{"id":7352,"date":"2020-12-11T17:07:00","date_gmt":"2020-12-11T20:07:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=7352"},"modified":"2020-12-09T00:59:18","modified_gmt":"2020-12-09T03:59:18","slug":"conselhos-mal-traduzidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2020\/12\/conselhos-mal-traduzidos\/","title":{"rendered":"Conselhos Mal Traduzidos"},"content":{"rendered":"\n<p>Na semana passada eu <a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2020\/12\/conselho-nao-se-traduz\/\">comecei a falar <\/a>sobre o problema de se adotar conselhos sobre estilo originalmente escritos pensando na estrutura gramatical e morfol\u00f3gica de uma l\u00edngua diferente da nossa. Hoje ponho mais carne nesse argumento, citando os seis conselhos mais nefandos que eu j\u00e1 encontrei at\u00e9 hoje:<\/p>\n\n\n\n<ol><li>Evitar a voz passiva;<\/li><li>Economizar adjetivos;<\/li><li>Evitar os adv\u00e9rbios;<\/li><li><em>Show, Don&#8217;t Tell<\/em>;<\/li><li>Preferir palavras curtas.<\/li><\/ol>\n\n\n\n<p>A voz passiva soa estranha em ingl\u00eas exatamente porque j\u00e1 s\u00e3o muito numerosos os tempos e modos verbais expressos atrav\u00e9s de par\u00e1frases, isto torna o texto um tanto verboso por padr\u00e3o. Desta maneira, qualquer estrutura que aumente a quantidade de palavras tem de ser usada com bastante parcim\u00f4nia porque ela tende a tornar a leitura mais arrastada.<\/p>\n\n\n\n<p>De fato o ingl\u00eas \u00e9 t\u00e3o verboso que, embora as palavras em portugu\u00eas tendam a ser bem mais longas, n\u00e3o \u00e9 raro que um texto traduzido fique <em>mais curto<\/em> do que o original. Isto acontece porque h\u00e1 in\u00fameras estruturas verbosas que podem ser encurtadas: <em>I&#8217;ll come back <\/em>acaba sendo mais comprido do que &#8220;voltarei&#8221;. Inclusive na leitura.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 por esse motivo que os autores angl\u00f3fonos e tamb\u00e9m os cr\u00edticos liter\u00e1rios tendem a idolatrar a simplicidade da voz ativa, especialmente quando ela pode ser empregada no presente ou no passado simples, porque pelo seu uso \u00e9 poss\u00edvel obter uma estrutura direta.<\/p>\n\n\n\n<p>A l\u00edngua portuguesa tem uma rela\u00e7\u00e3o dif\u00edcil com os adjetivos porque ela exige concord\u00e2ncia entre eles e os substantivos a que se referem. Somando-se isto \u00e0 rela\u00e7\u00e3o direta entre substantivo e adjetivo, \u00e9 bastante complicado empilhar adjetivos, como \u00e9 comum se fazer em ingl\u00eas. Uma estrutura como <em>a dirty new black crashed passenger car <\/em>soa c\u00f4mica e at\u00e9 distorcida quando tentamos traduzir, porque nosso c\u00e9rebro rejeita a ideia de que se possa dizer de uma vez s\u00f3 que um carro \u00e9 &#8220;de passeio&#8221;, que ele est\u00e1 acidentado, que \u00e9 preto, que \u00e9 novo e se encontra sujo. O que em ingl\u00eas se faz em uma rajada de adjetivos, em portugu\u00eas se faria, talvez, em mais de uma ora\u00e7\u00e3o, substituindo alguns adjetivos por locu\u00e7\u00f5es. Em alguns casos n\u00f3s ainda podemos recorrer \u00e0 varia\u00e7\u00e3o de posi\u00e7\u00e3o do adjetivo para contornar a limita\u00e7\u00e3o da enumera\u00e7\u00e3o. Assim dizemos mais naturalmente &#8220;um novo carro preto&#8221; em vez de um &#8220;carro preto novo&#8221; porque quanto mais distante do substantivo se encontra o adjetivo, menos ligado a ele o sentimos. Neste exemplo, muita gente interpretaria &#8220;preto novo&#8221; como se &#8220;novo&#8221; fosse um adjetivo a modificar &#8220;preto&#8221; em vez de carro. Ainda mais que em portugu\u00eas, diferente do ingl\u00eas, <em>os nomes das cores n\u00e3o s\u00e3o somente adjetivos, mas, tamb\u00e9m, substantivos, ainda que por deriva\u00e7\u00e3o impr\u00f3pria.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Aqui vemos que o conselho sobre economia de adjetivos precisa ser analisado com muita calma. Porque no original ele se refere a evitar esse empilhamento que \u00e9 t\u00e3o comum naquela l\u00edngua. N\u00e3o \u00e9 uma proibi\u00e7\u00e3o de se descrever usando adjetivos onde necess\u00e1rio, mas uma alerta quanto a se diluir o sentido da frase sob um monturo de adjetivos que perdem at\u00e9 a conex\u00e3o com os seres a que se referem. Trata-se de um rem\u00e9dio contra uma doen\u00e7a que n\u00e3o existe no portugu\u00eas &#8212; ou n\u00e3o existia antes que maus tradutores a introduzissem em nossos jovens.<\/p>\n\n\n\n<p>Algo parecido se d\u00e1 com o conselho quanto a adv\u00e9rbios. Em ingl\u00eas esse conselho se refere basicamente aos adv\u00e9rbios produzidos a partir de adjetivos, por meio do sufixo <em>-ly.<\/em> Em portugu\u00eas o sufixo equivalente \u00e9 &#8220;-mente&#8221; e praticamente toda pessoa alfabetizada j\u00e1 meio que pressente o problema do abuso desses adv\u00e9rbios, eis que n\u00e3o h\u00e1 necessidade de aconselhar ningu\u00e9m a evitar empregar mais de tr\u00eas desses adv\u00e9rbios por p\u00e1gina (e empregar menos, se for poss\u00edvel).<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o conselho tamb\u00e9m se refere a uma flexibilidade que o ingl\u00eas tem e que o portugu\u00eas originalmente n\u00e3o tinha: a possibilidade de substituir adv\u00e9rbios por adjetivos. Trata-se de mudar <em>come speedily <\/em>para <em>come soon.<\/em> No primeiro caso temos um adv\u00e9rbio, derivado de <em>speed<\/em> (velocidade, rapidez), e no segundo um adjetivo que significa &#8220;s\u00fabito&#8221; ou &#8220;imediato&#8221;. A l\u00edngua portuguesa vem adquirindo esta mesma fun\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos s\u00e9culos, mas a maioria dos gram\u00e1ticos ainda acha errado dizer &#8220;venha r\u00e1pido&#8221; em vez de &#8220;venha depressa&#8221;. O problema \u00e9 que o portugu\u00eas tamb\u00e9m possui <em>muitos adv\u00e9rbios<\/em> que faltam em ingl\u00eas e que costumam ser bastante expressivos.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma outra aplica\u00e7\u00e3o da restri\u00e7\u00e3o de adv\u00e9rbios est\u00e1 em se evitar o uso de termos comuns, como <em>very, little, many, <\/em>etc. Trata-se, talvez, de um bom conselho, mas que em portugu\u00eas tem pouco valor, porque n\u00f3s j\u00e1 possu\u00edmos as flex\u00f5es de adjetivo, como &#8220;rapid\u00edssimo&#8221; para dizer &#8220;muito r\u00e1pido&#8221;, e isso nos permite evitar esses adv\u00e9rbios de intensidade.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Show, Don&#8217;t Tell<\/em> \u00e9 um conselho que se baseia na ideia de que o leitor deve descobrir por si mesmo o significado da a\u00e7\u00e3o. Desta forma, o autor n\u00e3o deve interpretar os acontecimentos e nem contar sua vers\u00e3o dos fatos. Deve, em vez disso, narrar os fatos com distanciamento, permitindo que o leitor os entenda como quiser.<\/p>\n\n\n\n<p>Este conselho \u00e9 o mais problem\u00e1tico de todos, porque ele envolve uma ideologia. Para quem propaga esse conceito, a obra liter\u00e1ria n\u00e3o deve ser de nenhuma maneira um ve\u00edculo de ideias, mas somente um passatempo. Usar esse conceito para podar a interpreta\u00e7\u00e3o do autor pode tornar o texto sem alma, vazio de ideias e frio. Talvez por isso <em>ningu\u00e9m segue estritamente esse conselho<\/em>, afinal, \u00e9 imposs\u00edvel que o narrador n\u00e3o interfira na narrativa. Ali\u00e1s, \u00e9 caracter\u00edstica da narrativa moderna que justamente o autor quebre a &#8220;quarta parede&#8221; e interaja com o leitor.<\/p>\n\n\n\n<p>Desta maneira, <em>Show Don&#8217;t Tell<\/em> \u00e9 um conselho que, embora possa ser uma boa estrat\u00e9gia para nos lembrar de aliviar a carga de ideias no texto, deve se analisado com muita parcim\u00f4nia, para evitar que a gente perca tempo descrevendo portas trancadas, cadeados nas janelas e muros altos quando poder\u00edamos simplesmente dizer que o personagem vivia isolado em sua casa e com medo. O problema n\u00e3o \u00e9 &#8220;contar em vez de mostrar&#8221;, mas fazer isso (ou o oposto) de uma maneira desinteressante.<\/p>\n\n\n\n<p>Deixei para o final a quest\u00e3o da prefer\u00eancia por palavras curtas porque esse \u00e9 o conselho mais pernicioso. <\/p>\n\n\n\n<p>A l\u00edngua inglesa padece de uma &#8220;dupla personalidade&#8221; por incluir duas tradi\u00e7\u00f5es morfol\u00f3gicas discordantes. De um lado, o ingl\u00eas \u00e9 uma l\u00edngua germ\u00e2nica que forma compostos atrav\u00e9s da justaposi\u00e7\u00e3o e flexiona empregando <em>umlaut <\/em>(ainda que em ingl\u00eas isto tenha quase se perdido e n\u00e3o tenha sido nunca chamado por esse nome). Do outro lado, \u00e9 uma l\u00edngua que importou mais de 50% de seu vocabul\u00e1rio do franc\u00eas, do latim, do italiano e do espanhol &#8212; e de contrabando trouxe estruturas morfol\u00f3gicas, como o plural com &#8220;S&#8221; em vez do plural germ\u00e2nico.<\/p>\n\n\n\n<p>As palavras &#8220;latinadas&#8221; tamb\u00e9m tendem a ser em m\u00e9dia duas vezes mais longas que as palavras germ\u00e2nicas, quando n\u00e3o s\u00e3o ainda mais. Pegue qualquer par de termos sin\u00f4nimos e compare o termo germ\u00e2nico ao latinado e verifique isso: <em>water fowl <\/em>e <em>aquatic birds<\/em> s\u00e3o quase a mesma coisa, assim como <em>wood carver<\/em> e <em>carpenter<\/em>, <em>fiddler <\/em>e <em>violinist<\/em>, <em>dancer<\/em> e <em>ballerina<\/em>, <em>spin <\/em>e <em>rotate<\/em>, <em>lich<\/em> e <em>corpse<\/em>, <em>duck<\/em> e<em> mallard.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Devido a esse car\u00e1ter duplo, a prefer\u00eancia por palavras curtas tende a equivaler a uma prefer\u00eancia por palavras germ\u00e2nicas, que t\u00eam mais longa hist\u00f3ria e s\u00e3o mais conhecidas, resultando em um texto mais acess\u00edvel; enquanto a prefer\u00eancia por palavras longas tende a escolher mais neologismos e termos t\u00e9cnicos, fazendo o texto soar pretensioso.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse problema n\u00e3o existe em portugu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Estes dois artigos foram s\u00f3 dois arranh\u00f5es no problema da inadequa\u00e7\u00e3o das dicas de escrita quando adaptadas e ou adotadas a partir de conselhos dados por quem escreve em l\u00edngua diversa da nossa.<\/p>\n\n\n\n<p>Seria prop\u00edcio se a gente repensasse nossa escrita em nossos pr\u00f3prios termos, buscando o que serve ao car\u00e1ter de nossa l\u00edngua. Seria ainda melhor se n\u00e3o julg\u00e1ssemos nossos autores pela sua capacidade de imitar conte\u00fados e estilos estrangeiros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na semana passada eu comecei a falar sobre o problema de se adotar conselhos sobre estilo originalmente escritos pensando na estrutura gramatical e morfol\u00f3gica de uma l\u00edngua diferente da nossa. Hoje ponho mais carne nesse argumento, citando os seis conselhos mais nefandos que eu j\u00e1 encontrei at\u00e9 hoje: Evitar a voz passiva; Economizar adjetivos; Evitar os adv\u00e9rbios; Show, Don&#8217;t Tell; Preferir palavras curtas. 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