{"id":71,"date":"2013-03-11T22:45:00","date_gmt":"2013-03-12T01:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=71"},"modified":"2017-08-13T01:28:10","modified_gmt":"2017-08-13T04:28:10","slug":"marina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/03\/marina\/","title":{"rendered":"Marina"},"content":{"rendered":"<p>Marina leva a x\u00edcara aos l\u00e1bios e, ao v\u00ea-los refletidos no caf\u00e9 negro, se despe da dureza que vestiu nos \u00faltimos meses. &#8220;Que falta me faz a Lu\u00edsa&#8221; &#8212; confessa em voz alta, sabendo que n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m perto para ouvir.<\/p>\n<p>O \u00faltimo di\u00e1rio de Lu\u00edsa jaz sobre a mesa do caf\u00e9, ainda lacrado. Justamente neste momento Marina est\u00e1 refletindo sobre o que ainda n\u00e3o leu, enquanto lembra o que viveram.<\/p>\n<p>Um m\u00eas da morte de Lu\u00edsa. A gente n\u00e3o se acostuma com isso, acho que nunca nos acostumamos. Para Marina foi um m\u00eas de desinteresse da vida, um m\u00eas de purgat\u00f3rio em que mecanicamente foi de casa ao trabalho e vice-versa.<\/p>\n<p>No verso da capa est\u00e1 anotado um telefone, em letras grandes, gordas, escuras, dif\u00edceis de n\u00e3o ver.<\/p>\n<p>&#8220;Ela queria que eu ligasse&#8221; &#8212; pensa Marina. &#8220;Mas eu n\u00e3o vou fazer isso de jeito nenhum.&#8221; <\/p>\n<p>E sorve um gole de caf\u00e9.<\/p>\n<p>O dia tinha sido intenso. Trabalhara como poucas vezes. Apenas a amiga cafeteira a entendia, e lhe fazia um caf\u00e9 negr\u00edssimo em poucos instantes, para acord\u00e1-la para a noite. Hora de terminar o caf\u00e9, come\u00e7ar o banho, continuar a vida.<\/p>\n<p>Ouviu o interfone justamente quando depositou a x\u00edcara na mesa. Uma sincronicidade dessas que a vida tem. Tentou ignorar, ele insistiu. Adiou o ritual di\u00e1rio de purifica\u00e7\u00e3o e foi atender o aparelho ainda com a alma sofrida.<\/p>\n<p>Ricardo.<\/p>\n<p>&#8212; Lu\u00edsa me pediu que a procurasse. Aqui \u00e9 o Ricardo, lembra de mim?<\/p>\n<p>Marina j\u00e1 tinha pensado que sim,\u00a0 mas tamb\u00e9m que gostaria de esquecer. Estava preparada, s\u00f3 que n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Sobe, Ricardo.<\/p>\n<p>Abriu a porta quando escutou os passos no corredor. O impacto denunciava que ele ainda continuava com a moda estranha daquelas botas de salto, estilo vaqueiro de cinema. Era rid\u00edculo, mas \u00e0s vezes n\u00e3o era.<\/p>\n<p>&#8212; Boa noite, a Lu\u00edsa me pediu que te procurasse.<\/p>\n<p>Marina franziu o cenho.<\/p>\n<p>&#8212; Quando? Tantas semanas\u2026<\/p>\n<p>&#8212; Antes, claro. <\/p>\n<p>&#8212; Para que?<\/p>\n<p>&#8212; Bem. Fomos as pessoas de quem ela mais gostou. Seu namorado, a melhor amiga.<\/p>\n<p>&#8220;Ele n\u00e3o sabe de nada&#8221;. <\/p>\n<p>&#8212; Acho que voc\u00ea est\u00e1 enganado. Est\u00e1vamos rompidas desde meses. Discuss\u00e3o muito s\u00e9ria. Eu disse coisas feias, ela saiu daqui muito magoada comigo. N\u00e3o creio que eu fosse mais sua &#8220;melhor amiga&#8221;.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o foi o que ela me disse. Na carta que mandou, disse que lhe amava muito e que entendia o modo como voc\u00ea se sentiu. <\/p>\n<p>Os olhos dela brilharam.<\/p>\n<p>&#8212; Uma carta? Ela escreveu?<\/p>\n<p>&#8212; Sim.<\/p>\n<p>&#8212; Posso ver?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o. Ela pediu que eu queimasse.<\/p>\n<p>Marina engole em seco. Mas n\u00e3o deixa transparecer. Uma carta somente para os olhos dele, coisa de filme de espionagem. Somente a mentalidade infantil de Lu\u00edsa pensaria nalgo assim.<\/p>\n<p>&#8212; Acredito que n\u00f3s temos coisas muito importantes a dizer um ao outrohellip; um dia. Ainda \u00e9 cedo. Vamos deixar que o tempo pense, que Lu\u00edsa ache descanso e que n\u00f3s nos ponhamos as cabe\u00e7as no lugar. Depois vamos ver o que h\u00e1 para dizer.<\/p>\n<p>&#8212; Eu vim em busca de respostas. A carta s\u00f3 tinha perguntas.<\/p>\n<p>&#8212; Isso, infelizmente, n\u00e3o posso dar. Todas as que tenho provavelmente s\u00e3o as que voc\u00ea j\u00e1 teve, ou as que voc\u00ea n\u00e3o quer.<\/p>\n<p>Marina viu os olhos de Ricardo se aquecerem por um momento e se lembrou do esfor\u00e7o que devia custar ao pobre estar ali, falando-lhe\u00a0 naquele tom. Principalmente se suspeitava de algo. Ele n\u00e3o era um cara passivo e honesto, desses que sabem esperar a vez. Somente o choque da morte de Lu\u00edsa o amansava o suficiente para esperar no umbral da porta, sem meter o p\u00e9 e entrar \u00e0 for\u00e7a. Mas, de algum jeito, Marina tinha d\u00f3 dele n\u00e3o entrar.<\/p>\n<p>&#8212; Olha, meu bem, vamos fazer o seguinte. Voc\u00ea volta para sua casa e n\u00f3s deixamos alguns meses se passarem. Eu ainda n\u00e3o me sinto pronta para conversar a respeito da Lu\u00edsa e posso ver perfeitamente que voc\u00ea tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1. De acordo?<\/p>\n<p>Ele fez que sim em um gesto breve. Aliviado.<\/p>\n<p>&#8212; Tudo bem. Mas quando?<\/p>\n<p>&#8212; Te convido a vir tomar um ch\u00e1 aqui em casa dentro de tr\u00eas meses, ou nunca. Pode ser?<\/p>\n<p>&#8212; Tr\u00eas meses ou nunca?<\/p>\n<p>&#8212; Se dentro de tr\u00eas meses voc\u00ea n\u00e3o quiser mais conversar comigo sobre a Lu\u00edsa, ent\u00e3o ter\u00e1 sido melhor assim.<\/p>\n<p>&#8212; Talvez tenha raz\u00e3o. Combinados.<\/p>\n<p>&#8220;Ele topou&#8221; &#8212; Marina sorriu &#8212; &#8220;e ganhei tempo.&#8221;<\/p>\n<p>Ricardo despediu-se educadamente, apesar de n\u00e3o ter sido sequer convidado a entrar, e desceu a rua sem olhar para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Quando ele terminou de descer as escadas, ficou olhando brevemente para o branco da porta rec\u00e9m pintada. Para cobrir a tinta cor de rosa que Lu\u00edsa sugerira. Estendeu o bra\u00e7o e arrancou com a unha um naco da pintura, revelando a cor antiga, dolorida ainda.<\/p>\n<p>Tinha sido somente naquele dia, pela manh\u00e3, que tivera alguma aventura alheia \u00e0 rotina. Antes do servi\u00e7o passara no correio para abrir a caixa postal. Dentro do escaninho estava um envelope grande, contendo a pequena preciosidade. Do lado de fora havia a recomenda\u00e7\u00e3o: entregar somente em 09 de mar\u00e7o. Algu\u00e9m servira de portador \u00e0 \u00faltima vontade dela.<\/p>\n<p>&#8220;Que  surpresas voc\u00ea reservou para o fim, minha amiguinha?&#8221;<\/p>\n<p>Dentro do envelope havia uma caixa lacrada, contendo somente aquele caderno de capa dura, monocrom\u00e1tica e  escura. Um caderno grosso e grande e s\u00e9rio. Bem diferente dos antigos cadernos de escola, t\u00e3o  coloridos e cheios de fantasia. Uma capa verde-escura. Verde-morta. <\/p>\n<p>Na  capa, uma etiqueta adesiva onde se lia &#8220;de: 01\/01\/85 &#8212; a:  ++\/++\/++&#8221;. As cruzes acrescentadas firmemente com outra caneta, meses  depois.<\/p>\n<p>Estava embrulhado em celofane e preso por  um barbante. Tivera de romper o lacre cuidadosamente para preservar o papel. Tinha essa mania de tentar abrir embrulhos sem estragar o envolt\u00f3rio. Lu\u00edsa sabia disso, usara um barbante porque fitas adesivas teriam estragado o fr\u00e1gil celofane.<\/p>\n<p>Na primeira p\u00e1gina nenhum t\u00edtulo, s\u00f3 um desenho feito com esferogr\u00e1fica. A paisagem parece invernal, espectral, por causa da tinta azul clara de uma caneta velha. Um papel solto cai ao ch\u00e3o. Nele se l\u00ea:<\/p>\n<p>> Frutos, d\u00e3o-nos as \u00e1rvores que vivem,<br \/>\n> N\u00e3o a iludida mente, que se orna<br \/>\n> Somente das flores l\u00edvidas<br \/>\n> Do \u00edntimo abismo.&#8221;<\/p>\n<p>Sem  assinatura, mas \u00e9 Fernando Pessoa. Marina sabe de onde o tiraram. S\u00f3  n\u00e3o desconfia do motivo de estar ali. Nas costas do papel, um telefone.<\/p>\n<p>&#8220;Ela queria que eu ligasse, e eu n\u00e3o liguei.&#8221;<\/p>\n<p>[^1]: Leopoldina, 30 de abril de 2005<br \/>\nrevisado em 10 de mar\u00e7o de 2013<br \/>\ncom a harmoniza\u00e7\u00e3o temporal<br \/>\ne invers\u00e3o da primeira cena para o fim.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marina leva a x\u00edcara aos l\u00e1bios e, ao v\u00ea-los refletidos no caf\u00e9 negro, se despe da dureza que vestiu nos \u00faltimos meses. &#8220;Que falta me faz a Lu\u00edsa&#8221; &#8212; confessa em voz alta, sabendo que n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m perto para ouvir. O \u00faltimo di\u00e1rio de Lu\u00edsa jaz sobre a mesa do caf\u00e9, ainda lacrado. Justamente neste momento Marina est\u00e1 refletindo sobre o que ainda n\u00e3o leu, enquanto lembra o que viveram. Um m\u00eas da morte de Lu\u00edsa. 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