico na atualidade, o \u201cisent\u00e3o\u201d \u00e9 um dos mais desagrad\u00e1veis pelas sua capacidade de abortar o confronto leg\u00edtimo de ideias, o que, a longo prazo, impede a defesa honesta de posi\u00e7\u00f5es. Diante do \u201cisent\u00e3o\u201d, esse sofista moderno, que habita o muro como quem se instala em um castelo, todas os opini\u00f5es s\u00e3o id\u00eanticas em irrelev\u00e2ncia. 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