{"id":69,"date":"2013-03-13T11:00:00","date_gmt":"2013-03-13T14:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=69"},"modified":"2017-04-16T00:23:45","modified_gmt":"2017-04-16T03:23:45","slug":"o-escritor-e-sua-mania-de-aparecer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/03\/o-escritor-e-sua-mania-de-aparecer\/","title":{"rendered":"O Escritor e sua \u201cMania de Aparecer\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Um dos problemas de se ter um blogue na internet \u00e9 que as pessoas ainda n\u00e3o se deram conta de que o direito autoral existe e, pior, n\u00e3o distinguem entre o abuso de direito autoral cometido por uma multinacional que chega a pagar propina a congressistas para estender os prazos de seus direitos, e os de um pobre autor amador e desconhecido que s\u00f3 os quer usar para obter reconhecimento pelo seu trabalho.<\/p>\n<p>Tive  dois casos desagrad\u00e1veis esse ano, de utiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o creditada de  trabalhos meus. O primeiro eu ainda estou correndo atr\u00e1s, para ver se  compenso o estrago (que \u00e9 enorme para as propor\u00e7\u00f5es de meu blogue) e o segundo acabou de ocorrer, mas  foi tudo deletado j\u00e1, sem ter causado estrago maior, porque percebi r\u00e1pido.<\/p>\n<p>No primeiro caso fizeram um e-book com a  minha tradu\u00e7\u00e3o do romance &#8220;A Casa no Fim do Mundo&#8221; (de William Hope  Hodgson) sem incluir link nos cr\u00e9ditos (condi\u00e7\u00e3o exigida pela licen\u00e7a  Creative Commons que aplico a tudo no meu blogue) e colocaram na blogosfera e na  comunidade brasileira de e-books sem nenhuma men\u00e7\u00e3o a n\u00e3o ser uma, min\u00fascula, dentro do arquivo  epub. Ou seja, trabalhei mais de 180 horas nesta tradu\u00e7\u00e3o e n\u00e3o estava  tendo nem mesmo o retorno em visitas (e consequentemente AdSense) ao meu blogue. Que tipo de est\u00edmulo voc\u00ea pode ter para fazer uma tradu\u00e7\u00e3o e compartilh\u00e1-la com a comunidade blogueira se esta comunidade, em vez de cumprir a condi\u00e7\u00e3o que voc\u00ea estabelece visando ao seu reconhecimento, prefere &#8220;fuzilar&#8221; o seu direito como se voc\u00ea n\u00e3o devesse esperar nenhuma remunera\u00e7\u00e3o e nenhuma retribui\u00e7\u00e3o (sequer moral) pleo seu trabalho?<\/p>\n<p>Quando reclamei, os respons\u00e1veis se fizeram de ofendidos, me chamaram de  estrelinha, ficaram de mal etc. e s\u00f3 um se comprometeu a modificar os arquivospara incluir\u00a0 os links. Os demais simplesmente removeram (ao menos temporariamente) os arquivos eletr\u00f4nicos e se calaram sobre a minha exist\u00eancia. Existem centenas ou at\u00e9 milhares de c\u00f3pias dessa tradu\u00e7\u00e3o  em e-book que n\u00e3o cont\u00e9m informa\u00e7\u00e3o correta do respons\u00e1vel pelo  trabalho. E o cr\u00e9dito vai para os criadores desses sites de distribui\u00e7\u00e3o de conte\u00fado, que nada pagam e nada se esfor\u00e7am para traduzir. Vampirizam o trabalho dos amadores para seu ganho pessoal (que, de qualquer forma n\u00e3o deve ser grande). Algumas dessas pessoas certamente devem at\u00e9 estar falando mal de mim por a\u00ed, dizendo que sou dif\u00edcil, irasc\u00edvel.<\/p>\n<p>A causa de tudo isso: o respons\u00e1vel pela cria\u00e7\u00e3o do e-book  jamais teve a ideia de me contactar para sequer me dar um &#8220;oi&#8221;, nunca me disse que estava distribuindo o meu trabalho e nem me pediu qualquer opini\u00e3o sobre, talvez, a necessidade de mais uma revis\u00e3o. Certamente, ao visitar meu blogue, ele se sentiu como quem faz compras. Quem compra um queijo n\u00e3o liga para o supermercado para avisar que o est\u00e1 comendo. S\u00f3 que o comprador do queijo pagou por ele, e adquiriu o direito de com\u00ea-lo sem dar satisfa\u00e7\u00f5es. No meu blogue \u00e9 diferente: h\u00e1 um claro aviso, repetido tr\u00eas vezes na p\u00e1gina, de que voc\u00ea pode levar o meu queijo de gra\u00e7a, desde que todos saibam que voc\u00ea pegou ele de mim.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 parte de uma mentalidade comum na internet. As pessoas acham revolucion\u00e1rio fuzilar o direito autoral. Adquirimos uma naturalidade no pensar que existe uma classe de pessoas que trabalha de gra\u00e7a. N\u00e3o pe\u00e7a a um jardineiro que pode sua grama em troca de um sorriso. Mas h\u00e1 quem imagine que se deve traduzir um livro de 160 p\u00e1ginas em troca de nada, nem mesmo o sorriso. E quando voc\u00ea reclama, errado est\u00e1 voc\u00ea com seu &#8220;mimimi&#8221;, com seu estrelismo. O carinha simplesmente  copiou o meu texto e formatou um epub. Teve certo trabalho para isso, porque estava tudo distribu\u00eddo em 28 p\u00e1ginas do blogue, o que lhe deu bastante tempo para ver alguma das tr\u00eas not\u00edcias de licenciamento que h\u00e1 em cada p\u00e1gina. Agora existem centenas de  pessoas que leram esta tradu\u00e7\u00e3o e gostaram mas n\u00e3o sabem que fui eu que  fiz. Algumas destas pessoas podem ter gostado do livro e gostariam de ler mais coisas do autor, ou poderiam ficar curiosas em saber que outros textos o meu blogue tem, j\u00e1 que gostaram desse. Isso foi negado a esses leitores. Quem reproduziu sem autoriza\u00e7\u00e3o a minha tradu\u00e7\u00e3o n\u00e3o lesou somente a mim: lesou aos leitores igualmente.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de lesados no seu direito de satisfazer uma poss\u00edvel curiosidade por mais conte\u00fado da mesma fonte, esses leitores foram lesados na possibilidade de conhecer mais sobre a obra de William Hope Hodgson, porque eu n\u00e3o me sinto nem um pouco estimulado a continuar enfrentando a dura tarefa de trazer para o portugu\u00eas &#8220;The Night Land&#8221; sendo que minha primeira grande investida n\u00e3o me trouxe nenhum benef\u00edcio. Como n\u00e3o parece haver nenhuma editora interessada no autor (que \u00e9 menos que uma nota de rodap\u00e9 na hist\u00f3ria da literatura anglo-americana que se ensina no Brasil), esses leitores n\u00e3o ler\u00e3o nunca a obra prima de Hodgson porque eu n\u00e3o vou traduzi-la. E os respons\u00e1veis pelos sites plagiadores tamb\u00e9m n\u00e3o v\u00e3o. <\/p>\n<p>\nO segundo caso foi ainda pior: um  site &#8220;de autores&#8221; de literatura fant\u00e1stica publicou sem dar cr\u00e9dito <b> nenhum<\/b> a minha tradu\u00e7\u00e3o de &#8220;Uma Noite em Maln\u00e9ant&#8221;, conto de Clark  Ashton Smith. Nem mesmo mencionaram que o tradutor fora eu. Os que violaram a licen\u00e7a de meu trabalho, no primeiro caso, pelo menos tiveram a dec\u00eancia de deixar o meu nome em algum lugar, ainda que sem destaque. Para adicionar insulto \u00e0 ofensa, o site plagiador \u00e9 um desses que inclui not\u00edcia de <i>copyright<\/i> nas suas p\u00e1ginas,  provavelmente sem ter a m\u00ednima ideia do que isto significa.<\/p>\n<p>Ainda estou tentando criar  coragem para come\u00e7ar a averiguar que outros textos meus (originais ou  tradu\u00e7\u00f5es) podem ter sido apropriados sem autoriza\u00e7\u00e3o e \u00e0 revelia da  licen\u00e7a. E n\u00e3o sei se fico alegre, pelo interesse que meu trabalho est\u00e1 despertando, ou triste por ver que n\u00e3o tem sido dado valor ao meu esfor\u00e7o, e que a qualidade de meu trabalho, que o leva a ser compartilhado, n\u00e3o importa nada diante da &#8220;ofensa&#8221; do dono do site, que passa a me boicotar como se eu tivesse exigido a lua em troca de um beijo. <\/p>\n<p>Sim, reitero. Estas pessoas, quando l\u00eaem a minha reclama\u00e7\u00e3o, em vez de simplesmente admitirem o  erro, acham que errado estou eu, que sou o mal educado, o estrelinha, o  complicado. V\u00e1rios sites de e-books preferiram remover o ebook &#8220;A Casa  no Fim do Mundo&#8221; a republic\u00e1-lo com as modifica\u00e7\u00f5es que sugeri. Algo  semelhante foi feito no caso da &#8220;Noite em Maln\u00e9ant&#8221;, o respons\u00e1vel pelo  site preferiu despublicar a me dar a atribui\u00e7\u00e3o. Se ofendem por eu reclamar meus direitos, mas acham que eu n\u00e3o devo me ofender por se apropriarem do meu trabalho. Comportam-se como se escritores e tradutores fossem uma classe pessoas que n\u00e3o merece ser paga pelo que faz. E n\u00e3o importa que voc\u00ea cobre pouco, numa perversidade de par\u00e1bola, aquele que tem pouco, mesmo isso lhe ser\u00e1 tirado. Uma amiga, de vida nada f\u00e1cil, certa vez me disse que \u00e9 melhor cobrar, e caro, porque \u00e9 muito mais f\u00e1cil negar os pequenos pagamentos do que os grandes. Muitas vezes ningu\u00e9m cobra vinte centavos, mas a cidade inteira fica sabendo quando voc\u00ea deve cem mil. Pois eu estou cobrando apenas um link e um nome no p\u00e9 da p\u00e1gina. Mesmo isso me \u00e9 negado.<\/p>\n<p>Coisas assim  me fazem perguntar se ainda vale a pena blogar fic\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica. O  retorno financeiro \u00e9 nulo e o meu \u00fanico objetivo concreto, que \u00e9 o de  obter visibilidade atrav\u00e9s do meu trabalho, \u00e9 inviabilizado por esses  compartilhamentos sem respeito ao meu \u00daNICO PEDIDO que \u00e9 o de incluir  atribui\u00e7\u00e3o com link.<\/p>\n<p>> Acabei  cometendo um erro de n\u00e3o dar os devidos cr\u00e9ditos ao tradutor, mas acho  que isso poderia ser resolvido sem <i>carnaval<\/i>, teria dado os cr\u00e9dito sem  problema se me falasse ou despublicar se assim desejasse, mas&#8230;  Algumas pessoas gostam de aparecer.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil explicar para as pessoas que eu n\u00e3o tenho que lhes pedir cr\u00e9dito. Elas vieram ao meu site e, se se interessaram pelo meu conte\u00fado, caberia a elas saber como us\u00e1-lo de uma forma legal (n\u00e3o somente no sentido jur\u00eddico, mas no popular). Quando voc\u00ea faz algo desrespeitando a vontade de algu\u00e9m, \u00e9 natural que ela reclame. N\u00e3o na cabe\u00e7a dos donos desses sites. Eles acham errado o escritor querer aparecer.\u00a0<\/p>\n<p>Mania essa que escritor tem, n\u00e9? Mania de querer aparecer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos problemas de se ter um blogue na internet \u00e9 que as pessoas ainda n\u00e3o se deram conta de que o direito autoral existe e, pior, n\u00e3o distinguem entre o abuso de direito autoral cometido por uma multinacional que chega a pagar propina a congressistas para estender os prazos de seus direitos, e os de um pobre autor amador e desconhecido que s\u00f3 os quer usar para obter reconhecimento pelo seu trabalho.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[187],"tags":[64,66,57,7,4],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=69"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4150,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69\/revisions\/4150"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=69"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=69"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=69"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}