{"id":6959,"date":"2019-07-30T23:18:23","date_gmt":"2019-07-31T02:18:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=6959"},"modified":"2019-07-30T23:18:25","modified_gmt":"2019-07-31T02:18:25","slug":"a-questao-da-autoridade-como-parte-do-dilema-da-crenca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2019\/07\/a-questao-da-autoridade-como-parte-do-dilema-da-crenca\/","title":{"rendered":"A quest\u00e3o da autoridade como parte do dilema da cren\u00e7a"},"content":{"rendered":"\n<p>Depende.\n Em alguns casos, sim. Em outros, n\u00e3o. Antes de mais nada vamos lembrar \nque Deus, tal como definido pelas religi\u00f5es predominantes em nossa \ncultura, \u00e9, sim, uma figura de autoridade. Te\u00f3rica, mas ainda assim \nautoridade (na pr\u00e1tica, como me disse certo professor de filosofia, todo\n deus \u00e9 um <em>deus otiosus<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p>Ocorre\n que nem todo ateu rejeita Deus por causa da quest\u00e3o da autoridade, mas,\n para efeitos dessa resposta, vamos falar somente dos que, sim, rejeitam\n por esse motivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme\n o paradoxo de Epicuro, a exist\u00eancia do mal e do sofrimento implicam em \nque Deus n\u00e3o seja onipotente ou em que ele n\u00e3o seja sumamente bom. As \n\u00fanicas maneiras de se conceber uma divindade envolvem uma divindade \nsumamente boa, mas incapaz de resolver o problema do mal e do \nsofrimento, ou uma divindade sumamente m\u00e1, que \u00e9 a <em>criadora do mal e do sofrimento. <\/em>Uma\n divindade sumamente boa que tivesse conhecimento do mal, por\u00e9m n\u00e3o o \nimpedisse, seria impotente. Uma divindade que fosse capaz de impedir o \nmal, mas n\u00e3o fizesse, seria m\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Eis a transcri\u00e7\u00e3o completa do paradoxo de Epicuro:<\/p>\n\n\n\n<ul><li>Enquanto\n onisciente e onipotente, Deus tem conhecimento de todo o mal e poder \npara acabar com ele. Mas n\u00e3o o faz. Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 benevolente.<\/li><li>Enquanto\n onipotente e benevolente, ent\u00e3o tem poder para extinguir o mal e quer \nfaz\u00ea-lo, pois \u00e9 bom. Mas n\u00e3o o faz, pois n\u00e3o sabe o quanto mal existe e \nonde o mal est\u00e1. Ent\u00e3o ele n\u00e3o \u00e9 onisciente.<\/li><li>Enquanto onisciente\n e benevolente, ent\u00e3o sabe de todo o mal que existe e quer mud\u00e1-lo. Mas \nn\u00e3o o faz, pois n\u00e3o \u00e9 capaz. Ent\u00e3o ele n\u00e3o \u00e9 onipotente.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Os\n ateus que chegaram ao ate\u00edsmo por meio de algum racioc\u00ednio envolvendo o\n paradoxo de Epicuro certamente conclu\u00edram duas coisas:<\/p>\n\n\n\n<ol><li>Que as caracter\u00edsticas atribu\u00eddas a Deus s\u00e3o mutuamente excludentes, portanto a defini\u00e7\u00e3o de Deus n\u00e3o faz sentido e<\/li><li>Que qualquer divindade que se aproxime das tr\u00eas caracter\u00edsticas, mas n\u00e3o as possua em plenitude, ter\u00e1 de ser m\u00e1 ou in\u00fatil.<\/li><\/ol>\n\n\n\n<p>Isso  quer dizer que para os ateus que chegaram ao ate\u00edsmo atrav\u00e9s do  paradoxo de Epicuro, esse Deus \u00e9 um tirano sobrenatural apenas. Quando  voc\u00ea conclui que Deus \u00e9 um tirano a que se deve <em>temer<\/em>, mas que, de fato, <em>n\u00e3o quer ou n\u00e3o pode<\/em> resolver os problemas, a conclus\u00e3o seguinte \u00e9 de que essa autoridade \u00e9 uma ilus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft size-medium\"><img loading=\"lazy\" width=\"200\" height=\"300\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/1200px-Epikouros_BM_1843-200x300.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6960\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/1200px-Epikouros_BM_1843-200x300.jpg 200w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/1200px-Epikouros_BM_1843-100x150.jpg 100w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/1200px-Epikouros_BM_1843-768x1152.jpg 768w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/1200px-Epikouros_BM_1843-427x640.jpg 427w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/1200px-Epikouros_BM_1843.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><figcaption>Epicuro<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>\u00c9\n preciso lembrar que v\u00e1rios fil\u00f3sofos ao longo da Hist\u00f3ria \nracionalizaram o paradoxo de Epicuro e tiraram conclus\u00f5es \u201cbrilhantes\u201d \nem favor do ate\u00edsmo. Pascal, por exemplo, autor da famosa \u201caposta de \nPascal\u201d, argumentou que \u00e9 melhor crermos em Deus, porque a alternativa \n(descrer) nos exp\u00f5e ao risco de dana\u00e7\u00e3o eterna. Ou seja: devemos crer em\n Deus mais pelo receio do mal que ele nos pode fazer do que por causa do\n bem de que usufru\u00edmos pela cren\u00e7a. Jo\u00e3o Calvino chegou a um racioc\u00ednio \nsemelhante: a predestina\u00e7\u00e3o absoluta. Para ele, Deus n\u00e3o \u00e9 mau nem bom, \nele apenas tra\u00e7ou o destino de todo o universo e nada podemos fazer para\n escapar disso. Ou seja: cremos ou descremos conforme Deus quer que \ncreiamos ou descreiamos.<\/p>\n\n\n\n<p>Claro\n que essas solu\u00e7\u00f5es \u201cbrilhantes\u201d s\u00f3 funcionam at\u00e9 um certo ponto porque \nelas nos colocam diante do dilema da autoridade ileg\u00edtima. Imagine os \ns\u00faditos de um rei que n\u00e3o governa realmente, mas cobra impostos e \nocasionalmente manda executar alguns que n\u00e3o lhe d\u00e3o o devido respeito. \nPor um tempo, enquanto acreditarem que o respeito \u00e9 devido, esses \ns\u00faditos continuar\u00e3o dando ao rei os seus impostos e rapap\u00e9s, mas um dia \ntalvez concluam que o poder do rei deriva exclusivamente de <em>todos<\/em>\n aceitarem que haja um rei. Nesse dia talvez a cabe\u00e7a do rei role para \ndentro de um cesto e seus nobres ter\u00e3o de achar outra coisa para fazer.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u201cdecapita\u00e7\u00e3o\u201d de Deus pela descren\u00e7a \u00e9 um fen\u00f4meno observado pela filosofia desde a \u00e9poca de Pascal, <em>que j\u00e1 concebera a sua aposta como um ant\u00eddoto para o ate\u00edsmo que ele pr\u00f3prio come\u00e7ava a sentir. <\/em>Foi Nietzsche que fez o \u201cdiagn\u00f3stico\u201d mais popular, no famoso par\u00e1grafo de <em>Gaia Ci\u00eancia <\/em>(um dos mais belos da literatura universal):<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>O homem louco se lan\u00e7ou para o meio deles e trespassou-os com seu olhar. <strong>\u2018Para onde foi Deus\u2019, gritou ele, \u2018j\u00e1 lhes direi! N\u00f3s o matamos \u2013 voc\u00eas e eu. Somos todos seus assassinos!<\/strong>\n Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem \nnos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos n\u00f3s, ao desatar a\n terra do seu sol? Para onde se move agora? Para onde nos movemos n\u00f3s? \nPara longe de todos os s\u00f3is? N\u00e3o ca\u00edmos continuamente? Para tr\u00e1s, para \nos lados, para a frente, em todas as dire\u00e7\u00f5es? Existem ainda \u2018em cima\u2019 e\n \u2018embaixo\u2019? <strong>N\u00e3o vagamos como que atrav\u00e9s de um nada infinito? N\u00e3o sentimos na pele o sopro do v\u00e1cuo?<\/strong> N\u00e3o se tornou ele mais frio? N\u00e3o anoitece eternamente? N\u00e3o temos que acender lanternas de manh\u00e3?\u201d<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Observe que Nietzsche <em>n\u00e3o est\u00e1 celebrando a morte de Deus, mas lamentando-a. <\/em>Este\n par\u00e1grafo \u00e9 uma constata\u00e7\u00e3o, n\u00e3o alguma forma de prega\u00e7\u00e3o. Nietzsche \nescreve no passado porque ele n\u00e3o est\u00e1 falando da morte iminente de \nDeus, mas de um fato j\u00e1 consumado e sobre o qual nada se pode mais \nfazer.<\/p>\n\n\n\n<p>O que ele quer dizer, <em>em minha opini\u00e3o,<\/em>\n \u00e9 que a partir de um certo ponto as ci\u00eancias e a filosofia deixaram de \nconsiderar Deus sequer como hip\u00f3tese. N\u00e3o havia mais lugar para a cren\u00e7a\n na busca do conhecimento do mundo. N\u00e3o que houvessem provado a \ninexist\u00eancia de Deus, mas que haviam descoberto vastos campos de \nconhecimento erguidos sem o recurso \u00e0 figura de Deus. Nietzsche via \nnisso o pren\u00fancio de dois movimentos:<\/p>\n\n\n\n<ol><li>As ci\u00eancias e a \nfilosofia tinham se separado da religi\u00e3o e isso seria definitivo. A \ntend\u00eancia era que cada vez mais aumentasse a dist\u00e2ncia entre elas e \nqualquer tentativa de reconex\u00e3o estava fadada ao fracasso porque a \nsepara\u00e7\u00e3o n\u00e3o se dera por um ato de vontade, mas por mera consequ\u00eancia \nda evolu\u00e7\u00e3o do conhecimento. Por isso o louco faz aquelas perguntas: a \nci\u00eancia e a filosofia ter\u00e3o que construir seus pr\u00f3prios caminhos, sem \nusar a religi\u00e3o como b\u00fassola.<\/li><li>\u00c0 medida que a dist\u00e2ncia das \nci\u00eancias e da filosofia para a religi\u00e3o aumentasse haveria uma \ndificuldade cada vez maior para conciliar a necessidade de cren\u00e7a com a \nrealidade da descren\u00e7a. As religi\u00f5es tradicionais estavam fadadas a \nperder espa\u00e7o para novas religi\u00f5es porque quando as pessoas se \napercebessem da morte metaf\u00f3rica de Deus elas n\u00e3o seriam mais de crer \nnas antigas cren\u00e7as, mas buscariam outros sistemas para seguir. Por isso\n o louco acende uma lanterna de manh\u00e3. Uma \u201cnova religi\u00e3o\u201d, um \n\u201creavivamento\u201d do cristianismo, s\u00e3o lanternas acesas de manh\u00e3 porque s\u00e3o\n respostas fora de sintonia com a mudan\u00e7a que ocorreu no mundo real.<\/li><\/ol>\n\n\n\n<p>Uma maneira um pouco mais po\u00e9tica de descrever esta tens\u00e3o est\u00e1 em H. P. Lovecraft. no c\u00e9lebre par\u00e1grafo de abertura de <em>O Chamado de Cthulhu<\/em> (o autor tinha uma verve sensacional para escrever par\u00e1grafos iniciais de seus contos, quase todos s\u00e3o bons):<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>A coisa mais misericordiosa no mundo, segundo creio, \u00e9 a incapacidade da mente humana para correlacionar todo seu conte\u00fado. <em>Vivemos em uma pl\u00e1cida ilha de ignor\u00e2ncia em meio aos mares negros do infinito e n\u00e3o fomos feitos para viajar at\u00e9 muito longe. <\/em>As\n ci\u00eancias, cada uma se esfor\u00e7ando em sua pr\u00f3pria dire\u00e7\u00e3o, at\u00e9 agora nos \ncausaram pouco mal; mas, algum dia, o encaixe de conhecimentos \ndesconexos nos abrir\u00e1 t\u00e3o terr\u00edveis vis\u00f5es da realidade, e de nossa \nterr\u00edvel posi\u00e7\u00e3o nesta, que enlouqueceremos com a revela\u00e7\u00e3o ou fugiremos\n da luz mort\u00edfera em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 paz e \u00e0 seguran\u00e7a de uma nova idade das \ntrevas.<br \/>\u2014 <em>Tradu\u00e7\u00e3o minha<\/em><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Os\n deuses c\u00f3smicos de H. P. Lovecraft nada mais s\u00e3o que uma representa\u00e7\u00e3o \ndo Deus poss\u00edvel segundo o paradoxo de Epicuro. Se tal Deus existe \nrealmente, \u00e9 melhor ignorar que ele existe, a fim de preservamos nossa \npr\u00f3pria sanidade mental, afinal.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa\n forma de ate\u00edsmo raciocinado que acima descrevi est\u00e1, de fato, mais \npr\u00f3xima de um agnosticismo do que de um \u201cate\u00edsmo\u201d no sentido pedestre da\n palavra, mas \u00e9 o ate\u00edsmo que se baseia na quest\u00e3o da autoridade, o \nate\u00edsmo como revolta racional contra uma autoridade que n\u00e3o faz sentido \nou que nos parece essencialmente m\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu n\u00e3o diria que h\u00e1 uma <em>maioria<\/em>\n de ateus pensando assim, nem ousaria dizer que s\u00e3o muitos os que \nconcordam com esses pontos. Eu mesmo, embora considere esses pensamentos\n razo\u00e1veis, n\u00e3o me limito a isso. Sabemos, por\u00e9m, que h\u00e1 um n\u00famero \nconsider\u00e1vel de ateus no mundo que pensa parecido, gente que ver\u00e1 na \ndescri\u00e7\u00e3o acima um texto quase confessional.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, <em>se voc\u00ea n\u00e3o generalizar, <\/em>poder\u00e1\n dizer que \u201ch\u00e1 ateus que rejeitam a Deus por causa de um problema de \nautoridade\u201d. Observe que a rejei\u00e7\u00e3o de Deus, nesse caso, s\u00f3 existe \nporque essas pessoas est\u00e3o empregando met\u00e1foras de pol\u00edtica para \nexplicar sua rela\u00e7\u00e3o com Deus, ent\u00e3o, sim, essas mesmas pessoas \nprovavelmente s\u00e3o do tipo que rejeitam autoridades ileg\u00edtimas ou que s\u00e3o\n c\u00e9ticas quanto a ordens baseadas puramente no poder. Por isso o ate\u00edsmo\n de esquerda me parece mais natural do que o ate\u00edsmo de direita, \nconsiderando em que a direita consiste.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depende. Em alguns casos, sim. Em outros, n\u00e3o. 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