{"id":70,"date":"2013-03-12T17:55:00","date_gmt":"2013-03-12T20:55:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=70"},"modified":"2017-05-06T22:29:25","modified_gmt":"2017-05-07T01:29:25","slug":"recurso-apresentado-a-um-concurso-publico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/03\/recurso-apresentado-a-um-concurso-publico\/","title":{"rendered":"Recurso Apresentado a um Concurso P\u00fablico"},"content":{"rendered":"<p>Provando que eu j\u00e1 era meio ardoroso na defesa de minhas opini\u00f5es em 1999, vai uma correspond\u00eancia por mim enviada \u00e0 Prefeitura de um munic\u00edpio do interior mineiro \u2014 com c\u00f3pia para conhecido jornal de ampla circula\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o \u2014 ap\u00f3s ter conhecimento do gabarito final de um concurso para provimento de vagas no magist\u00e9rio municipal, no meu caso para lecionar Hist\u00f3ria. O concurso acabou anulado e eu, que havia sido reprovado por uma quest\u00e3o, tive a chance de fazer a prova de novo, mas da segunda vez o concurso estava em um n\u00edvel no qual provavelmente nem o Eduardo Bueno, nem o Jacques Soustelle e nem o pr\u00f3prio Hobsbawn passariam \u2014 mas um n\u00famero suficiente de candidatos obteve a pontua\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, claro.<\/p>\n<p>Esta vers\u00e3o n\u00e3o \u00e9 id\u00eantica \u00e0 que foi enviada \u00e0 Prefeitura pois, al\u00e9m de remover todo dado que pudesse servir para identificar o munic\u00edpio (e assim me precavenho contra um processo por cal\u00fania e difama\u00e7\u00e3o), tamb\u00e9m removi alguns par\u00e1grafos que n\u00e3o tinham informa\u00e7\u00e3o suficiente para que algu\u00e9m sem acesso ao texto da prova pudesse entender do que eu estava falando. Removi tamb\u00e9m o endere\u00e7amento e o fecho. <\/p>\n<hr class=\"divider\"\/>\n<p>Tendo me inscrito no \u00faltimo Concurso P\u00fablico realizado pela Prefeitura para preenchimento de vagas de Professor de Hist\u00f3ria, venho por meio desta pedir a V. S\u00aa. provid\u00eancias referentes ao mesmo, cujas provas tiveram lugar no \u00faltimo domingo dia 16\/06 do corrente ano. Fa\u00e7o-o nesta data pois, tendo sido o gabarito definitivo divulgado no dia 19\/06, ainda me est\u00e1 facultado o direito de recurso. Fa\u00e7o uso desta prerrogativa por julgar que o referido concurso sofreu de imperfei\u00e7\u00f5es de variada esp\u00e9cie, as quais prejudicaram-me (e acredito que tamb\u00e9m a in\u00fameras outras pessoas, embora eu me restrinja a abordar os aspectos referentes ao meu caso particular). Entre essas destacam-se o descuido na elabora\u00e7\u00e3o das provas e a exist\u00eancia de diversas incorre\u00e7\u00f5es tanto no enunciado quanto nas alternativas em v\u00e1rias quest\u00f5es.<\/p>\n<p>### Prova de Conhecimentos Espec\u00edficos (Hist\u00f3ria)<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 esta parte, a primeira, e talvez a mais grave, das imperfei\u00e7\u00f5es foi ter exigido mat\u00e9ria diversa da originalmente definida no programa. O Manual do Concurso P\u00fablico &#8220;\u00c1rea de Educa\u00e7\u00e3o, N\u00edvel Superior&#8221;, cita em sua p\u00e1gina 9 os &#8220;Conte\u00fados Program\u00e1ticos&#8221; (sic) da \u00c1rea de Hist\u00f3ria:<\/p>\n<p>> * Construindo o pensamento hist\u00f3rico: reflex\u00f5es sobre os pap\u00e9is do professor de Hist\u00f3ria e do Historiador e sobre as suas rela\u00e7\u00f5es com as grandes correntes da produ\u00e7\u00e3o do conhecimento hist\u00f3rico;<br \/>\n* Brasil contempor\u00e2neo: Rep\u00fablica Brasileira: aspectos da vida pol\u00edtica; desenvolvimento de pol\u00edticas p\u00fablicas; momento atual;<br \/>\n* Economia e sociedade no Brasil: O Brasil no contexto da globaliza\u00e7\u00e3o mundial; as pol\u00edticas neoliberais e seus reflexos na economia e no desenvolvimento social (&#8230;); meios de comunica\u00e7\u00e3o e cultura de massa;<br \/>\n* A quest\u00e3o agr\u00e1ria e o meio ambiente: uma vis\u00e3o hist\u00f3rica do processo: ocupa\u00e7\u00e3o da terra e a quest\u00e3o ind\u00edgena; concentra\u00e7\u00e3o da propriedade rural, pol\u00edtica agr\u00e1ria, (&#8230;) agricultura e degrada\u00e7\u00e3o ambiental;<br \/>\n* O ambiente urbano e a industrializa\u00e7\u00e3o do Brasil: industrializa\u00e7\u00e3o e crescimento urbano; (&#8230;) atividades econ\u00f4micas e meio ambiente, educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade. <\/p>\n<p>A partir desta lista se pode supor que a prova seria centrada na realidade brasileira de hoje. O fato de ser justamente este o conte\u00fado do curr\u00edculo do Ensino Fundamental d\u00e1 s\u00f3lidas bases a esta suposi\u00e7\u00e3o. \u00c9 importante ressaltar isto porque, ao delimitar *desta maneira* o conte\u00fado program\u00e1tico, n\u00e3o se est\u00e1 meramente dispensando o candidato do estudo de outras \u00e1reas, mas tamb\u00e9m condicionando-o a desenvolver todo um racioc\u00ednio hist\u00f3rico invertido a partir do presente e baseado na demanda do aluno. N\u00e3o \u00e9 apenas uma delimita\u00e7\u00e3o de conte\u00fado; \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o de uma maneira de pensar e de ensinar a Hist\u00f3ria. N\u00e3o se est\u00e1 apenas pedindo do candidato que conhe\u00e7a os temas propostos, mas tamb\u00e9m que estruture seu racioc\u00ednio e o seu m\u00e9todo em torno de um paradigma.<\/p>\n<p>Analisemos agora os temas das quest\u00f5es da prova de conhecimentos espec\u00edficos.<\/p>\n<p>Quest\u00e3o 31<br \/>\n: Feudalismo (no imagin\u00e1rio popular e na cultura de massas).<\/p>\n<p>Quest\u00e3o 32<br \/>\n: Absolutismo (caracter\u00edsticas).<\/p>\n<p>Quest\u00e3o 33<br \/>\n: Significado da vinda da fam\u00edlia real portuguesa ao Brasil.<\/p>\n<p>Quest\u00e3o 34<br \/>\n: O S\u00e9culo XIX na hist\u00f3ria dos Estados Unidos da Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>Quest\u00e3o 35<br \/>\n: Contexto hist\u00f3rico do Brasil no p\u00f3s-guerra.<\/p>\n<p>Quest\u00e3o 36<br \/>\n: Quest\u00e3o Palestina.<\/p>\n<p>Quest\u00e3o 37<br \/>\n: Transi\u00e7\u00e3o do Mito \u00e0 Raz\u00e3o na Gr\u00e9cia Antiga.<\/p>\n<p>Quest\u00e3o 38<br \/>\n: Caracter\u00edsticas do Per\u00edodo Regencial.<\/p>\n<p>Quest\u00e3o 39<br \/>\n: Causas da Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>Quest\u00e3o 40<br \/>\n: Contexto hist\u00f3rico do Brasil nos anos 60.<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, **nenhuma das quest\u00f5es est\u00e1 compreendida nos &#8220;conte\u00fados program\u00e1ticos&#8221; enunciados no manual** e poucas, de acordo com o curr\u00edculo do Ensino Fundamental. Vale ressaltar que no Ensino Fundamental a Hist\u00f3ria Universal \u00e9 ensinada apenas como complemento \u00e0 do Brasil.<\/p>\n<p>Ainda que se possa argumentar que ao professor de Hist\u00f3ria cabe conhecer todo o espectro da Hist\u00f3ria Universal (uma afirma\u00e7\u00e3o discut\u00edvel sob certos aspectos[^1]), ao divulgar que o concurso exigiria certos setores da Hist\u00f3ria e n\u00e3o outros, os organizadores do concurso inculcaram nos candidatos a percep\u00e7\u00e3o de que deveriam dirigir seus estudos exclusivamente \u00e0s \u00e1reas que seriam tema da avalia\u00e7\u00e3o. Os que confiaram nas orienta\u00e7\u00f5es oferecidas pela organiza\u00e7\u00e3o do concurso ficaram, portanto, em desvantagem em rela\u00e7\u00e3o aos que, por quaisquer motivos, tenham desconfiado delas. **\u00c9 moralmente aceit\u00e1vel que seja prejudicado quem confia no que diz o poder p\u00fablico e recompensado quem desconfia?**<\/p>\n<p>Fa\u00e7o quest\u00e3o de ressaltar que n\u00e3o me furto a ser avaliado em qualquer \u00e1rea da Hist\u00f3ria. N\u00e3o tenho medo de submeter a prova os meus conhecimentos. Mas, por uma quest\u00e3o de honestidade, acredito que os candidatos a um concurso t\u00eam o direito de saber em que quesitos ser\u00e3o avaliados para que possam todos preparar-se em igualdade de condi\u00e7\u00f5es. **Um concurso deve avaliar os conhecimentos do candidato, n\u00e3o sua capacidade de prever o futuro ou de adivinhar se o organizador do concurso estava fazendo uma &#8220;pegadinha&#8221;**.<\/p>\n<p>No entanto, ainda que protestando veementemente contra o fato lament\u00e1vel ocorrido, n\u00e3o deixo de analisar friamente as quest\u00f5es da prova de Hist\u00f3ria, pois iludir as expectativas dos candidatos n\u00e3o foi o maior dos erros cometidos pela organiza\u00e7\u00e3o: na maioria das quest\u00f5es houve problemas em rela\u00e7\u00e3o ao enunciado ou \u00e0s alternativas. <\/p>\n<p>Na quest\u00e3o 31, por exemplo, temos um texto que, segundo o enunciado, devemos tomar por base ao analisar as quatro afirmativas propostas. Ocorre que nenhuma das op\u00e7\u00f5es oferecidas alude ao texto. A t\u00edtulo de ilustra\u00e7\u00e3o, cito o enunciado da quest\u00e3o:<\/p>\n<style type=\"text\/css\">\nol { list-style-type: lower-alpha }\n<\/style>\n<p>> Para o homem comum, n\u00e3o especialista, a express\u00e3o *feudalismo* possui um peso fortemente negativo, provocando associa\u00e7\u00f5es imediatas com imagens colhidas em velhos manuais ou em romances mais ou menos ambientados numa vaga regi\u00e3o do passado denominada &#8220;Idade M\u00e9dia&#8221; ou &#8220;Tempos Medievais&#8221;. Para as gera\u00e7\u00f5es mais novas, do cinema de massa e da TV, feudalismo remete para filmes &#8220;de capa e espada&#8221;, onde a viol\u00eancia, o fanatismo religioso, a fome e &#8220;a peste&#8221; encontram-se lado a lado, com figuras melanc\u00f3licas e rom\u00e2nticas de &#8220;cavaleiros e miladies&#8221;\u00bb.[^2]<\/p>\n<p>> 1. a abordagem da \u00e9poca medieval pelo cinema e pela televis\u00e3o, destaca a *mobilidade* e a *flexibiliza\u00e7\u00e3o* dos pap\u00e9is sociais, caracter\u00edsticos do feudalismo;<br \/>\n2. O (sic) clero consolidou o prest\u00edgio da Igreja Medieval (sic), *apoiando os movimentos her\u00e9ticos religiosos;*<br \/>\n3. A (sic) intensifica\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o sobre os camponeses, as crises de fome e a chamada &#8216;peste&#8217; estavam associadas \u00e0s *r\u00e1pidas transforma\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas (sic) em curso na sociedade europeia medieval;*<br \/>\n4. A *escraviza\u00e7\u00e3o* (sic) dos camponeses nos temos medievais determinou a vis\u00e3o negativa sobre este per\u00edodo da Hist\u00f3ria\u00bb.<\/p>\n<p>Ocorre que nenhuma das quatro afirmativas \u00e9 verdadeira em raz\u00e3o de conterem, todas, palavras inadequadas que invalidam qualquer veracidade que ostentem. Al\u00e9m de, obviamente, nenhuma delas apoiar-se no texto.<\/p>\n<p>A alternativa A menciona uma suposta &#8220;mobilidade&#8221; e uma &#8220;flexibiliza\u00e7\u00e3o dos pap\u00e9is sociais&#8221;, quando a Idade M\u00e9dia foi justamente um per\u00edodo caracterizado pela rigidez da estrutura social. A alternativa B incorre em falsidade ao declarar que a Igreja apoiava as heresias, quando ela as combatia a ferro e fogo. A alternativa C, tida como correta, alude a supostas <quote>r\u00e1pidas transforma\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas (sic) em curso na sociedade europeia medieval<\/quote>, quando a \u00e9poca foi justamente caracterizada pela lentid\u00e3o das transforma\u00e7\u00f5es. Embora ao longo do per\u00edodo medieval a sociedade se tenha transformado profundamente, este processo foi tudo, menos r\u00e1pido, j\u00e1 que levou mil anos! A alternativa D utiliza inadequadamente o termo escraviza\u00e7\u00e3o para referir-se \u00e0 situa\u00e7\u00e3o dos camponeses medievais e afirma que foi isso que determinou a vis\u00e3o negativa sobre este per\u00edodo da Hist\u00f3ria, quando a vis\u00e3o negativa sobre a Idade M\u00e9dia foi determinada pela concep\u00e7\u00e3o Renascentista de que o per\u00edodo teria sido uma longa &#8220;noite&#8221; em que a cultura antiga esteve esquecida. Diante do fato de que todas as alternativas est\u00e3o incorretas, reconhe\u00e7o que assinalei aleatoriamente uma delas na prova, j\u00e1 sabendo que haveria de polemizar depois.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o 36 mostra que o seu formulador tem uma concep\u00e7\u00e3o bastante superficial dos eventos internacionais contempor\u00e2neos. Depois de ter citado fragmentos de uma reportagem de jornal sobre a quest\u00e3o palestina, o enunciado indaga qual alternativa \u00e9 correta, &#8220;sobre o tema&#8221; (n\u00e3o sobre o texto, portanto, o enunciado nos instrui a n\u00e3o considerar o texto ao analisar as alternativas. Ao afirmar que <quote>A chamada Quest\u00e3o Palestina refere-se atualmente \u00e0 situa\u00e7\u00e3o dos cerca de quatro milh\u00f5es de refugiados em \u00e1reas vizinhas ao estado de Israel;<\/quote> o formulador mostra n\u00e3o compreender a magnitude do problema. Qualquer pessoa bem informada sabe que a Quest\u00e3o Palestina n\u00e3o \u00e9 um problema de refugiados, mas uma quest\u00e3o nacional n\u00e3o resolvida. Talvez o erro se deva ao fato de a quest\u00e3o ter sido formulada com base em um artigo de jornal do ano passado mas, h\u00e1 quanto tempo foi formulada esta prova? Ainda que eu tenha assinalado esta alternativa como correta, eu o fiz pela mesma raz\u00e3o que na quest\u00e3o 31: as quatro cont\u00eam falsidades evidentes.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o 37 incorre num erro digno de um Erich von D\u00e4niken, pseudo-historiador c\u00e9lebre por misturar os fatos hist\u00f3ricos e frequentemente se perder no emaranhado de sua pr\u00f3pria confus\u00e3o ao tentar defender suas mirabolantes teorias. O enunciado da quest\u00e3o remete \u00e0 passagem do Mito \u00e0 Raz\u00e3o na Gr\u00e9cia Antiga, evento que teria ocorrido, segundo o formulador da quest\u00e3o, entre os s\u00e9culos VII e VI a.C.[^3] e que teria sido possibilitado, segundo a alternativa dada como correta, pelo surgimento da Filosofia e pelas invas\u00f5es dos d\u00f3rios. Em termos l\u00f3gicos a afirmativa \u00e9 um absurdo! Ora, \u00e9 conceb\u00edvel que exista Filosofia sem que exista pensamento racional? Como pode a Filosofia preceder a raz\u00e3o, sendo ela o mais nobre fruto da mais nobre das faculdades humanas? Em termos cronol\u00f3gicos o desastre \u00e9 ainda maior: como pode a invas\u00e3o dos d\u00f3rios haver sido um fato decisivo em um processo ocorrido entre os s\u00e9culos VII e VI a.C. se ela ocorreu por volta do s\u00e9culo XII a.C., 600 anos antes? A invas\u00e3o dos d\u00f3rios foi respons\u00e1vel, isto sim, pela destrui\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o egeano-mic\u00eanica (dos &#8220;Tempos Hom\u00e9ricos&#8221;) e lan\u00e7ou a Gr\u00e9cia em um per\u00edodo de confus\u00e3o pol\u00edtica que \u00e9 conhecido como a &#8220;\u00c9poca Arcaica&#8221; (s\u00e9culos XI a VI a.C.) ao longo do qual surgiram e se consolidaram os elementos da posterior &#8220;\u00c9poca Cl\u00e1ssica&#8221;. O surgimento da raz\u00e3o n\u00e3o foi fruto de outra coisa sen\u00e3o da urbaniza\u00e7\u00e3o grega, com o surgimento da p\u00f3lis; motivo pelo qual eu assinalei a alternativa B, a \u00fanica que menciona o fato mais not\u00e1vel ocorrido entre os s\u00e9culos VII e VI, \u00fanico evento capaz de produzir uma transforma\u00e7\u00e3o radical, evento este que \u00e9 semente de in\u00fameros outros. A coloniza\u00e7\u00e3o grega e a expans\u00e3o da cultura helen\u00edstica (mencionadas na alternativa C) tamb\u00e9m t\u00eam pontos de contato com a passagem do Mito \u00e0 Raz\u00e3o. A primeira por ser contempor\u00e2nea \u00e0 \u00faltima fase da &#8220;\u00c9poca Arcaica&#8221; e a segunda por representar a &#8220;exporta\u00e7\u00e3o&#8221; da cultura grega para o resto da \u00e1rea do mediterr\u00e2neo (mas em uma fase posterior ao per\u00edodo citado). Desta an\u00e1lise se conclui que a \u00fanica alternativa correta \u00e9 B, n\u00e3o C.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o 38 induz o aluno ao erro pois a alternativa tida como &#8220;correta&#8221; (D) afirma que os partidos surgidos no Per\u00edodo Regencial eram &#8220;democr\u00e1ticos&#8221;. Ou o formulador tem um muito peculiar conceito de democracia, flex\u00edvel a ponto de considerar democr\u00e1tico um sistema que exclu\u00eda 99% da popula\u00e7\u00e3o brasileira da \u00e9poca, ou houve erro na corre\u00e7\u00e3o desta quest\u00e3o. De resto, nenhuma menciona aquela que \u00e9, realmente, a principal caracter\u00edstica do per\u00edodo regencial: o fato de o governo ter sido exercido por l\u00edderes eleitos. Esse \u00e9 o motivo pelo qual a \u00e9poca foi conhecida como &#8220;experi\u00eancia republicana&#8221;, como ali\u00e1s est\u00e1 mencionado no enunciado da quest\u00e3o!<\/p>\n<p>A quest\u00e3o 39, em sua alternativa &#8220;correta&#8221; identifica como causa da Segunda Guerra Mundial a &#8220;amea\u00e7a expansionista da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, pretendendo a difus\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o socialista&#8221;. Aceito que o formulador acredite que comunistas comem criancinhas, mas n\u00e3o aceito que agrida o fato hist\u00f3rico. No per\u00edodo anterior \u00e0 Segunda Guerra a antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica estava passando por um processo de reestrutura\u00e7\u00e3o social e econ\u00f4mica. Ocorriam crises peri\u00f3dicas de fome, persegui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e escassez de g\u00eaneros. O pa\u00eds ainda estava construindo uma infraestrutura b\u00e1sica e a expans\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o era a \u00faltima de suas preocupa\u00e7\u00f5es. N\u00e3o foi por outro motivo a c\u00e9lebre disputa entre Trotsky e Stalin pela primazia no PCUS. Enquanto este defendia a necessidade de uma pausa no \u00edmpeto revolucion\u00e1rio para &#8220;consolidar as conquistas da revolu\u00e7\u00e3o&#8221;, aquele defendia uma &#8220;revolu\u00e7\u00e3o permanente&#8221;.<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria de Stalin representa o triunfo do pragmatismo e do isolacionismo sobre o idealismo revolucion\u00e1rio. A maior prova de que n\u00e3o havia uma pol\u00edtica expansionista russa est\u00e1 no pacto Ribbentrop-Molotov (1939), em que a URSS cedeu territ\u00f3rios e \u00e1reas de influ\u00eancia \u00e0 Alemanha nazista para evitar confrontar-se militarmente com ela: Stalin sabia que, em 1939, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica ainda n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de lutar. Pretender que um pa\u00eds que cede ao limite da covardia para evitar um confronto militar est\u00e1 em uma &#8220;pol\u00edtica expansionista&#8221; e disposto a causar uma guerra \u00e9 mais do que minha pouca intelig\u00eancia consegue alcan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Duas alternativas aludem a fatos hist\u00f3ricos coerentes com a origem da Segunda Guerra Mundial: B e D. A letra B, ao mencionar &#8220;as r\u00edgidas cl\u00e1usulas dos tratados de paz da Primeira Guerra e a gera\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea de novos pa\u00edses europeus surgidos com a fragmenta\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio Austro-H\u00fangaro&#8221; (ainda que o termo gera\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea seja inapropriado e o fato em si, de discut\u00edvel import\u00e2ncia na esteira de eventos que conduzem \u00e0 Guerra). A alternativa B re\u00fane as mais s\u00f3lidas afirma\u00e7\u00f5es, ao aludir \u00e0 &#8220;Pol\u00edtica expansionista de regimes fascistas na \u00c1sia e na Europa e \u00e0 diplomacia do apaziguamento&#8221;. Atribui, portanto, a culpa aos verdadeiros culpados: Alemanha, It\u00e1lia e Jap\u00e3o (os tais regimes expansionistas) e Inglaterra, URSS e Estados Unidos (os apaziguadores que assinavam tratados com Hitler achando que ele um dia ficaria satisfeito e a guerra n\u00e3o aconteceria).<\/p>\n<p>Mas \u00e9 a quest\u00e3o 40 que mais suscita revolta contra os organizadores. O enunciado afirma que:<\/p>\n<p>> No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1960, a grande novidade no mundo do cinema era a revela\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica do Terceiro Mundo (do Oriente, da \u00c1frica e da Am\u00e9rica Latina), que expressava as condi\u00e7\u00f5es internas dos pa\u00edses destas regi\u00f5es e o *contexto da conjuntura* (sic) internacional. No Brasil, o Cinema Novo come\u00e7ava a ganhar express\u00e3o e voltar-se para as bases populares de nossa cultura. Como caracter\u00edsticas no plano interno e externo do per\u00edodo, podem ser apresentadas, respectivamente:<\/p>\n<p>A alternativa correta, segundo os organizadores \u00e9 a B, em que se l\u00ea: &#8220;o nacional desenvolvimentismo (sic) e o surgimento do realismo socialista no cinema&#8221;. Ou seja, a quest\u00e3o afirma que, no Brasil, viv\u00edamos um per\u00edodo &#8220;nacional desenvolvimentista&#8221; e que, no plano, externo, assistia-se ao surgimento do &#8220;realismo socialista&#8221;. Claro, n\u00e3o?<\/p>\n<p>Bem claro que quem acha que isto est\u00e1 certo deve ter tomado pau em Hist\u00f3ria da Arte na faculdade e deveria voltar para ela para aprender de novo. Protesto contra a afirma\u00e7\u00e3o de que o realismo socialista no cinema surgiu nos anos 60. Querem que eu rasgue todos os livros de Hist\u00f3ria da Arte e confie no que algum incompetente desconhecido acha que est\u00e1 certo? &#8220;Realismo Socialista&#8221; foi o estilo art\u00edstico caracter\u00edstico da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica &#8212; e de alguns de seus sat\u00e9lites &#8212; entre a d\u00e9cada de 1930 e o final da d\u00e9cada de 1970. O &#8220;Realismo Socialista&#8221;, na literatura foi criado por escritores como Vladmir Maiak\u00f3vski (morto em 1925) e no cinema, por Sergei Eisenstein (cujas produ\u00e7\u00f5es v\u00e3o de 1923 a 1941).<\/p>\n<p>Transcrevo a seguir o verbete *Realismo Socialista* da Enciclop\u00e9dia Larousse:<\/p>\n<p>> O princ\u00edpio fundamental do Realismo Socialista \u00e9 a capta\u00e7\u00e3o da realidade com a vis\u00e3o partidarista, objetivando uma tomada de posi\u00e7\u00e3o expl\u00edcita a favor da constru\u00e7\u00e3o do socialismo. (&#8230;) Salientou-se o &#8220;her\u00f3i positivo&#8221; (do qual o pr\u00f3prio St\u00e1lin seria um arqu\u00e9tipo); adotaram-se as formas simplificadas, a exuber\u00e2ncia decorativa e a comunica\u00e7\u00e3o f\u00e1cil com o p\u00fablico leitor ou espectador. Foi justificado ideologicamente nos informes de Andrei Jdanov sobre a arte e a literatura e (&#8230;) foi a doutrina art\u00edstica oficial na antiga URSS e em outros pa\u00edses socialistas.<\/p>\n<p>Note bem a men\u00e7\u00e3o a St\u00e1lin. Ainda que se discuta a \u00e9poca exata em que surgiu o &#8220;Realismo Socialista&#8221;, \u00e9 evidente que ele j\u00e1 existia enquanto St\u00e1lin e Jdanov ainda eram vivos. Como St\u00e1lin morreu em 1953 e Jdanov em 1948, ele n\u00e3o poderia estar surgindo nos anos 60, caramba! Para informar ao ignorante formulador desta quest\u00e3o, o movimento inspirador de nosso Cinema Novo foi o &#8220;Neo-Realismo&#8221; italiano e o seu prot\u00f3tipo foi &#8220;Roma, Cidade Aberta&#8221;, de Roberto Rosselini (1948).<\/p>\n<p>### Prova de Portugu\u00eas<\/p>\n<p>Tendo expressada minha posi\u00e7\u00e3o a respeito da Prova de Hist\u00f3ria, passo a analisar a Prova de Portugu\u00eas, a qual, ainda que em grau menor, tamb\u00e9m apresenta s\u00e9rios problemas. <\/p>\n<p>Logo na segunda quest\u00e3o temos uma grave raz\u00e3o para controv\u00e9rsia. Tudo porque o enunciado da quest\u00e3o, citando parcialmente uma frase do texto, indaga o significado da oposi\u00e7\u00e3o entre sermos &#8220;seres no mundo&#8221; e sermos &#8220;seres do mundo&#8221;, segundo a \u00f3tica do autor. Vejamos o que diz a frase inteira no texto (os grifos s\u00e3o meus)<\/p>\n<p>> A modernidade, com a influ\u00eancia cartesiana e tamb\u00e9m da f\u00edsica de Newton, nos legou a falsa ideia de que somos seres destacados da natureza, que somos seres *no mundo*. Quando somos, de fato, seres *do mundo*.<\/p>\n<p>A primeira parte da cita\u00e7\u00e3o \u00e9 evidente: o pensamento materialista nos apresenta como dominadores da natureza, dissociados dela. Ao afirmar que, na verdade, somos seres do mundo, Frei Betto est\u00e1 apenas querendo afirmar o contr\u00e1rio: n\u00f3s tamb\u00e9m pertencemos ao mundo, somos parte de um sistema. <\/p>\n<p>O gabarito apresenta como correta a afirmativa C, onde se l\u00ea: &#8220;Fomos feitos para habitar este mundo\/somos apenas parte deste mundo&#8221;. \u00c9 uma afirmativa bastante semelhante \u00e0 letra A, que afirma: &#8220;fomos feitos para reger o mundo\/somos parte da natureza&#8221;. Na verdade nenhuma das duas afirmativas est\u00e1 de acordo com o texto citado: a afirmativa C perde \u00eanfase e coer\u00eancia ao usar a palavra &#8220;apenas&#8221; pois o objetivo da exposi\u00e7\u00e3o de Frei Betto \u00e9 ressaltar o fato de que somos mais que simplesmente &#8220;habitantes&#8221; deste mundo. Concordo que trata-se de uma quest\u00e3o de estilo mas, o estilo deve estar a favor da clareza. A afirmativa A tamb\u00e9m est\u00e1 errada porque Frei Betto n\u00e3o afirma que devemos reger o mundo. Como nenhuma das duas outras alternativas se aproxima da verdade, a conclus\u00e3o \u00e9 que esta quest\u00e3o, por um erro de formula\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tem nenhuma alternativa correta.<\/p>\n<p>### Prova de Conhecimentos Did\u00e1tico-Pedag\u00f3gicos<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o 23 fico perplexo pela possibilidade de a afirmativa D estar correta, uma vez que as tr\u00eas \u00faltimas afirmativas tangenciam pelo mesmo \u00e2ngulo o trecho citado. Se uma delas est\u00e1 correta, todas as tr\u00eas obrigatoriamente estar\u00e3o. Consequentemente a \u00fanica afirmativa que as contradiz deve estar correta. Isso, \u00e9 claro, numa an\u00e1lise simplista e a priori, sem ler com aten\u00e7\u00e3o o enunciado.<\/p>\n<p>Quando Veiga afirma que <\/p>\n<p>>As novas formas t\u00eam que ser pensadas em um contexto de luta, de correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as \u2014 \u00e0s vezes favor\u00e1veis, \u00e0s vezes desfavor\u00e1veis. Ter\u00e3o que nascer do pr\u00f3prio ch\u00e3o da escola, com apoio de professores e pesquisadores. N\u00e3o poder\u00e3o ser inventadas por algu\u00e9m longe da escola e da luta de classes<\/p>\n<p>estar\u00e1 ele pregando que deve haver <quote>divis\u00e3o entre ensinar e aprender<\/quote>? Estar\u00e1 querendo dizer que deve haver <quote>desvincula\u00e7\u00e3o entre sentir e agir<\/quote>? Estar\u00e1 angariando adeptos para a necessidade de separar o pensar do fazer quando justamente afirma que aqueles que fazem (professores e pesquisadores) devem ser os respons\u00e1veis pela elabora\u00e7\u00e3o das teorias que os guiar\u00e3o?! A \u00fanica afirmativa que concorda com Veiga \u00e9 A: <quote>unidade entre teoria e pr\u00e1tica<\/quote>, por elimina\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da l\u00f3gica abstrata, mas tamb\u00e9m por evidente semelhan\u00e7a de ideias.<\/p>\n<p>Na quest\u00e3o 26, creio haver um problema de natureza l\u00f3gica na formula\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o. O enunciado nos pede para considerar os <quote>crit\u00e9rios para a verifica\u00e7\u00e3o do rendimento escolar apresentados a seguir:<\/quote> Acontece que as frases mencionadas n\u00e3o se referem todas a <quote>crit\u00e9rios para a verifica\u00e7\u00e3o do rendimento escolar<\/quote>, como se ver\u00e1.<\/p>\n<p>Ocorre que a afirmativa II declara: <quote>obrigatoriedade de estudos de recupera\u00e7\u00e3o, de prefer\u00eancia paralelos ao per\u00edodo letivo, para os casos de baixo rendimento escolar<\/quote> enquanto a afirmativa III alude a <quote>possibilidade de avan\u00e7o nos cursos e nas s\u00e9ries, mediante verifica\u00e7\u00e3o do aprendizado<\/quote>.<\/p>\n<p>Ora, salta aos olhos do observador que as afirmativas II e III se referem, ambas, a eventos posteriores \u00e0 verifica\u00e7\u00e3o do rendimento: II define a possibilidade de recupera\u00e7\u00e3o em caso de subaproveitamento e III fala do avan\u00e7o nos cursos e nas s\u00e9ries, <quote>mediante verifica\u00e7\u00e3o do aprendizado<\/quote>. O pr\u00f3prio enunciado de III j\u00e1 admite que a verifica\u00e7\u00e3o do rendimento escolar \u00e9 outra coisa, e uma coisa anterior. <\/p>\n<p>Portanto a \u00fanica alternativa que define crit\u00e9rios para avalia\u00e7\u00e3o do rendimento escolar \u00e9 I: <\/p>\n<p>> avalia\u00e7\u00e3o cont\u00ednua e cumulativa do desempenho do aluno, com preval\u00eancia dos aspectos qualitativos sobre os quantitativos e dos resultados ao longo do per\u00edodo sobre os de eventuais provas finais.<\/p>\n<p>Estes s\u00e3o crit\u00e9rios, os outros s\u00e3o atitudes a tomar diante dos resultados da aplica\u00e7\u00e3o destes crit\u00e9rios.<\/p>\n<p>Ainda que a LDB mencione conjuntamente as tr\u00eas afirmativas, \u00e9 evidente que a reda\u00e7\u00e3o do enunciado est\u00e1 capenga e o torna obscuro e inveross\u00edmil. Parece ter faltado \u00e0 m\u00e3o do redator desta quest\u00e3o um pouco de amor \u00e0 clareza.<\/p>\n<p>### Sum\u00e1rio<\/p>\n<p>Do anteriormente exposto conclui-se que, entre as alternativas que &#8220;errei&#8221; no concurso, em v\u00e1rias o meu erro foi induzido pela exist\u00eancia de m\u00faltiplas alternativas corretas; pela m\u00e1 constru\u00e7\u00e3o do enunciado, resultando em afirma\u00e7\u00f5es absurdas em seus pr\u00f3prios termos; ou pura e simplesmente porque se considerou certo o que est\u00e1 errado.<\/p>\n<p>Causa-me profundo espanto que um concurso organizado por um \u00f3rg\u00e3o p\u00fablico incorra em tantas imperfei\u00e7\u00f5es. Que exames que levam o nome de &#8220;provas objetivas&#8221; contenham subjetividades. Que uma tarefa de grande responsabilidade, como a elabora\u00e7\u00e3o de um concurso p\u00fablico, seja levada a efeito de forma t\u00e3o descuidada, temer\u00e1ria at\u00e9. Que diante do alto valor da taxa de inscri\u00e7\u00e3o n\u00e3o se tenha providenciado um sistema de alta qualidade e \u00e0 prova de falhas.<\/p>\n<p>N\u00e3o espero que meus protestos resultem em provid\u00eancias, pois estas deveriam incluir a anula\u00e7\u00e3o de muitas quest\u00f5es ou, preferencialmente, o pr\u00f3prio cancelamento deste fiasco em que se transformou o concurso; mas fa\u00e7o uso de minha liberdade de express\u00e3o para declarar meu rep\u00fadio a este. Diante da qualidade dos exames infere-se a qualidade dos que foram respons\u00e1veis pela sua elabora\u00e7\u00e3o e duvida-se da qualidade das pessoas que ser\u00e3o por tais crit\u00e9rios selecionadas para o servi\u00e7o p\u00fablico.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o aceito a nota que obtive neste concurso como a medida justa de meu valor, quer sob o aspecto meramente acad\u00eamico, quer sob o aspecto profissional. Justa medida ele \u00e9 da seriedade e da compet\u00eancia daqueles que o conduziram.<\/p>\n<p>H\u00e1 que se ter mais respeito pelo dinheiro alheio. N\u00e3o se pode cobrar R$59,00 de taxa de inscri\u00e7\u00e3o[^4] e brindar os candidatos com folhas de respostas fotocopiadas. N\u00e3o se pode ter duas vers\u00f5es do gabarito em uma mesma semana e n\u00e3o dep\u00f5e a favor da lisura do processo seletivo a limita\u00e7\u00e3o do prazo para recursos a 48 horas, especialmente se levamos em conta o restrito hor\u00e1rio em que atende o servi\u00e7o p\u00fablico municipal. Tudo parece conspirar para dificultar uma an\u00e1lise minuciosa das quest\u00f5es e a elabora\u00e7\u00e3o de uma contesta\u00e7\u00e3o efetiva em tempo h\u00e1bil, para que os candidatos acabem sendo for\u00e7ados a aceitar o resultado.<\/p>\n<p>Uma administra\u00e7\u00e3o comprometida com o bem comum n\u00e3o pode tolerar este tipo de falhas, especialmente quando o processo foi alvo de suspeita desde o in\u00edcio, com maldosos coment\u00e1rios \u00e0 boca pequena aludindo ao seu car\u00e1ter de mero &#8220;arrecadador de fundos para as elei\u00e7\u00f5es&#8221;. Diante de t\u00e3o graves suspeitas que o populacho levantou, rigorosas providencias de seriedade deveriam ter sido tomadas. Sua aus\u00eancia decepciona os que, como eu, hipotecaram suas esperan\u00e7as votando na atual administra\u00e7\u00e3o e permitem suspeitar da veracidade dos coment\u00e1rios que o z\u00e9-povinho fez circular.<\/p>\n<p>Espero que minha indigna\u00e7\u00e3o motive corre\u00e7\u00f5es futuras, que instigue os canais competentes a agirem em defesa da cidadania, uma vez mais ferida. Sinto-me ferido em minha dignidade, insultado em meu profissionalismo ao ser ele medido por crit\u00e9rios amadores.<\/p>\n<p>[^1]: \u00c9 discut\u00edvel porque, embora seja desej\u00e1vel que o professor seja generalista, em ess\u00eancia o professor n\u00e3o \u00e9 um historiador e nem um erudito, mas um educador. Ele deve possuir os conhecimentos m\u00ednimos necess\u00e1rios ao entendimento geral da disciplina e os conhecimentos espec\u00edficos referentes \u00e0s mat\u00e9rias que vai ensinar, aliados \u00e0s t\u00e9cnicas pedag\u00f3gicas e \u00e0s suas qualidades pessoais, como talento e experi\u00eancia de vida. Considero injusto exigir que o pobre professor seja um sabe-tudo.<br \/>\n[^2]: A qualidade do texto citado \u00e9 lament\u00e1vel em si mesma, incompat\u00edvel com o que seria exig\u00edvel em um concurso p\u00fablico.<br \/>\n[^3]: \u00c9 duro de ver um enunciado de quest\u00e3o contendo um erro assim. \u00c9 extremamente prematuro dizer que o simples surgimento de alguns pensadores j\u00e1 indica uma &#8220;passagem do mito \u00e0 raz\u00e3o&#8221; generaliz\u00e1vel para toda a cultura grega. Ora, os fil\u00f3sofos n\u00e3o eram somente poucos, mas encontrados em algumas poucas cidades: Mileto, Samos, \u00c9feso, Eleia, Agrigento, Colofona, Clazomena, Abdera e Apol\u00f4nia. Algumas destas cidades sequer eram na Gr\u00e9cia (de cor me refiro a \u00c9feso e Abdera).<br \/>\n[^4]: Como esse concurso foi em 1999, o leitor tenha ideia de como foi cara a taxa de inscri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Provando que eu j\u00e1 era meio ardoroso na defesa de minhas opini\u00f5es em 1999, vai uma correspond\u00eancia por mim enviada \u00e0 Prefeitura de um munic\u00edpio do interior mineiro \u2014 com c\u00f3pia para conhecido jornal de ampla circula\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o \u2014 ap\u00f3s ter conhecimento do gabarito final de um concurso para provimento de vagas no magist\u00e9rio municipal, no meu caso para lecionar Hist\u00f3ria. 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