{"id":6856,"date":"2019-06-20T18:58:00","date_gmt":"2019-06-20T21:58:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=6856"},"modified":"2019-07-17T23:48:58","modified_gmt":"2019-07-18T02:48:58","slug":"a-era-da-legoratura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2019\/06\/a-era-da-legoratura\/","title":{"rendered":"A Era da Legoratura"},"content":{"rendered":"\n<p>Em 19\/06\/2019 <a href=\"http:\/\/revistaursula.com.br\/blog\/2019\/06\/18\/a-era-da-legoratura-criar-e-pecado-impossivel\">a revista \u00darsula publicou<\/a> este meu artigo que aborda a quest\u00e3o da utiliza\u00e7\u00e3o da Jornada do Her\u00f3i como uma ferramenta de cria\u00e7\u00e3o em vez de uma forma de an\u00e1lise. Recomendo fortemente que voc\u00ea leia e comente l\u00e1. Haver\u00e1 uma segunda parte.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img src=\"http:\/\/revistaursula.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/16031532919_26740d2957_k-1170x530.jpg\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"display: none;\">\n<p>A arte liter\u00e1ria tem sido assolada nas \u00faltimas d\u00e9cadas pelo evangelismo insistente dos adeptos de uma ideia ousada \u2014 o monomito \u2014 que conseguiram impor a \u201cJornada do Her\u00f3i\u201d como um padr\u00e3o quase obrigat\u00f3rio n\u00e3o somente para a interpreta\u00e7\u00e3o, mas at\u00e9 para a cria\u00e7\u00e3o de tramas. O sucesso extraordin\u00e1rio de filmes com roteiros diretamente inspirados na Jornada contaminou toda a ind\u00fastria do entretenimento desde os Estados Unidos e logo a sua capacidade para produzir obras de sucesso virou uma profecia cumprida, reduzindo o trabalho de muitos autores a uma forma de <abbr title=\"uma literatura feita a partir de elementos predeterminados, como uma brincadeira de lego\">legoratura.<\/abbr><\/p>\n<p>Por\u00e9m, esse triunfo do monomito na cultura popular teve um pre\u00e7o. Talvez ainda n\u00e3o tenhamos distanciamento suficiente para compreender com a profundidade necess\u00e1ria todo o preju\u00edzo que ele causou, mas j\u00e1 \u00e9 hora de come\u00e7armos a refletir. Vozes dissonantes j\u00e1 surgiram h\u00e1 algum tempo, mesmo no epicentro da igreja do Her\u00f3i, e alguns efeitos negativos j\u00e1 s\u00e3o evidentes.<\/p>\n<p>Por causa do sucesso da Jornada para produzir tramas acess\u00edveis e engajamento do p\u00fablico ela \u00e9 uma ferramenta eficiente de propaganda. Exatamente porque funciona \u00e9 que se tornou t\u00e3o prevalente. Agora est\u00e1 em toda parte \u2014 at\u00e9 na publicidade e nas falas dos <em>coaches<\/em> \u2014 e o seu evangelismo come\u00e7a a incomodar exatamente porque come\u00e7a a sufocar todo discurso discordante. Todos precisam conhecer a Jornada do Her\u00f3i, todos precisam utilizar a Jornada do Her\u00f3i, todos precisam amar a Jornada do Her\u00f3i, todos precisam pregar a Jornada do Her\u00f3i.<\/p>\n<p>A monomania do monomito parece ter contaminado especialmente os jovens autores, que se fascinam facilmente pelos lucros auferidos pelas superprodu\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o enxergam o fascismo impl\u00edcito na ideia de uma Jornada <em>to rule them all.<\/em><\/p>\n<p>Este \u00e9 o legado radioativo da Jornada do Her\u00f3i na cultura pop.<\/p>\n<p>Meu primeiro contato com ela foi h\u00e1 uns treze anos quando enviei um original a um editor. Responderam-me com elogios ao meu estilo e me acenaram com a possibilidade de um contrato, se eu estivesse disposto a seguir certas instru\u00e7\u00f5es, a principal delas sendo, tal como o editor o disse, sem sutilezas, descartar tudo o que eu escrevera at\u00e9 ent\u00e3o e recome\u00e7ar um novo conjunto de obra, que deveria ser desenvolvido tendo em vista os princ\u00edpios da Jornada do Her\u00f3i. N\u00e3o me lembro das palavras exatas dele, mas pode ter sido algo parecido com isso:<\/p>\n<p>\u201cUtilizamos a Jornada do Her\u00f3i como modelo de constru\u00e7\u00e3o do arco narrativo das hist\u00f3rias que escrevemos e publicamos. Para n\u00f3s, hist\u00f3rias escritas de outra maneira n\u00e3o interessam, eis porque lhe pedimos que esque\u00e7a o que escreveu at\u00e9 agora e n\u00e3o perca mais tempo querendo melhorar o que n\u00e3o come\u00e7ou bem.\u201d<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o bem forte, e que me chocou. Embora eu ainda quisesse me tornar um autor publicado, revoltava-me a ideia de descartar tudo que eu escrevera, especialmente uns contos que eu j\u00e1 havia ent\u00e3o escrito e de que ainda gosto, como \u201c<a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/08\/historia-de-amor-sem-amor\/\">Hist\u00f3ria de Amor Sem Amor<\/a>\u201d, \u201c<a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/01\/o-tratamento-homeopatico-da-solidao\/\">O Tratamento Homeop\u00e1tico da Solid\u00e3o<\/a>\u201d, \u201c<a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2009\/05\/o-salario-da-perseveranca\/\">O Sal\u00e1rio da Perseveran\u00e7a<\/a>\u201d, \u201c<a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/03\/uma-foto-infeliz\/\">Uma Foto Infeliz<\/a>\u201d e \u201c<a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2009\/04\/a-pilastra\/\">A Pilastra<\/a>\u201d, publicados em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.usp.br\/cje\/comarte\/p.php?id=54&amp;s=24&amp;s2=62\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>O Pecado da Tristeza e Outras Hist\u00f3rias<\/em><\/a> (2010).<\/p>\n<p>De qualquer maneira, o pedido n\u00e3o me pareceu algo dif\u00edcil de encarar, afinal, eles nunca viriam fiscalizar as minhas gavetas, f\u00edsicas ou virtuais, para averiguar se eu tinha mesmo jogado fora os textos antigos. Ent\u00e3o respondi ao e-mail todo feliz, abanando o rabinho como cachorro que ganhou osso, e pedi mais detalhes do processo criativo em que passaria a trabalhar.<\/p>\n<p>Outro membro da equipe me respondeu, em nome do editor, dizendo que o corpo editorial me designaria para escrever hist\u00f3rias conforme a \u201cdemanda\u201d do mercado, que essas hist\u00f3rias estariam baseadas em um conjunto predeterminado de elementos, todos relacionados \u00e0 Jornada do Her\u00f3i, e que a minha fun\u00e7\u00e3o seria \u201cdar vida atrav\u00e9s das palavras\u201d ao conceito que me seria enviado.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o me entusiasmou. Por dentro eu n\u00e3o me sentia bem. Tinha a sensa\u00e7\u00e3o de que assim venderia a minha alma. Ent\u00e3o n\u00e3o lhes respondi mais. Decidi que seria prefer\u00edvel continuar in\u00e9dito e fora das panelinhas, mas livre para cometer meus pr\u00f3prios erros, a vender a minha liberdade criativa para me tornar um oper\u00e1rio das letras, escrevendo hist\u00f3rias por demanda e ganhando por lauda.<\/p>\n<p>Essa foi uma das tr\u00eas ou quatro vezes na vida em que tive a oportunidade de sair do buraco e me <em>profissionalizar<\/em> como autor. Acredito que foi a segunda vez. Rejeitei essas ofertas porque imaginei que n\u00e3o valia a pena obter com tanto esfor\u00e7o aquilo por que tanto lutava se o pre\u00e7o disse fosse n\u00e3o usufruir. Tornar-se escritor profissional, mas em um esquema t\u00e3o alienante e castrador n\u00e3o me pareceu melhor do que continuar enfrentando jornadas de oito horas di\u00e1rias e tendo s\u00f3 alguns momentos cada noite para tentar desenvolver a minha literatura amadora.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que, quando voc\u00ea usa a Jornada como modelo, a maior parte dos elementos da hist\u00f3ria j\u00e1 est\u00e3o dados, voc\u00ea s\u00f3 tem que disfar\u00e7\u00e1-los e embaralh\u00e1-los. Sua tarefa se resume a enganar o leitor para que ele n\u00e3o perceba que est\u00e1 lendo outra vez a mesma hist\u00f3ria que leu semana passada. A literatura deixa de ser uma busca intelectual e se torna um jogo de cartas, com um n\u00famero limitado de jogadas poss\u00edveis. No m\u00e1ximo, uma brincadeira com pe\u00e7as de Lego, em que se constr\u00f3i algo grande a partir de uma variedade limitada de pe\u00e7as poss\u00edveis.<\/p>\n<p>Quando voc\u00ea trabalha com a Jornada do Her\u00f3i como r\u00e9gua, a imagina\u00e7\u00e3o adquire um papel secund\u00e1rio. Voc\u00ea n\u00e3o precisa mais \u201cpensar fora da caixa\u201d. De fato, a Jornada pode ser a \u201cSuprema Caixa\u201d mental em que tantos por vontade pr\u00f3pria se enfiam. A sua hist\u00f3ria deixa de ser \u201csua\u201d e passa a ser parte de um processo mental coletivo e arcano, o \u201cmonomito\u201d cada vez mais mon\u00f3tono que quer monopolizar a literatura.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 19\/06\/2019 a revista \u00darsula publicou este meu artigo que aborda a quest\u00e3o da utiliza\u00e7\u00e3o da Jornada do Her\u00f3i como uma ferramenta de cria\u00e7\u00e3o em vez de uma forma de an\u00e1lise. 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