{"id":7093,"date":"2020-01-24T23:54:05","date_gmt":"2020-01-25T02:54:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=7093"},"modified":"2020-04-30T00:05:59","modified_gmt":"2020-04-30T03:05:59","slug":"e-de-elefante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2020\/01\/e-de-elefante\/","title":{"rendered":"E de &quot;Elefante&quot;"},"content":{"rendered":"\n<p>Tudo indica planos antigos do Jo\u00e3o Santos, dando por fim num saf\u00e1ri combinado com discri\u00e7\u00e3o a poucos dias da confirma\u00e7\u00e3o da partida. Tudo no cart\u00e3o, dividido para n\u00e3o ficar muito no or\u00e7ado &#8212; mas como muito funcion\u00e1rio p\u00fablico da alta roda, n\u00e3o havia motivo para o cuidado: havia fundos para isso ou mais, mas Jo\u00e3o quis dilu\u00eddo, convinha assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Partiu no s\u00e1bado, voo da South African, todo pronto para uma folga curta. S\u00f3 comprou o conjunto t\u00edpico numa loja l\u00e1. Durban foi o in\u00edcio, dormiu num quarto barato, alugado no Booking.com. Manh\u00e3zinha acordou ainda fora do fuso hor\u00e1rio, lavou o rosto, p\u00f4s a roupa para saf\u00e1ri. Ligaram avisando do atraso do \u00f4nibus alugado. Jo\u00e3o foi ao sagu\u00e3o para aguardar.  N\u00e3o sabia <em>Afrikaans<\/em> para dar conta do <em>Sondag<\/em>, por isso ficou com o <em>Financial Mail<\/em>, um tanto chato para os n\u00e3o ligados ao mundo das finan\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Um furg\u00e3o azul parou \u00e0 porta, buzinando. Jo\u00e3o largou o jornal, pronto para sair. Outros vindos para o saf\u00e1ri o ultrapassaram com passos largos: ficou com um dos \u00faltimos bancos, mas isso n\u00e3o tinha import\u00e2ncia. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"800\" height=\"534\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/black-young-elephant-walking-beside-the-trees-800x534.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7098\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/black-young-elephant-walking-beside-the-trees-800x534.jpg 800w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/black-young-elephant-walking-beside-the-trees-120x80.jpg 120w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/black-young-elephant-walking-beside-the-trees-250x167.jpg 250w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/black-young-elephant-walking-beside-the-trees-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/black-young-elephant-walking-beside-the-trees.jpg 910w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Foram duas horas sob o sol. Sa\u00edram para os sub\u00farbios, por novos caminhos asfaltados, cintilando tal qual molhados num dia chuvoso. A savana os saudou com um ar mais \u00famido, os arbustos faziam sombra para poucos bichos, plantas floradas balou\u00e7avam com uma brisa mansa. Uma placa marcava o limiar do munic\u00edpio, mas o guia confirmou isso numa voz acostumada.<\/p>\n\n\n\n<p>O grupo abandonou o furg\u00e3o junto a um bangal\u00f4. O calor do dia ficava mais duro com o passar da manh\u00e3. Haviam posto um <em>brunch<\/em> para o grupo, logo comido para aplacar o inc\u00f4modo da barriga vazia. Com as armas \u00e0s m\u00e3os, formaram dois grupos, cada com um guia mais tarimbado. Quatro ou cinco s\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Vamos por aqui &#8212; indicou o guia do grupo. Jo\u00e3o foi atr\u00e1s, com os outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Logo tinham dobrado a crista do morro mais pr\u00f3ximo, sozinhos na savana, ouvindo s\u00f3 os sons originais do mundo. Sa\u00edram girafas duma moita dif\u00edcil junto ao rio. Um dos turistas al\u00e7ou a arma, outro a parou.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Calma, cara! O bom ainda n\u00e3o vimos&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Andaram mais um pouco, cruzando o rio raso para dar no p\u00e2ntano. Ali, o guia tinha dito&#8230; Indicando na sombra o lugar para a tocaia, ficou com o grupo, calado, com uma cara opaca como uma ru\u00edna do passado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ouviram, por volta das duas horas, o ru\u00eddo rouco dos bichos. Vinham tomar a \u00e1gua barrosa do paul, \u00fanico lugar \u00famido da prov\u00edncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim sugiram do mato, com pouco ru\u00eddo para tanto tamanho. Vinham com ar d\u00fabio, sabiam alguma coisa. O maior do bando adiantou o corpanzil, a tromba longa subiu para aspirar o aroma do inimigo oculto.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda aguardavam para dar o disparo anunciado, conquista t\u00e3o aguardada, paga, faturada. Jo\u00e3o n\u00e3o notava, mas o corpo batido do cansa\u00e7o o fazia dormitar &#8212; numa modorra assim ouviu na alma, l\u00e1 no fundo, o som como uma trompa na batalha. Prolongado, uma hora agudo, logo baixo, num ritmo contado a passos monstruosos. Uma vis\u00e3o surgiu, uma sombra agigantada, pl\u00e1cida,  vagoroso.<\/p>\n\n\n\n<p>Sob a sombra daquilo, dan\u00e7aram para Jo\u00e3o figuras com formas vistas, bonitas, m\u00e1gicas. Viu crias novas no mundo, brincando na lama, agitados. A trompa continuava a soar. Idosos animais andavam com passos vacilando, procuravam o lugar das f\u00e1bulas, para l\u00e1 v\u00e3o aguardar o fim. Comungou da calma pac\u00edfica dos animais. Viu o bando arriscar a vida, buscando a \u00e1gua \u00fanica, do rio obrigat\u00f3rio. Jo\u00e3o Santos sorriu alaranjado, oprimido com a culpa dos colonos.<\/p>\n\n\n\n<p>Maravilhosos animais com longas trombas, vinham atr\u00e1s da \u00e1gua, pastavam na savana, morriam pac\u00edficos. O marfim como arma, rombuda, rid\u00edcula para os humanos avaros. <\/p>\n\n\n\n<p>Com rabos curtos, tronco volumoso, patas massivas, couro grosso: assim a maior das criaturas da \u00c1frica ficava fora do card\u00e1pio dos carn\u00edvoros locais. Os \u00fanicos inimigos naturais, os humanos humanos, assassinos frios da vida por motivos tolos. Matam-nos s\u00f3 por cobi\u00e7a do marfim. Acabar\u00e1 nossa gan\u00e2ncia ou acabamos com a vida no mundo todo?<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o acordou com uma dor no cora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o suportou aquilo mais. <\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; N\u00e3o! N\u00e3o! &#8212; Gritou com toda for\u00e7a da garganta.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; `T\u00e1 louco!? &#8212; Gritou um outro &#8212; Vai afastar os bichos, ou nos dar azar!<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; N\u00e3o vou matar nada! N\u00e3o vamos matar nada! <\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Raios! &#8212; Gritou o guia &#8212; Vai calar a boca ou o amarramos!<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o saltou uma moita, buscando abrigo atr\u00e1s das rochas. <\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Vai atirar? &#8212; Indagou o guia, ironizando.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Posso atirar, n\u00e3o vou matar bicho algum. <\/p>\n\n\n\n<p>Um ca\u00e7ador atirou. A bala zuniu a poucos passos, arrancando uma lasca do ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Ruim pontaria! &#8212; Gritou jo\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Os animais agitaram suas trombas. Por ora sumiam no abrigo do matagal. Mas a \u00e1gua os for\u00e7aria a voltar.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Ficou louco, cara?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; N\u00e3o. Louco n\u00e3o. Isso n\u00e3o. Loucos somos por matar animais assim, por nada. <\/p>\n\n\n\n<p>Um ca\u00e7ador surgiu, fuzil \u00e0 m\u00e3o, apontou para o matagal, ali surgia uma forma difusa, fora das folhas. Atirou, algo balan\u00e7ou nas plantas, um ru\u00eddo tristonho, prolongado, assustador. O ca\u00e7ador riu, um riso mau, vazio.<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o n\u00e3o duvidou. Atirou. A bala furou o ca\u00e7ador no tronco. O riso frio apagado, os olhos ba\u00e7os sumiram sob a franja. <\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Louco! Matou-o! &#8212; Gritou Jo\u00e3o, gritou o guia. <\/p>\n\n\n\n<p>O grupo ajuntou \u00e0 roda do morto, Jo\u00e3o n\u00e3o podia acalmar mais a alma inflamada com tanta culpa. Fugiu para a savana, sumiu nos capinzais altos, chorando a arrastar uma arma assassina.<\/p>\n\n\n\n<p>Pr\u00f3ximo \u00e0 mata, viu ali o animal abatido, ainda suspirando. Sangrava. Tinha l\u00e1grimas nos olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Abra\u00e7ou-o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Oh n\u00e3o! Oh n\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p>Outro tiro soou. Passou nas costas do Jo\u00e3o, mas n\u00e3o foi notado. Jo\u00e3o subira outro plano, ali n\u00e3o havia dor, n\u00e3o havia nada. O mundo todo transtornado numa savana infinita, mas n\u00e3o havia risco das balas ou das facas dos humanos. Pastavam os animais do passado, do futuro, os dos dias atuais, nunca mais. Aos poucos apagava a luz, Jo\u00e3o chorava ainda abra\u00e7ado ao animal. Os olhos dos dois, agora \u00famidos, unidos num olhar s\u00f3, aguardavam.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tudo indica planos antigos do Jo\u00e3o Santos, dando por fim num saf\u00e1ri combinado com discri\u00e7\u00e3o a poucos dias da confirma\u00e7\u00e3o da partida. Tudo no cart\u00e3o, dividido para n\u00e3o ficar muito no or\u00e7ado &#8212; mas como muito funcion\u00e1rio p\u00fablico da alta roda, n\u00e3o havia motivo para o cuidado: havia fundos para isso ou mais, mas Jo\u00e3o quis dilu\u00eddo, convinha assim. Partiu no s\u00e1bado, voo da South African, todo pronto para uma folga curta. S\u00f3 comprou o conjunto t\u00edpico numa loja l\u00e1. 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