{"id":7335,"date":"2020-09-20T23:45:15","date_gmt":"2020-09-21T02:45:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=7335"},"modified":"2020-09-22T21:19:56","modified_gmt":"2020-09-23T00:19:56","slug":"a-questao-do-racismo-no-legendarium-de-tolkien-e-o-fanatismo-dos-seguidores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2020\/09\/a-questao-do-racismo-no-legendarium-de-tolkien-e-o-fanatismo-dos-seguidores\/","title":{"rendered":"A Quest\u00e3o do Racismo no Legendarium de Tolkien e o Fanatismo dos Seguidores"},"content":{"rendered":"\n<p>J\u00e1 faz algum tempo que publiquei aqui mesmo no blog algumas reflex\u00f5es sobre aqueles a quem chamei de \u201cpessoas execr\u00e1veis\u201d, isto \u00e9, <a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/12\/o-que-fazer-com-a-arte-de-pessoas-execraveis\/\">autores <\/a><a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/12\/o-que-fazer-com-a-arte-de-pessoas-execraveis\/\">e artistas do passado cuja obra cont\u00e9m elementos que, aos olhos de hoje, n\u00e3o s\u00e3o mais aceit\u00e1veis<\/a>. Isso foi em 2017, muito, mas muito antes da onda atual de \u201ccancelamentos\u201d na internet. Desde ent\u00e3o eu retornei ao tema v\u00e1rias vezes ao tema, em ensaios como \u201c<a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2020\/03\/os-crimes-dos-autores\/\">Os Crimes dos Autores<\/a>\u201d, \u201c<a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2018\/01\/nao-matemos-os-livros-por-causa-de-nossos-pecados\/\">N\u00e3o Matemos os Livros Por Causa de Nossos Pecados<\/a>\u201d, \u201c<a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2015\/04\/ainda-sera-possivel-falar-do-brasil\/\">Ainda Ser\u00e1 Poss\u00edvel Falar do Brasil<\/a>\u201d e \u201c<a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2020\/05\/lobato-o-espinho-que-se-recusa-a-inflamar\/\">Lobato: O Espinho Que Se Recusa a Inflamar<\/a>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em todos esses coment\u00e1rios, apesar de alguma evolu\u00e7\u00e3o dos detalhes da minha opini\u00e3o, eu me mantive coerente com uma tese central: <em>exceto em casos realmente extremos, n\u00e3o devemos permitir que a hist\u00f3ria da literatura e da arte seja obliterada pela evolu\u00e7\u00e3o dos paradigmas morais que evolu\u00edmos gradualmente. <\/em>Esta tese \u00e9 bastante simples e necess\u00e1ria: temos de preservar o legado hist\u00f3rico do passado, em vez de esteriliz\u00e1-lo de suas contradi\u00e7\u00f5es, porque qualquer altera\u00e7\u00e3o bem intencionada \u00e9 semelhante em m\u00e9todo (ainda que n\u00e3o em ideologia e objetivos) a qualquer adultera\u00e7\u00e3o mal intencionada. N\u00e3o se deve atirar o passado no buraco da mem\u00f3ria, reescrevendo a hist\u00f3ria com nossos olhos de hoje, por mais que sejamos tentados a, como nos lembrou Nietzsche, permitir que nosso orgulho triunfe sobre a nossa consci\u00eancia. O passado \u00e9 testemunha de quem fomos e do caminho que percorremos at\u00e9 nos tornarmos quem hoje somos. Preservar o passado, com suas imperfei\u00e7\u00f5es, seus erros <em>e at\u00e9 os seus crimes<\/em> \u00e9 como podemos preservar a nossa identidade profunda.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso n\u00e3o quer dizer, por\u00e9m, que se deve ignorar o debate dessas quest\u00f5es, que se deveria permitir que esses livros fossem lidos sem contexto ou preparo. Nenhuma obra de arte \u00e9 neutra ou fala por si. Toda obra de arte \u2014 e literatura \u00e9 arte, mesmo a literatura comercial, at\u00e9 mesmo a literatura ruim \u2014 existe em torno das possibilidades de <em>interpreta\u00e7\u00e3o<\/em> que oferece. Uma obra que n\u00e3o permite diferentes interpreta\u00e7\u00f5es \u00e9 uma obra rasa e que dificilmente cativa a leitura. Em suma: as obras do passado devem dialogar conosco. Elas talvez n\u00e3o digam tudo que queremos ouvir, e se o disserem certamente n\u00e3o o dir\u00e3o <em>como<\/em> gostar\u00edamos que dissessem, mas <em>cancelar <\/em>uma obra ou autor por n\u00e3o espelhar nossos valores \u00e9 uma prova de imaturidade que s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 maior do entroniz\u00e1-la sem questionamentos.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 certas \u201cvacas sagradas\u201d na literatura sobre as quais pesam suspeitas de terem cometido \u201cpecados\u201d modernos, como o racismo, o sexismo, o eurocentrismo, a misoginia etc. Algumas dessas s\u00e3o realmente cl\u00e1ssicas, outras s\u00e3o produ\u00e7\u00f5es secund\u00e1rias de autores reputados por outras menos question\u00e1veis. Esses questionamentos tendem a surgir devagar porque a tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 muito resistente a desafios. O debate sobre Monteiro Lobato, por exemplo, j\u00e1 vem rolando desde o in\u00edcio aproximadamente 2010 e em 2011 j\u00e1 havia rendido a <a href=\"https:\/\/www.geledes.org.br\/ziraldo-e-lobato-desenho-racismo-brasileira\/\">interfer\u00eancia do cartunista Ziraldo<\/a>:<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\"><figure class=\"alignleft size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"285\" height=\"177\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/image.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-7336\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/image.png 285w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/image-250x155.png 250w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/image-120x75.png 120w\" sizes=\"(max-width: 285px) 100vw, 285px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Este debate, surgido na esteira da republica\u00e7\u00e3o de<em> O Presidente Negro<\/em>,vem desde aquela \u00e9poca e <em>ainda n\u00e3o triunfou<\/em> completamente. Lobato ainda tem defensores e eu mesmo confesso que, devido \u00e0 forte mem\u00f3ria afetiva evocada pelo S\u00edtio do Picapau Amarelo, demorei um pouco a entender o que estava acontecendo. Como Ziraldo, autor do cartum acima, eu reagi energicamente \u00e0 ideia de que Lobato era um racista. Felizmente eu n\u00e3o me comprometi publicamente com a defesa dele, e reservei minhas possibilidades de reflex\u00e3o para melhorar meu entendimento do caso.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns debates s\u00e3o ainda mais antigos, como a ressignifica\u00e7\u00e3o das obras de Rudyard Kipling e J. R. R. Tolkien, outros avan\u00e7aram mais, como aquele sobre o legado de Orson Scott Card, e outros s\u00e3o muito mais ruidosos, como as frequentes tempestades causadas pelas opini\u00f5es pol\u00eamicas que J. K. Rowling n\u00e3o consegue guardar para si mesma. Kipling, que j\u00e1 foi visto como modelo \u00e9tico e moral ideal (rapazes de minha gera\u00e7\u00e3o foram muito admoestados a seguir os princ\u00edpios de seu poema \u201cSe \u00c9s Capaz\u201d), hoje foi reavaliado como basicamente um propagandista do Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico e sua empreitada de subjuga\u00e7\u00e3o do Subcontinente Indiano. O caso de Tolkien, por\u00e9m, \u00e9 muito mais complexo.<\/p>\n\n\n\n<p>Bi\u00f3grafos do autor s\u00e3o un\u00e2nimes em apontar v\u00e1rios deslizes racistas em sua biografia pessoal \u2014 mas esses epis\u00f3dios tendem a se concentrar em sua juventude. Ningu\u00e9m nega que Tolkien melhorou como pessoa ao longo da vida, que essa evolu\u00e7\u00e3o foi cont\u00ednua e irrevers\u00edvel e que em suas obras ele j\u00e1 adotava princ\u00edpios eticamente muito superiores, por exemplo, aos de Kipling (e nem falemos de Monteiro Lobato aqui). O debate sobre o \u201cracismo de Tolkien\u201d n\u00e3o \u00e9, portanto, sobre seus valores e vida privada; mas sobre os s\u00edmbolos presentes em sua obra que foram adotados e ressignificados depois pelo supremacismo branco. De certa maneira, Tolkien \u00e9 v\u00edtima do mesmo mal que sobreveio a Nietzsche: ambos sofreram (e sofrem) por causa de seus f\u00e3s. Dois dos grandes f\u00e3s de Nietzsche foram Ayn Rand e Hitler. Entre os grandes f\u00e3s de Tolkien est\u00e3o os supremacistas brancos:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>N\u00e3o se trata, por\u00e9m, de tentar acusar o falecido autor de racista. Tolkien pessoalmente ficou enojado com o nazismo e n\u00e3o podia entender o romantismo nacionalista ou a ideia de que um pa\u00eds era definido por uma ra\u00e7a. Isto pode ser visto, por exemplo, em seu discurso sobre as l\u00ednguas inglesa e galesa no livro <em>Os Monstros e os Cr\u00edticos<\/em>. Algumas coisas, por\u00e9m, que fazem parte do mundo apresentado em <em>O Senhor dos Aneis<\/em> tiveram origem no mundo real ou na vida do autor, e precisam ser discutidas .<\/p><cite>(BLOMQVIST, 2001)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Obviamente existe uma discrep\u00e2ncia entre os valores pessoais expressos de Tolkien, que foi t\u00e3o claramente contr\u00e1rio ao nazismo que tentou impedir uma tradu\u00e7\u00e3o de <em>O Hobbit<\/em> para o alem\u00e3o, e os valores nos quais se baseou para construir seu mundo imagin\u00e1rio. Ao escolher esses valores e refer\u00eancias, que s\u00e3o os mesmos adotados pelos nazistas, Tolkien se exp\u00f4s ao risco de ser apropriado pelos mesmos a quem se opunha enquanto cidad\u00e3o. <em>Se n\u00e3o for feito o debate sobre os elementos controversos presentes na obra de Tolkien, eles ser\u00e3o cada vez mais apropriados por supremacistas brancos e o estigma sobre a obra do autor se aprofundar\u00e1, por mais que seus f\u00e3s esperneiem que ele n\u00e3o foi racista.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Todo \u201cf\u00e3\u201d \u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, fan\u00e1tico, ou seja, algu\u00e9m que pensa irracionalmente a respeito daquilo de que gosta. O pensar irracional inclui n\u00e3o aceitar que seu \u00eddolo tenha imperfei\u00e7\u00f5es, o que j\u00e1 \u00e9 um n\u00edvel inaceit\u00e1vel de irracionalidade, mas, no extremo, pode chegar at\u00e9 a fechar os olhos para <em>interpreta\u00e7\u00f5es imperfeitas<\/em> de seu \u00eddolo. De modo algum podemos culpar o autor pelo que cometem aqueles que gostam de sua obra, mas o resgate da filosofia de Nietzsche n\u00e3o ocorreu porque os nazistas, fan\u00e1ticos por ele, conseguiram calar o debate, mas justamente porque, eliminando a horda de fan\u00e1ticos, foi poss\u00edvel discutir maduramente os t\u00f3picos de seu pensamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Um debate sobre a um autor do passado e sua obra deve come\u00e7ar, portanto, <em>negando o direito de palavra ao que pensa e responde como f\u00e3.<\/em> Como diz R\u00e9gis Tadeu, \u201ctodo f\u00e3 \u00e9 retardado\u201d. Enquanto uma pessoa n\u00e3o for capaz de se distanciar de seu \u00eddolo a ponto de ouvir calmamente uma cr\u00edtica a respeito dele e responder com argumentos, esta pessoa n\u00e3o dir\u00e1 nada que mere\u00e7a ser ouvido porque reagir\u00e1 defensivamente e n\u00e3o refletir\u00e1 sobre o que foi dito.<\/p>\n\n\n\n<p>Por todo o mundo h\u00e1 ensaios acad\u00eamicos, artigos na imprensa e pe\u00e7as de opini\u00e3o que questionam os aspectos racistas do legend\u00e1rio de Tolkien e apontam suas origens, como, por exemplo:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Embora muitos desses conceitos n\u00e3o fossem originalmente de Tolkien, suas obras os apresentaram de maneira que se tornariam a funda\u00e7\u00e3o da imag\u00edstica fant\u00e1stica como meton\u00edmia alusiva para a semiosfera do fant\u00e1stico. <em>Algumas dessas conven\u00e7\u00f5es se basearam em conceitos e tra\u00e7os que o p\u00fablico podia entender como alus\u00f5es \u00e0s preocupa\u00e7\u00f5es de seu mundo real e seus &#8212; muitas vezes fortemente preconceituosos &#8212; arqu\u00e9tipos raciais.<\/em><\/p><cite>Loponen (2019).<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Esse debate precisa ser abordado de diversas frentes porque ele tende a ser afetado pela perspectiva do leitor em sua cultura local. Americanos, por exemplo, tendem a defender enfaticamente a conviv\u00eancia pac\u00edfica entre ra\u00e7as diferentes da Terra M\u00e9dia, como humanos e hobbits, que dividem o condado de Bree, como se isso provasse a inexist\u00eancia de racismo. Estudiosos origin\u00e1rios de outros contextos socioculturais enxergar sutilezas textuais que muitas vezes n\u00f3s brasileiros (e os americanos tamb\u00e9m) n\u00e3o vemos porque j\u00e1 <em>naturalizamos<\/em> esses aspectos do racismo em nossa cultura. A conviv\u00eancia pac\u00edfica de dois povos que chegam a ser definidos como de <em>esp\u00e9cies diferentes<\/em> era o objetivo do regime de <em>apartheid<\/em> na \u00c1frica do Sul. <\/p>\n\n\n\n<p>O racismo n\u00e3o precisa ser agressivo. Por exemplo, Rufo (2020) explica de que maneira a origem dos orcs evoca o processo de desumaniza\u00e7\u00e3o dos povos negros:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Na Primeira Era de <em>O Silmarillion<\/em>, os orcs, cria\u00e7\u00f5es do inimigo Melkor, eram tidos como elfos que foram deformados por ele, tornando-se seres de corpo atarracado, pele cinza e personalidade cruel. Logo, em todas as Eras da Terra-M\u00e9dia, os orcs s\u00e3os valorados como negativos e limitados a essa constitui\u00e7\u00e3o enquanto indiv\u00edduos. Na literatura, principalmente na fant\u00e1stica, <em>os corpos negativos s\u00e3o limitados a certos povos que, em uma rela\u00e7\u00e3o dicot\u00f4mica de poder, est\u00e3o na posi\u00e7\u00e3o de subservi\u00eancia<\/em>. Por isso, eles perdem (muitas vezes, em algumas obras) seu teor polif\u00f4nico e heterog\u00eaneo. \u00c9 interessante notar que, ao se voltar para a realidade, <em>\u00e9 poss\u00edvel ver os mesmos movimentos de domina\u00e7\u00e3o e preconceito sobre corpos que foram historicamente dominados e escravizados, como os corpos do povo negro<\/em>.<\/p><cite>Rufo (2020)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio que Tolkien tenha sido racista enquanto indiv\u00edduo para que o conceito de que os orcs seriam elfos pervertidos pelas artes malignas de Melkor (o Satan\u00e1s da Terra M\u00e9dia) evoque o conceito historicamente conhecido de que os negros seriam humanos pervertidos pela influ\u00eancia maligna de Satan\u00e1s, atrav\u00e9s da Maldi\u00e7\u00e3o de Cam. Menos de cem anos antes de Tolkien o pregador americano Joseph Smith explicava de maneira muito parecida o surgimento das pessoas de pele negra:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>And he had caused the cursing to come upon them, yea, even a sore cursing, because of their iniquity &#8230; wherefore, <em>as they were white, and exceedingly fair and delightsome, that they might not be enticing unto my people the Lord God did cause a skin of blackness to come upon them<\/em>. And thus saith the Lord God: I will cause that they shall be loathsome unto thy people.<\/p><cite>Livro de M\u00f3rmon (2 Nefi, 5:21-22)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Essa desumaniza\u00e7\u00e3o que parte da diferencia\u00e7\u00e3o f\u00edsica \u00e9 um elemento existente em diversas mitologias antigas simplesmente porque <em>muitos povos antigos eram racistas no sentido de que toda a sua <\/em><em>cultura preconizava o exterm\u00ednio dos demais povos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>O racismo \u00e9 um mecanismo de opress\u00e3o e exclus\u00e3o social estabelecido quando os corpos de determinados sujeitos s\u00e3o negativamente valorados pura e simplesmente por sua etnia. Os corpos, atos sociais e capacidades intelectuais desses indiv\u00edduos s\u00e3o inferiorizados por eles pertencerem a uma etnia diferente daquela que det\u00e9m poder (material e\/ou simb\u00f3lico). A partir do momento que eu inferiorizo um grupo por ser diferente do outro, o afasto de caracter\u00edsticas que possam estabelecer um processo de empatia ou reconhecimento como pertencentes ocasionando em atitudes preconceituosas que levam a exclus\u00e3o ou extermina\u00e7\u00e3o. Processo comum sobre negros em rela\u00e7\u00e3o aos brancos e na II Guerra Mundial com os judeus e o estabelecimento do antissemitismo.<\/p><cite>Rufo (2020)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Entre os povos antigos, isso se traduzia em guerras violentas cujo objetivo era o genoc\u00eddio dos derrotados, como vemos em McRAE (2019), que descreve uma sepultura comum da Idade do Bronze, encontrada na Pol\u00f4nia, testemunha do massacre das mulheres, velhos e crian\u00e7as de uma aldeia enquanto os homens adultos jovens estavam a ca\u00e7ar ou em miss\u00e3o militar.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos dos mitos antigos evocam epis\u00f3dios semelhantes. A Guerra de Troia, por exemplo, tema da <em>Il\u00edada<\/em>, produziu, em sua fase final, o completo genoc\u00eddio dos troianos nas m\u00e3os dos gregos. O que o achado arqueol\u00f3gico da Pol\u00f4nia demonstra \u00e9 que essa pr\u00e1tica, descrita no \u00e9pico hel\u00eanico, pode ter sido a norma, n\u00e3o a exce\u00e7\u00e3o. Pode ser que as mudan\u00e7as de cultura na Europa Neol\u00edtica e na Idade do Bronze (antes da escrita) tenham sido determinadas por genoc\u00eddios frequentes praticados por povos invasores numerosos. O exemplo mais recente disso pode ter sido as invas\u00f5es mong\u00f3is, que despovoaram as estepes da \u00c1sia Central e mudaram a composi\u00e7\u00e3o \u00e9tnica daquela regi\u00e3o, at\u00e9 ent\u00e3o habitada majoritariamente por povos de pele branca e l\u00edngua indo-europeia.<\/p>\n\n\n\n<p>Rufo (2020) volta a observar que, como aquele que mata o inimigo \u00e9 visto como um her\u00f3i, em vez de um assassino (esta \u00e9 a \u00e9tica da guerra), construir a imagem de um povo como monstruoso \u00e9 uma forma de lhe relegar permanentemente ao papel de inimigo e assim legitimar e at\u00e9 estimular a viol\u00eancia contra os seus indiv\u00edduos. Os orcs s\u00e3o alvos porque padecem de um \u201cpecado original\u201d manifestado em sua pr\u00f3pria apar\u00eancia:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Nas descri\u00e7\u00f5es contidas na obra, os orcs seriam primeiro os elfos que ca\u00edram nas armadilhas de Melkor e foram corrompidos e, depois, membros de uma ra\u00e7a gerada em imita\u00e7\u00e3o aos elfos. Eles seriam algo como um mesti\u00e7o, uma mistura entre esses primeiros elfos que foram corrompidos e outra coisa ou ser que n\u00e3o se sabe qual seria. Assim, eles j\u00e1 s\u00e3o considerados como horrendos pelo fato de serem mesti\u00e7os, caracter\u00edstica que, por si s\u00f3, j\u00e1 gera um preconceito contra eles.<\/p><cite>Rufo (2020)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Afinal, depois que um corpo se afasta da humanidade, sua morte se torna aceit\u00e1vel ou at\u00e9 necess\u00e1ria \u2014 sendo frequentemente por meio cruel. \u00c9 justific\u00e1vel empregar meios excessivamente dolorosos contra eles porque eles n\u00e3o possuem sentimentos. Historicamente existiu um debate sobre se os negros teriam uma alma e at\u00e9 hoje h\u00e1 tentativas de desqualificar ou, pelo menos, limitar a humanidade dos negros, como em \u201cA Curva do Sino\u201d, de Charles Murray e Richard Herrnstein, obra que argumentou que os negros seriam sempre menos inteligentes que os brancos e que, portanto, investir em sua educa\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o intelectual seria desperd\u00edcio de dinheiro p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas estaria essa vis\u00e3o condicionada por nosso desejo de enxergar o mal em uma obra liter\u00e1ria inocente? Loponen (2019) \u00e9 bem enf\u00e1tico ao dizer que sua motiva\u00e7\u00e3o para abordar a quest\u00e3o racial em Tolkien foi a pergunta que lhe foi feita por sua filha de seis ano enquanto ele lhe lia <em>O Hobbit: <\/em>\u201cPor que todos os orcs s\u00e3o sempre maus?\u201d Para o autor, o questionamento vindo da boca de uma crian\u00e7a lhe despertou para a naturalidade com que ele mesmo antes aceitava que ser orc era o mesmo que ser mau. O pr\u00f3prio Loponen, por\u00e9m, admite que o problema mais grave n\u00e3o est\u00e1 em Tolkien, mas no g\u00eanero de fantasia como um todo, da\u00ed derivado, que criou uma \u201ccodifica\u00e7\u00e3o de cores\u201d para as criaturas. Essa codifica\u00e7\u00e3o, que vem sendo recentemente desafiada de maneira <em>deliberada<\/em>, evoluiu de maneira \u201cnatural\u201d em um g\u00eanero escrito majoritariamente por autores brancos.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Embora o racismo desse per\u00edodo possa ser parcialmente entendido no contexto do come\u00e7o do s\u00e9culo vinte em que muitos dos lugares-comuns da fantasia se originaram, a quest\u00e3o real \u00e9 como esses conceitos se consolidaram nos trabalhos subsequentes e na pr\u00f3pria gram\u00e1tica &#8212; no sentido semi\u00f3tico da palavra &#8212; de tais g\u00eaneros. <em>As caracter\u00edsticas relativas \u00e0 negritude e aos estere\u00f3tipos raciais se entrela\u00e7aram no tecido dos g\u00eaneros, carregando uma imag\u00edstica carregada de valores raciais obsoletos para o tecido da fic\u00e7\u00e3o de hoje.<\/em><\/p><cite>Loponen (2019)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>\u00c9 f\u00e1cil imaginar porque tanta gente se recusa a aceitar o racismo inerente \u00e0 obra de Tolkien, afinal, as tradu\u00e7\u00f5es tendem a atenuar certos aspectos. As descri\u00e7\u00f5es dos elfos, por exemplo, nos mostram como a m\u00e3o do tradutor suaviza o potencial racismo do original. Um adjetivo muito frequentemente usado em ingl\u00eas para descrever os elfos \u00e9 \u201cfair\u201d, traduzido como \u201cbelo\u201d, mas este adjetivo \u00e9 semanticamente carregado e pode ser entendido, conforme o contexto, como \u201cjusto ou honesto\u201d (<em>fair trade<\/em> n\u00e3o \u00e9 \u201ccom\u00e9rcio belo\u201d \u00e9 \u201ccom\u00e9rcio honesto ou justo\u201d) ou como \u201cbom ou bonito\u201d, o que normalmente significa \u201clouro\u201d. Quando procuramos no Google Images por \u201cfair hair\u201d (\u201ccabelo bom ou bonito\u201d), vemos isto:<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"768\" height=\"512\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/image-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-7337\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/image-1.png 768w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/image-1-250x167.png 250w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/image-1-120x80.png 120w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><figcaption>Esta garota, se tiver orelhinhas pontudas, bem poderia ser uma elfa.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Ao descrever os elfos como \u201cfair folk\u201d (\u201cbelo povo\u201d) Tolkien os estava, tamb\u00e9m, descrevendo como \u201cpovo louro\u201d. Mas a marca\u00e7\u00e3o de cor n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica que vigora aqui. Conforme o mesmo Loponen cita:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>As ra\u00e7as malignas recebem propriedades que podem ser facilmente ligadas a caricaturas preconceituosas de arqu\u00e9tipos raciais do mundo real, como canibalismo e estrutura tribal.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O legend\u00e1rio de Tolkien poderia ser descrito como uma Europa sitiada pelos mong\u00f3is e pelos sarracenos. Isto est\u00e1 consistente com a ambienta\u00e7\u00e3o medieval em que ele se inspirou \u2014 e n\u00e3o podemos culpar o autor por criar esses elementos e associa\u00e7\u00f5es, mas podemos, e devemos at\u00e9, questionar a escolha por esses elementos e os riscos que eles oferecem a interpreta\u00e7\u00f5es supremacistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns desses riscos, por\u00e9m, derivam diretamente de escolhas de palavras e temas que n\u00e3o t\u00eam a ver com a mitologia antiga, mas com o processo contempor\u00e2neo do colonialismo. Loponen (2019, p. 65) bota o dedo na ferida ao acusar Tolkien de descrever os orcs empregando conceitos e vocabul\u00e1rio coincidentes com a vis\u00e3o colonialista dos povos africanos subsaarianos:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Os orcs de Tolkien foram o produto da imag\u00edstica colonial do Outro. Em <em>O Senhor dos An\u00e9is <\/em>todas as descri\u00e7\u00f5es a respeito de orcs s\u00e3o consistentes com as representa\u00e7\u00f5es coloniais dos negros africanos. Orcs s\u00e3o descritos nos livros principalmente com adjetivos ou express\u00f5es que eram comumente reservadas para os negros na literatura colonial. Exemplos t\u00edpicos dessa imag\u00edstica incluem a pele escura: <em>dark skin, dark-skinned, black-skinned <\/em>e <em>black<\/em> s\u00e3o adjetivos t\u00edpicos e <em>swart<\/em> ou <em>swarthy<\/em> s\u00e3o usados frequentemente (nove vezes no romance e tr\u00eas nos ap\u00eandices, nem sempre descrevendo orcs, mas sempre de maneira pejorativa). Caracter\u00edsticas e pr\u00e1ticas canibais, tribalismo, habilidade lingu\u00edstica limitada, temperamento explosivo, grunhidos animalescos, inoc\u00eancia infantil combinada com ast\u00facia maligna e \u201crasteira\u201d, al\u00e9m de tra\u00e7os simiescos ou animalizados \u2014 como bra\u00e7os longos com dedos que se arrastam no ch\u00e3o \u2014 foram usados no discurso colonial sobre os negros africanos (Fanon, 1986 e Scott, 2010). Essas caracter\u00edsticas s\u00e3o tamb\u00e9m usadas para descrever orcs, bem como sua \u201cnatureza\u201d sendo capaz de apenas servirem a um mestre como escravos. A primeira vez que os protagonistas encontram orcs em Moria, eles s\u00e3o apresentados como \u201cgrandes e malignos: Uruks negros de Mordor\u201d e o chefe dos orcs tinha uma \u201ccara escura, larga e achatada\u201d. Quando Merry e Pippin s\u00e3o levados cativos pelos orcs, seus captores declaram que s\u00e3o \u201cservos da M\u00e3o Branca: a M\u00e3o que nos d\u00e1 carne humana para comer\u201d. Grishn\u00e1kh, um de seus captores, \u00e9 descrito com \u201cbra\u00e7os muito longos, que quase chegam ao ch\u00e3o\u201d e quando os orcs se referem aos humanos que os perseguem eles s\u00e3o chamados de \u201cpeles brancas\u201d.<\/p><cite>Loponen (2019,  p. 65)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Aqui j\u00e1 n\u00e3o se trata da reprodu\u00e7\u00e3o de uma mitologia do passado, mas da infiltra\u00e7\u00e3o do texto liter\u00e1rio por jarg\u00e3o contempor\u00e2neo do colonialismo, resultando na representa\u00e7\u00e3o do inimigo como a vers\u00e3o ficcionalizada do \u201ccafre\u201d, o africano feroz que se insurgia contra os ex\u00e9rcitos civilizados em grande n\u00famero (de que os zulus s\u00e3o o exemplo mais vivo na mem\u00f3ria coletiva).<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o aqui \u00e9 a tend\u00eancia, muito natural, de que os autores sejam influenciados pelo seu tempo. O mesmo Loponen nos diz que:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Quando n\u00e3o h\u00e1 jarg\u00e3o predefinido ou gram\u00e1tica contextual na semiosfera do g\u00eanero, os autores tendem a criar conceitos fant\u00e1sticos em refer\u00eancia a fen\u00f4menos existentes \u2014 como, no exemplo, conceitos e literatura coloniais \u2014 em sua semiosfera gen\u00e9rica. Assim, tendem a saturar sua nova irrealidade com alus\u00f5es e met\u00e1foras relativas a conceitos e estere\u00f3tipos existentes.<\/p><cite>(LOPONEN, 2019, p. 65)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>N\u00e3o pretendo me estender excessivamente no exame dessa quest\u00e3o, mas acredito que os argumentos apresentados s\u00e3o bastante convincentes no sentido de que Tolkien reproduziu o discurso corrente de sua \u00e9poca, inclusive a vis\u00e3o colonialista dos povos africanos negros, resultando em uma obra que simultaneamente dialoga com os arqu\u00e9tipos civilizacionais da antiguidade (onde a viol\u00eancia e o preconceito j\u00e1 est\u00e3o naturalmente presentes) e com a legitima\u00e7\u00e3o da opress\u00e3o neocolonial contempor\u00e2nea.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses problemas n\u00e3o se limitam a utiliza\u00e7\u00e3o da caracteriza\u00e7\u00e3o colonialista do negro, embora esta seja a mais claramente evidente, mas n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o aqui para abordar todos os aspectos existentes. <em>O racismo presente na obra de Tolkien se infiltrou nela a partir do &#8220;caldo de cultura&#8221; em que o autor viveu &#8212; apesar de, em alguns aspectos, ele ter sido um homem de car\u00e1ter e tolerante.<\/em>  <\/p>\n\n\n\n<p>O segundo grande problema \u00e9 justamente a utiliza\u00e7\u00e3o dos grandes arqu\u00e9tipos liter\u00e1rios do passado. Os antigos \u00e9picos est\u00e3o cheios de hist\u00f3rias em que, como vimos, o genoc\u00eddio e o racismo est\u00e3o presentes como elementos definidores do hero\u00edsmo. A escolha por contar essas hist\u00f3rias <em>mantendo esses elementos<\/em> n\u00e3o \u00e9 inocente quando se tem por objetivo exatamente celebrar a grandeza dos mitos. Ao fazer tal escolha, um homem como Tolkien; t\u00e3o conhecedor da literatura, da hist\u00f3ria e de seus s\u00edmbolos; estava, de fato, revelando suas aspira\u00e7\u00f5es mais profundas em rela\u00e7\u00e3o ao passado. Isto quer dizer que ele, por mais que se irritasse com a apropria\u00e7\u00e3o de sua obra pelos nazistas, n\u00e3o estava ideologicamente muito longe de certos setores que simpatizaram e apoiaram o nazismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Afinal, os nazistas n\u00e3o teriam se deixado fascinar por <em>O Hobbit<\/em> se n\u00e3o vissem na obra os elementos de idealiza\u00e7\u00e3o do passado que est\u00e3o presentes de maneira t\u00e3o clara nos ideais do fascismo.<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>BLOMQVIST J. <em>Race and racism in Middle-Earth &#8211; a study of Tolkiens The Lord of the Rings<\/em>. 2001.<\/p>\n\n\n\n<p>LIEBHERR, L. <a href=\"https:\/\/dspace.mic.ul.ie\/bitstream\/handle\/10395\/1526\/Liebherr%2C%20L.%20%282012%29%20Reimagining%20Tolkien%3A%20A%20Post-colonial%20Perspective%20on%20The%20Lord%20of%20the%20Rings.%20%28PhD%20thesis%29.pdf?sequence=2&amp;isAllowed=y\"><em>Reimagining Tolkien: A Post-colonial Perspective onThe Lord of the Rings<\/em><\/a><em>. <\/em>Universidade de Limerick (Irlanda): 2012.<\/p>\n\n\n\n<p>LOPONEN, M. <em><a href=\"https:\/\/helda.helsinki.fi\/handle\/10138\/299080\">The Semiospheres of Prejudice in the Fantastic Arts<\/a>: The Inherited Racism of Irrealia and Their Translation<\/em>. Universidade de Hels\u00ednquia (Finl\u00e2ndia): 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>McRAE, M. <em><a href=\"https:\/\/www.sciencealert.com\/this-5-000-year-old-grave-site-tells-a-tragic-tale-of-an-extended-family-s-murder\">Archaeologists Uncover a Truly Disturbing Story in a 5000-Year Old Mass Grave Site<\/a>. <\/em>Science Alert, 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>RUFO A. D. <a href=\"http:\/\/repositorio.ufscar.br\/handle\/ufscar\/13081\"><em>O <\/em><em>Corpo e o Outro<\/em><\/a><em>: Constitui\u00e7\u00e3o da Alteridade em uma Perspectiva Bakhtiniana de \u2018O Silmarillion\u2019 de J. R. R. Tolkien em Cotejo com o Racismo<\/em>. Universidade Federal de S\u00e3o Carlos. S\u00e3o Carlos, SP: UFSCAR 2020.<\/p>\n\n\n\n<p>VINK, R. <em>\u2018Jewish Dwarves\u2019: Tolkien and Anti-Semitic Stereotyping<\/em>. Tolkien Studies 10. West Virginia University: 2013.<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<ul><li><a href=\"https:\/\/tolkienista.com\/2020\/07\/31\/revisitando-o-tema-raca-no-legendarium-de-tolkien-construindo-culturas-e-ideologias-em-um-mundo-imaginario\/\">Revisitando o Tema \u2018Ra\u00e7a\u2019 no Legendarium de Tolkien<\/a>: Construindo Culturas e Ideologias em um Mundo Imagin\u00e1rio (<em>Tolkienista<\/em>)<\/li><li><a href=\"https:\/\/muse.jhu.edu\/article\/513824\/summary\">Race and Racism in Middle-Earth<\/a>: A Study of Tolkien\u2019s \u2018The Lord of the Rings\u2019 (<em>Universidade de Karlstadt, Su\u00e9cia<\/em>)<\/li><li><a href=\"https:\/\/theconversation.com\/was-tolkien-really-racist-108227\">Was Tolkien Really Racist<\/a>? (<em>The Conversation<\/em>)<\/li><li><a href=\"http:\/\/www.math.wisc.edu\/~mstemper2\/SpecFic\/Tolkien\/Racist\">Was the Lord of the Rings Racist<\/a>? (<em>Wisconsin University <\/em><em>at Madson<\/em>)<\/li><li><a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Tolkien_and_race\">Tolkien and Race<\/a> (<em>Wikipedia<\/em>)<\/li><li><a href=\"https:\/\/pillars.taylor.edu\/cgi\/viewcontent.cgi?article=1075&amp;context=inklings_forever\">Why Is the Only Good Orc a Dead Orc<\/a>? (<em>Inklings Forever<\/em>)<\/li><li><a href=\"https:\/\/scholarworks.wm.edu\/cgi\/viewcontent.cgi?article=2504&amp;context=honorstheses\">Just Right White: The Lord of the Rings Franchise and Postmodern Race and Racism<\/a> (<em>William &amp; Mary University<\/em>)<\/li><\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 faz algum tempo que publiquei aqui mesmo no blog algumas reflex\u00f5es sobre aqueles a quem chamei de \u201cpessoas execr\u00e1veis\u201d, isto \u00e9, autores e artistas do passado cuja obra cont\u00e9m elementos que, aos olhos de hoje, n\u00e3o s\u00e3o mais aceit\u00e1veis. Isso foi em 2017, muito, mas muito antes da onda atual de \u201ccancelamentos\u201d na internet. Desde ent\u00e3o eu retornei ao tema v\u00e1rias vezes ao tema, em ensaios como \u201cOs Crimes dos Autores\u201d, \u201cN\u00e3o Matemos os Livros Por Causa de Nossos Pecados\u201d, \u201cAinda Ser\u00e1 Poss\u00edvel Falar [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":7337,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[181],"tags":[13,24,57,206,308],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7335"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7335"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7335\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7340,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7335\/revisions\/7340"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7337"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7335"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7335"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7335"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}