{"id":7040,"date":"2019-09-29T22:29:39","date_gmt":"2019-09-30T01:29:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=7040"},"modified":"2019-09-30T23:15:56","modified_gmt":"2019-10-01T02:15:56","slug":"por-que-nossa-literatura-fantastica-continua-marginal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2019\/09\/por-que-nossa-literatura-fantastica-continua-marginal\/","title":{"rendered":"Por que Nossa Literatura Fant\u00e1stica Continua Marginal?"},"content":{"rendered":"\n<p>Esta semana a minha bolha nas redes sociais se agitou com a discuss\u00e3o sobre o <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2019\/09\/eterna-promessa-literatura-fantastica-brasileira-nunca-decola.shtml?utm_source=twitter&amp;utm_medium=social&amp;utm_campaign=twfolha\" target=\"_blank\">artigo de Santiago Nazari\u00e1n<\/a>  para a Folha de S\u00e3o Paulo, em que se aborda um tema que parece  incomodar aos autores de fic\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica: ela continua supostamente relegada a um papel marginal \u2014 desprezada pela cr\u00edtica e incapaz de \u201cdeixar uma marca\u201d na cultura nacional, seja l\u00e1 o que isso quer dizer. Acredito que esse debate est\u00e1, de sa\u00edda, viciado por tr\u00eas problemas:<\/p>\n\n\n\n<ol><li>Nossos\n autores raramente possuem uma conex\u00e3o profunda com a nossa tradi\u00e7\u00e3o \ncultural e liter\u00e1ria, o que os faz abordarem o Brasil de uma maneira n\u00e3o\n muito diferente do que um estrangeiro o faria.<\/li><li>A rebeldia dos praticantes da chamada \u201ccultura <em>pop<\/em>\u201d, que insistem em ocupar espa\u00e7os que n\u00e3o s\u00e3o os seus.<\/li><li>Um incompreens\u00e3o da realidade do leitor nacional sob um prisma pol\u00edtico, causada pela aliena\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do pr\u00f3prio autor.<\/li><\/ol>\n\n\n\n<p>Embora  nem todos os autores da LitFanBr pade\u00e7am desses problemas, quando est\u00e3o  imersos nesse caldo de cultura eles absorvem esse jarg\u00e3o e esses  paradigmas, ent\u00e3o esses equ\u00edvocos se manifestam e surge uma idealiza\u00e7\u00e3o  do Brasil \u201ccomo deveria ser\u201d, que parece muito inesperadamente diversa  do Brasil \u201ccomo \u00e9\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"800\" height=\"532\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/DSC2277-800x532.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7041\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/DSC2277-800x532.jpg 800w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/DSC2277-120x80.jpg 120w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/DSC2277-250x166.jpg 250w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/DSC2277-768x510.jpg 768w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/DSC2277.jpg 1600w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>O\n pr\u00f3prio artigo de Nazari\u00e1n come\u00e7a por admitir que \u201cnunca houve um \nmomento t\u00e3o bom quanto o atual\u201d, em que proliferam os festivais, os \nautores batem recordes de vendas e novas produ\u00e7\u00f5es de cinema e televis\u00e3o\n levam a fantasia a novos p\u00fablicos. Paradoxalmente, por\u00e9m, o autor diz \nque \u201cnunca houve momento pior\u201d. O primeiro par\u00e1grafo do artigo \u00e9 um \nox\u00edmoro e uma esfinge \u2014 que o autor pouco consegue decifrar.<\/p>\n\n\n\n<p>O\n diagn\u00f3stico de Nazari\u00e1n \u00e9 que \u201capesar de apelo comercial e sucesso \nrelativo de p\u00fablico, a literatura fant\u00e1stica brasileira permanece sempre\n \u00e0 margem, n\u00e3o apenas <em>desprezada pela cr\u00edtica<\/em>, mas <em>incapaz de deixar uma marca na cultura nacional<\/em>.\u201d\n Atentem para esses grifos. O autor se incomoda com a perecibilidade da \nLitFanBr porque \u201ca literatura de entretenimento \u00e9 feita para ser de \nconsumo f\u00e1cil e r\u00e1pido \u2014 comunica-se com o instante, mas n\u00e3o tem lastro \npara permanecer.\u201d \u00c9 por isso que a LitFanBr tem dificuldade em criar sua\n hist\u00f3ria e deixar sua marca na cultura nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Penso que a cr\u00edtica de Nazari\u00e1n padece dos tr\u00eas problemas citados no come\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>O\n primeiro se refere ao afastamento que as gera\u00e7\u00f5es de hoje t\u00eam em \nrela\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa cultura e ao nosso passado. Para os jovens de hoje \u2014 \nmesmo os mais cultos \u2014 nossas tradi\u00e7\u00f5es s\u00e3o remotas, inferiores ou \nincompletas; est\u00e3o em desaparecimento ou j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam mais significado no \nmundo moderno. Isso faz com que a aproxima\u00e7\u00e3o do jovem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \ncultura nacional sempre se fa\u00e7a pelo lado paradid\u00e1tico (geralmente \nlembrado em agosto, o \u201cm\u00eas do folclore\u201d) ou ex\u00f3tico (quando a \nbrasilidade n\u00e3o \u00e9 mais que outro entre v\u00e1rios elementos poss\u00edveis para \ndar carne \u00e0 uma hist\u00f3ria). N\u00e3o vivemos mais os nossos mitos, n\u00f3s os \nsubstitu\u00edmos por mitos importados, aprendidos atrav\u00e9s da cultura pop \nestrangeira que formou a nossa inf\u00e2ncia. Entre os de minha idade, h\u00e1 \nmais gente que conhe\u00e7a o <em>Super-her\u00f3i Americano, <\/em>um \nobscuro personagem de televis\u00e3o cujo seriado era exibido pelo SBT entre \n1985 e 1989, do que a m\u00e3e do ouro, um personagem muito presente no \nfolclore mineiro do s\u00e9culo XIX e in\u00edcios do s\u00e9culo XX.<\/p>\n\n\n\n<p>Em\n que isso influi no diagn\u00f3stico que Nazari\u00e1n faz de nossa LitFan? Talvez\n n\u00e3o pare\u00e7a, mas essa falta de conex\u00e3o com o sagrado, com m\u00edstico e com o\n folcl\u00f3rico n\u00e3o \u00e9 parte de nossa identidade nacional. Essa falta de \nconex\u00e3o \u00e9 fruto de uma pol\u00edtica cultural de supress\u00e3o da brasilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\n mais de cem anos \u2014 com breves intervalos, geralmente restritos a uma \nelite \u2014 a ideologia nacional do Brasil foi a imita\u00e7\u00e3o da cultura \neuropeia. Nossa religi\u00e3o aut\u00f3ctene foi suprimida atrav\u00e9s do genoc\u00eddio \ndos ind\u00edgenas. As religi\u00f5es de matriz africana foram perseguidas pela \npol\u00edcia at\u00e9 1950 e sua pr\u00e1tica ainda hoje \u00e9 considerada um desvio moral,\n uma coisa de marginais, um sintoma de nosso atraso. Para avan\u00e7ar na \nvida sempre se orientou ao jovem pobre que abandonasse a umbanda, que \nesquecesse suas supersti\u00e7\u00f5es, que agisse racionalmente.<\/p>\n\n\n\n<p>A\n pol\u00edtica de branqueamento tinha um lado cultural, tinha um aspecto de \napagamento de todo tra\u00e7o identit\u00e1rio que n\u00e3o fosse europeu, ou que n\u00e3o \ntivesse sido, pelo menos, intermediado pela vis\u00e3o do europeu.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o\n \u00e9 que o Brasil n\u00e3o tenha \u201ctradi\u00e7\u00e3o no fant\u00e1stico\u201d. Sempre houve em cada\n gera\u00e7\u00e3o autores que se aventuraram pelo g\u00eanero e a maior obra de nossa \nliteratura, <em>Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas<\/em>, narrada\n por um defunto, n\u00e3o foi classificada como \u201cliteratura fant\u00e1stica\u201d, mas \ncomo \u201crealismo\u201d, por raz\u00f5es que s\u00f3 n\u00e3o s\u00e3o mais absurdas que a tese de \nque o Brasil n\u00e3o tem tradi\u00e7\u00e3o no g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p>A\n tradi\u00e7\u00e3o existe, ela se manifesta a cada gera\u00e7\u00e3o, mas a ideologia \npredominante relega sempre esses trabalhos \u00e0 \u201csegunda divis\u00e3o\u201d ou acha \num jeito de reclassific\u00e1-los fora da estante da fantasia. A tradi\u00e7\u00e3o \nexiste e tem deixado marcas indel\u00e9veis na cultura nacional, tanto que \u00e9 \nnecess\u00e1rio que a cada gera\u00e7\u00e3o se reiterem os argumentos preconceituosos \ncontra a \u00edndole nacional \u201csupersticiosa\u201d e \u201catrasada\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A\n literatura nacional \u2014 e isso n\u00e3o se limita \u00e0 LitFan \u2014n\u00e3o tem um \nproblema de continuidade, mas de interpreta\u00e7\u00e3o. Convencionou-se que a \nliteratura fant\u00e1stica \u00e9 um g\u00eanero \u201cmenor\u201d, ent\u00e3o, quando um autor \n\u201cgrande\u201d produz uma obra \u201cgrande\u201d, ela n\u00e3o ser\u00e1 classificada no g\u00eanero \nfant\u00e1stico nem se o personagem narrador for um morto, nem se ela \nmencionar um bruxo fabricante de lentes enfeiti\u00e7adas, nem se narrar a \nhist\u00f3ria de um pol\u00edtico que se transforma em lobisomem, nem se a trama \nestiver centrada na a\u00e7\u00e3o de um grupo de cad\u00e1veres insepultos que se \nreanimam.<\/p>\n\n\n\n<p>O\n problema aqui \u00e9 que a cr\u00edtica n\u00e3o quer enxergar a tradi\u00e7\u00e3o brasileira \nde literatura fant\u00e1stica e os praticantes atuais de literatura \nfant\u00e1stica s\u00f3 reconhecem como parte do g\u00eanero obras que legitimem as \nsuas pr\u00f3prias. Por\u00e9m eles, como eu e tantos outros, est\u00e3o desenraizados \nda cultura nacional e o fato de terem de cortejar um mercado saturado e \nconformado com a imposi\u00e7\u00e3o estrangeira faz com que se rendam a modelos \nestrangeiros. Eles n\u00e3o est\u00e3o continuando nenhuma tradi\u00e7\u00e3o brasileira de \nliteratura, fant\u00e1stica ou n\u00e3o, mas copiando modelos e estrat\u00e9gias que \nchegaram h\u00e1 pouco de fora (cac\u00f3fato intencional).<\/p>\n\n\n\n<p>Sendo\n assim, dizerem que o Brasil n\u00e3o tem tradi\u00e7\u00e3o na literatura fant\u00e1stica \nsoa como uma mistura de ingenuidade e hipocrisia. Perpetuam um \ndiagn\u00f3stico feito pela cr\u00edtica de que dizem discordar e, ao mesmo tempo,\n n\u00e3o tentam semear aquilo que lamentam n\u00e3o se cultivar.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso decorre, em parte, de gostarem do <em>boom<\/em>\n da literatura fant\u00e1stica, mesmo que sob um prisma comercial. \u00c9 bom \nparticipar de festivais, vender muitos livros e ocasionalmente ter suas \nobras adaptadas para o audiovisual. Se podem conseguir isso aderindo a \num modelo estrangeiro, que lhes importa que esse modelo sufoque a \ncultura nacional?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o\n \u00e9 que eles desejem que viceje uma literatura fant\u00e1stica nacional, eles \nquerem ser reconhecidos como os verdadeiros praticantes desta. Usam a si\n pr\u00f3prio como r\u00e9gua. Seu objetivo n\u00e3o \u00e9 criar nem perpetuar uma \ntradi\u00e7\u00e3o, \u00e9 entrar para a Academia. Est\u00e3o de tal maneira convencidos de \nque praticam a literatura fant\u00e1stica nacional que n\u00e3o lhes passa pela \ncabe\u00e7a que talvez pratiquem uma \u201cliteratura de invas\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o\n quero aqui fazer ju\u00edzos de valor sobre essa literatura de invas\u00e3o. Isso\n j\u00e1 tem precedentes hist\u00f3ricos e, no fim de contas, o que importa \u00e9 \nhaver uma cultura moribunda e uma que pede passagem. Foi assim na \nIrlanda, no s\u00e9culo XIX, quando o ingl\u00eas substituiu o ga\u00e9lico como \nve\u00edculo da literatura. Nosso caso n\u00e3o \u00e9 extremo a ponto de se substituir\n uma l\u00edngua, mas o efeito n\u00e3o fica muito longe.<\/p>\n\n\n\n<p>O\n terceiro aspecto, o da aliena\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, \u00e9 o que ocorre, se pudermos \ncaridosamente supor ingenuidade em vez de mal\u00edcia, quando esses autores \nperpetuam algo que destr\u00f3i aquilo que da boca para fora dizem defender. O\n autor que reclama de n\u00e3o haver uma tradi\u00e7\u00e3o de literatura fant\u00e1stica no\n Brasil n\u00e3o pode ser o mesmo que escreve obras baseadas em mitologias \nestrangeiras ou que aplica aos nossos mitos um filtro ex\u00f3tico. N\u00e3o pode \nser o mesmo que adota paradigmas de fora.<\/p>\n\n\n\n<p>O\n problema da literatura fant\u00e1stica no Brasil \u00e9 que nossos autores, em \nsua maioria, t\u00eam muita dificuldade para descobrir sua brasilidade, \npreferem buscar sua conex\u00e3o com a internacionalidade. Nesse cen\u00e1rio, o \nfant\u00e1stico local \u00e9 um obst\u00e1culo <em>por ser local, <\/em>mas o realismo \u00e9 universal.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta semana a minha bolha nas redes sociais se agitou com a discuss\u00e3o sobre o artigo de Santiago Nazari\u00e1n para a Folha de S\u00e3o Paulo, em que se aborda um tema que parece incomodar aos autores de fic\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica: ela continua supostamente relegada a um papel marginal \u2014 desprezada pela cr\u00edtica e incapaz de \u201cdeixar uma marca\u201d na cultura nacional, seja l\u00e1 o que isso quer dizer. 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