{"id":7313,"date":"2020-08-23T21:03:30","date_gmt":"2020-08-24T00:03:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=7313"},"modified":"2020-08-23T21:03:31","modified_gmt":"2020-08-24T00:03:31","slug":"historia-de-gente-trabalhadora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2020\/08\/historia-de-gente-trabalhadora\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria de Gente Trabalhadora"},"content":{"rendered":"\n<p>Essa hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 engra\u00e7ada, ela \u00e9 completamente surrealista e n\u00e3o ficaria mal em um filme do Bu\u00f1uel.<\/p>\n\n\n\n<p>Era 1993 e eu estava em uma &#8220;miss\u00e3o secreta&#8221; a servi\u00e7o do BEMGE, banco em que eu ent\u00e3o trabalhava. O Credireal estava fechando v\u00e1rias ag\u00eancias no estado e o BEMGE as assumiria para manter os servi\u00e7os em funcionamento. Como os fechamentos de ag\u00eancia eram segredo, n\u00e3o foi poss\u00edvel fazer preparativos: nos reunimos no domingo de manh\u00e3 para um dia inteiro de treinamentos em Juiz de Fora, dormimos num hotel em Juiz de Fora, no dia seguinte foram escolhidas as equipes que assumiriam cada ag\u00eancia do Credireal que fechava. Eu fiquei na equipe que ia para S\u00e3o Jo\u00e3o Nepomuceno.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tenho esperan\u00e7a de que algum dos envolvidos confirme a hist\u00f3ria (por motivos que o leitor entender\u00e1), mas fa\u00e7o quest\u00e3o de dizer que foi mesmo em S\u00e3o Jo\u00e3o Nepomuceno.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, as 8h00 da manh\u00e3 sa\u00edmos de Juiz de Fora em kombis alugadas pelo BEMGE (cada equipe em uma) e nos dirigimos aos lugares devidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando chegamos a S\u00e3o Jo\u00e3o Nepomuceno (fa\u00e7o quest\u00e3o de frisar que foi l\u00e1) tampouco houve oportunidade para fazer planos. Tivemos de chegar, executar a interven\u00e7\u00e3o, absorver o pr\u00e9dio, o numer\u00e1rio e um monte de outras coisas. Mal tivemos tempo de comer (nos enviaram sandu\u00edches na hora do almo\u00e7o) e s\u00f3 sa\u00edmos do servi\u00e7o \u00e0s 19h.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de ser segunda-feira, para nosso espanto n\u00e3o havia vagas nos hot\u00e9is da cidade. Se n\u00e3o me falha a mem\u00f3ria (algum corajoso sanjoanense me corrigir\u00e1) havia uma esp\u00e9cie de congresso evang\u00e9lico na cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns de n\u00f3s pensamos em voltar de carro e dormir em casa, mas eu era quem morava mais perto, n\u00e3o tinha carro e minha casa n\u00e3o poderia hospedar os colegas. Ent\u00e3o decidimos nos hospedar, por sugest\u00e3o do gerente, no &#8220;Hotel Motel Trevo&#8221;, localizado na sa\u00edda da cidade, em dire\u00e7\u00e3o a Juiz de Fora e Rio Novo. O dono do local nos prometeu que nos forneceria uma nota com nome de &#8220;Hotel Trevo&#8221; para pedirmos o ressarcimento ao BEMGE.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegamos ao motel \u00e0s 21h, j\u00e1 meio b\u00eabados, porque tivemos que ir a um bar encher a caveira depois do servi\u00e7o. Uma vez no motel, ficamos eu e mais tr\u00eas caras em um quarto e as duas meninas no outro. O dono do motel providenciou para n\u00f3s uma beliche no jardim de inverno (onde eu dormi) e um colch\u00e3o no ch\u00e3o ao lado da cama de casal.<\/p>\n\n\n\n<p>E assim fomos dormir. O primeiro dia foi tranquilo. Nada de anormal.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas no segundo dia, hist\u00f3ria parecida, todo mundo cansado e dormindo cedo. L\u00e1 pelas onze da noite n\u00f3s nos despertamos com uma algazarra incr\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um quarto ao lado acontecia uma festa improv\u00e1vel, entre o que parecia ser pelo menos um homem, duas mulheres e um travesti. Ou entre dois homens bissexuais e duas mulheres bissexuais. N\u00e3o sei exatamente o que. S\u00f3 sei que pelos gritos exagerados eles estavam se divertindo muito e que em dados momentos as mulheres estavam somente estimulando e rindo do que quer que os rapazes fizessem. Um desses rapazes tinha uma voz afeminada e era o que mais gemia.<\/p>\n\n\n\n<p>Como est\u00e1vamos fora do nosso elemento, achamos por bem ficarmos quietos. Afinal, l\u00e1 \u00e9 justamente lugar para se fazer isso \u2014 n\u00e3o lugar de banc\u00e1rio cansado dormir. Mas quando a algazarra j\u00e1 passava de quarenta minutos (e nem havia Viagra naquela \u00e9poca), ouvimos algu\u00e9m dizer a fala mais surreal que eu j\u00e1 ouvi at\u00e9 hoje:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00eas fa\u00e7am o favor de parar com essa balb\u00fardia porque aqui tem gente trabalhadora precisando dormir para acordar cedo amanh\u00e3!<\/p>\n\n\n\n<p>Eu tenho a certeza de que o \u00fanico motivo pelo qual a gente que participava da balb\u00fardia n\u00e3o deu a resposta merecida foi por receio de que o dono do lugar espalhasse a hist\u00f3ria na cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o est\u00e1. Vinte e sete anos depois eu a estou espalhando. Se voc\u00ea \u00e9 de S\u00e3o Jo\u00e3o Nepomuceno, tem mais de 50 anos e disser que me odeia eu saberei que voc\u00ea estava no quarto ao lado\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Essa hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 engra\u00e7ada, ela \u00e9 completamente surrealista e n\u00e3o ficaria mal em um filme do Bu\u00f1uel. Era 1993 e eu estava em uma &#8220;miss\u00e3o secreta&#8221; a servi\u00e7o do BEMGE, banco em que eu ent\u00e3o trabalhava. O Credireal estava fechando v\u00e1rias ag\u00eancias no estado e o BEMGE as assumiria para manter os servi\u00e7os em funcionamento. Como os fechamentos de ag\u00eancia eram segredo, n\u00e3o foi poss\u00edvel fazer preparativos: nos reunimos no domingo de manh\u00e3 para um dia inteiro de treinamentos em Juiz de Fora, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[46],"tags":[45,63,41],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7313"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7313"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7313\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7314,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7313\/revisions\/7314"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7313"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7313"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7313"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}