{"id":683,"date":"2013-12-08T22:53:07","date_gmt":"2013-12-09T01:53:07","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=683"},"modified":"2018-02-26T00:08:48","modified_gmt":"2018-02-26T03:08:48","slug":"gelo-negro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/12\/gelo-negro\/","title":{"rendered":"Gelo Negro"},"content":{"rendered":"<p>Fj\u00e1lar saiu de casa ainda em jejum em outro dia cinzento de outono. N\u00e3o estava feliz, haviam ligado da delegacia avisando que Ol\u00e1fur n\u00e3o fora tra\u00adbalhar e teria de fazer a patrulha matinal com algum novato. Dormira mal. Do\u00edam-lhe os joelhos, do\u00edam-lhe as costas, do\u00eda-lhe a alma. Tudo de que n\u00e3o pre\u00adcisava era tentar acompanhar um novato ani\u00admadinho. Por isso regurgitou algumas ofensas ao maldito beberr\u00e3o e seus antepassados. Ele estaria cer\u00adta\u00admente em casa de ressaca, depois de outra noite de apostas e de envolvimentos suspeitos em alguma espe\u00adlunca do porto. Ao acordar encontrara a men\u00adsagem de Ol\u00e1fur no telefone: &#8220;<em>Takk, vinur<\/em>. N\u00e3o vou ao trabalho hoje. Estou em algo grande. N\u00e3o me ligue.&#8221;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/34962573@N00\/2630518241\"><img src=\"http:\/\/farm4.static.flickr.com\/3170\/2630518241_fe94dba1c6_m.jpg\" alt=\"Icelandic Police Officers\" title=\"Icelandic Police Officers\" hspace=\"5\" border=\"0\" style=\"float: left\" \/><\/a>Ele podia enganar o chefe de pol\u00edcia se fazendo de inves\u00adti\u00adgador, mas n\u00e3o a Fj\u00e1lar, que sabia muito bem de seus passos. Todos no depar\u00adtamento de pol\u00edcia sabiam que Ol\u00e1\u00adfur andava em cima do muro, mas ningu\u00e9m ainda questio\u00adnara o que andava bebendo, porque voltava de suas noitadas carregado de informa\u00e7\u00f5es frescas sobre o sub\u00admundo. Into\u00adxicado, sujo e \u00e0s vezes ferido, mas sempre com a pista de algum crime, a dica de algum espi\u00e3o ou o fio da meada de uma conspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Algum dia talvez Fj\u00e1lar tivesse pena do colega, mas n\u00e3o naquela ter\u00e7a-feira. Era outro dia para amaldi\u00e7o\u00e1-lo. &#8220;Algo grande&#8221; poderia ser uma investiga\u00e7\u00e3o ou os peitos de uma prostituta estrangeira, destas que haviam recente\u00admente aparecido no porto, talvez uma americana de tetas grandes, que nem sabia falar island\u00eas. E Fj\u00e1lar ainda sofria a falta de Halld\u00f3ra.<\/p>\n<p>Andava distra\u00eddo, contemplando a triste impon\u00eancia do Esja, e nem percebeu as luzes na esquina at\u00e9 que sirene foi acionada quando ele passou pela via\u00adtura, causando-lhe um sobressalto. Ao se virar, reconhe\u00adceu o rosto amigo:<\/p>\n<p>\u2014 <em>Sk\u00edt<\/em>, \u00c1sgeir. Vai assustar a m\u00e3e!<\/p>\n<p>\u2014 <em>G\u00f3\u00f0an daginn<\/em>, Fj\u00e1lar. Voc\u00ea ia passando sem me ver, s\u00f3 chamei a aten\u00e7\u00e3o. Entra a\u00ed.<\/p>\n<p>J\u00e1 dentro do carro, recebeu um envelope pardo:<\/p>\n<p>\u2014 Vem comigo. Ordens do chefe. Not\u00edcias quentes.<\/p>\n<p>\u2014 Aqui na Isl\u00e2ndia? Que horas s\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Seis e vinte. Abra o jornal e veja.<\/p>\n<p>\u2014 Mataram algu\u00e9m?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, em Grafarvogur.<\/p>\n<p>\u2014 Oh, <em>Nei<\/em>! Em Grafarvogur n\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2014 <em>J\u00e1<\/em>. Abra o jornal.<\/p>\n<p>Ao abrir o envelope, percebeu a gravidade do assunto. Mesmo o respeit\u00e1vel <em>Morgunbla\u00f0i\u00f0<\/em> ganhara uma apar\u00eancia de tabloide com<br \/>\naquela manchete.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o ligue para o <em>Bla\u00f0i\u00f0<\/em>. S\u00e3o muito comedidos. A diver\u00ads\u00e3o<br \/>\nest\u00e1 no DV.<\/p>\n<p>Tinha raz\u00e3o: o tabloide pingava sangue. A man\u00adchete \u2014 letras brancas em fundo preto \u2014 era meio ileg\u00edvel com tanto sangue e miolos. Na capa, o cad\u00e1ver. Senhor grisalho, roupas joviais, &#8220;cabe\u00e7a aberta&#8221;.<\/p>\n<p>\u2014 Grafarvogur?<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1. E voc\u00ea n\u00e3o nota algo familiar?<\/p>\n<p>\u2014 Dif\u00edcil, o efeito do disparo foi bem &#8220;dispersivo&#8221;\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Identificaram pelas digitais. Gunnar Dav\u00ed\u00f0sson.<\/p>\n<p>\u2014 Qual Gunnar Dav\u00ed\u00f0sson? &#8220;O&#8221; Gunnar Dav\u00ed\u00f0sson?<\/p>\n<p>\u2014 Ele.<\/p>\n<p>\u2014 <em>Sk\u00edt<\/em>, \u00c1sgeir! Voc\u00ea me traz isso em um dia como hoje!<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea \u00e9 esperto. O que temos de melhor.<\/p>\n<p>Fj\u00e1lar sentia o est\u00f4mago embrulhando, s\u00f3 com a possibi\u00adlidade de envolver-se em uma investiga\u00e7\u00e3o t\u00e3o complicada. T\u00e3o cedo na carreira. Poderia se ferrar para sempre, ou ficar famoso.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos tomar um caf\u00e9 antes, \u00c1sgeir? Estou ficando can\u00adsado de toda essa agita\u00e7\u00e3o dos \u00faltimos tempos. Este pa\u00eds n\u00e3o \u00e9 mais o mesmo, com tantos cabe\u00e7as pretas pelas ruas.<\/p>\n<p>\u2014 <em>Nei<\/em>, Fj\u00e1lar. Sem caf\u00e9. O chefe mandou que te buscasse e levasse \u00e0 casa do velho antes das oito.<\/p>\n<p>\u2014 Temos uma hora, \u00c1sgeir. <em>Vinsamlegast<\/em>! N\u00e3o terei apetite depois.<\/p>\n<p>\u2014 Certo. Mas num bar l\u00e1 perto, caso algo saia errado.<\/p>\n<p>Quando entraram em Grafarvogur havia tr\u00eas carros de pol\u00ed\u00adcia bloqueando a entrada logo da primeira uma rua, e um cord\u00e3o de isolamento j\u00e1 na segunda casa.<\/p>\n<p>\u2014 Maldito, \u00c1sgeir. Voc\u00ea me trouxe direto!<\/p>\n<p>\u2014 Ordens s\u00e3o ordens, Fj\u00e1lar.<\/p>\n<p>Os dois atravessaram a barreira e se dirigiram \u00e0 casa do velho Gunnar, um dos mais respeitados membros do Al\u00feingi, n\u00e3o por acaso rec\u00e9m eleito \u00e0 presid\u00eancia da rep\u00fablica. Tomavam e coragem para entrar quando ouviram um tiro.<\/p>\n<p>Segundos depois uma mulher saiu de uma casa e veio cor\u00adrendo em dire\u00e7\u00e3o a eles e gritando:<\/p>\n<p>\u2014 <em>N\u00e1i\u00f0 \u00ed l\u00f6gregluna! N\u00e1i\u00f0 \u00ed l\u00f6gregluna!<\/em><\/p>\n<p>\u2014 Calma, senhora \u2014 disse \u00c1sgeir \u2014 n\u00f3s somos a pol\u00edcia. Conte-nos o que houve?<\/p>\n<p>\u2014 Meu marido viu o assassino saltando a janela.<\/p>\n<p>\u00c1sgeir e mais dois uniformizados sa\u00edram na dire\u00e7\u00e3o indicada. Fj\u00e1lar, menos preparado fisicamente, os seguiu com dificuldade. Mas chegou ao quintal a tempo de ver que havia mesmo marcas de sangue no ch\u00e3o, sem nenhum cad\u00e1ver.<\/p>\n<p>\u2014 O suspeito foi atingido ap\u00f3s saltar a janela, mas o tiro n\u00e3o foi fatal. O ru\u00eddo do tiro parecia uma pistola esportiva.<\/p>\n<p>\u2014 Uma dessas n\u00e3o mata \u2014 concordou \u00c1sgeir.<\/p>\n<p>\u2014 A essa dist\u00e2ncia, n\u00e3o \u2014 disse Fj\u00e1lar, apontando a janela do vizinho, onde um senhor em cadeira de rodas parecia mais perto da morte que o suspeito alvejado. Mesmo assim, n\u00e3o creio que voc\u00ea me permitisse dar-lhe um tiro com uma dessas coisinhas de brinquedo.<\/p>\n<p>\u2014 Conhecendo voc\u00ea, n\u00e3o deixaria que voc\u00ea atirasse em mim nem com uma atiradeira de el\u00e1stico.<\/p>\n<p>\u2014 Recolham o sangue para an\u00e1lise. Logo teremos o sequen\u00adciamento de DNA. Se o suspeito \u00e9 island\u00eas, em 24 horas teremos nome, endere\u00e7o, fotografia\u2026 saberemos at\u00e9 o que comeu no desjejum.<\/p>\n<p>Os policiais terminaram de vasculhar os quintais:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o h\u00e1 mais nenhuma marca de sangue, Fj\u00e1lar \u2014 disse o \u00faltimo a retornar, tirando luvas para esfregar as m\u00e3os.<\/p>\n<p>Parecia estrangeiro, n\u00e3o acostumado ao clima sub\u00e1r\u00adtico do pa\u00eds. Fj\u00e1lar teve at\u00e9 um pouco de pena daquele refu\u00adgiado que buscara asilo na terra do gelo. Mas ao mesmo tempo o admirou a perfei\u00e7\u00e3o do seu island\u00eas. Era um cabe\u00e7a preta, mas n\u00e3o do tipo que desgra\u00e7ava o pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u2014 Quanto tempo na Isl\u00e2ndia\u2026 Jon? \u2014 o nome ia na etiqueta.<\/p>\n<p>\u2014 Desde que nasci. Me chamo Jon Bryndisar, minha m\u00e3e \u00e9 Bryndis Sigurdsdottir, de Akureyri, mas eu nasci aqui mesmo em Reykjavik.<\/p>\n<p>&#8220;Nada \u00e9 o que parece&#8221;. O novato era t\u00e3o island\u00eas quanto todos. Preferiu n\u00e3o espe\u00adcu\u00adlar mais. Deveria ser filho de alguma mo\u00e7a que se encan\u00adtara por um marinheiro. N\u00e3o pre\u00adcisava especular, s\u00f3 supor. O investigador confiar\u00e1 em suas supo\u00adsi\u00e7\u00f5es e preconceitos. E che\u00adcar\u00e1 no fim se estava certo ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Jon, Dav\u00ed\u00f0, \u00c1sgeir. Acharam pegadas?<\/p>\n<p>\u2014 Poucas. Parece que o fugitivo estava descal\u00e7o, deixou poucas marcas no ch\u00e3o gelado \u2014 respondeu Jon.<\/p>\n<p>\u2014 Descal\u00e7o?<\/p>\n<p>Jon apontou para o ch\u00e3o, onde uma marca de p\u00e9 apontava em diagonal para a linha imagi\u00adn\u00e1\u00adria entre as casas vizinhas.<\/p>\n<p>\u2014 Descal\u00e7o n\u00e3o vai longe. Isso \u00e9 claro. Vamos pro\u00adcurar. Dav\u00ed\u00f0, pe\u00e7a a todos os patru\u00adlhei\u00adros que fiquem atentos a roubos de carros. \u00c1sgeir, pe\u00e7a refor\u00e7os para um pente-fino em toda Grafarvogur. Jon, v\u00e1 monitorar a televis\u00e3o para mim e me relate qualquer coisa inusitada.<\/p>\n<p>Dav\u00ed\u00f0 e \u00c1sgeir sa\u00edram a cumprir os pedidos, Jon ficou.<\/p>\n<p>\u2014 O que foi, garoto? N\u00e3o vai cumprir a miss\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Perfeitamente, mas depois de acompanh\u00e1-lo \u00e0 casa do nosso atirador esportivo.<\/p>\n<p>Fj\u00e1lar sorriu no canto da boca. O garoto era esperto.<\/p>\n<p>\u2014 Venha de arma em punho, vai ser perigoso.<\/p>\n<p>Os dois se dirigiram \u00e0 porta dos fundos, ladeando pela cerca. T\u00e3o logo a avistaram, perceberam que estava entreaberta, sem marcas de arrombamento.<\/p>\n<p>\u2014 Como adivinhou o meu pensamento, Jon?<\/p>\n<p>\u2014 Porque, diferente daqueles <em>h\u00e1lfviti<\/em>, eu acompanhei o seu olhar, em vez de admirar o sangue. Vi perfei\u00adta\u00admente que olhava fixamente para a janela, que seguiu a pegada exatamente por esse caminho que estamos fazendo agora, e procurou se livrar dos outros de forma est\u00fapida, sem que percebessem. Mas essa cabe\u00e7a preta aqui n\u00e3o \u00e9 vazia.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o h\u00e1 nada de est\u00fapido no que mandei voc\u00eas fazerem.<\/p>\n<p>\u2014 Seja franco, Fj\u00e1lar. Roubar um carro e fugir para onde? Contor\u00adnar o pa\u00eds, enfrentando a pol\u00edcia em cada vila\u00ad? Pene\u00adtrar no interior? Tentar sobreviver no deserto? N\u00e3o somos esquim\u00f3s, detetive. Se eu fosse esse homem eu n\u00e3o fugiria de Reykjavik, mas tentaria che\u00adgar ao porto o mais depressa que pudesse. Ali\u00e1s, \u00e9 de l\u00e1 que deve ter vindo.<\/p>\n<p>\u2014 Muito bem, Jon. Estou come\u00e7ando a gostar de voc\u00ea.<\/p>\n<p>Entraram na cozinha vazia, iluminada apenas pela luz obl\u00edqua da manh\u00e3. A cena era quase buc\u00f3lica.<\/p>\n<p>\u2014 O que vai fazer a\u00ed, Fj\u00e1lar? \u2014 sussurrou Jon.<\/p>\n<p>\u2014 Calma, garoto. S\u00f3 ligando a cafeteira para um <em>espress\u00f3<\/em>. Gra\u00e7as ao idiota do \u00c1sgeir, estou at\u00e9 agora em jejum.<\/p>\n<p>Jon deu uma risadinha e apontou a mesa junto \u00e0 pia:<\/p>\n<p>\u2014 Aproveita e faz torradas tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Fj\u00e1lar pegou quatro fatias, passou manteiga e p\u00f4s na torradeira, sussurrando:<\/p>\n<p>\u2014 Duas para cada. Temos cinco minutos.<\/p>\n<p>Antes de deixarem a cozinha, por\u00e9m, Fj\u00e1lar pediu a arma de Jon:<\/p>\n<p>\u2014 Preciso de um calibre mais forte. Voc\u00ea se importaria de trocar comigo se eu for na frente?<\/p>\n<p>\u2014 <em>Ekkert vandam\u00e1l!<\/em><\/p>\n<p>Feita a troca, cruzaram o sagu\u00e3o central silenciosamente como o inverno. A casa estava imersa numa quietude apa\u00advo\u00adrante e foi muito devagar que chegaram \u00e0 escada.<\/p>\n<p>\u2014 Veja isto \u2014 apontou Jon.<\/p>\n<p>Era o diploma na parede. Ao lado de uma foto emoldurada da mesma mulher que fora dar not\u00edcia do foragido. Mais jovem, em um belo vestido azul, usando condecora\u00e7\u00f5es e um chap\u00e9u um tanto cafona, desses que as nobres brit\u00e2nicas usavam para ir aos hip\u00f3\u00addro\u00admos. As palavras no diploma tornavam tudo mais interes\u00adsante: <em>Forseti L\u00fd\u00f0veldi\u00f0s.<\/em><\/p>\n<p>\u2014 Agora sim estamos fritos, garoto. Ou resolvemos o caso ou estamos acabados. Ou resolvemos e ainda assim estamos.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 estou arrependido de n\u00e3o ter ido ver televis\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ningu\u00e9m nunca se ferrou na vida por ver tele\u00advis\u00e3o durante uma crise. Aprenda isso se nos safarmos desta.<\/p>\n<p>Aquela n\u00e3o era uma morte como qualquer outra, ainda que qualquer assassinato j\u00e1 fosse uma como\u00e7\u00e3o. Era o assas\u00adsinato do futuro chefe de estado, cometido por algu\u00e9m que se escondera na casa de uma ex presidente depois de ter sido alvejado ao fugir. E alvejado por quem!<\/p>\n<p>\u2014 Fez faculdade, Jon?<\/p>\n<p>\u2014 Cursando direito, Fj\u00e1lar.<\/p>\n<p>\u2014 Qual a chance de ir para a cadeia o atirador da janela?<\/p>\n<p>\u2014 Menor que a de n\u00f3s dois, por invas\u00e3o de domic\u00edlio.<\/p>\n<p>Ao fim do corredor havia um quarto praticamente vazio. Junto \u00e0 janela uma simples cadeira de rodas. O velho continuava im\u00f3vel, palid\u00edssimo. A perna engessada servia de cabide para um guarda-chuva e uma toalha de rosto.<\/p>\n<p>Jon penetrou no quarto algo descuidadamente, fruto da falta de costume com casos perigosos. Felizmente n\u00e3o havia nenhuma amea\u00e7a dentro, nem mesmo o velho:<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 frio, Fj\u00e1lar.<\/p>\n<p>\u2014 Tire as m\u00e3os dele, seu idiota.<\/p>\n<p>Jon recuou as m\u00e3os como se o cad\u00e1ver desse choque. Mas apenas testara a fronte usando as costas da m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ele morreu, Fj\u00e1lar. N\u00e3o me d\u00ea sustos.<\/p>\n<p>\u2014 Ele foi morto, voc\u00ea quer dizer.<\/p>\n<p>Onde o dedo do detetive apontava se via claramente um colar de equimoses em torno do pesco\u00e7o. O cachecol agora pendia frouxo, quase n\u00e3o parecendo fatal.<\/p>\n<p>\u2014 Quantas horas, Fj\u00e1lar?<\/p>\n<p>O detetive usou sua caneta para suspender as p\u00e1lpebras e for\u00e7ar a musculatura da boca, r\u00edgida.<\/p>\n<p>\u2014 Mais tempo do que o transcorrido desde o tiro. Mas cer\u00adteza mesmo, s\u00f3 quando o legista vier.<\/p>\n<p>A arma respons\u00e1vel pelo disparo jazia ao lado do cad\u00e1ver, t\u00e3o obviamente quanto poss\u00edvel.<\/p>\n<p>\u2014 Quem era ele?<\/p>\n<p>\u2014 Haraldur Gu\u00f0mundsson. Economista, filatelista, fil\u00f3\u00adlogo. Por\u00e9m mais conhecido como o marido da presidente J\u00f3hanna \u00deorl\u00e1ksdottir.<\/p>\n<p>\u2014 Faz-se muito esfor\u00e7o na vida para ser reconhecido desta forma. Acho isto triste.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se fica famoso como filatelista ou fil\u00f3logo, Jon.<\/p>\n<p>\u2014 Ele era tamb\u00e9m economista.<\/p>\n<p>\u2014 Fama e inf\u00e2mia, tanto faz, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 Pensando bem, n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos sair, n\u00e3o podemos mais ajudar o velho Haraldur, e o<br \/>\nnosso suspeito n\u00e3o est\u00e1 aqui.<\/p>\n<p>Um apito como o de um rel\u00f3gio de alarme soou no andar de baixo, e logo com ele um barulho de coisas caindo.<\/p>\n<p>\u2014 Funcionou.<\/p>\n<p>\u2014 O que funcionou?<\/p>\n<p>\u2014 Corre, Jon. Vem comigo.<\/p>\n<p>Os dois desceram as escadas correndo, a tempo de ver um homem estonteado que tentava se esconder de novo dentro de um arm\u00e1rio cuja porta ficava quase perfeitamente escondida pelo papel de parede do sagu\u00e3o. Era um homem muito esqu\u00e1lido, com a barba de v\u00e1rios dias.<\/p>\n<p>\u2014 Acabou, Ol\u00e1fur.<\/p>\n<p>Ele ergueu as m\u00e3os, consternado.<\/p>\n<p>\u2014 Sk\u00edt, Fj\u00e1lar. Tinha de ser logo voc\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 A vida n\u00e3o \u00e9 justa, amigo. Tinha de ser algu\u00e9m. Pelo menos prometo que n\u00e3o vou lhe matar e nem bater. Quero respostas, e quero meu amigo de volta, se for poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Nesse momento, com toda a sua autoconfian\u00e7a, Fj\u00e1lar se aproximou do suspeito mais do que devia. O bastante para ele, apesar de uma perna ferida, conseguir subjug\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u2014 Desculpe-me, Fj\u00e1lar. N\u00e3o posso me entregar.<\/p>\n<p>\u2014 Eu sabia\u2026 que voc\u00ea\u2026 n\u00e3o se entregaria \u2014 rosnou entre dentes<br \/>\no Fj\u00e1lar.<\/p>\n<p>Ol\u00e1fur j\u00e1 lhe tomara a arma e o usava como escudo, segu\u00adrando o amigo pelo pesco\u00e7o. Haviam sido muitas aulas de defesa pessoal, as artes marciais do mundo, as t\u00e9cnicas para enfrentar as gangues que pudessem sonhar em assom\u00adbrar o porto.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o estou entendendo nada, Fj\u00e1lar! \u2014 berrou o pobre Jon, sem saber o que fazer com a sua pistola.<\/p>\n<p>Ol\u00e1fur estava claramente transtornado. Seu cora\u00e7\u00e3o batia descompassado e ele suava em pleno outono.<\/p>\n<p>\u2014 O que voc\u00ea tomou dessa vez, Ol\u00e1fur? \u2014 conseguiu perguntar o Fj\u00e1lar, quase se desenvencilhando.<\/p>\n<p>Ol\u00e1fur n\u00e3o respondeu, claro. Fosse o que fosse, o efeito recrudescera com a subida da adrenalina e, apesar de armado, fez ao Jon a mais descabida das amea\u00e7as:<\/p>\n<p>\u2014 Saia de perto de mim ou vou morder a cabe\u00e7a dele!<\/p>\n<p>\u2014 Ol\u00e1fur, acalme-se!<\/p>\n<p>\u2014 Nei, Fj\u00e1lar. Est\u00e1 tudo acabado para mim!<\/p>\n<p>Um estalo met\u00e1lico se ouviu na cozinha. Na fra\u00e7\u00e3o de segundo em que Ol\u00e1fur olhou para o lado, Jon mostrou que treinara bem na academia e lhe acertou um tiro na testa, que pegou de rasp\u00e3o na bochecha de Fj\u00e1lar. Um tiro que quase n\u00e3o se ouviu, por causa do silenciador.<\/p>\n<p>O cad\u00e1ver caiu leve no ch\u00e3o, quase sem fazer barulho.<\/p>\n<p>\u2014 Pobre Ol\u00e1fur \u2014 comentou Fj\u00e1lar, apalpando-o \u2014 n\u00e3o deve pesar mais do que uns quarenta e oito quilos.<\/p>\n<p>\u2014 Mas parecia bem forte.<\/p>\n<p>\u2014 A for\u00e7a que tem os que v\u00e3o morrer, Jon. Nos velhos tem\u00adpos diriam que \u00e9 a for\u00e7a que a cavalgada das <em>valkyrjur<\/em> traz aos exaustos.<\/p>\n<p>\u2014 Ele matou Gunnar Davi\u00f0sson?<\/p>\n<p>\u2014 Aparentemente sim, mas pouca coisa do resto parece fazer algum sentido. E agora saberemos menos ainda, pois voc\u00ea matou o suspeito.<\/p>\n<p>\u2014 Eu\u2026 me desculpe, Fj\u00e1lar.<\/p>\n<p>\u2014 Relaxe, garoto. Eu estaria bravo com voc\u00ea se o tiro tivesse acertado em mim. Vamos tomar o caf\u00e9?<\/p>\n<p>As torradas estavam frescas, exalando um delicioso cheiro de manteiga quente. O caf\u00e9 nem acabara de gotejar na cafe\u00adteira. Serviram-se usando os copos de cristal.<\/p>\n<p>\u2014 Logo v\u00e3o procurar por n\u00f3s, inclusive aqui.<\/p>\n<p>\u2014 Quando chegarem diremos que o assassino tamb\u00e9m matou nosso amigo Ol\u00e1fur Haraldsson, agente das for\u00e7as especiais da pol\u00edcia nacional da Isl\u00e2ndia. Ele ter\u00e1 um enterro de her\u00f3i, todas as apa\u00adr\u00eancias ser\u00e3o salvas, novas elei\u00e7\u00f5es ter\u00e3o de ser fei\u00adtas para a presid\u00eancia, mas o pa\u00eds vai seguir fun\u00adcio\u00adnando nor\u00admalmente enquanto isso. Melhor do que divulgar para a imprensa que o her\u00f3i da pol\u00edcia provavelmente se viciou em alguma coisa pesada, vendera objetos de casa para pagar pelas suas doses e, no fim, cometera um latroc\u00ednio contra o vizinho que, por uma dessas grandes coincid\u00ean\u00adcias, era o futuro presidente.<\/p>\n<p>\u2014 O DV adoraria noticiar isso.<\/p>\n<p>Mas nesse momento ouviram, l\u00e1 fora, outro estrondo:<\/p>\n<p>\u2014 <em>Sk\u00edt<\/em>, Fj\u00e1lar. Sua teoria parece n\u00e3o fazer muito sentido agora. Temos mais um atirador.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se preocupe, <em>vinur<\/em>. \u00c9 at\u00e9 bom que o impacto seja dividido. Se eu fosse do partido do falecido, estaria agora dando tiros por toda Reykjavik.<\/p>\n<p>O estrondo foi seguido por um longo rangido.<\/p>\n<p>\u2014 <em>Hva\u00f0<\/em>!? Isso n\u00e3o foi nenhum tiro.<\/p>\n<p>Os dois sa\u00edram ao quintal sobressaltados, entornando caf\u00e9 na cozinha. L\u00e1 fora, pendente de um galho, estava o corpo do obeso L\u00e1rus Dav\u00ed\u00f0sson, irm\u00e3o mais novo do ex futuro presidente. A morte tinha sido h\u00e1 horas, o corpo estava azulado pelo frio da manh\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014 Esse caso est\u00e1 cada vez mais interessante. Como n\u00e3o vimos isso ao entrar na casa?<\/p>\n<p>\u2014 Talvez estivesse entre os galhos.<\/p>\n<p>\u2014 S\u00f3 sei que ser\u00e1 dif\u00edcil deixar os tabloides fora disso.<\/p>\n<p>Os dois se encaminharam para a concentra\u00e7\u00e3o de agentes de pol\u00edcia diante da casa de Gunnar Dav\u00ed\u00f0sson, ainda com um gosto de caf\u00e9 na boca.<\/p>\n<p>\u2014 Devia ter comido as torradas, Jon. Ser\u00e1 um longo dia.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Este texto n\u00e3o tem por objetivo ser de maneira alguma fiel \u00e0 cultura ou a qualquer aspecto que seja da Isl\u00e2ndia, mas foi escrito, em vez disso, para, atrav\u00e9s do absurdo, mostrar a jovens autores como fica parecendo quando eles resolvem for\u00e7ar a ambienta\u00e7\u00e3o de suas hist\u00f3rias em pa\u00edses que mal conhecem, pesquisando somente pela Wikipedia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fj\u00e1lar saiu de casa ainda em jejum em outro dia cinzento de outono. N\u00e3o estava feliz, haviam ligado da delegacia avisando que Ol\u00e1fur n\u00e3o fora tra\u00adbalhar e teria de fazer a patrulha matinal com algum novato. Dormira mal. Do\u00edam-lhe os joelhos, do\u00edam-lhe as costas, do\u00eda-lhe a alma. Tudo de que n\u00e3o pre\u00adcisava era tentar acompanhar um novato ani\u00admadinho. Por isso regurgitou algumas ofensas ao maldito beberr\u00e3o e seus antepassados. 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