{"id":7350,"date":"2020-12-09T10:26:00","date_gmt":"2020-12-09T13:26:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=7350"},"modified":"2020-12-09T00:06:58","modified_gmt":"2020-12-09T03:06:58","slug":"conselho-nao-se-traduz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2020\/12\/conselho-nao-se-traduz\/","title":{"rendered":"Conselho N\u00e3o Se Traduz"},"content":{"rendered":"\n<p>Uma das coisas que parecem escapar aos escritores amadores brasileiros \u00e9 que a l\u00edngua portuguesa, nossa ferramenta de trabalho mais essencial, possui um car\u00e1ter pr\u00f3prio. Fugir ao car\u00e1ter da l\u00edngua pode ser um objetivo interessante para um artista da palavra, mas ignor\u00e1-lo \u00e9 apenas ignor\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>O grande problema que nos aflige enquanto cultura liter\u00e1ria \u00e9 que, desde h\u00e1 pelo menos cinquenta anos, por obra e gra\u00e7a da ditadura, a influ\u00eancia da literatura estrangeira &#8212; notoriamente da literatura <em>comercial<\/em> americana &#8212; se tornou prevalente. Nossos jovens crescem lendo obras escritas por estrangeiros, principalmente por norte-americanos ou, pelo menos, por autores angl\u00f3fonos. Para al\u00e9m do problema da autoestima, criado pela dificuldade de se <em>reconhecer<\/em> em obras ambientadas em lugares distantes e cujos personagens t\u00eam nomes estrangeiros, h\u00e1 o problema da l\u00edngua.<\/p>\n\n\n\n<p>Repito que a l\u00edngua portuguesa tem um car\u00e1ter pr\u00f3prio, que \u00e9, inclusive, bastante diferente da l\u00edngua inglesa. Sem entrar em jarg\u00e3o ou descer a min\u00facias, as duas l\u00ednguas, de sa\u00edda, apresentam modelos completamente incompat\u00edveis de conjuga\u00e7\u00e3o verbal e de coloca\u00e7\u00e3o pronominal, empregam estrat\u00e9gias muito diferentes para o manuseio dos adjetivos e divergem significativamente na abund\u00e2ncia e regularidade das flex\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando um texto \u00e9 traduzido, corre-se sempre o risco de contrabandear para a l\u00edngua alvo alguma coisa da l\u00edngua original. Tradutores inexperientes padecem mais, frequentemente cometendo <em>calques<\/em>, tradu\u00e7\u00f5es pregui\u00e7osas que espelham a estrutura do original, sem respeitar a sem\u00e2ntica. Tradutores bons adquirem a habilidade de expressar na l\u00edngua alvo os conceitos do original sem precisar replicar estruturas gramaticais. Ambos os lados prejudicam a qualidade do trabalho quando exageram. Uma tradu\u00e7\u00e3o excessivamente servil e cheia de calques fica sempre parecendo pregui\u00e7osa. Uma tradu\u00e7\u00e3o muito ousada e focada na sem\u00e2ntica vai se afastar demais do estilo do original e se torna t\u00e3o &#8220;autoral&#8221; que pode at\u00e9 adquirir vida pr\u00f3pria, como o recente caso de uma <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/lithub.com\/on-draculas-lost-icelandic-sister-text\/\" target=\"_blank\">tradu\u00e7\u00e3o islandesa de &#8220;Dr\u00e1cula&#8221;<\/a>, de Bram Stoker, que introduz novos elementos na trama, retira cap\u00edtulos inteiros, muda a interpreta\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios s\u00edmbolos e hoje \u00e9 considerada, no geral, como dotada de uma prosa melhor. <\/p>\n\n\n\n<p>Entre uma tradu\u00e7\u00e3o servil e uma &#8220;recontagem&#8221; fica o terreno pac\u00edfico da &#8220;tradu\u00e7\u00e3o ideal&#8221;, que soa t\u00e3o natural quanto um texto originalmente escrito na l\u00edngua alvo, mas conserva o necess\u00e1rio estranhamento para que o leitor reconhe\u00e7a que o material pertence a outra cultura. Desta maneira, \u00e9 aceit\u00e1vel substituir frases feitas por outras equivalentes, mas n\u00e3o \u00e9 certo traduzir nomes&#8230; <\/p>\n\n\n\n<p>Em todos os casos, quem l\u00ea uma tradu\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem o benef\u00edcio da leitura do original e tampouco usufrui da plenitude dos recursos da l\u00edngua alvo. Porque h\u00e1 muitos aspectos em que o ingl\u00eas oferece <em>mais possibilidades<\/em> que o portugu\u00eas, tornando a tradu\u00e7\u00e3o imprecisa, mas h\u00e1 ainda mais casos em que \u00e9 o portugu\u00eas que oferece mais recursos. Um bom tradutor emprega esses recursos que nossa l\u00edngua tem e consegue us\u00e1-los para melhorar o seu trabalho. Um mau tradutor n\u00e3o consegue ver onde as ferramentas gramaticais e sem\u00e2nticas do portugu\u00eas caberiam e produz, ent\u00e3o, um texto que fica limitado pelas insufici\u00eancias do ingl\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto \u00e9 particularmente nocivo nas estruturas verbais, uma vez que o portugu\u00eas se caracteriza por ser abundante e vers\u00e1til na morfologia verbal e na conjuga\u00e7\u00e3o das formas flexionadas enquanto o ingl\u00eas \u00e9 paup\u00e9rrimo em flex\u00f5es e em morfologia verbal, preferindo fazer uso de estruturas anal\u00edticas (isto \u00e9, par\u00e1frases) para obter equival\u00eancia dos tempos verbais. N\u00e3o chega a ser restrito como idiomas isentos da pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de tempo verbal &#8212; como o chin\u00eas, o malaio, o japon\u00eas e algumas l\u00ednguas amer\u00edndias &#8212; mas apresenta uma l\u00f3gica verbal que n\u00e3o deixa de estar desconectada do portugu\u00eas em quase todo aspecto.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos principais sintomas de uma tradu\u00e7\u00e3o servil, feita por um autor que n\u00e3o domina a gram\u00e1tica do portugu\u00eas, \u00e9 transcrever essas par\u00e1frases sem se dar conta do sentido verbal que elas expressam. A longo prazo, gera\u00e7\u00f5es que cresceram lendo estas m\u00e1s tradu\u00e7\u00f5es come\u00e7am a naturalizar estruturas alien\u00edgenas <em>e menos expressivas<\/em>. M\u00e1s tradu\u00e7\u00f5es deseducam seus leitores.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o existiria o gerundismo (&#8220;vou estar ligando de volta&#8221;) se os tradutores soubessem que esse futuro ger\u00fandio do ingl\u00eas (<em>I&#8217;ll be calling back<\/em>) indica uma a\u00e7\u00e3o que continua at\u00e9 um futuro pr\u00f3ximo, diferente do futuro simples de <em>I&#8217;ll call.<\/em> Dizer <em>I&#8217;ll call<\/em> n\u00e3o cria compromisso. Vou ligar quando der, se calhar ligo dia trinta de fevereiro. Mas <em>I&#8217;ll be calling back<\/em> indica que eu n\u00e3o ligarei para mais ningu\u00e9m enquanto n\u00e3o lhe ligar de volta, sugere que meu retorno ocorrer\u00e1 pouqu\u00edssimo tempo depois de nos desligarmos porque a minha a\u00e7\u00e3o, a de ligar de volta, n\u00e3o se interrompeu, ent\u00e3o n\u00e3o precisar\u00e1 reiniciar. Em alguns contextos, esse futuro ger\u00fandio tamb\u00e9m indica uma a\u00e7\u00e3o iniciada e cont\u00ednua no futuro, uma esp\u00e9cie de futuro imperfeito, no\u00e7\u00e3o que n\u00e3o existe no portugu\u00eas. Na maioria dos casos, esse futuro imperfeito \u00e9, de fato, um futuro cont\u00ednuo e isso pode ser expressado em portugu\u00eas sem necessidade de ger\u00fandio usando a mais simples das estruturas: o presente do indicativo, afinal, nada \u00e9 mais <em>cont\u00ednuo<\/em> do que uma a\u00e7\u00e3o presente. <em>Eu ligo de volta<\/em> \u00e9 uma promessa mais segura do que <em>eu vou estar ligando.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Este exemplo pitoresco do gerundismo serve para alertar para a necessidade de se atentar para as diferen\u00e7as estruturais entre as duas l\u00ednguas ao se traduzir, mas, tamb\u00e9m, para enxergarmos uma obviedade: se as l\u00ednguas possuem diferen\u00e7as estruturais profundas, n\u00e3o necessariamente os mesmos recursos estil\u00edsticos funcionar\u00e3o em ambas. Tentar construir sua prosa a partir do entendimento de autores americanos e ingleses, <em>por mais que eles sejam competentes no seu fazer<\/em>, n\u00e3o o tornar\u00e1 um bom escritor em portugu\u00eas, no m\u00e1ximo o tornar\u00e1 um fazedor de pastiches.<\/p>\n\n\n\n<p>O que n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o haja um excelente mercado para pastiches. Milh\u00f5es de moscas n\u00e3o podem estar erradas: coma merda.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pr\u00f3xima semana eu detalho cinco conselhos estil\u00edsticos perversos que n\u00f3s copiamos de autores americanos e ingleses.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das coisas que parecem escapar aos escritores amadores brasileiros \u00e9 que a l\u00edngua portuguesa, nossa ferramenta de trabalho mais essencial, possui um car\u00e1ter pr\u00f3prio. Fugir ao car\u00e1ter da l\u00edngua pode ser um objetivo interessante para um artista da palavra, mas ignor\u00e1-lo \u00e9 apenas ignor\u00e2ncia. 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