{"id":6981,"date":"2019-08-20T16:35:13","date_gmt":"2019-08-20T19:35:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=6981"},"modified":"2019-08-27T11:47:44","modified_gmt":"2019-08-27T14:47:44","slug":"origens-do-anarco-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2019\/08\/origens-do-anarco-capitalismo\/","title":{"rendered":"Origens do Anarco-Capitalismo"},"content":{"rendered":"\n<h2>Introdu\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>O Anarco-Capitalismo \u00e9 uma\nideologia relativamente recente, mas n\u00e3o apareceu magicamente, sem\nantecedentes hist\u00f3ricos. Geograficamente, esta doutrina surgiu nos\nEstados Unidos. Ideologicamente, se baseia em tr\u00eas correntes de\npensamento que eram prevalentes naquele pa\u00eds durante a d\u00e9cada de\n1990: Objetivismo, a filosofia de Ayn Rand; Neoliberalismo radical, a\nescola austr\u00edaca, e  Fundamentalismo religioso e sobrevivencialismo.<\/p>\n\n\n\n<h2>Objetivismo<\/h2>\n\n\n\n<p>Ayn Rand foi uma escritora\namericana nascida na R\u00fassia e de ascend\u00eancia judia. N\u00e3o vou\ndiscutir a biografia dela, mas a sua filosofia, que ela chamou de\n\u201cobjetivismo\u201d para se contrapor ao \u201crelativismo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O objetivismo \u00e9 um sistema ideol\u00f3gico fechado,\nque n\u00e3o admite mudan\u00e7a de seus postulados. Segundo Rand e seus\nherdeiros ideol\u00f3gicos, a realidade existe \u00e0 parte da consci\u00eancia\nda realidade, o conhecimento somente pode ser obtido atrav\u00e9s da\npercep\u00e7\u00e3o e da l\u00f3gica indutiva, o capitalismo \u00e9 o \u00fanico sistema\necon\u00f4mico que est\u00e1 de acordo com a moralidade natural e a fun\u00e7\u00e3o\nda arte \u00e9 tangibilizar as ideias metaf\u00edsicas para que estas possam\nser experimentadas e compreendidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas afirma\u00e7\u00f5es, ao serem transformadas em\npostulados de todo o sistema, impedem que o objetivismo reflita sobre\nseu valor-verdade, ou seja, elas se transformam em dogmas. Voc\u00ea n\u00e3o\npode, no contexto do objetivismo, discutir o m\u00e9todo cient\u00edfico,\nquestionar as leis de mercado (laissez-faire) ou dar a arte um papel\nque n\u00e3o seja subalterno ao objetivismo em si mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o espanta, ent\u00e3o, que o objetivismo tenha sido\nrejeitado por todos os fil\u00f3sofos acad\u00eamicos do mundo. Se a\nfinalidade \u00faltima da filosofia \u00e9 justamente a de questionar os\nvalores e os conceitos, uma filosofia que se baseie no fim do\nquestionamento de certos valores e de certos conceitos \u00e9 uma\n\u201cantifilosofia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro aspecto interessante aqui \u00e9 que Rand fazia\numa liga\u00e7\u00e3o muito extrema entre o capitalismo de mercado e o\nego\u00edsmo. Partindo de conceitos b\u00e1sicos de liberdade econ\u00f4mica,\nbuscados em economistas cl\u00e1ssicos como Adam Smith e David Ricardo,\nal\u00e9m dos fisiocratas franceses de s\u00e9culos anteriores; Rand\nadicionava a filosofia de Nietzsche e o darwinismo social para\nargumentar que a \u201cm\u00e3o invis\u00edvel\u201d do mercado regularia o ego\u00edsmo\ndos indiv\u00edduos de maneira a obter o resultado \u00f3timo para a\nsociedade. Disso derivou a ideia de que o ego\u00edsmo \u00e9 uma virtude. \n<\/p>\n\n\n\n<p>A rela\u00e7\u00e3o dela com Nietzsche \u00e9 complicada,\nporque n\u00e3o se pode afirmar, com certeza, que o alem\u00e3o defendia o\nego\u00edsmo em si. Por\u00e9m, essa discuss\u00e3o foge do foco desta resposta,\nj\u00e1 que qualquer conceito de Nietzsche presente no anarco-capitalismo\nsomente provem dele indiretamente, podemos nos limitar a discutir\nRand.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto ao darwinismo social, este \u00e9 a ideia de\nque a sociedade humana estaria sujeita \u00e0s mesmas leis que a vida em\nestado de natureza e que, portanto, a sobreviv\u00eancia dos mais fortes\ne o perecimento dos mais fracos seriam fatores esperados de uma\nsociedade funcional.<\/p>\n\n\n\n<p>Pe\u00e7o ao leitor que preste bastante aten\u00e7\u00e3o a\neste conceito em especial, porque a \u00e9tica de sobreviv\u00eancia do mais\nforte (ou do mais apto) \u00e9 um dos pilares mais significativos do\nanarco-capitalismo.<\/p>\n\n\n\n<h2>Escola Austr\u00edaca e Neoliberalismo<\/h2>\n\n\n\n<p>A \u201cEscola Austr\u00edaca\u201d de\nEconomia \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o radical, e de certa maneira\nfundamentalista, do liberalismo econ\u00f4mico. De certa maneira,\nrepresenta a transi\u00e7\u00e3o entre o pensamento econ\u00f4mico liberal\ncl\u00e1ssico e o chamado \u201cneoliberalismo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"177\" height=\"320\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/emergencia.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6984\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/emergencia.jpg 177w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/emergencia-83x150.jpg 83w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/emergencia-166x300.jpg 166w\" sizes=\"(max-width: 177px) 100vw, 177px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Foi fundada em Viena, \u00c1ustria, no in\u00edcio do\ns\u00e9culo XX, pelos economistas Carl Menger, Ludwig von Mises e Eugen\nvon B\u00f6hm-Bawerk. Teve entre seus membros mais prominentes Friederich\nvon Hayek e foi transplantada para os Estados Unidos, no final do\nper\u00edodo entre-guerras, quando Mises se refugiou da ocupa\u00e7\u00e3o da\n\u00c1ustria pelos nazistas. Desde ent\u00e3o, o pensamento de Mises e de\nHayek, que lecionava na Gr\u00e3-Bretanha, passou a predominar. \n<\/p>\n\n\n\n<p>Entre o final do s\u00e9culo XIX e meados do s\u00e9culo\nXX a Escola Austr\u00edaca era considerada parte do \u201cmainstream\u201d da\nci\u00eancia econ\u00f4mica. Desde ent\u00e3o, com o surgimento do\nneoliberalismo, que procurou reincorporar \u00e0 ci\u00eancia econ\u00f4mica\nelementos matem\u00e1ticos que haviam sido descartados por Mises, ela foi\nmarginalizada e alguns de seus membros transitaram para o\nneoliberalismo, como Friederich Hayek e Milton Friedman. \n<\/p>\n\n\n\n<p>Isso n\u00e3o significou o seu desaparecimento, por\u00e9m.\nMises e seus alunos, como Murray Rothbard e Lew Rockwell, criaram\nentidades, como o Instituto Mises e a Sociedade de Mont P\u00e9lerin, que\ndivulgavam o pensamento \u201caustr\u00edaco\u201d e mantiveram vivas as ideias\nda escola em uma \u00e9poca em que o mundo acad\u00eamico lhe deu as costas.\nNa verdade, as ideias austr\u00edacas nunca desapareceram porque Hayek e\nFriedman, mesmo transitando pelo neoliberalismo, que era\n\u201cmainstream\u201d, nunca deixaram de citar conceitos da escola. A\npartir dos anos setenta, princ\u00edpios \u201caustr\u00edacos\u201d orientaram a\npol\u00edtica econ\u00f4mica de Augusto Pinochet (Chile), Margaret Thatcher\n(Gr\u00e3-Bretanha), Ronald Reagan (EUA) e outros.<\/p>\n\n\n\n<p>O fim do bloco sovi\u00e9tico permitiu que os\nneoliberais (e os \u201caustr\u00edacos\u201d, a reboque deles) tivessem um\nsentimento de triunfo, que se expressou na difus\u00e3o do conceito de\n\u201cfim da hist\u00f3ria\u201d, de Francis Fukuyama, e no \u201cConsenso de\nWashington\u201d, uma s\u00e9rie de dez propostas de pol\u00edtica econ\u00f4mica\nque expressariam a vit\u00f3ria do sistema capitalista e o \u00fanico caminho\nposs\u00edvel para a evolu\u00e7\u00e3o das sociedades.<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, com o advento da internet, a escola\n\u201caustr\u00edaca\u201d, que n\u00e3o era estudada formalmente no meio acad\u00eamico\ne cuja influ\u00eancia no mundo real era indireta (atrav\u00e9s do\nneoliberalismo, que dela dependia somente de maneira parcial), passou\na ter um ve\u00edculo de difus\u00e3o perfeito. Notadamente a partir dos anos\n2000, o Instituto Mises passou a dar cursos de \u201cEconomia Austr\u00edaca\u201d\nonline a quem quer que se interessasse (em geral de maneira gratuita\nou mediante pagamento m\u00f3dico). Isso permitiu que as ideias\naustr\u00edacas ganhassem popularidade fora do meio acad\u00eamico. Isso\nocorreu mais a partir de 2008, quando a crise global do capitalismo\ngerou grande ceticismo sobre a validade dos conceitos da economia\n\u201cmainstream\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2>Escola Austr\u00edaca e Objetivismo<\/h2>\n\n\n\n<p>De muitas maneiras a Escola Austr\u00edaca se\nrelaciona com o Objetivismo de Ayn Rand. Essas transversalidades\nest\u00e3o principalmente no seu car\u00e1ter dogm\u00e1tico. Pode-se dizer que\nas duas ideologias se completam e se apoiam mutuamente. \n<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo, o objetivismo afirma que o\ncapitalismo de livre mercado (\u201claissez-faire\u201d) \u00e9 a \u00fanica forma\nde economia poss\u00edvel, por ser a \u00fanica de acordo com a natureza\nhumana. Enquanto isso, a Escola Austr\u00edaca nos diz que somente em um\nambiente de liberdade econ\u00f4mica total pode existir completa\nliberdade individual. Mais que isso, Mises afirmou que qualquer\nrestri\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, de qualquer tipo, inicia um processo de\nrestri\u00e7\u00e3o gradual das liberdades individuais. Pode-se dizer que a\nafirma\u00e7\u00e3o de Mises \u00e9 o corol\u00e1rio da afirma\u00e7\u00e3o de Rand.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro exemplo, Rand afirmava que a realidade\nexiste \u00e0 parte dos indiv\u00edduos e suas percep\u00e7\u00f5es. Disso podemos\nderivar que toda interpreta\u00e7\u00e3o da realidade \u00e9 incompleta em\nrela\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade mesma, o que evoca o platonismo\n(especificamente a Teoria das Ideias e das Formas). Mises afirmou que\nos fen\u00f4menos econ\u00f4micos derivam de escolhas subjetivas dos\nindiv\u00edduos (Praxeologia). Isto quer dizer que essas escolhas, por\nserem subjetivas (portanto incompletas e imperfeitas) n\u00e3o podem\noriginar sistemas preditivos eficientes. \n<\/p>\n\n\n\n<p>Sendo assim, a economia n\u00e3o \u00e9 uma ci\u00eancia\nexata, ou mesmo uma ci\u00eancia false\u00e1vel, porque os seus postulados\nn\u00e3o podem ser usados para antecipar o futuro, nem mesmo de maneira\nlimitada. Isso tem certa rela\u00e7\u00e3o com a prefer\u00eancia do objetivismo\npela l\u00f3gica indutiva em vez de dedutiva. A ci\u00eancia econ\u00f4mica n\u00e3o\ndeduz regras, mas nos induz a questionamentos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 parte os preceitos metodol\u00f3gicos, Rand e Mises\ncompartilhavam de uma avers\u00e3o profunda ao comunismo, que os levou,\npor caminhos diferentes a endossar o fascismo e o nazismo. Rand, ao\nabra\u00e7ar o darwinismo social e o eugenismo, que foram fundamentos\nfilos\u00f3ficos do nazismo. Mises, ao colaborar ativamente com o regime\nde Dolfuss, na \u00c1ustria, e ao descrever o fascismo em termos bastante\nagrad\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse anticomunismo ferrenho nos ajuda a explicar o\nfavor que ambos tiveram nos Estados Unidos do p\u00f3s-guerra, quando\nhavia uma grande histeria anticomunista e as ideias de esquerda eram\nsuprimidas pelo macarthismo. F\u00e1cil entender como as ideias de\nextrema-direita nadavam de bra\u00e7ada diante do silenciamento de seus\nquestionadores pela a\u00e7\u00e3o do bra\u00e7o forte do estado. Foi assim que a\nEscola Austr\u00edaca e o objetivismo, protegidos da controv\u00e9rsia,\npuderam gozar de uma \u201cinflu\u00eancia\u201d imposta pela pol\u00edtica, mesmo\nquando, academicamente, se tornaram insustent\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<h2>Sobrevivencialismo<\/h2>\n\n\n\n<p>Nos\nEstados Unidos sempre existiram grupos que, por raz\u00f5es religiosas\nideol\u00f3gicas, buscavam afastar-se da sociedade e construir seus\npr\u00f3prios movimentos. Isso \u00e9 mais antigo que o pr\u00f3prio pa\u00eds e teve\nprecursores significativos, como os Menonitas e os Amish, a Igreja de\nJesus Cristo dos Santos dos \u00daltimos Dias (\u201cM\u00f3rmons\u201d), a Igreja\nAdventista do S\u00e9timo Dia (\u201cMilleritas\u201d), a Sociedade Torre de\nVigia (\u201cTestemunhas de Jeov\u00e1\u201d) e os movimentos de mil\u00edcias e os\nsobrevivencialistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses\ndois \u00faltimos merecem uma men\u00e7\u00e3o \u00e0 parte, por serem menos\nconhecidos no Brasil e por serem os que nos interessam. Movimento de\nmil\u00edcias \u00e9 um termo gen\u00e9rico para grupos\nque se organizam, geralmente em \u00e1reas rurais, e formam c\u00e9lulas\nparamilitares armadas, com o intuito de resistir \u00e0 \u201cimposi\u00e7\u00e3o de\nfor\u00e7a\u201d pelo governo federal, a que consideram ileg\u00edtimo por certo\nmotivo. Os milicianos se inspiram na Segunda Emenda da Constitui\u00e7\u00e3o\ndos Estados Unidos, que menciona que o governo n\u00e3o se oporia a uma\n\u201cmil\u00edcia local bem organizada\u201d. Esses termos, claro, se referem\nao contexto dos Estados Unidos por volta da \u00e9poca da independ\u00eancia,\nem que o governo central n\u00e3o tinha for\u00e7as armadas regulares e\ndependia de for\u00e7as paramilitares formadas nas Treze Col\u00f4nias. Essa\nideologia permaneceu forte no pa\u00eds, apesar das mudan\u00e7as pol\u00edticas\ne econ\u00f4micas que ocorreram depois de 1776, mas atingiram o seu auge\nnos anos 1973-2003, quando passou a haver no pa\u00eds uma grande\ndisponibilidade de veteranos de guerra insatisfeitos com o governo\ncentral.<\/p>\n\n\n\n<p>No\ncontexto da Guerra Fria surgiu\noutro movimento paralelo ao das mil\u00edcias e que com ele se\nrelacionava biunivocamente: o sobrevivencialismo. Diante da amea\u00e7a\nda aniquila\u00e7\u00e3o da humanidade em uma guerra nuclear, houve at\u00e9\ncerto ponto o est\u00edmulo governamental \u00e0 \u201cprepara\u00e7\u00e3o\u201d dos\ncidad\u00e3os para o \u201cfim do mundo como o conhecemos\u201d. J\u00e1 nos anos\ncinquenta come\u00e7ou a constru\u00e7\u00e3o de abrigos antinucleares em\ndiversas regi\u00f5es dos Estados Unidos. O telefilme \u201cO Dia Seguinte\u201d,\nde 1983, fez com que o n\u00edvel de preocupa\u00e7\u00e3o aumentasse e surgiram\ndiscuss\u00f5es na imprensa sobre a \u201cprepara\u00e7\u00e3o\u201d. Os adeptos\npassaram a\nestocar alimentos, armas, \u00e1gua pot\u00e1vel e muni\u00e7\u00e3o em abrigos\nsubterr\u00e2neos dotados de isolamento t\u00e9rmico e prote\u00e7\u00e3o contra\nradia\u00e7\u00e3o. O n\u00edvel de alerta dos sobrevivencialistas aumentou\ndepois que o Furac\u00e3o Katrina, em 2004, mostrou certo despreparo do\ngoverno e da sociedade civil para enfrentar as consequ\u00eancias de uma\ncat\u00e1strofe de grandes propor\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos\nanos 1990, nos prim\u00f3rdios da internet, os sobrevivencialistas\nencontraram nos\nf\u00f3runs eletr\u00f4nicos, os BBS, o meio ideal para trocar ideias e\nsugest\u00f5es. Uma parte significativa dessa troca est\u00e1 arquivada no\nsite Textfiles.org, sob o diret\u00f3rio \u201csurvival\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Os\nsurvivalistas; ou \u201cpreppers\u201d, como eles preferem se chamar;\ncolecionam todo tipo de informa\u00e7\u00e3o que possa ser \u00fatil. Eles t\u00eam\nsuas revistas, seus websites e suas pr\u00f3prias teorias de conspira\u00e7\u00e3o,\nsobre as quais n\u00e3o vale a pena a gente se deter aqui. Buscai e\nachareis.<\/p>\n\n\n\n<p>O\nque nos interessa a respeito do sobrevivencialismo s\u00e3o seis aspectos\ndessa subcultura:<\/p>\n\n\n\n<ol><li>Seu\n\tinteresse por ouro e prata, e, por conseguinte, por uma teoria\n\tecon\u00f4mica que baseia o \u201cvalor real\u201d do dinheiro em metais;\n\t<\/li><li>A\n\timport\u00e2ncia que d\u00e3o \u00e0 posse de armas \u201cpara defesa\u201d no caso de\n\tum cataclismo, e, por conseguinte, seu alinhamento com todos que\n\tdefendam a desregulamenta\u00e7\u00e3o da posse de armas;\n\t<\/li><li>A\n\ttend\u00eancia que esses movimentos t\u00eam no sentido de organizar c\u00e9lulas\n\tlocais (que se assemelham de muitas maneiras ao que os anarquistas\n\tpreconizavam como modelo de sociedade);\n\t<\/li><li>Sua\n\tavers\u00e3o ao governo;\n\t<\/li><li>Sua\n\trela\u00e7\u00e3o com o conservadorismo religioso;\n\t<\/li><li>Sua\n\treivindica\u00e7\u00e3o de defesa de valores americanos tradicionais al\u00e9m\n\tda religi\u00e3o crist\u00e3.\n<\/li><\/ol>\n\n\n\n<p>O\nfasc\u00ednio dos \u201cpreppers\u201d por ouro e prata trazem-nos para perto\nde quem pregue contra a \u201cmoeda fiduci\u00e1ria\u201d e faz com que eles,\norganicamente, passem a difundir conte\u00fado produzido pela Escola\nAustr\u00edaca de economia.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua\ndefesa do porte de armas (esses movimentos s\u00e3o muito apoiados pela\nNRA porque s\u00e3o grandes consumidores de armamento e muni\u00e7\u00e3o) faz\ncom que se oponham a pol\u00edticas governamentais restritivas do porte\nde armas e, paradoxalmente, trazem esses movimentos para perto de\norganiza\u00e7\u00f5es clandestinas extremistas, como a Ku Klux Klan.<\/p>\n\n\n\n<p>A\norganiza\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma a n\u00edvel local lembra, mais uma vez, a\nmaneira como a KKK se organizou no Sul dos Estados Unidos, ap\u00f3s a\nGuerra Civil, para resistir ao governo central e \u00e0s pol\u00edticas de\nintegra\u00e7\u00e3o. Muitos\ndesses grupos, embora obtenham e estoquem comida industrializada e\narmas, t\u00eam um aspecto ludita, ao pregarem contra a sociedade de\nconsumo \u201cdegenerada\u201d. Isto est\u00e1 de acordo com as seitas\nparaprotestantes americanas, v\u00e1rias delas de cunho teocr\u00e1tico ou\nsegregacionista, mas, tamb\u00e9m, paradoxalmente, de acordo com os\nvalores do Unabomber, cujo Manifesto est\u00e1 eivado de linguajar\n\u201cprepper\u201d \u2014 e ele mesmo era um deles.<\/p>\n\n\n\n<p>A\navers\u00e3o ao governo, praticamente derivada dos dois itens anteriores,\nse explica pelo desejo autorit\u00e1rio desses grupos, especialmente os\nmais religiosos. Para os \u201cpreppers\u201d, o governo americano suprime\nas suas liberdades individuais, especialmente a de religi\u00e3o. Eles\ncitam com frequ\u00eancia a invas\u00e3o do rancho da seita Ramo Davidiano\ncomo um exemplo de viola\u00e7\u00e3o da liberdade local pelo governo central\ne o usam como exemplo da necessidade de se organizarem como uma\nmil\u00edcia local para \u201cresistir\u201d a essa interfer\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A\nreivindica\u00e7\u00e3o de valores tradicionais e sua rela\u00e7\u00e3o com\nmovimentos religiosos faz com que os \u201cpreppers\u201d, embora\nfrequentemente bebam na fonte do anarquismo, evitem os aspectos\nrevolucion\u00e1rios da ideologia. Ao se afastarem do socialismo,\nmantendo do anarquismo somente uma parte relativa ao m\u00e9todo, os\n\u201cpreppers\u201d chegam muito perto do que seriam os \u201cancaps\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>A E<\/strong>strat\u00e9gia da Cunha.<\/h2>\n\n\n\n<p>No final dos anos 1990 um jovem\namericano recebeu de seu empregador, em Seattle, um documento\nintitulado \u201cThe Wedge\u201d, produzido pelo autointitulado \u201cCentro\nde Renova\u00e7\u00e3o da Ci\u00eancia e da Cultura\u201d do \u201cDiscovery\nInstitute\u201d, uma organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental americana\nvinculada a igrejas protestantes tradicionais. Percebendo a\nimport\u00e2ncia do documento e seu conte\u00fado, o jovem escaneou o\ndocumento e o publicou na internet.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse documento o Discovery Institute estabelece\numa estrat\u00e9gia para alterar a cultura americana no sentido dos\nvalores conservadores das igrejas evang\u00e9licas fundamentalistas. A\ncunha (\u201cwedge\u201d) a que se refere o t\u00edtulo \u00e9 uma met\u00e1fora que\nevoca a maneira como uma pe\u00e7a de metal inserida em uma tora de\nmadeira acaba por arrebent\u00e1-la ao meio.<\/p>\n\n\n\n<p>Existem in\u00fameras semelhan\u00e7as entre as abordagens\npreconizadas pelo Discovery Institute e as que foram adotadas depois\npor diversos think-tanks americanos, entre os quais o \u201cStudents for\nLiberty\u201d (mentor das revolu\u00e7\u00f5es coloridas, de que ainda\nfalaremos, e, no Brasil, do MBL), o Instituto Mises (mentor, no\nBrasil, do Instituto Liberal) e tamb\u00e9m Olavo de Carvalho, que me\nparece ser um pe\u00e3o dos think-tanks americanos com seu Curso Oline de\nFiofolosofia, apesar de se dizer \u201ccat\u00f3lico\u201d (assim como eu me\ndigo sindarin).<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os objetivos expressos pela estrat\u00e9gia da\ncunha, dois s\u00e3o os principais: a) derrotar\no materialismo cient\u00edfico e seu destrutivo legado moral, cultural e\npol\u00edtico e\nb) substituir\nas explica\u00e7\u00f5es materialistas pelo entendimento te\u00edsta da natureza\ne do ser humano como criaturas de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Para\nalcan\u00e7ar estes objetivos, a estrat\u00e9gia da cunha atua em tr\u00eas\nfrentes: a)\nPesquisa,\nescrita e publica\u00e7\u00e3o de artigos cient\u00edficos; b)\nPublicidade\ne influ\u00eancia da opini\u00e3o p\u00fablica; c)\nConfronto\ncultural e renova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Sabendo\nque seria imposs\u00edvel obter apoio junto \u00e0 comunidade cient\u00edfica\n(afinal, a estrat\u00e9gia da cunha deliberadamente procura destruir a\nci\u00eancia), busca-se construir, em vez disso, uma base de apoio\npopular, para negar p\u00fablico aos divulgadores de ci\u00eancias e\nemprestar peso ao debate sobre a pseudoci\u00eancia:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Alongside a focus on the\ninfluential opinion-makers, we also seek to build up a popular base\nof support among our natural constituency, namely, Christians. We\nwill do this primarily through apologetic seminars. We intend these\nto encourage and equip believers with new scientific evidences that\nsupport the faith, as well as to popularize our ideas in the broader\nculture.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Traduzido:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Ao lado de um foco sobre influenciadores\nda opini\u00e3o p\u00fablica, tamb\u00e9m buscamos construir uma base popular de\napoio entre os nossos seguidores naturais, ou seja, os crist\u00e3os. N\u00f3s\no faremos principalmente por meio de semin\u00e1rios apolog\u00e9ticos.\nPretendemos atrav\u00e9s destes encorajar e equipar os crentes com novas\nevid\u00eancias cient\u00edficas que apoiem sua f\u00e9, al\u00e9m de popularizar\nnossas ideias na cultura em geral.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Isto \u00e9, basicamente, o que v\u00eam\nfazendo todos os movimentos conservadores que se tornaram\npredominantes nos \u00faltimos anos e guarda muitas semelhan\u00e7as com o\nPlano de Poder, de Edir Macedo. A estrat\u00e9gia da cunha pode ter sido\ndesenvolvida pelos evang\u00e9licos, mas n\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos que a usam.<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>O Novo S\u00e9culo Americano<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>A ONG \u201cProjeto para o\nNovo S\u00e9culo Americano\u201d foi fundada em 1997 e teve entre seus\nmembros George W. Bush, Dick Cheney, Donald Rumsfeld, Paul Wolfowitz\ne Francis Fukuyama (lembra dele?). Muitos dos membros desta ONG\ntinham cooperado nos mandatos de Reagan e George Bush (1980-1992) e\nv\u00e1rios (como os citados) colaboraram nos mandatos de George W. Bush\n(2000-2008). De entremeio temos Fukuyama, ide\u00f3logo do Consenso de\nWashington e sabidamente pago pela Funda\u00e7\u00e3o Ford (a mesma, ali\u00e1s,\nque custeou o ex\u00edlio de Fernando Henrique Cardoso, no tempo do\nregime militar).<\/p>\n\n\n\n<p>A presen\u00e7a dessa gente no quadro de signat\u00e1rios\nou colaboradores significa que esse n\u00e3o era meramente um grupo de\nestudos acad\u00eamicos, como, na \u00e9poca, se tentou dizer. Ela\nbasicamente delineou a pol\u00edtica interna e externa dos EUA no novo\nmil\u00eanio. Entre as medidas sugeridas pelo PNAC estavam:<\/p>\n\n\n\n<ol><li>Mudan\u00e7a de regime no Iraque para obter um\n\tterrit\u00f3rio no cora\u00e7\u00e3o do Oriente M\u00e9dio e para impor medo aos\n\toutros pa\u00edses, a fim de que passassem a colaborar com EUA;\n\t<\/li><li>Reconstruir as defesas americanas, a fim de\n\tdar aos EUA uma hegemonia militar incontest\u00e1vel no mundo (mesmo que\n\tisso significasse violar os tratados com a R\u00fassia);\n\t<\/li><li>Substituir a diplomacia pela intimida\u00e7\u00e3o;\n<\/li><\/ol>\n\n\n\n<p>Diante da controv\u00e9rsia gerada pelo PNAC, ele foi encerrado em 2006, mas os mesmos fundadores, William Kristol e Robert Kagan, fundaram, no ano de 2009, o \u201cForeign Policy Initiative\u201d, que existiu at\u00e9 2017. Esse, por sua vez, passou a focar no enfrentamento da China e da R\u00fassia, definidas como as amea\u00e7as potenciais aos interesses americanos. Entre as medidas defendias pelo FPI, o apoio a \u201cmudan\u00e7a de regime\u201d em pa\u00edses selecionados, para enfraquecer a \u201cesfera de influ\u00eancia\u201d da China e da R\u00fassia, a ocupa\u00e7\u00e3o definitiva do Iraque e do Afeganist\u00e3o, o bombardeio da S\u00edria, uma futura guerra com o Ir\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Estamos citando o PNAC e o FPI aqui porque eles me\nparecem muito ligados \u00e0s revolu\u00e7\u00f5es coloridas, em geral, e \u00e0s\nestrat\u00e9gias de desestabiliza\u00e7\u00e3o de pa\u00edses que os EUA consideram\naliados naturais ou potenciais de R\u00fassia e China. Nesse sentido, o\nBrasil pode ter entrado no radar dos EUA ao aderir \u00e0 iniciativa\nBRICS, gravitando para a zona de influ\u00eancia russo-chinesa.<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>Revolu\u00e7\u00f5es Coloridas<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O termo \u201crevolu\u00e7\u00e3o colorida\u201d\nfoi cunhado em refer\u00eancia aos movimentos pol\u00edtico-sociais ocorridos\nsequencialmente no in\u00edcio dos anos 2000 em pa\u00edses como S\u00e9rvia,\nGe\u00f3rgia e Ucr\u00e2nia. Tamb\u00e9m\nocorreram fen\u00f4menos parecidos no Ir\u00e3, no L\u00edbano, na Bielorr\u00fassia,\nno Quirguist\u00e3o, na R\u00fassia (Pussy Riot e Oborona), no Egito, na\nL\u00edbia, na Turquia, na China (Hong Kong) e, como j\u00e1 \u00e9 bastante\naceito, no Brasil. O \u00fanico caso controverso, mas que eu n\u00e3o me\nrecuso a citar tamb\u00e9m, \u00e9 o da Tun\u00edsia.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses movimentos se inspiraram na luta dos negros\namericanos pelos direitos civis (sob Martin Luther King), na vida de\nGandhi (que tinha sido inspira\u00e7\u00e3o para King), nos fatos que levaram\n\u00e0 queda do Bloco Sovi\u00e9tico e, principalmente, nos protestos da\nPra\u00e7a da Paz Celestial, na China. Tamb\u00e9m se inspiraram muito no\nmovimento estudantil brasileiro que derrubou Fernando Collor de Melo\n(os \u201ccarapintadas\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p>Quando digo que se inspiraram n\u00e3o quero dizer que\nesses movimentos inspiradores foram manipulados. S\u00f3 quero dizer que\neles foram estudados por quem desenvolveu a estrat\u00e9gia da revolu\u00e7\u00e3o\ncolorida como arma de guerra h\u00edbrida.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, cabe dizer que nem toda \u201crevolu\u00e7\u00e3o\ncolorida\u201d se caracteriza por ter uma \u201ccor\u201d no nome. Isso\nocorreu somente na Ucr\u00e2nia (\u201cRevolu\u00e7\u00e3o Laranja\u201d), na Ge\u00f3rgia\n(\u201cRevolu\u00e7\u00e3o Laranja\u201d) e no Ir\u00e3, onde fracassou (\u201cRevolu\u00e7\u00e3o\nVerde\u201d). Ent\u00e3o, o nome \u201crevolu\u00e7\u00e3o colorida\u201d \u00e9 uma\nmeton\u00edmia, por considerar que as caracter\u00edsticas existentes nessas\nrevolu\u00e7\u00f5es, que realmente levavam os nomes de cores, e em suas\nantecessoras se repetem em revolu\u00e7\u00f5es posteriores, mesmo n\u00e3o tendo\nnomes assim.<\/p>\n\n\n\n<p>As caracter\u00edsticas das revolu\u00e7\u00f5es coloridas:<\/p>\n\n\n\n<ul><li>Base\n\tem movimentos estudantis ou de juventude;\n\t<\/li><li>Uso de t\u00e1ticas n\u00e3o violentas e protestos de\n\tmassas para provocar a rea\u00e7\u00e3o das for\u00e7as de seguran\u00e7a a fim de\n\tcriar-se como\u00e7\u00e3o;\n\t<\/li><li>Ideologia de \u201crenova\u00e7\u00e3o\u201d pol\u00edtica e\n\tsocial, com a cria\u00e7\u00e3o de \u201cnovas\u201d lideran\u00e7as pol\u00edticas em vez\n\tde se apropriarem de lideran\u00e7as existentes;\n\t<\/li><li>Ampla utiliza\u00e7\u00e3o de redes e m\u00eddias sociais\n\tpara difus\u00e3o de conte\u00fado (principalmente de fotos e filmagens da\n\trepress\u00e3o) e para a organiza\u00e7\u00e3o dos protestos e a\u00e7\u00f5es;\n\t<\/li><li>R\u00e1pida transi\u00e7\u00e3o para a reivindica\u00e7\u00e3o de\n\treformas econ\u00f4micas em vez de sociais e pol\u00edticas;\n\t<\/li><li>Aus\u00eancia de car\u00e1ter nacionalista: os\n\tmovimentos buscam ades\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica externa americana ou \u00e0 Uni\u00e3o\n\tEuropeia;\n\t<\/li><li>Aceita\u00e7\u00e3o de pautas religiosas ou\n\ttradicionalistas (\u201cliberal na economia e conservador nos\n\tcostumes\u201d, por exemplo).\n<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Embora n\u00e3o haja espa\u00e7o para isto nesta resposta,\nh\u00e1 meios de se fazer uma correspond\u00eancia clara entre a primeira\nrevolu\u00e7\u00e3o colorida, a da S\u00e9rvia, e todas as seguintes. Existem,\ninclusive, ind\u00edcios de que lideran\u00e7as dos primeiros protestos\natuaram abertamente nos seguintes, embora com o tempo a t\u00e1tica tenha\nse aperfei\u00e7oado e j\u00e1 n\u00e3o se d\u00ea tanta bandeira.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto ao uso de redes sociais, n\u00e3o \u00e9 segredo\npara ningu\u00e9m que atrav\u00e9s delas os EUA conseguiram impor sua agenda\ne seus valores, enfraquecendo a imprensa regional em todos os lugares\ndo mundo e criando um canal imediato entre os usu\u00e1rios e o que quer\nque esteja a ocorrer na Am\u00e9rica do Norte. O que \u00e9 mais recente \u00e9 o\nuso que Facebook e Twitter costumam fazer de suas prerrogativas,\nassumindo um lado em conflitos pol\u00edticos. Nos recentes protestos em\nHong Kong, por exemplo, o Twitter bloqueou ou excluir centenas de\ncontas de chineses favor\u00e1veis a Pequim, alegando que essas\ncontas eram \u201cmanipuladas\u201d pelo governo chin\u00eas. Nem falemos sobre\na maneira estranha como o Facebook gerencia conte\u00fados de esquerda e\ndireita,\nou a influ\u00eancia que teve sobre as elei\u00e7\u00f5es \u2014 n\u00e3o s\u00f3 no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando\na express\u00e3o pol\u00edtica se faz atrav\u00e9s de um servi\u00e7o criado, mantido\ne pago por uma empresa privada, as conveni\u00eancias de neg\u00f3cios se\nsobrep\u00f5em \u00e0s obriga\u00e7\u00f5es de cidadania \u2014 ainda mais porque essas\nempresas for\u00e7am, atrav\u00e9s de seus acordos de licen\u00e7a ao usu\u00e1rio\nfinal, que os contratos sejam regidos pelas leis dos Estados Unidos,\nnas quais empresas t\u00eam o direito \u00e0 \u201cliberdade de express\u00e3o\u201d e\npodem, inclusive, escolher abertamente um lado no debate pol\u00edtico. A\nideia de que a internet \u00e9 neutra \u00e9 um conceito ing\u00eanuo, at\u00e9\nidiota.<\/p>\n\n\n\n<h2>N<strong>erds, Gamers e Incels<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Os desajustados sociais sempre\nforam um grupo de recrutamento f\u00e1cil. Os fascistas e nazistas j\u00e1\nhaviam recrutado amplamente entre os desempregados, os humilhados, os\nfrustrados e os que se julgavam passados para tr\u00e1s pelos judeus e\npelos estrangeiros. Nem falemos, tamb\u00e9m, da facilidade com que os\nfundamentalistas isl\u00e2micos recrutam homens-bomba entre os jovens\ndesesperados em lugares como L\u00edbano, Palestina, Iraque, S\u00edria,\nChech\u00eania e Afeganist\u00e3o. Portanto, n\u00e3o \u00e9 novidade alguma que\ngrupos sancionados pelo esc\u00e1rnio da sociedade fossem fornecer tantos\nsoldados.<\/p>\n\n\n\n<p>Nerds e gamers t\u00eam em comum a\nsua rela\u00e7\u00e3o com \u201ccyberculturas\u201d \u2014 isto \u00e9,\n\u201ctribos\u201d de jovens que interagem pela internet e atrav\u00e9s dela\ncriam e replicam os seus valores fundamentais. A cultura cibern\u00e9tica\niniciou\n sua evolu\u00e7\u00e3o ainda nos anos noventa, mas alcan\u00e7ou a\nmaturidade nos primeiros anos do mil\u00eanio, no tempo dos programas de\ncompartilhamento peer-to-peer. Isso chegou a tal ponto que hoje h\u00e1\npais que n\u00e3o t\u00eam a menor ideia do que os seus filhos fazem na\ninternet, como no caso de Robert e Trude Steen, que s\u00f3 descobriram\nque seu filho inv\u00e1lido era um lend\u00e1rio jogador de World of Warcraft\ndepois que ele morreu e dezenas de jogadores de toda a Europa vieram\nao seu funeral, para espanto da fam\u00edlia (e para arrependimento de\nseus pais, que sempre haviam tentado limitar seu acesso ao jogo).<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 muito bom quando isso se manifesta de maneira\nbenigna, como no caso de Mats Steen, mas n\u00f3s sabemos j\u00e1 que existem\nsubculturas na internet que espalham o \u00f3dio, como os Incels, sobre\nquem Lola Aronovich pode falar com mais propriedade do que eu (vide\nlink no final).<\/p>\n\n\n\n<p>Esses jovens que cresceram \u201cdigitalmente\u201d, e\nque devem tanto de seu conhecimento e de sua intera\u00e7\u00e3o social \u00e0\ngrande rede, t\u00eam uma tend\u00eancia a privilegiar o conhecimento\nadquirido atrav\u00e9s dela. Sua inaptid\u00e3o no conv\u00edvio social significa\nque dificilmente ter\u00e3o contato com professores e outros colegas com\nquem poderiam discutir os conte\u00fados ali encontrados. Sem tal\ndiscuss\u00e3o, esses jovens ficam expostos sem contradit\u00f3rio. Consomem\nesse conte\u00fado de maneira unilateral (ainda que pretensamente\n\u201cinterativa\u201d) e gradualmente se prendem a uma \u201cbolha\u201d\nintelectual, na qual os conte\u00fados oferecidos encontram confirma\u00e7\u00e3o\npronta e \u00e0 qual ningu\u00e9m em posi\u00e7\u00e3o de poder ou de ascend\u00eancia\nintelectual (pais, professores, colegas mais capazes) tem acesso para\nquestionar.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses s\u00e3o os jovens que consumiram o document\u00e1rio\nZeitgeist, que fizeram parte do \u201cmovimento ateu\u201d brasileiro, que\nfizeram os cursos de economia da \u201cEscola Austr\u00edaca\u201d, que\nestiveram em contato com os \u201cpreppers\u201d, que leram Ayn Rand e se\nidentificaram com a sua glorifica\u00e7\u00e3o da excepcionalidade (visto que\neles pr\u00f3prios se julgam excepcionais). S\u00e3o os jovens que\nencontraram em Olavo de Carvalho um intelectual \u00e0 margem do sistema\ne que viram em gente como Kim Kataguiri \u2014 a met\u00e1fora dos Power\nRangers e a\nglorifica\u00e7\u00e3o da ignor\u00e2ncia \u2014 uma influ\u00eancia \u00f3bvia. Essa\nlavagem venenosa que beberam, de maneira acr\u00edtica e sem m\u00e9todo, os\ntransformou em seguidores dessa estranha seita, o anarco-capitalismo.<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>Conclus\u00f5es<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O anarco-capitalismo, como vimos,\napesar de parecer recente, tem muita ideia trazida do passado.\nPodemos resumi-lo como uma mistura de sobrevivencialismo com Economia\nAustr\u00edaca, sentimento\nde excepcionalidade pessoal e moral seletiva, tudo semeado e regado\nno ambiente digital, sob a tutela da CIA, que \u00e9 quem verdadeiramente\nd\u00e1 as cartas nas redes sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Atrav\u00e9s\ndo anarco-capitalismo s\u00e3o iniciados movimentos de desestabiliza\u00e7\u00e3o\nsocial em pa\u00edses selecionados como alvos pela CIA, no cumprimento de\nmetas de longo prazo do governo americano. N\u00e3o \u00e9, por\u00e9m, a \u00fanica\nferramenta usada para isso. Todas as redes sociais o s\u00e3o, como, por\nexemplo, o Quora.<\/p>\n\n\n\n<h2>Refer\u00eancias<\/h2>\n\n\n\n<ul><li>\n\t<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Objetivismo_(Ayn_Rand\">pt.wikipedia.org\/wiki\/Objetivismo_(Ayn_Rand<\/a>)\n\t<\/li><li>\n\t<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Darwinismo_social\">pt.wikipedia.org\/wiki\/Darwinismo_social<\/a>\n\t<\/li><li>\n\t<a href=\"https:\/\/www.recantodasletras.com.br\/e-livros\/3242531\">www.recantodasletras.com.br\/e-livros\/3242531<\/a>\n\t<\/li><li>\n\t<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Escola_Austr%C3%ADaca\">pt.wikipedia.org\/wiki\/Escola_Austr%C3%ADaca<\/a>\n\t<\/li><li>\n\t<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Friedrich_Hayek\">pt.wikipedia.org\/wiki\/Friedrich_Hayek<\/a>\n\t\n\t\n\t<\/li><li>\n\t<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/The_End_of_History_and_the_Last_Man\">pt.wikipedia.org\/wiki\/The_End_of_History_and_the_Last_Man<\/a>\n\t\n\t\n\t<\/li><li>\n\t<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Consenso_de_Washington\">pt.wikipedia.org\/wiki\/Consenso_de_Washington<\/a>\n\t\n\t\n\t<\/li><li>\n\t<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Teoria_das_ideias\">pt.wikipedia.org\/wiki\/Teoria_das_ideias<\/a>\n\t\n\t\n\t<\/li><li>\n\t<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Praxeologia\">pt.wikipedia.org\/wiki\/Praxeologia<\/a>\n\t\n\t\n\t<\/li><li>\n\t<a href=\"https:\/\/wiki.mises.org\/wiki\/Austrian_predictions\">wiki.mises.org\/wiki\/Austrian_predictions<\/a>\n\t\n\t\n\t<\/li><li>\n\t<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/M%C3%A9todo_indutivo\">pt.wikipedia.org\/wiki\/M%C3%A9todo_indutivo<\/a>\n\t\n\t\n\t<\/li><li>\n\t<a href=\"https:\/\/lusosp.blogspot.com\/2012\/12\/mises-e-o-fascismo.html\">lusosp.blogspot.com\/2012\/12\/mises-e-o-fascismo.html<\/a>\n\t\n\t\n\t<\/li><li>\n\t<a href=\"https:\/\/rationalwiki.org\/wiki\/Militia_movement\">rationalwiki.org\/wiki\/Militia_movement<\/a>\n\t\n\t\n\t<\/li><li>\n\t<a href=\"https:\/\/rationalwiki.org\/wiki\/Survivalism\">rationalwiki.org\/wiki\/Survivalism<\/a>\n\t\n\t\n\t<\/li><li>\n\t<a href=\"http:\/\/textfiles.com\/survival\/\">http:\/\/textfiles.com\/survival\/<\/a>\n\t\n\t\n\t<\/li><li>\n\t<a href=\"http:\/\/www.survival.com\/library\/\">http:\/\/www.survival.com\/library\/<\/a>\n\t\n\t\n\t<\/li><li>\n\t<a href=\"https:\/\/www.theprepperjournal.com\/category\/survival\/\">www.theprepperjournal.com\/category\/survival\/<\/a>\n\t\n\t\n\t<\/li><li>\n\t<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Waco_siege\">en.wikipedia.org\/wiki\/Waco_siege<\/a>\n\t\n\t\n\t<\/li><li>\n\t<a href=\"https:\/\/www.anarquista.net\/manifesto-de-unabomber-a-sociedade-industrial-e-seu-futuro\/\">www.anarquista.net\/manifesto-de-unabomber-a-sociedade-industrial-e-seu-futuro\/<\/a>\n\t\n\t\n\t<\/li><li>\n\t<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Wedge_strategy\">en.wikipedia.org\/wiki\/Wedge_strategy<\/a>\n\t\n\t\n\t<\/li><li>\n\t<a href=\"https:\/\/www.skoob.com.br\/livro\/pdf\/plano-de-poder\/livro:16247\/edicao:17634\">www.skoob.com.br\/livro\/pdf\/plano-de-poder\/livro:16247\/edicao:17634<\/a>\n\t\n\t\n\t<\/li><li>\n\t<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Project_for_the_New_American_Century\">en.wikipedia.org\/wiki\/Project_for_the_New_American_Century<\/a>\n\t\n\t\n\t<\/li><li>\n\t<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Foreign_Policy_Initiative\">en.wikipedia.org\/wiki\/Foreign_Policy_Initiative<\/a>\n\t\n\t\n\t<\/li><li>\n\t<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/news\/disability-47064773\">www.bbc.com\/news\/disability-47064773<\/a>\n\t\n\t\n\t<\/li><li>\n\t<a href=\"https:\/\/escrevalolaescreva.blogspot.com\/\">escrevalolaescreva.blogspot.com\/<\/a>\n\t\n\t\n\t<\/li><li>\n\t<a href=\"https:\/\/veja.abril.com.br\/blog\/reinaldo\/kim-kataguiri-8211-a-nossa-geracao-sobreviveu\/\">https:\/\/veja.abril.com.br\/blog\/reinaldo\/kim-kataguiri-8211-a-nossa-geracao-sobreviveu\/<\/a>\n\t\n\t\n<\/li><\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Introdu\u00e7\u00e3o O Anarco-Capitalismo \u00e9 uma ideologia relativamente recente, mas n\u00e3o apareceu magicamente, sem antecedentes hist\u00f3ricos. Geograficamente, esta doutrina surgiu nos Estados Unidos. Ideologicamente, se baseia em tr\u00eas correntes de pensamento que eram prevalentes naquele pa\u00eds durante a d\u00e9cada de 1990: Objetivismo, a filosofia de Ayn Rand; Neoliberalismo radical, a escola austr\u00edaca, e Fundamentalismo religioso e sobrevivencialismo. Objetivismo Ayn Rand foi uma escritora americana nascida na R\u00fassia e de ascend\u00eancia judia. N\u00e3o vou discutir a biografia dela, mas a sua filosofia, que ela chamou de \u201cobjetivismo\u201d [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6984,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[181],"tags":[68,73,7],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6981"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6981"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6981\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7000,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6981\/revisions\/7000"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6984"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6981"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6981"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6981"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}