{"id":7194,"date":"2020-05-26T05:45:00","date_gmt":"2020-05-26T08:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=7194"},"modified":"2020-05-25T20:16:23","modified_gmt":"2020-05-25T23:16:23","slug":"autoinfligido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2020\/05\/autoinfligido\/","title":{"rendered":"Autoinfligido"},"content":{"rendered":"\n<p>N\u00e3o sou de sustentar suspense para subverter o enredo l\u00e1 perto do fim, o que hoje em dia se chama de fazer <em>plot twist<\/em>, ent\u00e3o tenho que come\u00e7ar essa hist\u00f3ria diretamente dando o spoiler: tudo aconteceu por causa da chuva e de uma toalha molhada.<\/p>\n\n\n\n<p>Por cinco noites consecutivas tinha chovido pesado aleatoriamente. Eu n\u00e3o tinha confian\u00e7a de sair e deixar a toalha molhada secando no varal por medo de uma ventania arranc\u00e1-la dos pregadores e lev\u00e1-la embora. Era, devo dizer, a \u00faltima toalha limpa que eu tinha, a m\u00e1quina de lavar estava quebrada e eu ainda precisava esperar o fim da semana para visitar a minha m\u00e3e e usar a dela. Se eu n\u00e3o cuidasse da minha \u00faltima toalha eu teria que comprar uma nova &#8212; e para que faria isso, sendo que eu j\u00e1 tinha suficientes. Chamem-me de estranho, mas eu realmente n\u00e3o acredito que seja certo um homem solteiro possuir mais do que cinco toalhas de banho.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o foi por causa de ser t\u00e3o sistem\u00e1tico e sovina que eu resolvi economizar a quinta toalha &#8212; e nisso n\u00e3o ajudava a chuva que ca\u00eda inesperadamente desde cinco dias.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquela noite evitei tomar banho. Deixei para a manh\u00e3 seguinte, para ir fresco para o trabalho. Apenas lavei o rosto, as orelhas, os p\u00e9s e os antebra\u00e7os. Assim benzido como a gente de antigamente eu chequei o e-mail e fui dormir.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi uma noite cheia de sonhos intranquilos e pesadelos autoinfligidos. Lembro de pouca coisa &#8212; exceto que no derradeiro deles, o que mais me incomodou e que me fez acordar, envolvia Dr\u00e1cula e um estranho castelo labir\u00edntico. N\u00e3o me lembro exatamente como chegara \u00e0 Transilv\u00e2nia, ou ao lugar qualquer da beira do mundo onde vivia aquele velho dem\u00f4nio, mas eu caminhava devagar e cambaleante por um longo corredor ladeado de portas de masmorras. Estava fr\u00e1gil de corpo e de alma, como se algum s\u00facubo me tivesse atacado durante o sono, ou como se o vampiro me tivesse levado metade do sangue enquanto eu dormia.<\/p>\n\n\n\n<p>Apoiei uma m\u00e3o na parede, ela estava fria e \u00famida, como devem ser as paredes de por\u00f5es. \u00c0 minha esquerda uma cela aberta, atulhada de objetos grandes e de formas sombrias, com uma janela gradeada abaixo da linha do ch\u00e3o. O c\u00e9u azul-escuro parecia iluminado por uma lua g\u00e9lida e aguda. \u00c0 direita eu escutava gotejar, plec, plec, gotas caindo de uma altura imprecisa e estalando no ch\u00e3o duro, onde uma po\u00e7a se firmara.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu tinha sede, muita sede. Tinha a sensa\u00e7\u00e3o difusa de que procurava \u00e1gua, de que sabia onde havia \u00e1gua. Mas tinha medo de algo que havia em frente, entre minha boca seca e o al\u00edvio de meu sofrimento. <\/p>\n\n\n\n<p>A coisa aparecera quando o primeiro rel\u00e2mpago cortara a escurid\u00e3o. Parecia haver outra janela mais \u00e0 frente. A luz do rel\u00e2mpago revelara uma forma vermelha amea\u00e7adora que parecia agachada em um canto, pronta para saltar sobre mim e atingir a minha garganta. <\/p>\n\n\n\n<p>Aquilo estava a uma altura de metro e meio, ou pouco mais. Suas costas, retas, estavam viradas para a minha direita. A cabe\u00e7a, <em>se havia uma cabe\u00e7a<\/em>, olhava para a esquerda, perdida em um halo preto de cabelos indistintos. Eu n\u00e3o via realmente cabe\u00e7a alguma, apenas supunha que tinha de haver, porque aquela forma seria terrivelmente sobrenatural se n\u00e3o tivesse.<\/p>\n\n\n\n<p>A coisa n\u00e3o se moveu, mas tive a impress\u00e3o de que se remexia, bem devagar. Um segundo rel\u00e2mpago a rep\u00f4s no mesmo lugar, silenciosa e atenta sempre \u00e0 esquerda.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando dei o passo seguinte e fraquejaram-me as pernas, a m\u00e3o direita n\u00e3o encontrou parede, mas uma porta aberta. Estendi depressa a m\u00e3o esquerda e agarrei uma coisa que cedeu em minha dire\u00e7\u00e3o. For\u00e7ando-me \u00e0 frente, tentando n\u00e3o cair, encontrei um desn\u00edvel do ch\u00e3o e me desequilibrei definitivamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma queda normalmente n\u00e3o demora mais do que um piscar de olhos, mas aquela me pareceu durar quase tanto quanto um filme. Ca\u00ed devagar como uma folha que se desprende de uma \u00e1rvore &#8212; ou  tive essa impress\u00e3o. Meu calcanhar achou apoio no desn\u00edvel, mas as minhas costas encontram algo \u00e1spero que se abra\u00e7ou a mim, com a frieza \u00famida de um cad\u00e1ver.<\/p>\n\n\n\n<p>Debati-me, tentando me desenvencilhar daquilo. Outro rel\u00e2mpago e pude ver melhor a coisa vermelha, t\u00e3o perto de mim. Eu acho que gritei, n\u00e3o tenho certeza, tamb\u00e9m devo ter batido a cabe\u00e7a no ch\u00e3o e perdi os sentidos em uma tempestade de estrelas, mas logo me recuperei.<\/p>\n\n\n\n<p>Estava deitado no ch\u00e3o da cozinha, com uma bruta dor de cabe\u00e7a e a minha toalha molhada ca\u00edda sobre a minha cara e o meu peito. <\/p>\n\n\n\n<p>Com alguma dificuldade eu me levantei, acendi a luz e descobri que deixara a toalha pendurada perto da geladeira, para secar \u00e0 sombra.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi somente isso o que aconteceu, essas pequenas cicatrizes que tenho no pesco\u00e7o n\u00e3o t\u00eam nada a ver com a hist\u00f3ria. Agora tenho de terminar esse conto porque o dia j\u00e1 vai amanhecendo e eu virei a noite cheio de grandes projetos e preciso descansar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sou de sustentar suspense para subverter o enredo l\u00e1 perto do fim, o que hoje em dia se chama de fazer plot twist, ent\u00e3o tenho que come\u00e7ar essa hist\u00f3ria diretamente dando o spoiler: tudo aconteceu por causa da chuva e de uma toalha molhada. Por cinco noites consecutivas tinha chovido pesado aleatoriamente. Eu n\u00e3o tinha confian\u00e7a de sair e deixar a toalha molhada secando no varal por medo de uma ventania arranc\u00e1-la dos pregadores e lev\u00e1-la embora. 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