{"id":7184,"date":"2020-05-19T21:24:33","date_gmt":"2020-05-20T00:24:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=7184"},"modified":"2020-05-19T21:24:35","modified_gmt":"2020-05-20T00:24:35","slug":"a-lenda-da-manicoba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2020\/05\/a-lenda-da-manicoba\/","title":{"rendered":"A Lenda da Mani\u00e7oba"},"content":{"rendered":"\n<p>Uma tribo errante estava perdida h\u00e1 muitos dias por uma regi\u00e3o desconhecida, onde os animais eram diferentes e as plantas n\u00e3o se pareciam com as que tinham o h\u00e1bito de comer. Com a reserva de comida come\u00e7ando a acabar, precisavam urgentemente encontrar alguma outra fonte de alimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi ent\u00e3o que encontraram uma planta que por ali crescia abundantemente e que tinha folhas verdejantes e gra\u00fadas. Nenhum inseto a parasitava e a seca n\u00e3o afetara sua beleza. Decidiram com\u00ea-la, mas receavam que fosse venenosa, ent\u00e3o, sob o conselho s\u00e1bio do paj\u00e9, cozinharam-na por v\u00e1rias horas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ent\u00e3o,&#8221; &#8212; disse o cacique &#8212; &#8220;tragam o prisioneiro. Ningu\u00e9m da tribo come da planta estranha antes de prisioneiro provar.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O prisioneiro faminto hesitou, hesitou, mas o paj\u00e9 pegou uma colherona de pau, serviu-a cheia e a levou \u00e0 boca do infeliz. Faminto e com medo de ser morto a bordunadas e transformado ele mesmo em guisado, o prisioneiro se aventurou a comer do estranho cozido. Poucos minutos depois come\u00e7ou a engasgar, tossir e perder o f\u00f4lego. Ent\u00e3o teve convuls\u00f5es e morreu. Toda a tribo viu a cena e todos tiveram receio de comer a carne do morto.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Duas horas de fogo n\u00e3o bastaram. Vamos mais tempo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Mais seis horas de cozimento e trouxeram o segundo prisioneiro.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Numa boa,&#8221; disse o tapuia, que vira a morte horr\u00edvel do seu companheiro, &#8220;uma bela bordunada na cabe\u00e7a e depois voc\u00eas me comem, que tal?&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O paj\u00e9 tomou uma colherada do cozido e levou \u00e0 boca do prisioneiro:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ou come ou enfiamos uma flecha no seu chu\u00ed\u2026 Se der errado a gente te d\u00e1 a bordunada para aliviar depois\u2026&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O prisioneiro deu um suspiro longo, fechou os olhos e comeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Minutos depois ele l\u00e1 estava se contorcendo e engasgando. E morreu baboso e de olhos vidrados. Ningu\u00e9m se aventurou a lev\u00e1-lo para o cepo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Oito horas e meia de fogo n\u00e3o bastaram. Vamos cozinhar at\u00e9 a lua de amanh\u00e3 nascer.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Isto feito, l\u00e1 veio o \u00faltimo prisioneiro que a tribo ainda tinha.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Come.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Cacique, meu s\u00e1bio cacique. Pais meus sempre tiveram orgulho, diziam que eu seria grande guerreiro e um dia morreria honradamente para ser comido pelos meus inimigos e\u2026&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Come!!!!!&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O prisioneiro olhou ao redor e notou que haviam fincado uma longa e grossa borduna no ch\u00e3o. Duas mulheres da tribo se dedicavam a afiar a ponta usando facas de pedra. Elas lhe sorriram com maldade e ele sentiu uma pontada psicol\u00f3gica no psico.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Muito bem, mas eu exijo o direito de levar uma bordunada bem aqui na testa, \u00f3, se come\u00e7ar a babar!&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O paj\u00e9 e o cacique assentiram, ent\u00e3o o prisioneiro sorveu a colherada.<\/p>\n\n\n\n<p>Passou-se uma hora, passou-se outra. Ele j\u00e1 come\u00e7ando a ficar sorridente. Parecia que a comida, apesar de n\u00e3o muito saborosa, era segura. Foi at\u00e9 a panela e pegou mais duas colheradas para forrar a barriga que do\u00eda de uma fome muito presente. Minutos depois teve convuls\u00f5es e morreu depressa, sem que lhe dessem bordunada alguma. E ningu\u00e9m teve coragem de com\u00ea-lo tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Um dia e meio ainda n\u00e3o resolveu\u2026 Tr\u00eas colheradas matam ainda. Vamos cozinhar mais.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Mais tr\u00eas dias e meio depois, o cacique chamou o bravo guerreiro Piriri\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Voc\u00ea que se deita com filha do cacique e pouco faz de \u00fatil \u00e0 tribo. Hora de provar seu valor. Come!&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Mas, chefe, a sua filha \u00e9 que \u00e9 muito insistente comigo, eu na verdade gostava mesmo era da Yara e\u2026&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Come, seu in\u00fatil!&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O genro do chefe, muito relutantemente, engoliu a colherada de mani\u00e7oba. Ent\u00e3o a filha do chefe veio com uma borduna \u00e0 m\u00e3o, batendo-a contra o ch\u00e3o e dizendo:  &#8220;Traste, imundo! Gosta de meu corpo, mas gosta mesmo \u00e9 da Yara! Come mais uma colherada!&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Piedade, meu amor! Eu s\u00f3 falei aquilo para o seu pai n\u00e3o me funfnf&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Engoliu as palavras junto com a segunda colherada.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Come mais uma colherada!&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Mas eu j\u00e1 comi duas, meu amor! Por que prevss&#8230;?&#8221; <\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Come mais uma!&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Mas agora j\u00e1 s\u00e3o tr\u00eas, minha vida! Luz de meus olhos!&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Obedece minha filha, guerreiro Piriri!&#8221; &#8212; esbravejou o cacique.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim o bravo guerreiro Piriri foi for\u00e7ado a comer umas vinte colheradas da mani\u00e7oba, mais da metade da panela.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Chefe, meu amor!&#8221; \u2014 Dizia ele j\u00e1 confundindo as pessoas \u2014 &#8220;Eu n\u00e3o como mais porque nem tem espa\u00e7o na barriga.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Assim permitiu o chefe que o guerreiro Piriri se afastasse e ele foi se sentar quieto em um canto.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas horas seguintes ele n\u00e3o sentiu quase nada, a n\u00e3o ser um inc\u00f4modo estomacal crescente. Mas nada de c\u00e3ibras, convuls\u00f5es ou sufocamento. Sentiu, por\u00e9m, uma compuls\u00e3o estranha por se afastar do resto da tribo, como se a natureza o chamasse.<\/p>\n\n\n\n<p>Vendo que Piriri n\u00e3o morria, o resto da tribo atacou o cozido, com menos exagero, e todos ficaram felizes.<\/p>\n\n\n\n<p>O lugar onde Piriri foi descansar, longe da tribo, ficou marcado por frondosas \u00e1rvores que cresciam muito mais que as outras que havia em volta e o nome dele se tornou uma lenda para toda a tribo. As m\u00e3es sempre o lembravam quando os filhos queriam comer demais: &#8220;Vai dar Piriri&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma tribo errante estava perdida h\u00e1 muitos dias por uma regi\u00e3o desconhecida, onde os animais eram diferentes e as plantas n\u00e3o se pareciam com as que tinham o h\u00e1bito de comer. Com a reserva de comida come\u00e7ando a acabar, precisavam urgentemente encontrar alguma outra fonte de alimento. Foi ent\u00e3o que encontraram uma planta que por ali crescia abundantemente e que tinha folhas verdejantes e gra\u00fadas. Nenhum inseto a parasitava e a seca n\u00e3o afetara sua beleza. 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