{"id":7118,"date":"2020-03-04T19:30:22","date_gmt":"2020-03-04T22:30:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=7118"},"modified":"2020-03-04T19:48:18","modified_gmt":"2020-03-04T22:48:18","slug":"os-crimes-dos-autores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2020\/03\/os-crimes-dos-autores\/","title":{"rendered":"Os Crimes dos Autores"},"content":{"rendered":"\n<p>H\u00e1 algum tempo, em 2017, eu escrevi um ensaio intitulado \u00ab<a rel=\"noreferrer noopener\" target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/12\/o-que-fazer-com-a-arte-de-pessoas-execraveis\/\">O Que Fazer com a Arte de Pessoas Execr\u00e1veis?<\/a>\u00bb que era mais ou menos sobre isto. Minha opini\u00e3o mudou um pouco desde ent\u00e3o, mas permanece coerente no essencial. <em>Devemos ter muito cuidado ao condenar a obra por causa do autor.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Comecemos por uma hist\u00f3ria contada pelo humorista Mill\u00f4r Fernandes:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>A senhora, uma dona de casa, estava na feira, no caminh\u00e3o que vende galinhas. O vendedor ofereceu a ela uma galinha. Ela olhou para a galinha, passou a m\u00e3o embaixo das asas da galinha, apalpou o peito da galinha, alisou as coxas da galinha, enfiou o dedo no fiof\u00f3 da galinha, depois tornou a colocar a galinha na banca e disse para o vendedor \u201cN\u00e3o presta!\u201d A\u00ed o vendedor olhou para ela e disse: \u201cTamb\u00e9m, madame, num exame assim nem a senhora passava\u201d.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A moral desta anedota \u00e9 que n\u00e3o devemos julgar aos outros com uma r\u00e9gua moral que n\u00e3o se aplique a n\u00f3s mesmos, ou seja, temos aqui uma condena\u00e7\u00e3o bem-humorada da hipocrisia dos que querem &#8220;cancelar&#8221; os outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Obviamente que seria falacioso exigir que somente os perfeitos pudessem condenar alguma imperfei\u00e7\u00e3o alheia. A quest\u00e3o \u00e9 justamente oposta: por mais que condenemos as imperfei\u00e7\u00f5es alheias, tomadas individualmente, n\u00e3o temos o direito de esperar que os outros sejam perfeitos porque estamos exigindo uma condi\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel. Somente uma divindade perfeita poderia exigir tanto.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse debate talvez tenha sido feito pela primeira vez de maneira ampla ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, quando v\u00e1rias personalidades do mundo da arte e da filosofia haviam simpatizado com o nazismo: Martin Heidegger, Ezra Pound, Knut Hamsun e Louis-Ferdinand C\u00e9line foram autores que enfrentaram graves acusa\u00e7\u00f5es de \u201ctrai\u00e7\u00e3o nacional\u201d e sofreram com o opr\u00f3brio da academia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais recentemente surgiram movimentos para reavaliar a obra de autores do passado considerando a sua \u201cheran\u00e7a\u201d de racismo, machismo ou algum outro \u201cismo\u201d para o qual a humanidade se tornou mais sens\u00edvel, supostamente. A nova ideia que se propaga \u00e9 a de que devemos destruir atrav\u00e9s do boicote as carreiras dos autores e artistas \u201cexecr\u00e1veis\u201d, tal como se fossem Charles Manson.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das condi\u00e7\u00f5es essenciais da civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 a separa\u00e7\u00e3o entre a pessoa e sua obra. N\u00e3o podemos condicionar a aceita\u00e7\u00e3o de um progresso (tecnol\u00f3gico, cient\u00edfico, filos\u00f3fico ou art\u00edstico) somente porque quem o criou tinha problemas morais e \u00e9ticos. Afinal, ningu\u00e9m deixou de usar eletricidade s\u00f3 porque Thomas Edison era racist\u00e3o, e os Estados Unidos n\u00e3o v\u00e3o voltar a ser col\u00f4nia inglesa s\u00f3 porque George Washington e Thomas Jefferson eram escravocratas. Se n\u00e3o vamos desistir dos confortos do progresso tecnol\u00f3gico, por que acha que devemos desistir da literatura?<\/p>\n\n\n\n<p>Observe que a pergunta n\u00e3o \u00e9 se devemos glorificar pessoas que cometeram crimes, mas <em>a obra<\/em> de pessoas que cometeram crimes. Uma produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica ou liter\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 um crime.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/books-burning.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7119\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/books-burning.jpg 768w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/books-burning-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/books-burning-480x640.jpg 480w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/books-burning-113x150.jpg 113w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Houve uma \u00e9poca pouco luminosa da hist\u00f3ria da humanidade na qual obras foram condenadas porque seus criadores eram judeus, deficientes f\u00edsicos, comunistas, homossexuais ou negros. Certamente voc\u00ea n\u00e3o gostaria de retornar a essa \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das caracter\u00edsticas das pessoas essenciais, dos ditos \u201cgrandes homens\u201d e mulheres, \u00e9 que fazem grandes coisas. Ningu\u00e9m muda a hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o dando bom dia ou jogando futebol de bot\u00e3o. A grandeza exige atitudes extremas, que podem ser extremamente boas, extremamente controversas ou at\u00e9 extremamente ruins. A humanidade sempre foi composta principalmente por tipos os mais execr\u00e1veis. A \u00e9tica sempre foi a preocupa\u00e7\u00e3o de uma minoria, muitas vezes a minoria que perecia nos conflitos justamente por n\u00e3o ser capaz de fazer \u201ctudo\u201d para vencer. Na guerra, a lealdade \u00e9 uma fraqueza. A sele\u00e7\u00e3o natural n\u00e3o favorece a raz\u00e3o e nem a \u00e9tica, por isso o ser humano \u00e9 selecionado para ser supersticioso e trapaceiro. Com uma dem\u00e3o de falsa moralidade proporcionada pela ideologia, temos o cidad\u00e3o de bem, <em>religioso<\/em> e esperto.<\/p>\n\n\n\n<p>Pessoas de belo car\u00e1ter n\u00e3o costumam estar presentes na terra em n\u00famero suficiente para influenciar o mundo de maneira decisiva \u2014 e tamb\u00e9m n\u00e3o costumam ter em si a centelha de inquieta\u00e7\u00e3o que leva o ser humano a aproximar-se do extremo e do sublime. A arte das pessoas execr\u00e1veis n\u00e3o \u00e9, portanto, uma curiosidade dispens\u00e1vel. Dependendo de como classifiquemos \u201cexecr\u00e1vel\u201d, simplesmente n\u00e3o haver\u00e1 nada que reste a ser estudado no passado. Sabe por qu\u00ea? Porque aquilo que \u00e9 criminoso e execr\u00e1vel costuma ser definido por pessoas que n\u00e3o ousam ou que procuram manter uma hipocrisia conveniente.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/degenerate-art.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7122\" width=\"602\" height=\"446\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/degenerate-art.jpg 602w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/degenerate-art-250x185.jpg 250w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/degenerate-art-120x89.jpg 120w\" sizes=\"(max-width: 602px) 100vw, 602px\" \/><figcaption>Quem n\u00e3o \u00e9 artista \u00e9 que define o que \u00e9 arte degenerada:<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/degenerate-books.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7123\" width=\"602\" height=\"373\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/degenerate-books.jpg 602w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/degenerate-books-250x155.jpg 250w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/degenerate-books-120x74.jpg 120w\" sizes=\"(max-width: 602px) 100vw, 602px\" \/><figcaption>Quem n\u00e3o \u00e9 escritor \u00e9 quem define quais livros s\u00e3o criminosos:<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Alguns autores t\u00eam a fama excelente, o que basicamente significa que sabemos <em>muito pouco<\/em> sobre eles. Se soub\u00e9ssemos mais, alcan\u00e7ar\u00edamos os seus segredos profundos e encontrar\u00edamos algo a nos chocar. A diferen\u00e7a entre os \u201cexecr\u00e1veis\u201d e \u201cn\u00e3o execr\u00e1veis\u201d n\u00e3o est\u00e1 em uma imposs\u00edvel perfei\u00e7\u00e3o moral, mas em onde tra\u00e7ar a linha imagin\u00e1ria que separa os comportamentos \u201cexecr\u00e1veis\u201d dos \u201c aceit\u00e1veis\u201d. N\u00e3o tenho conhecimento de que j\u00e1 tenha se chegado a um acordo sobre onde tra\u00e7ar a linha: cada um a coloca onde quer, conforme seu conhecimento. Os \u201ccancelamentos\u201d ocorrem \u00e0 medida que os malfeitos v\u00eam a luz, n\u00e3o \u00e0 medida que s\u00e3o cometidos.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/holocaust.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7124\" width=\"602\" height=\"650\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/holocaust.jpg 602w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/holocaust-250x270.jpg 250w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/holocaust-593x640.jpg 593w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/holocaust-120x130.jpg 120w\" sizes=\"(max-width: 602px) 100vw, 602px\" \/><figcaption>E nunca podemos esquecer que aqueles que come\u00e7am queimando livros podem terminar queimando pessoas:<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Afinal, a efic\u00e1cia est\u00e1 em ir \u00e0 raiz do \u201cproblema\u201d. Por que queimar os produtos do g\u00eanio humano se podemos evitar a propaga\u00e7\u00e3o deste queimando os pr\u00f3prios seres humanos?<\/p>\n\n\n\n<p>Defender a arte contra a execra\u00e7\u00e3o moralista \u00e9 defender, a longo prazo, a integridade f\u00edsica de todo aquele que pode acidentalmente restar dentro de um territ\u00f3rio a ser destru\u00eddo. Nunca tenha a plena confian\u00e7a de que voc\u00ea est\u00e1 seguro, de que a fronteira n\u00e3o o cruzar\u00e1. S\u00e3o sempre outros que definem se voc\u00ea \u00e9 \u201clegal\u201d ou n\u00e3o. Gritar e reivindicar pureza (\u00e9tnica, moral, religiosa) n\u00e3o importa. Ningu\u00e9m mede a si mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a maior parte da hist\u00f3ria da humanidade pareceu razo\u00e1vel supor que a obra transcende o autor. Isto vem desde a mais remota antiguidade, quando o texto era tido como palavras sagradas, passando pela Idade M\u00e9dia, quando o livro passou a ser visto como objeto sagrado e pelas Idades Moderna e Contempor\u00e2nea, quando o fetiche do livro foi substitu\u00eddo pelo fetiche do fazer liter\u00e1rio. O \u00e1pice desta ideia de separa\u00e7\u00e3o foi trazido por Roland Barthes, que decretou a \u201cmorte do autor\u201d diante de sua obra: segundo o cr\u00edtico franc\u00eas, uma vez que a obra \u00e9 publicada, perde o autor o seu controle sobre as interpreta\u00e7\u00f5es que podem ser feitas dela. A obra deixa de pertencer a quem a escreveu e passa a pertencer a quem a l\u00ea \u2013 e o leitor tem a liberdade de atribuir ao texto significados relativos a si mesmo, o que mais recentemente se reflete no conceito de \u201cshipar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Os antigos levavam essa separa\u00e7\u00e3o t\u00e3o a s\u00e9rio que muitas obras do passado s\u00e3o an\u00f4nimas (ningu\u00e9m assinava) ou ap\u00f3crifas (um autor podia muito bem atribuir seu trabalho a outro, sem qualquer pejo). Hoje valorizamos de tal maneira o ego que a escrita ap\u00f3crifa foi invertida e transformada no pl\u00e1gio. N\u00e3o mais atribu\u00edmos o que fazemos a algu\u00e9m que \u00e9 melhor do que n\u00f3s, queremos roubar para n\u00f3s aquilo que foi feito por outra pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a separa\u00e7\u00e3o entre indiv\u00edduo e obra tem um outro efeito que se tornou indesejado: o preju\u00edzo ao moralismo. Se podemos apreciar a obra escrita por uma pessoa humilde, por que n\u00e3o podemos apreciar tamb\u00e9m aquela criada por algu\u00e9m detest\u00e1vel? O autor, a partir do momento em que se torna \u201cfamoso\u201d, adquire a liberdade de agir al\u00e9m do senso comum, praticando atos que os comuns n\u00e3o podem. Esta \u201caristocracia art\u00edstica\u201d criada pelo conceito da \u201cqualidade\u201d levou ao surgimento do \u201cautor maldito\u201d e do \u201castro drogado\u201d. N\u00e3o seria poss\u00edvel imaginar Rimbaud e Verlaine sem o conceito de separa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o teria sido poss\u00edvel metade da rebeldia do <em>rock\u2019n\u2019roll<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/qph.fs.quoracdn.net\/main-qimg-e9884ef457c4cbcb654ee5ce4c8f6756\" alt=\"\" width=\"602\" height=\"399\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><em>Black Sabbath<\/em> em 1969. Quatro jovens pobres de uma cidade industrial, que mal tinham dinheiro para comprar seus instrumentos e que tinham pouca educa\u00e7\u00e3o formal. Tamb\u00e9m tinham v\u00e1rios problemas com a pol\u00edcia (Ozzy Osborne era <em>burglar<\/em>, \u201cladr\u00e3o de resid\u00eancias\u201d e Tony Iommi era um valent\u00e3o que se metia em brigas) que os acompanharam pela vida toda (todos se envolveram com drogas e bebida, Iommi tentou assassinar sua namorada com uma guitarrada, Osbourne e Ward forma presos in\u00fameras vezes). Boa parte da cultura roqueira s\u00f3 existe porque as pessoas sabiam apreciar a m\u00fasica sem julgar as pessoas que a faziam.<\/p>\n\n\n\n<p>Para os moralistas isso sempre foi intoler\u00e1vel. Os p\u00e2nicos morais contra os artistas dissolutos s\u00e3o antigos, datando desde a \u00e9poca vitoriana, quando Oscar Wilde caiu em desgra\u00e7a por sua homossexualidade, e chegando ao auge nos anos setenta, quando os roqueiros drogados eram vistos como sacerdotes do anticristo.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando dilu\u00edmos a fronteira entre o artista e a obra e passamos a julgar um em fun\u00e7\u00e3o do outro podemos criar situa\u00e7\u00f5es embara\u00e7osas. Devemos manter a separa\u00e7\u00e3o entre o autor e sua obra?<\/p>\n\n\n\n<p>Se voc\u00ea acha que sim, ent\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 obrigado a gostar de Pablo Vittar apesar dele ser atualmente o maior \u00edcone <em>gay<\/em> da m\u00fasica pop brasileira. Est\u00e1 liberado para dizer que ele n\u00e3o sabe cantar e nem compor, ou simplesmente que n\u00e3o gosta do que ele faz.<\/p>\n\n\n\n<p>Se voc\u00ea acha que sim, ent\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 obrigado a deixar de gostar dos filmes de Woody Allen s\u00f3 porque ele foi um escroto ao se relacionar com a Soon-Yi.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas se acha que n\u00e3o devemos, ent\u00e3o n\u00e3o pode criticar o Pabllo Vittar porque ele \u00e9 <em>gay<\/em> e os homossexuais se sentem representados por ele. Sendo ele o maior \u00edcone <em>gay<\/em> do momento, voc\u00ea, se for homossexual, est\u00e1 <em>obrigado<\/em> a gostar dele, porque n\u00e3o faz\u00ea-lo seria algo como \u201ctrair o movimento\u201d ou diminuir a \u201cvisibilidade\u201d LGBT.<\/p>\n\n\n\n<p>Se acha que artista e obra devem se confundir, ent\u00e3o assistir a um filme de Woody Allen \u00e9 uma falha moral e inadvertidamente <em>gostar<\/em> desse filme \u00e9 um pecado mortal.<\/p>\n\n\n\n<p>Numa das op\u00e7\u00f5es um arroto de Pablo Vittar deve ser aceito como arte, mas ningu\u00e9m deve gostar de <em>A Rosa P\u00farpura do Cairo<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 algum tempo, em 2017, eu escrevi um ensaio intitulado \u00abO Que Fazer com a Arte de Pessoas Execr\u00e1veis?\u00bb que era mais ou menos sobre isto. Minha opini\u00e3o mudou um pouco desde ent\u00e3o, mas permanece coerente no essencial. Devemos ter muito cuidado ao condenar a obra por causa do autor. Comecemos por uma hist\u00f3ria contada pelo humorista Mill\u00f4r Fernandes: A senhora, uma dona de casa, estava na feira, no caminh\u00e3o que vende galinhas. O vendedor ofereceu a ela uma galinha. 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