{"id":7134,"date":"2020-03-12T20:25:01","date_gmt":"2020-03-12T23:25:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=7134"},"modified":"2020-03-12T20:25:05","modified_gmt":"2020-03-12T23:25:05","slug":"leituras-de-dom-casmurro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2020\/03\/leituras-de-dom-casmurro\/","title":{"rendered":"Leituras de &#8220;Dom Casmurro&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p>A primeira obra que eu li de Machado de Assis foi o &#8220;Dom Casmurro&#8221;. Eu tinha 12 ou 13 anos e esse livro estava entre os que havia na biblioteca de casa.<\/p>\n\n\n\n<p>O que me chamou a aten\u00e7\u00e3o foram as cenas do amor juvenil de Bento e Capitolina. Aquilo ali me parecia muito id\u00edlico e muito parecido com o que eu desejava. Identifiquei-me muito com o Bentinho e queria muito ter a minha Capitolina.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"864\" height=\"701\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/kiss.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-7135\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/kiss.png 864w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/kiss-250x203.png 250w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/kiss-789x640.png 789w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/kiss-120x97.png 120w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/kiss-768x623.png 768w\" sizes=\"(max-width: 864px) 100vw, 864px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Acontece que eu n\u00e3o li de uma vez s\u00f3 \u2014 certos livros eu tinha por h\u00e1bito ler aos poucos, alternando com outros. Esse foi um deles. Quando, v\u00e1rias semanas depois, eu cheguei \u00e0s partes finais, a\u00ed eu me senti muito triste pelo Bentinho, muito confuso pela rela\u00e7\u00e3o entre os dois e confesso n\u00e3o entendi muita coisa dos ci\u00fames.<\/p>\n\n\n\n<p>O que mais me chamou a aten\u00e7\u00e3o, de fato, foi Bentinho, no fim da vida, mandar reconstruir no Engenho Novo, aonde tinha ido morar, a casa rua Matacavalos em que ele vivera na inf\u00e2ncia, uma casa id\u00eantica \u00e0 de seus pais, j\u00e1 demolida, e inclusive pintar sobre o p\u00f3rtico da sala os bustos de C\u00e9sar, Augusto, Nero e Massinissa (que n\u00e3o estavam na casa original).<\/p>\n\n\n\n<p>Desde ent\u00e3o eu j\u00e1 reli a obra v\u00e1rias vezes (n\u00e3o contei quantas, mas no todo devem ter sido tr\u00eas ou quatro apenas, visto que sempre a reli aos peda\u00e7os, depois de j\u00e1 ter lido uma vez por inteiro). Essa parte final da segunda casa em Matacavalos continua o meu trecho favorito do livro.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, com a minha maturidade, vejo nessa atitude de Bentinho uma trag\u00e9dia pessoal muito amarga que se abateu sobre o protagonista, v\u00edtima de suas pr\u00f3prias obscuridades e tamb\u00e9m de uma sociedade que impunha ao homem e \u00e0 mulher papeis muito r\u00edgidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao reconstruir a casa, ele quer recuperar a inoc\u00eancia e a felicidade da inf\u00e2ncia, uma \u00e9poca em que, paradoxalmente, ele ainda podia amar a Capitolina porque ela ainda era inocente. Ao incluir os medalh\u00f5es com as figuras das ditas celebridades romanas, ele insere nessa lembran\u00e7a de uma feliz inf\u00e2ncia a mau agouro de um futuro que seria frustrante. Dessa maneira, ele nem consegue se desenvencilhar de uma rela\u00e7\u00e3o que o feriu e nem consegue se entregar ao arrependimento e \u00e0 saudade do que perdeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa interpreta\u00e7\u00e3o, curiosamente, me veio em um momento em que eu tamb\u00e9m terminei um relacionamento por ci\u00fames.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu estava em m\u00e1 situa\u00e7\u00e3o financeira e decidi n\u00e3o mais sair, para economizar dinheiro, enquanto buscava um novo emprego. Minha namorada me disse, ent\u00e3o, que n\u00e3o se importava que eu ficasse em casa, mas que ela sairia mesmo assim. Quando confirmei que ela realmente sa\u00edra, na companhia de outras pessoas, fui at\u00e9 ela e lhe disse que n\u00e3o tinha como continuar o relacionamento. Ela me perguntou se eu n\u00e3o a amava mais e eu lhe respondi: &#8220;eu ainda amo quem voc\u00ea era at\u00e9 ontem, mas n\u00e3o amo essa que voc\u00ea se tornou&#8221;. Ela ent\u00e3o me disse que aquela que existira at\u00e9 o dia anterior era a mesma que ainda existia e que se eu achava as duas diferentes n\u00e3o era porque ela tinha mudado, mas porque eu a olhava de um ponto de vista diferente. Eu lhe disse, ent\u00e3o, que n\u00e3o conseguiria continuar se ela n\u00e3o voltasse a ser quem fora, mas, como ela insistia que sempre fora a mesma, isso queria dizer que ela n\u00e3o voltaria a ser quem eu amava. Eu tendo dito isso, ela se levantou e foi embora, e n\u00f3s nunca mais nos tocamos desde esse dia \u2014 embora tenhamos voltado a trocar algumas palavras asmistosamente depois.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa frase que eu disse me marcou profundamente quando eu reli &#8220;Dom Casmurro&#8221; algum tempo depois. &#8220;Eu ainda amo quem voc\u00ea foi, mas n\u00e3o amo quem voc\u00ea se tornou&#8221; \u00e9 uma frase que exemplifica muito bem o estado de esp\u00edrito do Bentinho nos cap\u00edtulos finais do livro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A primeira obra que eu li de Machado de Assis foi o &#8220;Dom Casmurro&#8221;. Eu tinha 12 ou 13 anos e esse livro estava entre os que havia na biblioteca de casa. O que me chamou a aten\u00e7\u00e3o foram as cenas do amor juvenil de Bento e Capitolina. Aquilo ali me parecia muito id\u00edlico e muito parecido com o que eu desejava. Identifiquei-me muito com o Bentinho e queria muito ter a minha Capitolina. 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