{"id":7357,"date":"2021-01-22T16:21:55","date_gmt":"2021-01-22T19:21:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=7357"},"modified":"2021-02-07T22:01:53","modified_gmt":"2021-02-08T01:01:53","slug":"lobato-um-racista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2021\/01\/lobato-um-racista\/","title":{"rendered":"Lobato: Um Racista"},"content":{"rendered":"\n<p>Uma tentativa de analisar os aspectos problem\u00e1ticos da obra de Monteiro Lobato, com o objetivo de demonstrar que o autor n\u00e3o era somente um racista em suas convic\u00e7\u00f5es e forma\u00e7\u00e3o, mas que, tamb\u00e9m, fez de sua obra um instrumento de proselitismo de suas ideias. N\u00e3o se trata de uma proposta de censura \u00e0 sua obra, mas uma reavalia\u00e7\u00e3o de sua relev\u00e2ncia e de sua utilidade para a compreens\u00e3o da brasilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Este artigo \u00e9 a conclus\u00e3o de uma longa e madura an\u00e1lise que empreendi a partir da releitura da obra de Monteiro Lobato desde 2020, quando <a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2020\/05\/lobato-o-espinho-que-se-recusa-a-inflamar\/\">me propus a faz\u00ea-la<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<h2>Introdu\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>Monteiro Lobato \u00e9 considerado um dos grandes ficcionistas brasileiros e reverenciado como um dos repons\u00e1veis pelo desenvolvimento da literatura infantil no Brasil. Tamb\u00e9m \u00e9 um autor cuja obra n\u00e3o envelheceu bem \u2014 apesar de ainda na mem\u00f3ria afetiva de gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Reler Lobato na idade adulta \u00e9 um desafio que envolve o confronto com aspectos da obra que a inf\u00e2ncia n\u00e3o percebeu ou que foram dela ocultados propositalmente. Monteiro Lobato, sobre quem j\u00e1 escrevi tantas vezes (links ao final) \u00e9 um desses autores que recentemente entraram em dom\u00ednio p\u00fablico, o que ensejou um novo debate sobre sua relev\u00e2ncia para a nossa literatura.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"400\" height=\"299\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/qwe_download.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7359\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/qwe_download.jpg 400w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/qwe_download-250x187.jpg 250w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/qwe_download-120x90.jpg 120w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Por d\u00e9cadas, a reputa\u00e7\u00e3o de Lobato como patriota e formador do car\u00e1ter nacional contribuiu para que sua obra permanecesse acima de cr\u00edticas. Foi somente a partir do in\u00edcio do s\u00e9culo XXI que as cr\u00edticas foram levadas mais a s\u00e9rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando as primeiras cr\u00edticas surgiram, em 2011, muitos nomes famosos se levantaram em defesa de Lobato, como o cartunista Ziraldo, que f\u00ea-lo abra\u00e7ar uma mulata e p\u00f4s um de seus personagens pronto a defender o escritor, com um tacape. O debate sobre o racismo de Lobato teve de evoluir gradualmente, mas por muito temo o racismo do autor s\u00f3 podia ser conhecido atrav\u00e9s de pequenas passagens isoladas, porque os direitos autorais impediam cita\u00e7\u00f5es mais extensas.<\/p>\n\n\n\n<p>Este artigo aqui pretende demonstrar esse racismo de maneira mais inequ\u00edvoca, apresentando cita\u00e7\u00f5es longas o suficiente para dar contexto. As cita\u00e7\u00f5es originariamente em l\u00edngua estrangeira foram traduzidas ao portugu\u00eas porque n\u00e3o foi a minha inten\u00e7\u00e3o criar dificuldades para que o leitor brasileiro m\u00e9dio, que n\u00e3o fala outros idiomas, pudesse compreender este artigo.<\/p>\n\n\n\n<h2>Os Anos Formativos e a Carreira de Editor<\/h2>\n\n\n\n<p>Lobato se dedicava a atividades diversas simultaneamente: desde o come\u00e7o de sua carreira na literatura; foi cronista, cr\u00edtico de arte, jornalista, editor, contista e e romancista. Mas tudo isso se tornou poss\u00edvel em raz\u00e3o de ter sido, antes disso, membro da aristocracia agr\u00e1ria, promotor p\u00fablico e fazendeiro de caf\u00e9. O dinheiro da venda da grande fazenda herdada do av\u00f4 lhe permitiu estabelecer-se como editor em 1918, quando comprou a \u201cRevista do Brasil\u201d, fundada dois anos antes por J\u00falio de Mesquita.<\/p>\n\n\n\n<p>Na qualidade de editor da Revista foi que Lobato se tornou editor de livros, principalmente os pr\u00f3prios. \u00c9 preciso enfatizar que ao se tornar editor de uma revista de grande circula\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Paulo e implementar m\u00e9todos revolucion\u00e1rios de <em>marketing<\/em>, Lobato se tornou uma figura central da cultura nacional, sobre a qual passou a ter grande influ\u00eancia. Os jovens autores desejavam ser publicados por Lobato porque supunham que isso lhes daria mais alcance no pa\u00eds. Desta forma, o Lobato editor tinha muitos talentos que se voluntariavam a contribuir para a sua revista e assim determinava os rumos do debate cultural no pa\u00eds. Mais tarde, muitos desses autores que come\u00e7aram a publicar com Lobato contribuiram para construir seu mito.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse poder de \u201cclassifica\u00e7\u00e3o\u201d dos talentos liter\u00e1rios n\u00e3o era, no entanto, fruto somente de seu lado de homem de neg\u00f3cios bem-sucedido. Dizer isso seria injusto: os livros publicados por Lobato entre 1916 e 1920 foram grandes sucessos de p\u00fablico <em>e de cr\u00edtica<\/em>, dando-lhe credenciais para se apresentar como tutor da literatura nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>No contexto da evolu\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria do Brasil, Lobato foi um reacion\u00e1rio. Ele poderia ter abra\u00e7ado o papel de precursor do modernismo, mas preferiu ser advers\u00e1rio da Semana de Arte Moderna e retardat\u00e1rio defensor do conservadorismo. Parte do seu \u201cdesgosto\u201d com o mundo adulto nasceu precisamente do triunfo das ideias modernistas, contra as quais ele foi um combatente de primeira hora. Por causa dessa posi\u00e7\u00e3o foi que os modernistas o elegeram como um dos \u00eddolos a derrubar \u2014 e isso ajuda a explicar suas dificuldades a partir de 1930, quando o p\u00eandulo come\u00e7ou, com mais de trinta anos de atraso, a pender em favor dos modernistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando ainda era fazendeiro de caf\u00e9, Lobato enviou ao jornal \u201cO Estado de S\u00e3o Paulo\u201d uma carta em que tecia cr\u00edticas ferozes ao modo de vida do caboclo paulista. Elevada \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de artigo do suplemento vespertino do peri\u00f3dico e intitulada \u201cVelha Praga\u201d, esta carta foi uma das primeiras obras que publicou e seria depis a semente de seu primeiro livro de fic\u00e7\u00e3o, \u201cUrup\u00eas\u201d, de 1918, em que reelabora sua cr\u00edtica, na cr\u00f4nica que d\u00e1 t\u00edtulo \u00e0 obra, criando a figura do Jeca Tatu \u2014 arqu\u00e9tipo do colono mesti\u00e7o indolente e depredador da natureza.<\/p>\n\n\n\n<p>Nestas obras est\u00e1 claramente expresso um vi\u00e9is higienista que ecoa o racismo cient\u00edfico de Gobineau. A moderniza\u00e7\u00e3o do Brasil, sonhada por nacionalistas conservadores como Lobato, teria de incluir modernizar o povo, ou melhor, aplicar o programa de \u201cBranqueamento\u201d que era pol\u00edtica oficial da Rep\u00fablica Velha. O Brasil do futuro seria um pa\u00eds para os brasileiros do futuro: nem a carne e nem o sangue do brasil real e mesti\u00e7o do come\u00e7o do s\u00e9culo XX poderiam herdar esse futuro.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft size-medium\"><img loading=\"lazy\" width=\"196\" height=\"300\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/urupes-196x300.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-7360\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/urupes-196x300.png 196w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/urupes-418x640.png 418w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/urupes-98x150.png 98w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/urupes-120x184.png 120w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/urupes.png 541w\" sizes=\"(max-width: 196px) 100vw, 196px\" \/><figcaption>Folha de \u00edndice da primeira edi\u00e7\u00e3o de &#8220;Urup\u00eas&#8221; (1918). Dos contos aqui presentes, somente &#8220;O Mata-Pau&#8221; costuma ser antologizado ou inclu\u00eddo em livros did\u00e1ticos.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Esse mesmo autor de \u201cUrup\u00eas\u201d e \u201cVelha Praga\u201d tamb\u00e9m escreveu \u201cNegrinha\u201d (1920), um volume de contos em que expressa certa simpatia pelos negros e sua escraviza\u00e7\u00e3o, e de todo o \u201cS\u00edtio do Picapau Amerelo\u201d, cuja obra inicial, \u201cA Menina do Narizinho Arrebitado\u201d, saiu dois anos depois de \u201cUrup\u00eas\u201d. Seis anos depois de ter inaugurado o \u201cS\u00edtio\u201d, e tendo j\u00e1 escrito nove obras deste, foi que Lobato escreveu e publicou o infame \u201cO Presidente Negro\u201d, cuja tentativa de publicar na Alemanha e nos EUA foi a respons\u00e1vel maior pela fal\u00eancia da Companhia Editora Nacional e pelo \u201cdesgosto\u201d de Lobato com os adultos.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das raz\u00f5es do sucesso de Lobato como editor, ademais de escritor, era que seus livros n\u00e3o vendiam meramente pelo apelo nacionalista de serem editados e impressos no Brasil. Ele exigia que a composi\u00e7\u00e3o tipogr\u00e1fica fosse impec\u00e1vel, frequentemente empregando letras grandes, mais f\u00e1ceis de ler por gente pouco afeita a livros, e as capas tinham um estilo <em>art-d\u00e9co<\/em> de muito bom gosto. Seus livros eram diferenciados.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra raz\u00e3o era a facilidade com que se aproveitava de conex\u00f5es pol\u00edticas e comerciais. Quando fez a Revista do Brasil passar a editora de livros, f\u00ea-lo somente depois de ter escrito a todas as ag\u00eancias postais do pa\u00eds e perguntado se os agentes n\u00e3o conheciam algum comerciante na cidade que estivesse interessado em vender livros. De maneira surpreendente, <em>todos<\/em> responderam e assim Lobato conquistou uma rede de distribuidores por todo o pa\u00eds. Esta penetra\u00e7\u00e3o nos rinc\u00f5es do pa\u00eds, empregando todo o potencial dos correios, foi o que o tornou rapidamente uma figura relevante no cen\u00e1rio cultural. Publicar pela Revista do Brasil, e mais tarde pela Monteiro Lobato &amp; Cia., tinha o potencial de transformar o autor em uma celebridade nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro grande golpe publicit\u00e1rio de Lobato foi imprimir quinhentos exemplares de \u201cA Menina do Narizinho Arrebitado\u201d, seu primeiro livro infantil, e que daria origem ao \u201cS\u00edtio do Picapau Amarelo\u201d e distribu\u00ed-lo <em>gratuitamente<\/em> nas escolas de S\u00e3o Paulo. Assim Lobato cativou alunos e professores e praticamente inventou a partir do zero o mercado nacional de livros infantis.<\/p>\n\n\n\n<h2>O Ide\u00e1rio Lobatiano e as Ideologias do S\u00e9culo XX<\/h2>\n\n\n\n<p>Mais do que meramente dar nomes a essa ideologia, \u00e9 preciso defini-las melhor e entender de onde foi que Lobato as tirou. Algumas estavam \u201cno ar\u201d no come\u00e7o do s\u00e9culo XX, mas outras eram espec\u00edficas e n\u00e3o faziam parte do imagin\u00e1rio comum. Julgando-se um progressista, Lobato foi atr\u00e1s de novas ideias para o desenvolvimento do pa\u00eds. Em sua \u00e9poca, essas ideias tinham forte ran\u00e7o racista e fascista, mesmo quando n\u00e3o aderiam ou at\u00e9 quando se opunham aos extremismos de direita.<\/p>\n\n\n\n<p>No contexto do Pr\u00e9-Modernismo, Monteiro Lobato defendeu uma mescla de academicismo e modernidade que se parece muito com o ideal est\u00e9tico fascista (e, paradoxalmente, com o \u201crealismo socialista\u201d). No \u00e2mbito da pol\u00edtica, propunha o que mais tarde seria chamado \u201cmoderniza\u00e7\u00e3o conservadora\u201d, ou seja, <em>a tese de que as reformas necess\u00e1rias para o desenvolvimento econ\u00f4mico deveriam ser feitas sem alterar significativamente a estrutura social, cultural e pol\u00edtica<\/em>, o que se faz atrav\u00e9s de um pacto entre a elite pr\u00e9-industrial e as novas for\u00e7as de desenvolvimento. Essa orienta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica n\u00e3o \u00e9 surpreendente, considerando a sua origem social, e n\u00e3o fica nada escondida, quando observamos a reprodu\u00e7\u00e3o da estrutura social e pol\u00edtica do Brasil da Rep\u00fablica Velha no \u201cS\u00edtio do Picapau Amarelo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 arte, como vemos na sua famosa cr\u00edtica a Anita Malfatti, Lobato propunha a divis\u00e3o desta em duas vertentes, uma praticada por pessoas normais, que produzem uma arte \u201cpura\u201d e outra praticada por pessoas \u201canormais\u201d, que produzem uma arte teratol\u00f3gica e decadente. Nas palavras do pr\u00f3prio Lobato:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>H\u00e1 duas esp\u00e9cies de artistas. Uma composta dos que v\u00eaem normalmente as coisas e em consequ\u00eancia disso fazem arte pura, guardados os eternos rythmos da vida, e adoptados para a concretiza\u00e7\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es estheticas, os processos cl\u00e1ssicos dos grandes mestres. [\u2026] A outra especie \u00e9 formada pelos que v\u00eaem anormalmente a natureza, e interpretam-na \u00e1 luz de theorias ef\u00eameras, sob a sugest\u00e3o estrabica de escolas rebeldes, surgidas c\u00e1 e l\u00e1 como fur\u00fanculos da cultura excessiva. S\u00e3o productos de cansa\u00e7o e do sadismo de todos os per\u00edodos de decadencia; s\u00e3o frutos de fins de esta\u00e7\u00e3o, bichados ao nascedouro. Estrellas cadentes, brilham um instante, as mais das vezes com a luz de esc\u00e2ndalo, e somem-se logo nas trevas do esquecimento. Embora elles se d\u00eaem como novos precursores duma arte a vir, nada \u00e9 mais velho de que a arte anormal ou teratologica: nasceu com a paran\u00f3ia e com a mystifica\u00e7\u00e3o. De ha muito j\u00e1 que a estudam os psychiatras em seus tratados, documentando-se nos innumerosos desenhos que ornam as paredes internas dos manicomios. A unica differen\u00e7a reside em que nos manic\u00f4mios esta arte \u00e9 sincera, producto ilogico de c\u00e9rebros transtornados pelas mais estranhas psychoses; e f\u00f3ra delles, nas exposi\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, zabumbadas pela imprensa e absorvidas por americanos malucos, n\u00e3o ha sinceridade nenhuma, nem nenhuma logica, sendo mystifica\u00e7\u00e3o pura.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Se estas palavras lhe soam familiares, \u00e9 porque <em>s\u00e3o<\/em> e o leitor certamente as ter\u00e1 encontrado em uma fonte menos reput\u00e1vel: a \u201cguerra cultural\u201d do nazismo. Mesmo o uso de termos oriundos da medicina e da psiquiatria parte das mesmas origens do conceito abertamente nazista de \u201carte degenerada\u201d, que se inspirou em autores como Gobineau (1915, p. 25):<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>A palavra \u201cdegenerado\u201d, quando aplicada a um povo, significa (como deveria significar) que esse povo n\u00e3o possui mais o mesmo valor intr\u00ednseco que teve antes porque n\u00e3o tem mais o mesmo sangue em suas veias, eis que adultera\u00e7\u00f5es cont\u00ednuas gradualmente afetaram a qualidade desse sangue. Em outras palavras, embora a na\u00e7\u00e3o ainda conserve o nome que lhe deram os seus fundadores, o nome j\u00e1 n\u00e3o significa a mesma ra\u00e7a; de fato, o homem de uma \u00e9poca decadente, o homem degenerado propriamente dito, \u00e9 um ser diferente, do ponto de vista racial, em rela\u00e7\u00e3o aos her\u00f3is dos grandes tempos.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A associa\u00e7\u00e3o entre \u201canormalidade\u201d e degenera\u00e7\u00e3o surge com for\u00e7a em Lombroso, que, conforme Balera &amp; Diniz (2013, p. 539), afirmava que o indiv\u00edduo que cometia crimes n\u00e3o era um ser humano normal, mas uma anomalia causada pela defici\u00eancia de senso moral. Desta forma, Lombroso seria um \u201cRousseau inverso\u201d, que afirmava que o homem nasce mau e \u00e9 melhorado pela sociedade:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>O homem nasceria mau e a sociedade civilizada inculcaria no\u00e7\u00f5es de bem e mal, aniquilando os tra\u00e7os do atavismo e selvageria que o poderiam tornar um \u201cprimitivo sanguin\u00e1rio\u201d. Em suma, o comportamento do criminoso nato \u00e9 resultado de sua degeneresc\u00eancia, bem como da interrup\u00e7\u00e3o do desenvolvimento do indiv\u00edduo ainda no est\u00e1gio infantil.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O discurso de Lobato tamb\u00e9m ecoa Max Nordau, cr\u00edtico alem\u00e3o que prop\u00f4s o conceito de <em>Entartung<\/em> (vers\u00e3o alem\u00e3 da \u201cdegenera\u00e7\u00e3o\u201d de Gobineau) e dedicou sua obra a Lombroso. Nordau vai al\u00e9m e \u201cdiagnostica\u201d as tend\u00eancias art\u00edsticas do <em>fin-de-si\u00e8cle<\/em> como condi\u00e7\u00f5es psiqui\u00e1tricas:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Na disposi\u00e7\u00e3o do <em>fin-de-si\u00e8cle<\/em>; nas tend\u00eancias da arte e da poesia contempor\u00e2neas; na vida e na conduta dos homens que escrevem trabalhos m\u00edsticos, simb\u00f3licos e \u201cdecadentes\u201d; e na atitude assumida por seus admiradores em rela\u00e7\u00e3o dos gostos e instintos est\u00e9ticos da sociedade da moda, v\u00ea-se a conflu\u00eancia de duas condi\u00e7\u00f5es patol\u00f3gicas bem definidas, com as quais ele [o m\u00e9dico] est\u00e1 bem familiarizado, ou seja, a degenera\u00e7\u00e3o e a histeria, de que os est\u00e1gios iniciais s\u00e3o designados como neurastenia.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Para Nordau, autores como Henrik Ibsen, Friedrich Nietzsche e Oscar Wilde seriam exemplares dessa degenera\u00e7\u00e3o, que resulta de um processo natural na evolu\u00e7\u00e3o das sociedades humanas, mas que \u00e9 acelerado ou retardado, e de qualquer maneira influenciado, pela arte.<\/p>\n\n\n\n<p>Estes conceitos; apesar de Nordau e Lombroso terem sido, ambos, judeus; acabaram apropriados pelo fascismo italiano e, mais notoriamente, pelo nazismo. Foi um nazista, Alfred Rosenberg, que levou o conceito de \u201carte degenerada\u201d \u00e0 sua ep\u00edtome, foram os nazistas que organizaram uma \u201cexposi\u00e7\u00e3o de arte degenerada\u201d (com fins propagand\u00edsticos) e organizaram o confisco e a queima de tais obras.<\/p>\n\n\n\n<p>O que estou querendo dizer aqui \u00e9 que o ide\u00e1rio expresso por Lobato em \u201cParanoia e Mistifica\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 praticamente id\u00eantico ao conceito nazista de \u201carte degenerada\u201d. Na verdade, quaisquer pequenas diverg\u00eancias (de terminologia ou de conceitua\u00e7\u00e3o) se devem mais ao fato de os nazistas terem expandido e modificado a linha de pensamento \u00e0 qual Lobato subscrevia. Mais tarde, nessa an\u00e1lise, voc\u00ea perceber\u00e1 que as ideias de Gobineau e Lombroso (n\u00e3o s\u00f3 esta sobre arte) se transferem de maneira quase autom\u00e1tica entre a obra adulta e infantil de Lobato. Se alguma d\u00favida resta, Lobato publicou atrav\u00e9s de sua editora os \u201cAnnaes de Eugenia\u201d, organizados por Renato Kehl, evidenciando seu compromisso de longo prazo com esta.<\/p>\n\n\n\n<p>Por esses e outros motivos, os livros do S\u00edtio deveriam ser substitu\u00eddos por obras mais adequadas \u00e0 leitura em classe e passar a ser usados como objeto de estudo em aulas de Ci\u00eancias Sociais, justamente por serem relevantes para entender o pensamento predominante no Brasil do s\u00e9culo XX \u2014que naturalizava e at\u00e9 idolatrava um autor que, de fato, detestava o Brasil e todos os aspectos da brasilidade.<\/p>\n\n\n\n<h2>Urup\u00eas e a Pol\u00edtica de Branqueamento<\/h2>\n\n\n\n<p>As origens do livro de estreia de Monteiro Lobato, \u201cUrup\u00eas\u201d, se encontram em uma carta por ele enviada ao \u201cEstado de S\u00e3o Paulo\u201d em 1914, na qual expressou desgosto pelo modo de vida dos caipiras paulistas, que comparou a parasitas e a quem culpou pela degrada\u00e7\u00e3o ambiental:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>A nossa montanha \u00e9 victima de um parasita, piolho da terra, peculiar ao solo bras\u00edlio como o Argas aos gallinheiros, o \u201cSarcoptes mutans\u201d \u00e1 perna das aves domesticas. [\u2026] Este funesto parasita da terra \u00e9 o caboclo, especie de homem baldio, semi-nomade, inadapt\u00e1vel \u00e1 civiliza\u00e7\u00e3o, mas que vive \u00e1 beira della, na penumbra das zonas fronteiri\u00e7as. \u00c1 medida que <em>o progresso vem chegando, com a via ferrea, o italiano, o arado<\/em>, a valorisa\u00e7\u00e3o das terras vae elle refugindo em silencio, [\u2026] de modo a sempre conservar-se fronteiri\u00e7o, mudo e sorna. Encoscorado em uma rotina de pedra, rec\u00faa mas n\u00e3o se adapta.<\/p><p>\u00c9 de v\u00eal-o abordar a um sitio novo para nelle armar a sua arapuca de \u201caggregado\u201d; nomade, por for\u00e7a de vagos atavismos, n\u00e3o se liga \u00e1 terra, como o camponio europeu, \u201caggrega-se-lhe\u201d, tal qual o \u201csarcoptes\u201d, pelo tempo necessario \u00e1 completa suc\u00e7\u00e3o da seiva convizinha; feito o que, salta para adiante com a mesma bagagem com que ali chegou.<\/p><p>Vem de um sapesal para criar outro. Coexistem em intima symbiose: sap\u00e9 e caboclo s\u00e3o id\u00e9as associadas. Este inventou aquelle e lhe dilata os dominios; em troca disso o sap\u00e9 lhe cobre a cho\u00e7a e lhe fornece fachos para queimar a comeia das pobres abelhas.<\/p><p>Chegam silenciosamente, elle e a \u201csarcopta\u201d esposa, com um filhote no utero, outro ao peito, outro \u00e1 ourela da saia, j\u00e1 de pito na bocca e faca \u00e1 cinta. Completa o rancho um cachorro sarnento, \u2014 Brinquinho, a foice, a enxada, a pica-p\u00e1u, o pil\u00e3osinho de sal, a panela de barro, um santo encardido, tres gallinhas p\u00e9vas e um gallo indio. Com estes simples ingredientes o fazedor de sapeseiros perpetua a especie e a obra de esterilisa\u00e7\u00e3o iniciada pelos remotissimos av\u00f3s.<\/p><p>[\u2026]<\/p><p>Em tres dias uma cho\u00e7a, que por euphemisco chamam de casa, brota da terra como um urup\u00ea. Tirou tudo do lugar: esteios, caibros, ripas, barrotes, o cip\u00f3 que os liga, o barro das paredes, a palha do tecto. T\u00e3o intima \u00e9 a communh\u00e3o dessas palho\u00e7as com a terra local, que dariam id\u00e9a de tortulho nascido do ch\u00e3o por obra espontanea da natureza, \u2014 se a natureza fosse capaz de coisas inestheticas.<\/p><p>Barreada a casa, pendurado o santo, est\u00e1 lavrada a senten\u00e7a de morte das redondezas. [\u2026] Com a pica-p\u00e1u limpa a floresta da volataria incauta. Polvora e chumbo adquire-os vendendo palmito no povoado visinho. Quando o palmito escasseia, rareiam os tiros, s\u00f3 a ca\u00e7a grande merecendo a sua carga de chumbo; se o palmital se extingue, exultam as pe\u00e7as; est\u00e1 encerrado o ciclo venatorio.<\/p><p>Depois ataca a floresta. Ro\u00e7a e derruba, n\u00e3o perdoando ao mais bello p\u00e1u. [\u2026] Prompto o ro\u00e7ado, chegando o tempo da queima, entra em func\u00e7\u00f5es o isqueiro.<\/p><p>[\u2026]<\/p><p>Quem foi o incendiario? Donde partiu o fogo? Indaga-se, descobre-se o Nero: \u00e9 um <em>urumbeva de barba rala<\/em>, amoitado n\u2019um litro de terra litigiosa.<\/p><p>[\u2026]<\/p><p>No vazio de sua vida semi-selvagem, em que os incidentes s\u00e3o um jac\u00fa abatido, uma paca fisgada n\u2019agua e o filho novimensal, a queimada \u00e9 o grande espectaculo do anno, supremo regalo d\u2019olhos e ouvidos.<\/p><p>Entrado Setembro, o caboclo planta na terra em cinzas um boccado de milho, feij\u00e3o e arroz; mas o valor da sua produc\u00e7\u00e3o annual \u00e9 nenhum diante dos males que para preparar uma quarta de ch\u00e3o elle semeou.<\/p><p>O caboclo \u00e9 uma quantidade negativa.<\/p><p>[\u2026]<\/p><p>Quando se exhaure a terra, o aggregado muda de sitio.<\/p><p>No lugar fica a tapera e o sapeseiro. Um anno que passe e s\u00f3 este attestar\u00e1 a sua estadia alli; o mais se apaga como por encanto. A terra reabsorve os frageis materiaes da cho\u00e7a, e como nem sequer uma laranjeira foi plantada, nada mais lembra a passagem do Manoel Peroba, Chico Marimbondo, Geca Tat\u00fa e outros sons ignaros de dolorosa memoria \u00e1 natureza circumvisinha.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Atente o leitor o aspecto nitidamente racial desta caracteriza\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da utiliza\u00e7\u00e3o de um tupinismo (\u201curumbeva\u201d) e da explicita\u00e7\u00e3o de que se trata de um homem de barba rala \u2014 sendo esta uma caracter\u00edstica dos amer\u00edndios e dos mesti\u00e7os. Ademais, a vida do italiano \u00e9 aqui citada como um dos fatores do progresso, entre outros (aqui temos de lembrar que a atra\u00e7\u00e3o de imigrantes italianos fazia parte da pol\u00edtica de \u201cbranqueamento\u201d da popula\u00e7\u00e3o brasileira).<\/p>\n\n\n\n<p>Anos depois este texto resultaria em uma tese mais evolu\u00edda, expressa na cr\u00f4nica \u201cUrup\u00eas\u201d, que d\u00e1 t\u00edtulo ao livro que Lobato publicou em 1918. \u00c9 significativo que Lobato tenha se ocupado n\u00e3o somente de publicar em livro o que um dia fora somente um artigo de jornal, como se deu ao trabalho de reelaborar o conceito, para que ficasse ainda mais claro.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Porque a verdade n\u00faa manda dizer que entre as ra\u00e7as de variado matiz formadoras de nossa nacionalidade, e mettidas entre o estrangeiro voraz que tudo invade e o aborigene de taboinha no bei\u00e7o, uma existe a vegetar de cocoras, incapaz de evolu\u00e7\u00e3o, impenetravel ao progresso. Feia e sorna, nada a p\u00f5e de p\u00e9.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 meias palavras aqui: ecoando o racismo cient\u00edfico de Gobineau, Monteiro Lobato afirma sem rodeios que o mesti\u00e7o brasileiro (o \u201ccaboclo\u201d) \u00e9 uma criatura inferior e incapaz de se elevar, limitado pela pregui\u00e7a. No conto \u201cUrup\u00eas\u201d, Lobato descreve em detalhe o \u201cGeca Tat\u00fa\u201d, que se tornaria o arqu\u00e9tipo do caboclo brasileiro e inspiraria Mazzaropi a desenvolver o personagem de seus filmes (tal foi o impacto desta descri\u00e7\u00e3o):<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Quando comparece \u00e1s feiras, todo o mundo logo adivinha o que elle traz: sempre coisas que a natureza derrama pelo matto e ao homem custa apenas o trabalho de espichar o bra\u00e7o e colher \u2014 cocos de tuncum e jiss\u00e1ra, guabirobas, bacuparis, maracuj\u00e1s, jatahys, pinh\u00f5es, orchideas; ou artefactos de taquara p\u00f3ca \u2014 peneiras, cestinhas, sambur\u00e1s, tipitis, pios de ca\u00e7ador; ou utensilios de madeira molle \u2014 gamellas, pil\u00f5esinhos, colheres de p\u00e1u. Nada mais.<\/p><p>Seu grande cuidado \u00e9 espremer todas as consequencias da lei do menor esfor\u00e7o, e nisto vae longe. Come\u00e7a a applica\u00e7\u00e3o da lei na moradia. Sua casa de sap\u00e9 e lama faz rir aos bichos que moram em toca e gargalhar ao Jo\u00e3o de barro. <em>Pura biboca de boschimano<\/em>.<\/p><p>Mobilia nenhuma. A cama \u00e9 uma espipada <em>esteira de pery<\/em> posta sobre o ch\u00e3o batido.<\/p><p>\u00c1s vezes d\u00e1-se ao luxo d\u2019um banquinho de tres pernas \u2014 para os hospedes. Tres pernas d\u00e3o equilibrio: inutil, portanto, metter a quarta, o que obrigaria ainda a nivelar o pavimento. Para que assentos, se a natureza os dotou de solidos, rachados calcanhares?<\/p><p>Nenhum talher. N\u00e3o \u00e9 a munheca um talher completo, colher, garfo e faca a um tempo? No mais, umas cuias, gamellinhas, um pote esbei\u00e7ado, a pichorra e a panella de feij\u00e3o.<\/p><p>Nada de armarios ou bah\u00fas. A roupa guarda-a o corpo. S\u00f3 tem dois parelhos; um que traz em uso e outro na barrela.<\/p><p>Os mantimentos apai\u00f3la nos cantos da casa.<\/p><p>Inventou um cip\u00f3 preso \u00e1 cumieira, com um gancho na extremidade e um disco de lata no alto: ali pendura o toicinho a salvo de gatos e ratos.<\/p><p>Da parede pende a espingarda pica-p\u00e1u, o polvarinho de chifre, o S\u00e3o Benedicto defumado, o rabo de tat\u00fa e as palmas bentas de queimar durnate as fortes trovoadas.<\/p><p>Servem de gavetas os buracos da parede.<\/p><p>Seus remotos av\u00f3s n\u00e3o gozaram de maiores commodidades. Seus netos n\u00e3o metter\u00e3o a quarta perna ao banco. Para que? Vive-se bem sem ella.<\/p><p>Se pelotas de barro cahem, abrindo setteiras na parede, Geca n\u00e3o se move a repol-as. Ficam as janellinhas abertas para o resto da vida, a entremostrar nesgas de c\u00e9u.<\/p><p>Se a palha do tecto, apodrecida, gr\u00e9ta em fistulas, por onde pinga a agua da chuva, Geca, em vez de remendar a tortura, limita-se a cada vez que chove, a aparar numa gamellinha a agua gottejante.<\/p><p>Remendos\u2026 para que? Se uma casa dura dez annos e faltam \u201capenas\u201d oito para abandonar aquella?<\/p><p>Esta philosophia economisa reparos.<\/p><p>[\u2026]<\/p><p>Um terreirinho descalvado rodeia a casa. O matto beira com elle. Nem arvores fructiferas, nem horta e nem fl\u00f4res \u2014 nada revelador de permanencia.<\/p><p>Ha mil raz\u00f5es para isso: porque n\u00e3o \u00e9 sua a terra; porque se o \u201ctocarem\u201d n\u00e3o ficar\u00e1 nada que a outrem aproveite; porque para fructas ha o matto; porque a \u201ccria\u00e7\u00e3o\u201d estraga, porque\u2026<\/p><p>[\u2026]<\/p><p>\u2014 N\u00e3o paga a pena.<\/p><p>Todo o inconsciente philosophar da ra\u00e7a grulha nessa palavra atravessada de fatalismo e modorra. Nada paga a pena. Nem culturas, nem commodidades. De todo o geito se vive.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O racismo de Lobato volta com for\u00e7a, ao comparar a choupana do caboclo \u00e0s dos bosqu\u00edmanos da \u00c1frica meridional e a sua cama \u00e0s esteiras dos ind\u00edgenas, caricaturados na figura de \u201cPery\u201d, o protagonista do romance de Jos\u00e9 de Alencar.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas ideias negativas sobre o caboclo paulista n\u00e3o s\u00e3o todas origin\u00e1rias de sua mera observa\u00e7\u00e3o do modo de vida dos \u201cjecas\u201d: derivam em grande parte das convic\u00e7\u00f5es pessoais que o autor tinha muito antes de herdar a fazenda do av\u00f4 e ter problemas com as queimadas provocadas pelos jecas. Vemos a opini\u00e3o de Lobato sobre os mesti\u00e7os em uma carta sua a Godofredo Rangel, datada de 1908:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Dizem que a mesti\u00e7agem liquefaz essa cristaliza\u00e7\u00e3o racial que \u00e9 o car\u00e1ter e d\u00e1 uns produtos inst\u00e1veis. Isso no moral \u2014 e no f\u00edsico, que feiura! Num desfile, \u00e0 tarde, pela horr\u00edvel rua Marechal Floriano, da gente que volta para os sub\u00farbios, que perpassam todas as degeneresc\u00eancias, todas as formas e m\u00e1-formas (sic) humanas \u2014 todas, menos a normal. Os negros da \u00c1frica, ca\u00e7ados a tiro e trazidos \u00e0 for\u00e7a para a escravid\u00e3o, vingaram-se do portugu\u00eas de maneira mais terr\u00edvel \u2014 amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos sub\u00farbios pela manh\u00e3 e reflui para os sub\u00farbios \u00e0 tarde.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Nada da brasilidade tem valor porque, na vis\u00e3o do autor, tudo que surge do Brasil induz \u00e0 \u201clombeira\u201d. Nos par\u00e1grafos seguintes, Lobato se encarrega de culpar a mandioca por grande parte do atraso mental do Jeca. Chamando-a de \u201cum p\u00e3o j\u00e1 amassado pela natureza\u201d e que n\u00e3o precisa ser plantado, nem adubado, nem colhido e nem armazenado; Lobato diz que, se ela n\u00e3o existisse, talvez assim o caipira se pusesse de p\u00e9 e andasse. Conclus\u00e3o necess\u00e1ria: exterminar a mandioca contribuiria para nosso progresso. Curioso que o autor ache mau que o caipira destrua a natureza: dessa destrui\u00e7\u00e3o pelo fogo, desse deserto que o caipira cria, certamente teria de nascer um ambiente hostil, capaz de induzir o povo a superar sua \u201clombeira\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Na superficialidade da an\u00e1lise de Lobato, que busca culpar o pobre pela sua pobreza, n\u00e3o sobra espa\u00e7o para perceber outras causas para al\u00e9m das raciais. Isto o autor poderia ter feito ao mencionar o vizinho do Jeca:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Todavia, \u201cest modus in rebus\u201d, e assim como ao lado do rastolho cresce o vi\u00e7oso p\u00e9 de milho, contrasta com a christianissima simplicidade do Geca a opulencia de um seu visinho e compadre que \u201cest\u00e1 muito bem\u201d.<\/p><p><em>A terra onde m\u00f3ra \u00e9 sua<\/em>. Possue ainda uma egua, um monjolo e uma espingarda de dois canos. Pesa nos destinos politicos do paiz com o seu voto e o polvilho azedo de que \u00e9 fabricante\u2026<\/p><p>[\u2026]<\/p><p>Representa este o typo classico do sitiante j\u00e1 com um p\u00e9 fora da classe.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O pr\u00f3prio Lobato havia mencionado a respeito do caboclo que ele \u00e9 um mero posseiro e que suas escolhas de n\u00e3o lavrar a terra partem da precariedade desse status. Aqui o mesmo Lobato reconhece que o vizinho do Jeca \u00e9 um pequeno propriet\u00e1rio e que isto lhe permite ter \u201cum p\u00e9 fora da classe\u201d. Mas em momento algum Lobato faz a ila\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria de que \u00e9 a propriedade da terra que fez a diferen\u00e7a no modo de vida dos dois caipiras. Em vez disso, logo a seguir Lobato volta a culpar ao caboclo por suas dificuldades:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Geca por dentro rivalisa com Geca por f\u00f3ra. O mobiliario cerebral, \u00e1 parte o succulento recheio de supersti\u00e7\u00f5es, vale o do casebre. O banquinho de tres p\u00e9s, as cuias, o gancho de toucinho, as gamellas reeditam-se dentro do seu caco sob a f\u00f3rma de id\u00e9as: s\u00e3o as no\u00e7\u00f5es praticas da vida, que recebeu do pae e que, intactas, transmittir\u00e1 aos filhos.<\/p><p>O sentimento de patria lhe \u00e9 desconhecido. N\u00e3o tem sequer a no\u00e7\u00e3o do paiz. Sabe que o mundo \u00e9 grande, que ha sempre terras para adiante, que muito longe est\u00e1 a c\u00f4rte com os gra\u00fados e mais distante ainda a Bahia, donde chegando bahianos pernosticos, e cocos.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Depois de enumerar exemplos da arte popular dos camponeses europeus, Lobato menciona a prec\u00e1ria arte dos pr\u00e9-hist\u00f3ricos e da\u00ed denuncia que o Geca, \u201cegresso \u00e1 regra\u201d, n\u00e3o tem nenhum tra\u00e7o remoto de sentimento art\u00edstico, algo que o tinham mesmo os trogloditas. A conclus\u00e3o, n\u00e3o verbalizada, \u00e9 a de que o caboclo est\u00e1 abaixo do n\u00edvel cultural dos homens das cavernas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo a m\u00fasica caipira, j\u00e1 universalmente associada \u00e0 cultura cabocla, Lobato faz quest\u00e3o de atribuir a outros pais:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>A modinha, como as demais manifesta\u00e7\u00f5es de arte popular existentes no paiz, \u00e9 obra exclusiva do mulato, em cujas veias o sangue recente do europeu, rico de atavismos estheticos, borbulha de mistura com o sangue selvagem, alegre e s\u00e3o do negro.<\/p><p>O caboclo \u00e9 soturno.<\/p><p>N\u00e3o canta sen\u00e3o rezas lugubres.<\/p><p>N\u00e3o dan\u00e7a sen\u00e3o o cat\u00ear\u00eat\u00ea aladainhado.<\/p><p>N\u00e3o esculpe o cabo da faca como o kabyla.<\/p><p>N\u00e3o comp\u00f5e sua can\u00e7\u00e3o como o fellah do Egypto.<\/p><p>Triste como o curiango, nem sequer assobia.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Essa inesperada men\u00e7\u00e3o positiva aos mulatos contrasta com a opini\u00e3o que o pr\u00f3prio Lobato teve dos mulatos reais quando os encontrou pelas ruas do Rio de Janeiro (citada na carta a Rangel). Lobato finalmente argumenta que o Jeca, ou seja, o caboclo, \u00e9 um <em>elemento estranho<\/em> ao Brasil (este pa\u00eds ideal e branqueado), apesar de ser um dos elementos peculiares de nossa composi\u00e7\u00e3o \u00e9tnica:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>No meio da natureza brasilica, t\u00e3o rica de formas e c\u00f4res, onde os ip\u00e9s floridos derramam feiti\u00e7os no ambiente, e a infolhescencia dos cedros, \u00e1s primeiras chuvas de Setembro, abre a dan\u00e7a dos tangar\u00e1s, onde ha abelhas de sol, esmeraldas vivas, cigarras, sabi\u00e1s, luz, c\u00f4r, perfume, vida dionisiaca em escach\u00f4o permanente, o caboclo \u00e9 o sombrio urup\u00ea de p\u00e1u podre, a modorrar silencioso no recesso das grotas.<\/p><p>S\u00f3 elle n\u00e3o fala, n\u00e3o canta, n\u00e3o ri, n\u00e3o ama.<\/p><p>S\u00f3 elle, no meio de tanta vida, n\u00e3o vive.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Tendo desumanizado o caboclo de uma maneira t\u00e3o cruel, faltou pouco para o autor recomendar o seu exterm\u00ednio, para o progresso do pa\u00eds. N\u00e3o \u00e0 toa Lobato o chamara de \u201cVelha Praga\u201d e o comparara a tantos seres nocivos. De fato, Lobato <em>chega a propor o exterm\u00ednio<\/em>, apenas o faz em sua correspond\u00eancia privada, em vez de faz\u00ea-lo abertamente, em sua literatura:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Pa\u00eds de mesti\u00e7os, onde branco n\u00e3o tem for\u00e7a para organizar uma Kux-Klan (sic), \u00e9 pa\u00eds perdido para altos destinos. [\u2026] Um dia se far\u00e1 justi\u00e7a ao Ku-Klux-Klan; tiv\u00e9ssemos a\u00ed uma defesa desta ordem, que mant\u00e9m o negro em seu lugar, e estar\u00edamos hoje livres da peste da imprensa carioca \u2014 mulatinho fazendo jogo do galego, e sempre demolidor porque a mesti\u00e7agem do negro destr\u00f3i a capacidade construtiva.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Um ano antes da publica\u00e7\u00e3o desta carta, em sua mem\u00f3ria pol\u00edtica, intitulada \u201cMinha Luta\u201d, Adolf Hitler j\u00e1 defendia que o negro tinha cumprido o seu papel hist\u00f3rico e j\u00e1 era hora de ser retirado do palco.<\/p>\n\n\n\n<h2>A Reumaniza\u00e7\u00e3o do Jeca<\/h2>\n\n\n\n<p>Podemos dizer que Monteiro Lobato deve sua carreira ao Jeca Tatu, mesmo antes de lhe dar esse nome pitoresco. Foi criticando o Jeca e seus h\u00e1bitos, inicialmente em \u201cVelha Praga\u201d, depois em \u201cUrup\u00eas\u201d, que Lobato chamou a aten\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica e dos leitores, transformando uma cr\u00edtica social em um sucesso liter\u00e1rio. Seria, por\u00e9m, injusto, afirmar que Lobato nunca revisou sua posi\u00e7\u00e3o a respeito do Jeca, porque ele o fez. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 se ele teve a capacidade de se reaproximar do personagem e de enxergar nele os valores que n\u00e3o viu de in\u00edcio, a quest\u00e3o \u00e9 quais foram os motivos desta reaproxima\u00e7\u00e3o e qu\u00e3o profundamente ela transformou os valores e o discurso do autor. Ou seja: se Lobato o fez espontaneamente e se n\u00e3o voltou a cometer as mesmas acusa\u00e7\u00f5es em outros momentos. O processo de revis\u00e3o da figura do Jeca Tatu tem um contexto e devemos perguntar quais foram seus desdobramentos de longo prazo.<\/p>\n\n\n\n<p>A notoriedade obtida com \u201cUrup\u00eas\u201d, principalmente, resultou em grandes rea\u00e7\u00f5es. Pol\u00edticos e homens de letras reagiram com horror \u00e0 republica\u00e7\u00e3o de \u201cVelha Praga\u201d. Acusavam Lobato de vilipendiar o povo brasileiro. O folclorista Corn\u00e9lio Pires foi um dos que sa\u00edram em defesa do caipira, ressaltando que era injusto atribuir aos pobres ignorantes a causa dos problemas do pa\u00eds e que, ademais, o tipo criticado por Lobato correspondia apenas ao caipira caboclo, mas n\u00e3o ao caipira em geral. Mas, conforme \u00c9der Silveira, Lobato estava convencido de que ra\u00e7a e meio eram os elementos condicionantes do car\u00e1ter do Jeca (SILVEIRA, 2005, p. 191). O primeiro elemento, toma-o de Gobineau e o segundo, dos naturalistas, como Euclides da Cunha.<\/p>\n\n\n\n<p>Justamente quando enfrentava cr\u00edticas de todos os lados, que poderiam ter comprometido o seu sucesso liter\u00e1rio, veio-lhe a t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o: o movimento higienista. A expedi\u00e7\u00e3o sanitarista de Belis\u00e1rio Penna e Arthur Neiva publicou seus resultados no mesmo ano do lan\u00e7amento de \u201cUrup\u00eas\u201d. Neles se chegava a afirmar que mais de 70% da popula\u00e7\u00e3o do interior do pa\u00eds padecia de verminoses, cujos sintomas correspondiam aos do Jeca (PENNA, 1928, p. 54):<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u00c9 uma doen\u00e7a que enfraquece o corpo, abate a intelligencia, produz a pregui\u00e7a e o desanimo, envenena e destroe o sangue, e faz a desgra\u00e7a de milh\u00f5es de brasileiros. \u00c9 uma doen\u00e7a que mata, todos os annos, milhares de crian\u00e7as patricias; que definha e prejudica o desenvolvimento do corpo e da intelligencia de dezenas de milhares de outras, que escapam \u00e1 morte; que reduz de mais de metade a capacidade de trabalho de milhares de homens, que, por isso, vegetam na miseria e viciam-se na cacha\u00e7a; que \u00e9 a causa de muitas ulceras e feridas rebeldes, e de muitas doen\u00e7as chronicas do cora\u00e7\u00e3o, dos rins, do figado, do estomago e dos intestinos, que matam annualmente milhares de pessoas. O <em>amarell\u00e3o<\/em> constitue a maior calamidade do Brasil. Enquanto n\u00e3o for dado combate decisivo a esse mal n\u00e3o conseguir\u00e1 o pa\u00edz prosperar na propor\u00e7\u00e3o das suas riquezas naturaes e das modernas conquistas da sciencia.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Belis\u00e1rio Penna tentava, em v\u00e3o, apelar aos pol\u00edticos para que dessem aten\u00e7\u00e3o ao problema sanit\u00e1rio do pa\u00eds. Lobato, ent\u00e3o, resolveu emprestar sua influ\u00eancia \u00e0 causa e assim afastar de si a acusa\u00e7\u00e3o de caluniador do povo. T\u00e3o r\u00e1pido quanto chegou o sucesso de Lobato (montado sobre as costas do caipira), tamb\u00e9m chegou o desmentido da ci\u00eancia, inocentando o Jeca de toda culpa por sua condi\u00e7\u00e3o. Lobato, ent\u00e3o, reumaniza-o \u2014 uma genial campanha de \u201credu\u00e7\u00e3o de danos\u201d e um dos maiores golpes de <em>marketing<\/em> da hist\u00f3ria do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft size-medium\"><img loading=\"lazy\" width=\"221\" height=\"300\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/image-221x300.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-7362\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/image-221x300.png 221w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/image-472x640.png 472w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/image-111x150.png 111w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/image-120x163.png 120w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/image.png 577w\" sizes=\"(max-width: 221px) 100vw, 221px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>A sinaliza\u00e7\u00e3o de Lobato ao movimento sanitarista ocorreu atrav\u00e9s de \u201cO Problema Vital\u201d, em que reuniu seus escritos sobre higienismo e eugenia. Entre estes v\u00e3o inseridas p\u00e1ginas sobre a \u201ctrindade maldita\u201d: \u201copila\u00e7\u00e3o\u201d (ancilostom\u00edase), \u201cidiotia\u201d (doen\u00e7a de Chagas) e \u201cimpaludismo\u201d (mal\u00e1ria). Utilizando dados retirados das descobertas da expedi\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria de Belis\u00e1rio Penna, Lobato afirma que o Brasil, ent\u00e3o com 25 milh\u00f5es de habitantes, teria 17 milh\u00f5es de \u201copilados\u201d, 7 milh\u00f5es de \u201cidiotas\u201d e 10 milh\u00f5es de \u201cimpaludados\u201d. O impacto de tais dados no imagin\u00e1rio popular preparou o terreno para o passo seguinte. Cedendo espa\u00e7o aos sanitaristas em sua \u201cRevista do Brasil\u201d e at\u00e9 mesmo publicando seus livros em sua editora, retomou a iniciativa e reinventou a figura do Jeca Tatu, agora afirmando que \u201cO Jeca n\u00e3o \u00e9 assim, ele est\u00e1 assim\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Lobato p\u00f4de, ent\u00e3o, relan\u00e7ar o Jeca Tatu, agora um anti-her\u00f3i tr\u00e1gico que pode encontrar a sua reden\u00e7\u00e3o. Em \u201cJeca Tatuzinho\u201d, publicado em 1924 com o patroc\u00ednio do laborat\u00f3rio Fontoura (uma das muitas estrat\u00e9gias malucas inventadas por Lobato), vemos a transforma\u00e7\u00e3o do Jeca pelo poder da Ci\u00eancia. Esta obra foi o maior sucesso de Monteiro Lobato antes da populariza\u00e7\u00e3o do S\u00edtio do Picapau Amarelo, mas costuma ser deixada de lado pelos bi\u00f3grafos do autor.<\/p>\n\n\n\n<p>A obra come\u00e7a repetindo as descri\u00e7\u00f5es que j\u00e1 haviam sido utilizadas em \u201cVelha Praga\u201d e em \u201cUrup\u00eas\u201d, exceto por um detalhe, agora o Jeca \u00e9 um pequeno propriet\u00e1rio rural, n\u00e3o mais um posseiro, e a hist\u00f3ria muda quando entra em cena um novo personagem:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Um dia passou por sua casa um doutor e, como amea\u00e7asse chuva, o homem resolveu abrigar-se na casa do J\u00e9ca. Pediu licen\u00e7a, entrou e abriu a boca diante da miseria da casa.<\/p><p>Depois, prestando atten\u00e7\u00e3o no J\u00e9ca, e vendo como era pallido e magro, resolveu examinal-o.<\/p><p>Esse doutor era um medico muito estudioso e intelligente. Tinha escripto diversos livros e vivia a falar em hygiene.<\/p><p>Acabado o exame, o doutor disse:<\/p><p>\u2014 Amigo J\u00e9ca, sabe voc\u00ea que o que voc\u00ea tem \u00e9 doen\u00e7a?<\/p><p>J\u00e9ca concordou:<\/p><p>\u2014 Pode ser. Eu sinto uma canceira que n\u00e3o tem fim, e dor de cabe\u00e7a, e uma pontada aqui no peito que responde na cacunda\u2026<\/p><p>\u2014 Pois \u00e9, voc\u00ea \u00e9 um doente. Toda a gente xinga voc\u00ea de pregui\u00e7oso, mas voc\u00ea n\u00e3o passa de um doente. Voc\u00ea est\u00e1 opilado. Soffre de ankilostomiase.<\/p><p>\u2014 Anki\u2026 o qu\u00ea? Exclamou J\u00e9ca, arregalando o olho.<\/p><p>\u2014 Soffre de amarell\u00e3o, entende? E eu vou curar voc\u00ea. Espere ahi!\u2026<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O doutor trata o J\u00e9ca com fitoterapia (erva de Santa Maria e \u00f3leo de r\u00edcino) e preceitos de higiene: lavar as m\u00e3os e usar cal\u00e7ados. Curado da verminose, o Jeca, em uma reviravolta hiperb\u00f3lica, logo se torna um homem trabalhador e empreendedor, que em poucos anos se torna um rico fazendeiro e acaba adquirindo um t\u00edtulo honor\u00edfico de coronel. Fiel aos princ\u00edpios da ideologia capitalista da meritocracia, Lobato acreditava que o enriquecimento era mera consequ\u00eancia do esfor\u00e7o pessoal.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, depois de ter sido o maior caluniador do caboclo sudestino, Monteiro Lobato conseguiu se reinventar como seu grande defensor, emprestando seu nome (mediante pagamento) a uma campanha publicit\u00e1ria de grande impacto cultural, que ainda estava no imagin\u00e1rio popular mais de sessenta anos depois.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando eu era crian\u00e7a, meu pai me contou a hist\u00f3ria do Jeca Tatu como se fosse um conto popular coletado pelo Laborat\u00f3rio Fontoura. Somente mais tarde eu fiquei sabendo que se tratava de uma cria\u00e7\u00e3o de Monteiro Lobato porque esses livros ficaram esgotados, ou relegados a edi\u00e7\u00f5es pouco numerosas, desde a fal\u00eancia da Monteiro Lobato &amp; Cia., a segunda editora fundada por Lobato.<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos, no entanto, aceitar que Lobato realmente mudou seu modo de pensar?<\/p>\n\n\n\n<h2>O Fiasco de \u201cO Presidente Negro\u201d<\/h2>\n\n\n\n<p>Em 1920 Lobato publicou seu segundo livro de contos para adultos, \u201cNegrinha\u201d. Esta obra \u00e9 um conjunto mais variegado e mais bem acabado do que \u201cUrup\u00eas\u201d e claramente superior em execu\u00e7\u00e3o a \u201cCidades Mortas\u201d, que lhe sucede. Seis contos razoavelmente longos e bastante elaborados, dos quais o ep\u00f4nimo \u00e9 o primeiro. Sucedem-no \u201cFitas da Vida\u201d, \u201cO Drama da Geada\u201d (em que Lobato relembra a grande trag\u00e9dia que o for\u00e7ou a vender sua fazenda de caf\u00e9), \u201cO Bugio Moqueado\u201d, \u201cO Jardineiro Tim\u00f3teo\u201d e \u201cO Colocador de Pronomes\u201d. Tr\u00eas dessas hist\u00f3rias versam, de maneira direta ou indireta, sobre o drama da escravid\u00e3o. Todas s\u00e3o excelentes e tr\u00eas est\u00e3o entre os melhores contos da literatura em l\u00edngua portuguesa. Lobato estava \u201cvoando\u201d em sua rec\u00e9m adquirida fama e o percal\u00e7o com o Jeca n\u00e3o lhe atrapalhara, gra\u00e7as \u00e0 esperteza com que se convertera \u00e0 causa sanitarista.<\/p>\n\n\n\n<p>T\u00e3o grande era o sucesso de sua editora que, em 1924, Lobato resolveu investir pesado na expans\u00e3o do seu parque gr\u00e1fico. Infelizmente, para ele, 1924 tamb\u00e9m foi o ano de uma grande seca, que causou escassez de energia el\u00e9trica em S\u00e3o Paulo. Al\u00e9m disso, por causa da primeira crise do caf\u00e9, o presidente Arthur Bernardes desvalorizou a moeda, tornando mais dif\u00edcil para Lobato pagar as presta\u00e7\u00f5es das m\u00e1quinas adquiridas, e suspendeu o redesconto de t\u00edtulos pelo Banco do Brasil, o que impediu Lobato de refinanciar seu capital de giro. Essa combina\u00e7\u00e3o de circunst\u00e2ncias causou a fal\u00eancia da Monteiro Lobato &amp; Cia.<\/p>\n\n\n\n<p>No mesmo ano, por\u00e9m, ele se mudou para o Rio de Janeiro, onde, com a ajuda de um s\u00f3cio, estabeleceu a Companhia Editora Nacional, que adquiriu parte do parque gr\u00e1fico da Monteiro Lobato &amp; Cia. Para a nova casa ele levou sua experi\u00eancia editorial e seu \u201cselo de qualidade\u201d. Levou tamb\u00e9m sua ambi\u00e7\u00e3o desmedida e, por causa dela, planejou \u201cfazer a Am\u00e9rica\u201d utilizando uma estrat\u00e9gia parecida com a que empregara ao satirizar o Jeca: faria o mesmo com o negro americano. Isso em um momento hist\u00f3rico em que a reputa\u00e7\u00e3o dos negros j\u00e1 come\u00e7ava a melhorar nos EUA e na Europa, por influ\u00eancia do jazz e do blues.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1926, Lobato publicou seu primeiro (e \u00fanico) romance para adultos: \u201cO Presidente Negro\u201d. Gra\u00e7as ao seu <em>lobby<\/em> com o presidente Washington Lu\u00eds em defesa da ind\u00fastria editorial brasileira, foi reconhecido como uma figura importante da cultura nacional e nomeado adido \u00e0 embaixada brasileira nos EUA, onde chegou em 1927, deixando a Companhia Editora Nacional em m\u00e3os de seu s\u00f3cio. L\u00e1 nos EUA Lobato pagou do pr\u00f3prio bolso pela tradu\u00e7\u00e3o de seu romance e o submeteu a dezenas de editores. Sonhava em v\u00ea-lo publicado, causar um grande esc\u00e2ndalo e assim atrair a aten\u00e7\u00e3o para si:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Um romance americano isto \u00e9, edit\u00e1vel nos Estados Unidos [\u2026]. Meio \u00e0 Wells, com vis\u00e3o do futuro. O <em>clou<\/em> ser\u00e1 o choque da ra\u00e7a negra com a branca, quando a primeira, cujo \u00edndice de prolifera\u00e7\u00e3o \u00e9 maior, alcan\u00e7ar a ra\u00e7a branca e bat\u00ea-la nas urnas, elegendo um presidente negro! Acontecem coisas tremendas, mas vence por fim a intelig\u00eancia do branco.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Essas ideias, no entanto, n\u00e3o sa\u00edram de tr\u00e1s das orelhas do autor naquele momento, como um mero golpe publicit\u00e1rio. Embora ele as tenha efetivamente usado para isso, eram ideias que ele tinha desde jovem. Em 17 de dezembro de 1905 ele escreveu ao amigo Godofredo Rangel:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Ando com ideias dumas coisas Wells, em que entrem imagina\u00e7\u00e3o, fantasia e vislumbres do futuro \u2014 n\u00e3o o futuro pr\u00f3ximo de Julio Verne, futurinho de 50 anos, mas um futuro de mil anos. Vou semear agora essas ideias e deix\u00e1-las se desenvolver livremente por dez ou vinte anos \u2014 e ent\u00e3o limito-me a fazer colheita, caso a planta\u00e7\u00e3o subsista at\u00e9 l\u00e1. Se a terra dos meus canteiros mentais n\u00e3o for prop\u00edcia a essas sementinhas, ent\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o estou destinado a ser o \u201cH. G. Wells de Taubat\u00e9\u201d e, paci\u00eancia. Ou dou um dia coisa que preste e <em>esborrache o ind\u00edgena<\/em>, ou n\u00e3o dou coisa nenhuma.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Os planos eram ambiciosos: sonhava em fundar uma editora nos EUA, a <em>Tupy Publishing Company<\/em>, com o objetivo de publicar autores brasileiros traduzidos para o ingl\u00eas. Pensava em transformar \u201ceditores e editados\u201d em milion\u00e1rios. Mas n\u00e3o obteve nenhum sucesso em sensibilizar os editores americanos para o pr\u00f3prio livro. Depois de dezenas de recusas, admitiu seu fracasso em carta ao amigo Godofredo Rangel:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Meu romance n\u00e3o encontra editor. Falhou a <em>Tupy Company<\/em>. Acham-no ofensivo \u00e0 dignidade americana, visto admitir que depois de tanto s\u00e9culos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri. Errei vindo c\u00e1 t\u00e3o verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros. Os originais est\u00e3o com o Isaac Goldberg para ver se h\u00e1 arranjo. Adeus, <em>Tupy Company<\/em>!<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Para quem ainda n\u00e3o sabe, \u201cO Presidente Negro\u201d prop\u00f5e o genoc\u00eddio da popula\u00e7\u00e3o negra dos EUA por meio da esteriliza\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de medicamentos administrados sem o conhecimento das v\u00edtimas. Esse \u00e9 o \u201cbelo crime\u201d que Lobato sugeriu que poderia ser praticado pelos americanos do futuro para resolver seu problema social.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais do que isso, \u201cO Presidente Negro\u201d apresenta uma dolorosa caricatura do negro, t\u00e3o ofensiva quanto o Jeca Tatu. Da boca de Jim Roy, o her\u00f3i negro da hist\u00f3ria, sai a promessa de manter presos os dois monstros, \u201co monstro da ebriedade negra e o monstro do orgulho branco\u201d a fim de evitar uma \u201cchacina espantosa\u201d. O negro de 2228 ainda seria pouco mais que o negro indolente da concep\u00e7\u00e3o racista de 1928.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante da vit\u00f3ria do candidato negro, eis o que o presidente branco tem a dizer-lhe:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u2014 N\u00e3o amea\u00e7o. Previno lealmente. Vejo em ti uma for\u00e7a demasiado grande para que eu a enfrente com palavras. Estamos face a face n\u00e3o dois homens, sim duas almas raciais arrostadas num duelo decisivo. N\u00e3o fala neste momento o Presidente Kerlog. Fala o branco de crueldade fria, o mesmo que vos arrancou do <em>kraal<\/em>, o mesmo que vos torturou nos brigues, o mesmo que vos espezinhou nos algodoais. Como h\u00e1 raz\u00f5es de estado, Jim, h\u00e1 raz\u00f5es de ra\u00e7a. Raz\u00f5es sobrehumanas, frias como o gelo, cru\u00e9is como o tigre, duras como o diamante, implac\u00e1veis como o fogo. O sangue n\u00e3o raciocina, como os fil\u00f3sofos. O sangue sidera, qual o raio. Como homem admiro-te, Jim. Vejo em ti o irm\u00e3o e sinto o g\u00eanio. Mas como branco s\u00f3 vejo em ti o inimigo a esmagar\u2026<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>At\u00e9 mesmo nos tratamentos entre os personagens ainda se transcreve as rela\u00e7\u00f5es raciais presentes. James Roy se refere a Kerlog na terceira pessoa e o chama pelo sobrenome. Kerlog se refere a James na segunda pessoa e o chama pelo apelido, Jim. Na boca do narrador, o homem branco aparece como uma manifesta\u00e7\u00e3o da divindade (grifos adicionados):<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Jim baixou a cabe\u00e7a. Viu aberto \u00e0 sua frente o <em>eterno<\/em> abismo. O sangue branco tinha a dureza do diamante. <em>Armado de mais c\u00e9rebro<\/em>, dos vales dos Ganges partira para a ousada aventura conquistadora e vencera sempre e n\u00e3o cedera nunca. Era o nobre, o duro, o <em>eterno<\/em> senhor cujo raio fulmina. Era o criador. Do rude instinto de matar do troglodita extraira a sua grande arte, a Guerra. Forjara a espada, dominara o g\u00e1s que explode, violara o profundo das \u00e1guas e a amplid\u00e3o dos ares. E com esse feixe de armas <em>incoerc\u00edveis<\/em> rodeara como de baionetas o diamante do seu Orgulho.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Aqui o homem branco, o ariano, possuidor de mais c\u00e9rebro, aparece predestinado a ser o senhor do mundo, a vencer sempre e a nunca ceder. Diante da ousadia de James Roy, que se elege presidente contra a vontade de uma maioria branca, o homem branco trama sua vingan\u00e7a irresist\u00edvel. Digo que \u00e9 o homem branco <em>ariano<\/em> porque da boca do personagem Kerlog, Lobato faz sair uma men\u00e7\u00e3o \u00e0 origem da ra\u00e7a branca nos vales do Ganges (\u00cdndia) ber\u00e7o dos povos \u201cindo-arianos\u201d, segundo se acreditava. Esta glorifica\u00e7\u00e3o do ariano como senhor natural do mundo <em>e dos povos inferiores<\/em> pode ser encontrada em outras fontes, como esta (grifos adicionados):<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u00c9 nos Arianos \u2014 ra\u00e7a que foi e \u00e9 o expoente do desenvolvimento cultural da Humanidade \u2014 que se verifica tudo isso com a maior clareza. Assim que o destino os lan\u00e7a em situa\u00e7\u00f5es especiais, as faculdades que possuem come\u00e7am a se desenvolver e a se tornar manifestas. As civiliza\u00e7\u00f5es por eles fundadas em semelhantes casos, quase sempre s\u00e3o definitivamente fixadas pelo solo e clima e pelos homens vencidos, sendo este \u00faltimo fator quase que o mais decisivo. Quanto mais primitivos os recursos t\u00e9cnicos para um trabalho cultural, mais necess\u00e1rio o aux\u00edlio de for\u00e7as humanas, que, conjugadas e bem aplicadas, ter\u00e3o que substituir a energia da m\u00e1quina. Sem tal possibilidade de empregar gente inferior, o ariano nunca teria podido dar os primeiros passos para sua civiliza\u00e7\u00e3o, do mesmo modo que, sem a ajuda de animais apropriados, pouco a pouco domados por ele, nunca teria alcan\u00e7ado uma t\u00e9cnica, gra\u00e7as \u00e0 qual vai podendo dispensar os animais. <em>O ditado: \u201co negro fez a sua obriga\u00e7\u00e3o, pode se retirar\u201d, possui infelizmente uma significa\u00e7\u00e3o profunda. Durante mil\u00eanios, o cavalo teve que servir e ajudar o homem em certos trabalhos nos quais agora o motor suplantou, o que dispensou perfeitamente o cavalo, Daqui a poucos anos, este ter\u00e1 cessado toda a sua atividade<\/em>. No entanto, sem a sua coopera\u00e7\u00e3o inicial, o homem s\u00f3 dificilmente teria<br \/>chegado ao ponto em que hoje se acha.<\/p><p>Eis como a exist\u00eancia de povos inferiores tornou-se condi\u00e7\u00e3o primordial na forma\u00e7\u00e3o de civiliza\u00e7\u00f5es superiores, nas quais s\u00f3 esses entes poderiam suprir a falta de recursos t\u00e9cnicos, sem os quais nem se pode imaginar um progresso mais elevado. A cultura b\u00e1sica da humanidade se apoiou menos no animal domesticado do que na utiliza\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos inferiores.<\/p><p>[\u2026]<\/p><p>O progresso humano se assemelha a uma ascens\u00e3o em uma escada sem fim; n\u00e3o se chega de forma alguma encima, sem se ter servido dos degraus inferiores. Foi assim que o ariano teve que trilhar o caminho tra\u00e7ado pela realidade e n\u00e3o aquele com o qual sonha a fantasia de um pacifista moderno. O caminho da realidade \u00e9 duro e espinhoso, mas s\u00f3 ele conduz \u00e0 finalidade com que os pacifistas sonham afastando, por\u00e9m, cada vez mais a humanidade do ideal sonhado. N\u00e3o \u00e9, portanto, por mero acaso, que as primeiras civiliza\u00e7\u00f5es tenham nascido ali, onde o ariano, encontrando povos inferiores, subjugou os \u00e0 sua vontade; foram eles os primeiros <em>instrumentos<\/em> a servi\u00e7o de uma cultura em forma\u00e7\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O que amea\u00e7a esse futuro fict\u00edcio dos EUA \u00e9 a ascens\u00e3o dos negros ao poder, contra a natureza senhoril dos brancos. \u00c9 a ra\u00e7a branca, que se autointitula senhora natural do mundo, que busca se defender dos perigos que a amea\u00e7am. No\u00e7\u00e3o que pode, tamb\u00e9m, ser encontrado na mesma fonte citada acima:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>No momento em que os pr\u00f3prios vencidos come\u00e7aram a se elevar sob o ponto de vista cultural, aproximando-se tamb\u00e9m dos conquistadores pelo idioma, ruiu a rigorosa barreira entre o senhor e o servo. <em>O ariano sacrificou a pureza do sangue, perdendo assim o lugar no Para\u00edso, que ele mesmo tinha preparado<\/em>. Sucumbiu, com a mistura racial; perdeu, aos poucos, cada vez mais, sua capacidade civilizadora, at\u00e9 que come\u00e7ou a se assemelhar mais aos ind\u00edgenas subjugado do que a seus antepassados, e isso, n\u00e3o s\u00f3 intelectual como fisicamente. Algum tempo ainda, p\u00f4de fruir dos bens j\u00e1 existentes da civiliza\u00e7\u00e3o, mas, depois, sobreveio a paralisa\u00e7\u00e3o do progresso e o homem se esqueceu de si pr\u00f3prio.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Quando Kerlog fala na em \u201craz\u00f5es de ra\u00e7a\u201d e menciona a for\u00e7a irracional do sangue, que o obriga a exterminar os negros, ele se refere \u00e0 necessidade de proteger o Para\u00edso constru\u00eddo pelas gera\u00e7\u00f5es anteriores. Kerlog v\u00ea ruir a estrutura milenar de domina\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da qual ele mesmo e seus compatriotas brancos podiam usufruir de uma posi\u00e7\u00e3o privilegiada. A solu\u00e7\u00e3o f\u00e1cil \u00e9 exterminar o negro, que agora \u201cfez sua obriga\u00e7\u00e3o\u201d e j\u00e1 pode ser suplantado pela m\u00e1quina. O risco ao Para\u00edso branco decorre de ter tolerado a exist\u00eancia do negro depois que a industrializa\u00e7\u00e3o o tornou desnecess\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Vejo-te grande como Lincoln, Jim, e \u00e9 com l\u00e1grimas nos olhos que contemplo a tua figura imensa, <em>mas in\u00fatil\u2026<\/em> Adeus. Atendamos ao instante, a\u00e7aimemos as nossas ra\u00e7as \u2014 mas n\u00e3o fique entre n\u00f3s sombra de mentira. O teu ideal \u00e9 nobil\u00edssimo, mas \u00e0 solu\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a com que sonhas s\u00f3 poderemos responder com a eterna resposta do nosso orgulho: Guerra!<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O que se conclui da an\u00e1lise destes textos \u00e9 que Lobato era claramente um adepto do racismo cient\u00edfico e que suas ideias sobre pureza de sangue e degenera\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a <em>n\u00e3o tinham mudado desde a \u00e9poca da controv\u00e9rsia do Jeca Tatu<\/em>. Alternativamente, Lobato tinha percebido o seu erro, mas voltava ao velho cacoete porque pressentia que poderia vender mais livros explorando o efeito chocante de ideias extremistas. Em qualquer dos casos, ele se revela um monstro moral.<\/p>\n\n\n\n<p>No primeiro caso porque, obviamente, \u00e9 adepto de ideias que ecoam o nazismo. Os trechos citados acima, se voc\u00ea ainda n\u00e3o os reconheceu, pertencem ao livro escrito por Hitler, \u201cMinha Luta\u201d. As ideias de guerra racial significam, claramente, uma ades\u00e3o intelectual ao nazi-fascismo ou, pelo menos, ao conjunto de ideias que viera a desembocar no nazi-fascismo.<\/p>\n\n\n\n<p>No segundo caso porque o autor estaria explorando de maneira sensacionalista o sofrimento de uma parte da popula\u00e7\u00e3o com a finalidade de estabelecer sua popularidade entre os membros da minoria privilegiada e assim ganhar dinheiro.<\/p>\n\n\n\n<p>O mais curioso \u00e9 que, no caso de Lobato, sua opini\u00e3o mais negativa era reservada ao elemento ind\u00edgena, mais caracter\u00edstico da identidade nacional. Enquanto a miscigena\u00e7\u00e3o do portugu\u00eas com o negro resultou no \u201cmulato\u201d, que preserva o g\u00eanio europeu e o adiciona ao temperamento do africano (e assim criou a \u201cmodinha\u201d, de que Lobato parece gostar), a miscigena\u00e7\u00e3o com o ind\u00edgena resultou este ser inferior, o caboclo, que \u00e9 presa da imobilizante \u201clombeira\u201d e se caracteriza por uma aus\u00eancia de arte que o relega a um n\u00edvel animalesco.<\/p>\n\n\n\n<p>Este \u00f3dio preferencial pelo ind\u00edgena e pelo caboclo fica muito bem explicado quando recorremos \u00e0s ideias de Adolf Hitler: a avers\u00e3o de Lobato ao ind\u00edgena reflete a falha deste em servir de instrumento para o desenvolvimento da civiliza\u00e7\u00e3o portuguesa na Am\u00e9rica (pelo menos segundo a historiografia tradicional, que atribui ao ind\u00edgena a \u201cindol\u00eancia\u201d e a \u201crebeldia\u201d que o impediam de trabalhar produtivamente). Desta forma, a grande contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do Brasil teria sido dada pelo negro, que se p\u00f4s, ent\u00e3o, em uma posi\u00e7\u00e3o superior \u00e0 do ind\u00edgena, mas ainda inferior \u00e0 do branco.<\/p>\n\n\n\n<h2>O Retorno ao Brasil e a Maturidade<\/h2>\n\n\n\n<p>A passagem de Monteiro Lobato pelos EUA terminou de maneira duplamente decepcionante para ele. Depois do custoso fiasco da tentativa de publicar \u201cO Presidente Negro\u201d em ingl\u00eas, Lobato ainda perdeu uma fortuna tentando especular na bolsa de valores de Nova Iorque, tendo sido um entre milh\u00f5es de investidores iniciantes prejudicados pela grande quebra de 1929. Para passar ainda sal em suas feridas, o golpe de estado de 1930 n\u00e3o somente apeou do poder o grupo pol\u00edtico a que Lobato tinha acesso, como ainda p\u00f4s em seu lugar um governo que parecia determinado a reverter ou, pelo menos, mudar as prioridades. Lobato, que rapidamente telegrafara a J\u00falio Prestes parabenizando-o pela vit\u00f3ria, foi ent\u00e3o exonerado da posi\u00e7\u00e3o de adido cultural em Washington e teve de retornar ao Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse regresso \u00e0 p\u00e1tria foi bastante amargo para o escritor, que enfrentara nos seis anos anteriores uma sequ\u00eancia de reveses que dilapidou quase todo o dinheiro que obtivera da venda de sua fazenda de caf\u00e9 \u2014 sendo que a pr\u00f3pria venda desta j\u00e1 fora resultante de um rev\u00e9s, a grande geada de 1917. Ao retornar ao Brasil em 1930, estava empobrecido, n\u00e3o tinha boas rela\u00e7\u00f5es com o governo e perdera a maior parte de seu poder no meio editorial. Sua fonte de renda remanescente eram os direitos autorais dos livros que publicara e as tradu\u00e7\u00f5es que passou a fazer \u2014 e no Brasil isto n\u00e3o enriquece ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde seu retorno, passou a trabalhar febrilmente como tradutor e investiu pesado no ramo de sua atividade liter\u00e1ria que lhe dava mais retorno financeiro: o infantil. Entre 1930 de 1933 publicou, em r\u00e1pida sucess\u00e3o: \u201cPeter Pan\u201d, \u201cA Pena de Papagaio\u201d, \u201cO P\u00f3 de Pirlimpimpim\u201d, \u201cReina\u00e7\u00f5es de Narizinho\u201d (uma reedi\u00e7\u00e3o de \u201cA Menina do Narizinho Arrebitado\u201d adicionada de mais hist\u00f3rias publicadas entre 1922 e 1931), \u201cNovas Reina\u00e7\u00f5es de Narizinho\u201d, \u201cViagem ao C\u00e9u\u201d, \u201cCa\u00e7adadas de Pedrinho\u201d (reedi\u00e7\u00e3o aumentada de \u201cA Ca\u00e7ada da On\u00e7a\u201d, de 1926) e \u201cHist\u00f3ria do Mundo Para Crian\u00e7as\u201d. Tamb\u00e9m publicou tradu\u00e7\u00f5es puras, como \u201cMowgli, o Menino Lobo\u201d (Rudyard Kipling), \u201cContos de Andersen\u201d, \u201cContos de Grimm\u201d, \u201cContos de Fadas de Perrault\u201d, \u201cKim\u201d (Rudyard Kipling), \u201cO Lobo do Mar\u201d (Jack London), \u201cPollyana\u201d e \u201cPollyana Mo\u00e7a\u201d (Eleanor G. Porter), \u201cAventuras de Huck\u201d (Mark Twain), \u201cO Homem Invis\u00edvel\u201d (H. G. Wells) e v\u00e1rios outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Lobato \u00e9 um dos mais prol\u00edficos tradutores brasileiros. Estima-se que tenha traduzido mais de cem obras em toda a sua vida. Muitas de suas tradu\u00e7\u00f5es foram feitas anonimamente (por se tratarem de obras que ele n\u00e3o desejava adicionar ao pr\u00f3prio curr\u00edculo) ou n\u00e3o foram creditadas (porque foram publicadas em viola\u00e7\u00e3o ao seu contrato de exclusividade com a Companhia Editora Nacional, entre 1933 e 1943).<\/p>\n\n\n\n<p>Nos EUA, por\u00e9m, tinha adquirido uma mentalidade de \u201chomem de neg\u00f3cios\u201d e decidiu p\u00f4-la em a\u00e7\u00e3o, fundando a \u201cCompanhia Petr\u00f3leos do Brasil\u201d. Sua atua\u00e7\u00e3o como homem de neg\u00f3cios n\u00e3o o impede de ser, entre 1934 e 1944, um dos tradutores mais prol\u00edficos do Brasil, mas o coloca em conflito com poderosos interesses. Tamb\u00e9m nesta \u00e9poca os seus livros infantis come\u00e7am a ser alvo de protestos. Entre muitas acusa\u00e7\u00f5es, censura a suas obras e esc\u00e2ndalos na imprensa, chegou a ser chamado de \u201ccomunista\u201d. Mais tarde chegou mesmo a considerar a possibilidade de se unir ao Partido Comunista, mas foi rejeitado devido ao seu hist\u00f3rico de simpatias pelo fascismo, mas chegou a presidir um Instituto Cultural Brasil-URSS em 1944. Tendo recusado em 1934 a presid\u00eancia do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), Lobato se viu v\u00edtima dele em 1940, quando foi preso e teve seu livro \u201cO Esc\u00e2ndalo do Petr\u00f3leo\u201d recolhido e destru\u00eddo. Mesmo fora da cadeia o governo continuou a persegui-lo, liquidando todos os seus neg\u00f3cios. Em 1943 sua \u00fanica fonte de renda passou a ser os direitos autorais, que renegociou com a rec\u00e9m-fundada Editora Brasiliense.<\/p>\n\n\n\n<p>Da sua dupla atua\u00e7\u00e3o, como homem de letras e homem de neg\u00f3cios afeito \u00e0 pol\u00edtica, surge uma contradi\u00e7\u00e3o que ajuda a explicar em grande parte o seu conte\u00fado liter\u00e1rio neste per\u00edodo. Quando Lobato \u00e9 acusado de fazer proselitismo de suas cren\u00e7as pessoais, o que inviabilizaria a defesa de sua obra a partir da perspectiva da separa\u00e7\u00e3o entre o autor e sua cria\u00e7\u00e3o, est\u00e1-se a falar principalmente de suas obras paradid\u00e1ticas, ainda que tamb\u00e9m tenha feito proselitismo, de maneira igualmente descarada, em obras ditas de fic\u00e7\u00e3o (exemplo: \u201cO Presidente Negro\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p>Depois da controv\u00e9rsia de \u201cUrup\u00eas\u201d e dos anos que Lobato levou a atenuar o impacto negativo da\u00ed surgido, depois do fiasco de sua investida no mercado americano explorando o racismo; nenhuma outra obra sua foi t\u00e3o controversa <em>em vida<\/em> quanto a \u201cHist\u00f3ria do Mundo Para Crian\u00e7as\u201d. Os motivos, por\u00e9m, foram diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Inicialmente, trata-se de um pl\u00e1gio, porque Lobato; a exemplo do que fizera com o \u201cPeter Pan\u201d, de J. M. Barrie; est\u00e1 reescrevendo uma obra estrangeira a que teve acesso (e que possu\u00eda em sua biblioteca pessoal): \u201c<em>A Child\u2019s History of the World<\/em>\u201d, de Virgil M. Hillyer. A obra original j\u00e1 tinha seus problemas (que n\u00e3o vou procurar detalhar), mas a vers\u00e3o de Lobato n\u00e3o somente n\u00e3o os poda como ainda os agrava, ao acrescentar ao livro a vis\u00e3o eugenista do autor brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Lobato era reconhecidamente um eugenista, membro-fundador da Sociedade Eug\u00eanica de S\u00e3o Paulo (com Renato Kehl e Belis\u00e1rio Penna). A Editora Revista do Brasil, dirigida por Lobato, publicava os \u201cAnnaes da Eugenia\u201d e a Revista cedia espa\u00e7o amplo a Renato Kehl e Belis\u00e1rio Penna, entre outros eugenistas. Apesar de ter sido for\u00e7ado a admitir que a causa da mis\u00e9ria do Jeca Tatu n\u00e3o era sua inferioridade racial, mas um problema de sa\u00fade p\u00fablica, Lobato se manteve ligado ao movimento eugenista por quase toda a vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma prova de que ele ainda era um defensor da eugenia est\u00e1 em \u201cO Presidente Negro\u201d, de 1926, em que Lobato p\u00f5e na boca de um personagem as seguintes falas:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>O direito de reprodu\u00e7\u00e3o passou a ser regido pelo C\u00f3digo da Ra\u00e7a, o mais alto monumento da sabedoria humana. S\u00f3 quem apresentasse a s\u00e9rie completa de requisitos que a Eugenia impunha \u2014 requisitos que assegurassem a perfeita qualidade dos produtos, \u00e9 que recebia o minist\u00e9rio da Sele\u00e7\u00e3o Artificial o <em>brevet<\/em> de \u201cpai autorizado\u201d.<\/p><p>\u2014 Mas realmente parece incr\u00edvel, miss Jane, exclamei com horror, que ainda hoje tenha o direito de ser pai quem quer! Morf\u00e9ticos h\u00e1 ali na ro\u00e7a que botam no mundo anualmente pequeninos l\u00e1zaros. E ninguem v\u00ea, ninguem diz nada, todos acham que est\u00e1 tudo direito\u2026<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Para quem nega que Lobato fizesse <em>proselitismo<\/em> de suas cren\u00e7as pessoais atrav\u00e9s de sua obra, n\u00e3o pode haver desmentido melhor. O termo \u201ceugenia\u201d \u00e9 usado de maneira inequ\u00edvoca e o her\u00f3i do livro defende a eugenia com argumentos parecidos com o de certos pol\u00edticos de direita de hoje\u2026 Mais que isso, Lobato menciona \u201cmorf\u00e9ticos\u201d da ro\u00e7a, o que \u00e9 uma maneira indireta de voltar a atacar o pobre Jeca Tatu, que o autor fora for\u00e7ado a defender anos antes\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Em \u201cHist\u00f3ria do Mundo Para Crian\u00e7as\u201d, Lobato volta a defender a eugenia, agora explicando-a de uma maneira que as crian\u00e7as possam entender:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Voltando a Esparta, come\u00e7ou Licurgo a organizar a vida dos espartanos conforme as li\u00e7\u00f5es que aprendeu. (\u2026) Se os rec\u00e9m-nascidos eram fracos, ou possu\u00edam qualquer defeito f\u00edsico, a lei mandava abandon\u00e1-los numa montanha, para que morressem. Licurgo n\u00e3o queria que houvesse um s\u00f3 aleijado de nascen\u00e7a em Esparta.<\/p><p>\u2014 Sistema de tia Nast\u00e1cia com os pintinhos \u2014 observou Em\u00edlia.<\/p><p>\u2014 Ela torce o pesco\u00e7o de todos que n\u00e3o prometem bons frangos<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Para Abreu (2014, p. 133), Lobato ainda est\u00e1 impregnado do discurso do racismo cient\u00edfico, mas j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 racista no sentido lato do termo:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Em sua obra, Lobato parece escrever uma hist\u00f3ria das ra\u00e7as do mundo, recorrendo a esse termo incont\u00e1veis vezes ao longo das trezentas p\u00e1ginas do texto. Ele empregava a palavra ra\u00e7a referindo-se a povos, civiliza\u00e7\u00f5es, sociedades, etnias, fam\u00edlias, cor da pele, entre outras defini\u00e7\u00f5es. Tamb\u00e9m se valia de diferentes termos da biologia in\u00fameras vezes, termos esses presentes em toda a m\u00eddia impressa, mostrando que estava em conson\u00e2ncia com os discursos de sua \u00e9poca. Um detalhe, no entanto, chama a aten\u00e7\u00e3o: na \u00e9poca em que escreveu essa adapta\u00e7\u00e3o, Lobato provavelmente n\u00e3o acreditava na teoria do enfraquecimento da ra\u00e7a pela mesti\u00e7agem, pois ele descreve Narizinho como uma menina muito inteligente e \u201cdum lindo moreninho cor de jambo\u201d.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Neste momento de sua vida o escritor parecia estar em transi\u00e7\u00e3o. J\u00e1 n\u00e3o parece ter dos negros as mesmas opini\u00f5es gerais de vinte e cinco anos antes, mas ainda reproduz uma caracteriza\u00e7\u00e3o racista de Tia Nast\u00e1cia (nesta obra e em outras). Condena a escravid\u00e3o de maneira veemente e elogia aqueles que contribu\u00edram para elimin\u00e1-la, por\u00e9m ainda se refere a certos povos como \u201cb\u00e1rbaros primitivos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada disso incomodou ao governo, \u00e0 igreja ou \u00e0 sociedade da \u00e9poca. O que realmente causou a controv\u00e9rsia foi Lobato n\u00e3o ter dado aten\u00e7\u00e3o ao criacionismo (o livro come\u00e7a com o Big Bang) e ter narrado a hist\u00f3ria sagrada de maneira superficial, preferindo focar nos povos mediterr\u00e2neos. Em Portugal, o livro foi acusado de perpetuar a \u201clenda negra\u201d da coloniza\u00e7\u00e3o (como no epis\u00f3dio em que tripula\u00e7\u00e3o de Vasco da Gama supostamente corta as orelhas de 1.600 mu\u00e7ulmanos) e de ridicularizar os feitos portugueses (ao sugerir que a descoberta do Brasil teria surgido por acaso, devido a um erro dos navegadores). Em rela\u00e7\u00e3o ao acaso, \u00e9 poss\u00edvel que Lobato tenha sido um dos maiores difusores desta tese \u2014 o que testemunharia o impacto cultural de sua obra no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Fato \u00e9 que durante os anos 1930, embora n\u00e3o gozasse da fortuna e do poder de que usufru\u00edra no come\u00e7o de sua carreira, Lobato se tornara uma personalidade p\u00fablica influente e conseguira obter, em grande parte atrav\u00e9s do S\u00edtio do Picapau Amarelo, um canal para difundir suas ideias. Isto explica por que raz\u00e3o as suas obras, a partir de 1930, come\u00e7am a assumir um ar cada vez mais pedag\u00f3gico:<\/p>\n\n\n\n<ul><li>Hist\u00f3ria do Mundo Para Crian\u00e7as (1933) \u2014 Cosmologia e Hist\u00f3ria<\/li><li>Em\u00edlia no Pa\u00eds da Gram\u00e1tica (1934) \u2014 Gram\u00e1tica e Lingu\u00edstica<\/li><li>Aritm\u00e9tica da Em\u00edlia (1935) \u2014 Matem\u00e1tica<\/li><li>Geografia de Dona Benta (1935) \u2014 Geografia f\u00edsica e pol\u00edtica<\/li><li>Hist\u00f3ria das Inven\u00e7\u00f5es (1935)<\/li><li>Ser\u00f5es de Dona Benta (1937) \u2014 Hist\u00f3ria das ci\u00eancias<\/li><li>Hist\u00f3rias de Tia Nast\u00e1cia (1937) \u2014 Discuss\u00f5es sobre o folclore<\/li><li>O Po\u00e7o do Visconde (1937) \u2014 originalmente intitulado \u201cGeologia Para Crian\u00e7as\u201d<\/li><li>O Minotauro (1939)<\/li><li>Os Doze Trabalhos de H\u00e9rcules (1944)<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Estas duas \u00faltimas obras procuravam apresentar as crian\u00e7as \u00e0 mitologia grega, que em v\u00e1rios momentos Lobato afirmara ser superior \u00e0s \u201cpobres supersti\u00e7\u00f5es\u201d do povo brasileiro (mais sobre isso no cap\u00edtulo sobre as \u201cHist\u00f3rias de Tia Nast\u00e1cia\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p>Neste per\u00edodo a partir de 1930, Lobato quase n\u00e3o escreveu novas obras de fic\u00e7\u00e3o infantil. As tr\u00eas primeiras aventuras do S\u00edtio publicadas depois de 1930 eram vers\u00f5es ampliadas e\/ou reescritas de obras anteriores:<\/p>\n\n\n\n<ul><li>\u201cReina\u00e7\u00f5es de Narizinho\u201d \u00e9 reedi\u00e7\u00e3o de \u201cA Menina do Narizinho Arrebitado\u201d, aumentada das hist\u00f3rias \u201cNarizinho Arrebitado\u201d, \u201cO Marqu\u00eas de Rabic\u00f3\u201d, \u201cO Noivado de Narizinho\u201d, \u201cAventuras do Pr\u00edncipe\u201d, \u201cO Gato F\u00e9lix\u201d, \u201cA Cara de Coruja\u201d, \u201cO Irm\u00e3o de Pin\u00f3quio\u201d, \u201cO Circo de Cavalinhos\u201d, \u201cA Pena de Papagaio\u201d e \u201cO P\u00f3 de Pirlimpimpim\u201d.<\/li><li>\u201cNovas Reina\u00e7\u00f5es de Narizinho\u201d \u00e9 uma continua\u00e7\u00e3o de \u201cReina\u00e7\u00f5es de Narizinho\u201d e as duas costuma ser reeditadas em volume \u00fanico.<\/li><li>\u201cCa\u00e7adas de Pedrinho\u201d \u00e9 uma vers\u00e3o revista e aumentada de \u201cA Ca\u00e7ada da On\u00e7a\u201d.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>At\u00e9 a sua morte, Lobato s\u00f3 escreveu mais quatro novas aventuras n\u00e3o did\u00e1ticas:<\/p>\n\n\n\n<ul><li>\u201cMem\u00f3rias da Em\u00edlia\u201d (1936)<\/li><li>\u201cO Picapau Amarelo\u201d (1939)<\/li><li>\u201cA Reforma da Natureza\u201d (1941)<\/li><li>\u201cA Chave do Tamanho\u201d (1942)<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Salta aos olhos, ent\u00e3o, que Lobato se assenhorou da sua condi\u00e7\u00e3o de autor infantil de sucesso para tentar \u201ceducar\u201d as crian\u00e7as. Esta \u00e9 a raz\u00e3o pela qual \u00e9 necess\u00e1rio discutir o que realmente est\u00e1 nas entrelinhas do seu trabalho.<\/p>\n\n\n\n<h2>Racismo e Ecologia \u201cCa\u00e7adas de Pedrinho\u201d<\/h2>\n\n\n\n<p>O primeiro livro infantil de Monteiro Lobato que despertou o debate sobre a quest\u00e3o do racismo foi \u201cCa\u00e7adas de Pedrinho\u201d, de 1933. Antes de tudo temos que lembrar que este livro tem outros problemas al\u00e9m do racismo. Destes, o mais digno de nota \u00e9 aquele que est\u00e1 no pr\u00f3prio t\u00edtulo: a exalta\u00e7\u00e3o ao exterm\u00ednio de animais silvestres.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cCa\u00e7adas de Pedrinho\u201d perpetua a no\u00e7\u00e3o da natureza advers\u00e1ria do ser humano e do animal selvagem como um obst\u00e1culo a ser removido pela civiliza\u00e7\u00e3o. Logo no primeiro cap\u00edtulo do livro as crian\u00e7as matam uma on\u00e7a que at\u00e9 ent\u00e3o nada fizera a n\u00e3o ser estar no \u201cCapoeir\u00e3o dos Taquaru\u00e7us\u201d, a mata remanescente entre o S\u00edtio do Picapau Amarelo e as terras vizinhas. Disso resulta uma \u201cguerra\u201d contra os animais das redondezas, que \u00e9 o grande assunto do livro.<\/p>\n\n\n\n<p>As men\u00e7\u00f5es racistas s\u00e3o muitas, mas nem de longe t\u00e3o agressivas quanto \u00e0s encontradas em \u201cUrup\u00eas\u201d, \u201cO Presidente Negro\u201d ou, como veremos a seguir, \u201cHist\u00f3rias de Tia Nast\u00e1cia\u201d. S\u00e3o, em geral, men\u00e7\u00f5es sutis em que se desvaloriza Nast\u00e1cia por ser negra:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u2014 \u00c9 guerra e das boas. N\u00e3o vai escapar ningu\u00e9m \u2014 <em>nem Tia Nast\u00e1cia, que tem carne preta<\/em>. As on\u00e7as est\u00e3o preparando as goelas para devorar todos os b\u00edpedes do s\u00edtio, exceto os de pena.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ou uma prefer\u00eancia por enfatizar que Nast\u00e1cia seria \u201cdesajeitada\u201d, \u201cmedrosa\u201d ou menos inteligente, por ser preta (a men\u00e7\u00e3o \u00e0 sua ra\u00e7a est\u00e1 sempre presente toda vez que alguma observa\u00e7\u00e3o negativa se faz a respeito de seu comportamento, como nesses trechos isolados, tomados de diversas partes do livro:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>A pobre negra era ainda mais desajeitada do que Rabic\u00f3 e Dona Benta somados.<\/p><p>\u2014 L\u00e1 isso \u00e9 \u2014 resmungou a preta, pendurando o bei\u00e7o.<\/p><p>Sim, era o \u00fanico jeito \u2014 e <em>Tia Nast\u00e1cia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carv\u00e3o pelo mastro de S\u00e3o Pedro acima<\/em>, com tal agilidade que parecia nunca ter feito outra coisa na vida sen\u00e3o trepar em mastros.<\/p><p>A boneca fez um muxoxo de pouco-caso. Depois, voltando-se para Tia Nast\u00e1cia:<br \/><em>\u2014 E voc\u00ea, pretura?<\/em><\/p><p>A pobre preta mal teve tempo de trancar-se na despensa, onde fez, no escuro, mais pelo-sinais do que em todo o resto de sua vida.<\/p><p>\u2014 Tenha paci\u00eancia \u2014 dizia a boa criatura. \u2014 Agora chegou minha vez. <em>Negro<\/em><br \/><em>tamb\u00e9m \u00e9 gente, sinh\u00e1<\/em>\u2026<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>As tr\u00eas frases mais controversas desta obra s\u00e3o as assinaladas acima. N\u00e3o h\u00e1 muitas outras, porque \u201cCa\u00e7adas de Pedrinho\u201d \u00e9 uma obra por demais focada na a\u00e7\u00e3o, n\u00e3o restando ao autor muito espa\u00e7o para opinar ou fazer proselitismo. Mesmo assim, s\u00e3o frases que chamam a aten\u00e7\u00e3o pela agressividade e porque <em>n\u00e3o est\u00e3o concentradas na boca de Em\u00edlia<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira frase \u00e9 do pr\u00f3prio narrador, ou seja, de Lobato enquanto ele mesmo. Buscando dar comicidade \u00e0 narra\u00e7\u00e3o da cena absurda em que uma senhora com pouco preparo f\u00edsico e j\u00e1 al\u00e9m da meia idade sobe em um pau-de-sebo, o autor ca\u00e7oa de seus \u201creumatismos\u201d, aqui dando a entender que seriam fingimento, e a compara a uma \u201cmacaca de carv\u00e3o\u201d, que \u00e9 uma das coisas mais ofensivas com que Nast\u00e1cia \u00e9 descrita em todos os livros do S\u00edtio.<\/p>\n\n\n\n<p>Na segunda, Em\u00edlia se dirige a Nast\u00e1cia reduzindo sua identidade \u00e0 cor de sua pele. N\u00e3o pelo nome, n\u00e3o pelo qualificativo carinhoso de \u201cTia\u201d. Para Em\u00edlia, Nast\u00e1cia \u00e9 apenas uma coisa preta, uma \u201cpretura\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, a pr\u00f3pria Nast\u00e1cia, dizendo palavras que Lobato lhe for\u00e7a a dizer, reproduz o racismo estrutural ao chamar Dona Benta de \u201csinh\u00e1\u201d e ao dizer que negro <em>tamb\u00e9m<\/em> \u00e9 gente, o que no contexto do racismo, d\u00e1 a entender que a humanidade do negro \u00e9 uma coisa inesperada.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando a falar da quest\u00e3o das ca\u00e7adas propriamente ditas, uma vez resolvida a quest\u00e3o do ataque das on\u00e7as ao S\u00edtio, Lobato se lembra de mais uma vez falar mal do Brasil:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Desde essa aventura ficou Pedrinho com mania de ca\u00e7adas \u2014 mas ca\u00e7adas de feras africanas. Queria le\u00f5es, tigres, rinocerontes, elefantes, panteras, e queixava-se a Dona Benta (como se a boa senhora tivesse culpa) da pobreza do Brasil a respeito de feras. Chegou a propor-lhe que vendesse o s\u00edtio para comprar outro bem no centro de Uganda, que \u00e9 a regi\u00e3o da \u00c1frica mais rica em le\u00f5es.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m o que este trecho realmente faz \u00e9 reconectar-se com a ca\u00e7ada de on\u00e7a que realmente aconteceu no primeiro cap\u00edtulo e reenfatizar como algo positivo o desejo de Pedrinho, desejo de matar animais selvagens.<\/p>\n\n\n\n<p>Tanto quanto o racismo, esta sugest\u00e3o envelheceu muito mal e nos leva a questionar a viabilidade de ainda se usar este livro num contexto educativo no s\u00e9culo XXI.<\/p>\n\n\n\n<h2>Racismo e Viralatismo em \u201cHist\u00f3rias de Tia Nast\u00e1cia\u201d<\/h2>\n\n\n\n<p>Cabe aqui perguntar se esta vis\u00e3o de mundo niilista estava restrita a \u201cUrup\u00eas\u201d ou se perpassa outros textos de Lobato. Esta \u00e9 uma pergunta importante, porque essas ideias n\u00e3o s\u00e3o adequadas para a literatura infantil. Obviamente a resposta n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil de enxergar, porque n\u00e3o a determinaremos com base em sua correspond\u00eancia privada, mas de acordo com aquilo que o pr\u00f3prio autor <em>escolheu publicar<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Para esta finalidade, \u00e9 interessante analisar \u201cHist\u00f3rias de Tia Nast\u00e1cia\u201d, publicada em 1937, obra normalmente acusada de perpetuar o racismo, principalmente ao descrever Tia Nast\u00e1cia como uma \u201cnegra bei\u00e7uda\u201d (veremos que esta n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica e talvez nem seja a mais grave quest\u00e3o presente no livro). A import\u00e2ncia deste livro \u00e9 muito grande porque ele est\u00e1 separado de \u201cUrup\u00eas\u201d por quase vinte anos, e de \u201cVelha Praga\u201d por mais de vinte e tr\u00eas. Al\u00e9m disso, \u00e9 uma obra produzida na plena maturidade do autor, em uma \u00e9poca em que ele se dedicava quase exclusivamente \u00e0 literatura infantil, dez anos depois do fiasco de \u201cO Presidente Negro\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Desta forma, se for poss\u00edvel isolar o racismo lobatiano em suas obras para adultos, ou em suas obras da juventude, esta obra seria o exemplar perfeito para testar a hip\u00f3tese.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o contexto desta an\u00e1lise, partirei do pressuposto amplamente aceito (inclusive defendido pelo pr\u00f3prio Lobato) segundo o qual a personagem Em\u00edlia seria a sua porta-voz dentro das hist\u00f3rias, representando as opini\u00f5es reprimidas de seu criador, conforme Lobato explicou em carta a Godofredo Rangel:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Em\u00edlia come\u00e7ou uma rid\u00edcula, feia boneca de pano, dessas que nas quitandas do interior custavam 200 r\u00e9is. Mas rapidamente evoluiu, e evoluiu cabritamente &#8212; cabritinho novo \u2014 aos pinotes. E foi adquirindo tanta independ\u00eancia que, n\u00e3o sei em que livro, quando lhe perguntam: \u201cMas que voc\u00ea \u00e9, afinal de contas, Em\u00edlia?\u201d ela respondeu de queixinho empinado: \u201cSou a Independ\u00eancia ou Morte\u201d. E \u00e9. T\u00e3o independente que nem eu, seu pai, consigo domin\u00e1-la. Quando escrevo um desses livros, ela me entra nos dois dedos que batem as teclas e diz o que quer, n\u00e3o o que eu quero. Cada vez mais, Em\u00edlia \u00e9 o que quer ser.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Esse extravasar-se atrav\u00e9s de um personagem \u00e9 uma t\u00e9cnica liter\u00e1ria conhecida como <em>alter ego<\/em> (do latim, &#8220;outro eu&#8221;) e serve para manter o fingimento da ficcionalidade. Assim, o emprego do <em>alter ego<\/em> \u00e9 uma maneira do autor se expressar na obra sem admitir que ela tenha um car\u00e1ter autobiogr\u00e1fico, confessional ou predicat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>A maior prova de que as ideias de Em\u00edlia <em>s\u00e3o<\/em> as mesmas de Lobato, apenas apresentadas de maneira irrefletida, \u00e9 que essas ideias est\u00e3o de acordo com as presentes em outras obras do autore e ecoam opini\u00f5es expressadas privadamente pelo autor em sua correspond\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"640\" height=\"226\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/8.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-7358\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/8.png 640w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/8-250x88.png 250w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/8-120x42.png 120w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption>Cr\u00e9ditos:  http:\/\/racialpreconceitos.blogspot.com\/2013\/04\/charges-relacionadas-ao-preconceito.html<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>\u201cHist\u00f3rias de Tia Nast\u00e1cia\u201d est\u00e1 estruturado como uma obra dial\u00e9tica, em que cada cap\u00edtulo (exceto o primeiro e o \u00faltimo, que d\u00e3o contexto \u00e0 obra) apresenta uma hist\u00f3ria popular, contada por Nast\u00e1cia, seguida de \u201ccoment\u00e1rios\u201d feitos pelas crian\u00e7as (Em\u00edlia, Pedrinho e Narizinho), com a media\u00e7\u00e3o de Dona Benta. Apesar de ser a contadora das hist\u00f3rias, Nast\u00e1cia fica em uma posi\u00e7\u00e3o de passividade, sem poder dar a sua opini\u00e3o (exceto quando solicitada), sofrendo v\u00e1rios tipos de ofensas da boca das crian\u00e7as (principalmente de Em\u00edlia), algumas das quais ela supostamente n\u00e3o tem sequer a capacidade de entender, e nunca se recusando a continuar o supl\u00edcio de narrar as hist\u00f3rias para uma plat\u00e9ia t\u00e3o desrespeitosa. \u00c9 falso, portanto, que o maior problema desse livro seja Em\u00edlia chamar Nast\u00e1cia de \u201cnegra bei\u00e7uda\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 na primeira p\u00e1gina de texto, \u201cHist\u00f3rias de Tia Nast\u00e1cia\u201d apresenta o primeiro motivo de cr\u00edtica, ao apresentar a cozinheira como um mero reposit\u00f3rio a ser explorado pelas crian\u00e7as brancas (grifo adicionado):<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u2014 Uma id\u00e9ia que eu tive. Tia Nast\u00e1cia \u00e9 o povo. Tudo que o povo sabe e vai contando, de um para outro, ela deve saber. Estou com o plano de <em>espremer tia Nast\u00e1cia para tirar o leite do folclore que h\u00e1 nela<\/em>.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Esta n\u00e3o \u00e9 uma fala de Em\u00edlia, mas de Pedrinho, portando aqui n\u00e3o se aplica a licen\u00e7a po\u00e9tica de que Lobato estaria permitindo que a personagem falasse o que queria. Pedrinho n\u00e3o \u201cbate nas teclas e diz o que quer\u201d. Portanto, Lobato n\u00e3o est\u00e1 apresentando a fala do menino como algo controverso e novo, mas como uma esp\u00e9cie de lugar-comum.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas isso n\u00e3o \u00e9 nem uma fra\u00e7\u00e3o dos improp\u00e9rios que a Em\u00edlia come\u00e7a a desfiar, todos dirigidos ao povo brasileiro em geral, e \u00e0 Tia Nast\u00e1cia em particular, come\u00e7ando pelos coment\u00e1rios \u00e0 primeira das hist\u00f3rias (\u201cO Bicho Manjal\u00e9u\u201d), em que encontramos (grifos adicionados):<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u2014 Essas hist\u00f3rias folcl\u00f3ricas s\u00e3o bastante bobas \u2014 disse ela. \u2014 <em>Por isso \u00e9 que n\u00e3o sou \u201cdemocr\u00e1tica!\u201d Acho o povo muito idiota<\/em>\u2026<\/p><p>\u2014 Nossa Senhora! \u2014 exclamou dona Benta. \u2014 Vejam s\u00f3 como anda importante a nossa Emilinha. <em>Fala que nem um doutor<\/em>.<\/p><p>[\u2026]<\/p><p>\u2014 Eu tamb\u00e9m acho muito ing\u00eanua essa hist\u00f3ria de rei e princesa e botas encantadas \u2014 disse Narizinho. \u2014 <em>Depois que li o Peter Pan, fiquei exigente<\/em>. Estou de acordo com Em\u00edlia.<\/p><p>\u2014 Pois eu gostei da hist\u00f3ria \u2014 disse Pedrinho \u2014 porque me d\u00e1 id\u00e9ia da mentalidade do nosso povo. <em>A gente deve conhecer essas hist\u00f3rias como um estudo da mentalidade do povo<\/em>.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Nesse trecho vemos Em\u00edlia atacar a democracia porque o povo seria idiota. Na \u00e9poca em que esse livro foi escrito, 1937, o Brasil estava sob a ditadura do Estado Novo varguista e a ideologia pol\u00edtica da moda era o fascismo, que tamb\u00e9m atacava a democracia sob o argumento de que o povo n\u00e3o era capaz de tomar suas pr\u00f3prias decis\u00f5es. Essas ideias se harmonizam com <em>A Doutrina do Fascimo<\/em>, de Mussolini e G. Gentile, onde lemos frases como: \u201co fascismo se op\u00f5e \u00e0 democracia, que confunde o povo com a maioria, rebaixando-o ao n\u00edvel da maioria\u201d. A diferen\u00e7a \u00e9 que Mussolini n\u00e3o chama seu pr\u00f3prio povo de idiota.<\/p>\n\n\n\n<p>Que este modo de pensar est\u00e1 de acordo com a ideologia \u201cda moda\u201d n\u00f3s podemos ver na fala de Dona Benta, que compara a opini\u00e3o de Em\u00edlia \u00e0 de um \u201cdoutor\u201d. A conclus\u00e3o \u00f3bvia \u00e9 que a elite cultural brasileira, em meio \u00e0 qual Lobato transitava, era contra a democracia e julgava o povo idiota. Portanto, expressar-se em favor do fascismo e sentir-se superior ao povo era uma maneira de parecer doutor.<\/p>\n\n\n\n<p>As crian\u00e7as t\u00eam dificuldade para aceitar as hist\u00f3rias como contadas porque seu gosto est\u00e1 influenciado pela leitura de obras estrangeiras. Como os jovens de hoje, que crescem lendo os <em>best-sellers<\/em> americanos, Narizinho usa um <em>best-seller<\/em> de sua \u00e9poca, <em>Peter Pan<\/em>, de J. M. Barrie, como padr\u00e3o para julgar as hist\u00f3rias do folclore brasileiro. Esta compara\u00e7\u00e3o \u00e9 injusta e absurda de diversas maneiras.<\/p>\n\n\n\n<p>Inicialmente porque n\u00e3o se pode comparar um relato oral de uma hist\u00f3ria folcl\u00f3rica com uma narrativa ficcional estruturada por um escritor. Os relatos orais, simplesmente por serem orais, empregam recursos narrativos diferentes das obras escritas, al\u00e9m de terem sido concebidos de forma coletiva, o que prejudica sua coer\u00eancia. Comparar <em>Peter Pan<\/em> ao \u201cBicho Manjal\u00e9u\u201d narrado por Tia Nast\u00e1cia \u00e9 como comparar um carro de corrida com um carrinho de rolim\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Adicionalmente, Lobato est\u00e1 fazendo <em>merchandising<\/em> de seu pr\u00f3prio trabalho, visto que, em 1930, ele havia recontado a hist\u00f3ria de Peter Pan enquadrada como mais uma aventura do \u201cS\u00edtio do Picapau Amarelo\u201d (o personagem j\u00e1 tinha sido citado em \u201cReina\u00e7\u00f5es de Narizinho\u201d, a vers\u00e3o expandida de \u201cA Menina do Narizinho Arrebitado\u201d publicada tamb\u00e9m em 1930). Ao dizer que especificamente \u201cPeter Pan\u201d \u00e9 melhor do que os contos populares brasileiros, Lobato est\u00e1 prejudicando, em seu pr\u00f3prio benef\u00edcio, a reputa\u00e7\u00e3o de diversos outros autores que trabalhavam com tradi\u00e7\u00f5es populares.<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, pela boca de Pedrinho, Lobato nega valor liter\u00e1rio aos contos populares, afirmando que eles s\u00f3 s\u00e3o interessantes como objeto de estudo antropol\u00f3gico (\u201ca gente deve conhecer essas hist\u00f3rias como um estudo da mentalidade do povo\u201d). Esta vis\u00e3o do povo brasileiro como um mero objeto de estudo tem muito a ver com o higienismo social prevalente no entre-guerras, que via a cultura brasileira como um obst\u00e1culo ao desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda hist\u00f3ria \u00e9 \u201cO Sargento Verde\u201d, e ao final dela vemos a boneca Em\u00edlia fazer a mesma compara\u00e7\u00e3o de Narizinho:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u2014 Mudan\u00e7as que as deixam sem p\u00e9 nem cabe\u00e7a \u2014 insistiu Em\u00edlia. \u2014 Essa do Sargento Verde, por exemplo. \u00c9 t\u00e3o idiota que um s\u00e1bio que quiser estud\u00e1-la acabar\u00e1 tamb\u00e9m idiota. Eu, francamente, passo essas tais hist\u00f3rias populares. Gosto mais \u00e9 das de Andersen, das do autor do Peter Pan e das do tal Carroll, que escreveu Alice no Pais das Maravilhas. Sendo coisas do povo, eu passo\u2026<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Para Em\u00edlia, estudar a cultura \u201cidiota\u201d de um povo \u201cidiota\u201d leva at\u00e9 mesmo os s\u00e1bios a se tornarem idiotas. Em vez disso, Em\u00edlia prefere hist\u00f3rias estrangeiras. Sendo coisa do povo, ela dispensa. Esse tipo de fala soa terrivelmente parecido com os \u201cbooktubers\u201d de hoje. Mude os t\u00edtulos para outros contempor\u00e2neos, cite outros autores estrangeiros e esta frase rola perfeitamente na boca da juventude leitora de hoje, f\u00e3 de Harry Potter.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Tia Nast\u00e1cia conta a terceira hist\u00f3ria, a da \u201cPrincesa Ladrona\u201d, as crian\u00e7as ficam ainda mais frustradas, por n\u00e3o encontrarem na hist\u00f3ria nenhum fio narrativo claro e nenhuma moral. Diante dos protestos das crian\u00e7as, a simp\u00e1tica Dona Benta, supostamente o contraponto racional e adulto \u00e0 impetuosidade de Em\u00edlia, resolve \u201cdefender\u201d Tia Nast\u00e1cia e o povo brasileiro, dizendo:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u2014 Sim \u2014 disse dona Benta. \u2014 N\u00f3s n\u00e3o podemos exigir do povo o apuro art\u00edstico dos grandes escritores. O povo\u2026 Que \u00e9 o povo? <em>S\u00e3o essas pobres tias velhas, como Nast\u00e1cia, sem cultura nenhuma<\/em>, que nem ler sabem e que outra coisa n\u00e3o fazem sen\u00e3o ouvir as hist\u00f3rias de outras criaturas igualmente ignorantes, e pass\u00e1-las para outros ouvidos, mais adulteradas ainda.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Se \u00e9 verdade que \u201cn\u00e3o podemos exigir do povo o apuro art\u00edstico dos grandes escritores\u201d, reduzir o povo brasileiro a \u201cpobres tias velhas sem cultura nenhuma\u201d (Nast\u00e1cia estava na mesma sala ouvindo isso) \u00e9 desnecessariamente ofensivo, al\u00e9m de ser mentiroso. Lobato est\u00e1 aqui claramente negando que exista ou possa existir qualquer conhecimento de origem popular, o que \u00e9 um pensamento elitista e euroc\u00eantrico. O povo brasileiro, para ele, se carateriza somente pela ignor\u00e2ncia e pelo h\u00e1bito de adulterar o pouco conhecimento que transmite. O povo brasileiro, na vis\u00e3o de Monteiro Lobato, \u00e9 um selvagem que precisa ser civilizado pelo homem branco.<\/p>\n\n\n\n<p>Em\u00edlia, por\u00e9m, eleva o tom, mais uma vez:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u2014 Pois c\u00e1 comigo \u2014 disse Em\u00edlia \u2014 s\u00f3 aturo essas hist\u00f3rias como estudos da ignor\u00e2ncia e burrice do povo. Prazer n\u00e3o sinto nenhum. <em>N\u00e3o s\u00e3o engra\u00e7adas, n\u00e3o t\u00eam humorismo<\/em>. Parecem-me muito grosseiras e b\u00e1rbaras \u2014 coisa mesmo de negra bei\u00e7uda, como tia Nast\u00e1cia. N\u00e3o gosto, n\u00e3o gosto e n\u00e3o gosto\u2026<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Esse \u00e9 o trecho da disc\u00f3rdia, em que Em\u00edlia xinga Nast\u00e1cia de \u201cnegra bei\u00e7uda\u201d. Em minha modesta opini\u00e3o, esta inj\u00faria racial est\u00e1 longe de ser o pior deste trecho e eu vou provar isso de uma maneira que nenhum preto discordar\u00e1 de mim: \u00e9 que Em\u00edlia <em>tem a \u00faltima palavra<\/em>. Quando um personagem diz uma coisa horr\u00edvel, isto n\u00e3o necessariamente quer dizer que ele est\u00e1 expressando o pensamento do autor, ou que o autor est\u00e1 usando o personagem para fazer proselitismo de suas cren\u00e7as; mas o que se pode dizer quando o autor permite que uma fala t\u00e3o agressiva fique sem resposta dentro da obra? Claramente o pior n\u00e3o \u00e9 Em\u00edlia dizer isso, \u00e9 isso ser admitido sem controv\u00e9rsia, como se fosse o lugar-comum.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem esse \u00e9 o \u00fanico problema aqui: antes da inj\u00faria espec\u00edfica contra os pretos, Em\u00edlia diz uma coisa muito curiosa, que as hist\u00f3rias (que, ali\u00e1s, s\u00f3 servem para estudar \u201ca ignor\u00e2ncia e burrice do povo\u201d) <em>n\u00e3o s\u00e3o engra\u00e7adas, n\u00e3o t\u00eam humorismo<\/em>. Isto evoca um trecho de \u201cUrup\u00eas\u201d, escrito 19 anos antes:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>O caboclo \u00e9 soturno.<\/p><p>N\u00e3o canta sen\u00e3o rezas lugubres.<\/p><p>N\u00e3o dan\u00e7a sen\u00e3o o cat\u00ear\u00eat\u00ea aladainhado.<\/p><p>[\u2026] Triste como o curiango, nem sequer assobia.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Para quem prop\u00f5e que haja uma separa\u00e7\u00e3o entre o Lobato da fic\u00e7\u00e3o para adultos e o Lobato da fic\u00e7\u00e3o infantil, observar esta coincid\u00eancia deve ser uma ducha de \u00e1gua fria. Aqui temos uma prova inequ\u00edvoca de que Lobato n\u00e3o abandonou sua vis\u00e3o negativa sobre o povo brasileiro, que sua obra possui uma continuidade conceitual entre o universo adulto de 1918 e o infantil de 1937. Mais que isso, tanto em \u201cUrup\u00eas\u201d quanto em \u201cHist\u00f3rias de Tia Nast\u00e1cia\u201d, o autor faz, sim, proselitismo de suas ideias. Em \u201cUrup\u00eas\u201d, por se tratar de um ensaio, um texto n\u00e3o-ficcional, em \u201cHist\u00f3rias\u2026\u201d por incluir ao fim de cada narrativa uma discuss\u00e3o sobre seu valor.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria seguinte \u00e9 \u201cO P\u00e1ssaro Preto\u201d, e Em\u00edlia interv\u00e9m, logo ap\u00f3s de a pr\u00f3pria Dona Benta admitir que a hist\u00f3ria \u00e9 decepcionante \u201cpor n\u00e3o ter uma moral\u201d. Observemos aqui que Lobato, assumindo um papel de pedagogo, considera desej\u00e1vel que as hist\u00f3rias tenham uma moral. Donde se conclui que ele procura dar uma moral \u00e0s suas. Ou seja: h\u00e1, sim, em sua fic\u00e7\u00e3o, adulta ou infantil, um desejo de fazer proselitismo de seus ideais. A fala de Em\u00edlia \u00e9 a seguinte:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Tudo bobagens de negra velha. <em>Nessa hist\u00f3ria vejo uma fieira de negras velhas, cada qual mais boba que a outra<\/em> \u2014 que v\u00e3o passando a hist\u00f3ria para diante, cada vez mais atrapalhada.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Lembremos que Tia Nast\u00e1cia n\u00e3o tinha sa\u00eddo depois de contar sua hist\u00f3ria. Ela ouviu isto passivamente. Ouviu tamb\u00e9m a amea\u00e7a gratuita que Em\u00edlia lhe faz pouco depois:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u2014 E j\u00e1 viu p\u00e1ssaro que n\u00e3o seja de pena, sua tola? \u2014 disse Em\u00edlia. \u2014 O que vale \u00e9 que voc\u00ea mesma confessa n\u00e3o ter culpa das idiotices da hist\u00f3ria, sen\u00e3o eu cortava um peda\u00e7o desse bei\u00e7o\u2026<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Tomemos nota de que, pela segunda vez no livro, Em\u00edlia se refere aos \u201cbei\u00e7os\u201d de Tia Nast\u00e1cia, uma maneira de destacar seus tra\u00e7os africanos de maneira negativa. Atente bem para isso. E tamb\u00e9m que Em\u00edlia tem novamente a \u00faltima palavra, porque, quando Dona Benta a adverte para ter respeito pelos mais velhos, ela responde que \u00e9 capaz de respeitar at\u00e9 uma abelha que lhe diga algo sensato, mas que poria fogo nas barbas do pr\u00f3prio Matusal\u00e9m se ele lhe dissesse alguma bobagem. Em\u00edlia triunfa novamente.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria seguinte \u00e9 \u201cA Raposinha\u201d, e ao fim dela Em\u00edlia \u00e9 quem toma a iniciativa, dizendo:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u2014 Bom \u2014 disse Em\u00edlia. \u2014 Esta j\u00e1 est\u00e1 mais bem arranjadinha. Mas eu noto uma coisa: as hist\u00f3rias populares parecem que s\u00e3o uma s\u00f3, contada de mil maneiras diferentes. <em>Falam tanto na tal imagina\u00e7\u00e3o do povo e eu n\u00e3o vejo nada disso. Vejo apenas uma grande pobreza<\/em>.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Novamente Em\u00edlia ecoa ideias expressar originalmente por Monteiro Lobato em \u201cUrup\u00eas\u201d:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Geca por dentro rivalisa com Geca por f\u00f3ra. O mobiliario cerebral, \u00e1 parte o succulento recheio de supersti\u00e7\u00f5es, vale o do casebre. O banquinho de tres p\u00e9s, as cuias, o gancho de toucinho, as gamellas reeditam-se dentro do seu caco sob a f\u00f3rma de id\u00e9as: s\u00e3o as no\u00e7\u00f5es praticas da vida, que recebeu do pae e que, intactas, transmittir\u00e1 aos filhos.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Lobato poderia ter aproveitado para fazer algum contraponto; por\u00e9m, novamente, as ideias de Em\u00edlia n\u00e3o s\u00e3o contestadas. Em vez disso, Dona Benta empresta sua \u201csabedoria\u201d, sua erudi\u00e7\u00e3o e sua \u201cexperi\u00eancia de vida\u201d para legitimar a opini\u00e3o da boneca de pano:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u2014 Sim \u2014 disse dona Benta. \u2014 <em>Tamb\u00e9m eu n\u00e3o encontro grande riqueza de imagina\u00e7\u00e3o no nosso povo<\/em>. As hist\u00f3rias que por a\u00ed correm de fato se repetem, parecendo ser todas do mesmo ciclo.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Curiosamente, Lobato tem cultura e viv\u00eancia suficientes para saber que a forma\u00e7\u00e3o de ciclos liter\u00e1rios n\u00e3o denota ignor\u00e2ncia nem falta de imagina\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 caracter\u00edstica da cultura popular <em>em todo o mundo<\/em>. A mesma Dona Benta que legitima a ideia de que o povo brasileiro n\u00e3o tem imagina\u00e7\u00e3o porque suas hist\u00f3rias repetem padr\u00f5es cita na sua fala seguinte que na Europa medieval surgiram ciclos de hist\u00f3ria, como o do Rei Arthur. Pedrinho, por sua vez, nota que o cinema americano apresenta o mesmo problema da repetitividade. Assim como Lobato n\u00e3o foi capaz de perceber que a diferen\u00e7a entre o Jeca e o seu vizinho estava no est\u00edmulo proporcionado pela propriedade fundi\u00e1ria, ele tamb\u00e9m n\u00e3o percebe que o brasileiro n\u00e3o \u00e9 inferior por criar ciclos de hist\u00f3rias. Na cabe\u00e7a reacion\u00e1ria de Lobato, convivem a constata\u00e7\u00e3o de que ciclos liter\u00e1rios existem no mundo todo e a utiliza\u00e7\u00e3o dos ciclos liter\u00e1rios como argumento para inferiorizar a cultura popular brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>Na hist\u00f3ria seguinte, \u201cO Homem Pequeno\u201d, \u00e9 Pedrinho que faz a primeira observa\u00e7\u00e3o ofensiva:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u2014 Outra coisa que n\u00e3o me agrada \u2014 disse Pedrinho \u2014 \u00e9 o tal canteiro de cebolas. Bem se v\u00ea que \u00e9 hist\u00f3ria contada por negras velhas, cozinheiras. S\u00f3 faltou transformarem a mo\u00e7a num saquinho de sal, a espingarda em uma cabe\u00e7a de alho e os cavalos num frango assado.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Para Pedrinho, \u00e9 desagrad\u00e1vel que os criadores da hist\u00f3ria (\u201cnegras velhas, cozinheiras\u201d) utilizarem nela elementos pertencentes ao seu dia-a-dia. Isto reflete o gosto do menino (e do pr\u00f3prio Lobato) pelo exotismo, o seu deslumbramento com elementos \u201ccivilizados\u201d. Pedrinho n\u00e3o gosta de hist\u00f3rias que tenham a marca de quem as criou. Isto, novamente, ecoa muito os \u201cbooktubers\u201d de hoje, que se sentem repelidos por personagens com nomes brasileiros ou que desejam hist\u00f3rias com apelo universal.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao final da hist\u00f3ria seguinte, \u201cA Moura Torta\u201d, que recebe certos elogios das crian\u00e7as, o autor cria uma situa\u00e7\u00e3o a mais para ridicularizar a pobre Tia Nast\u00e1cia:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u2014 E tenho raz\u00e3o \u2014 disse a ex-boneca. \u2014 N\u00e3o h\u00e1 nada mais lindo que uma pombinha bem branca, com aqueles olhos t\u00e3o redondos. A minha ave predileta sempre foi a pombinha. E a sua, tia Nast\u00e1cia?<\/p><p>A negra teve vergonha de dizer. A ave predileta de tia Nast\u00e1cia sempre fora uma galinha bem gorda, das boas para fazer de molho pardo.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>H\u00e1 duas coisas a se observar aqui. A primeira \u00e9 que Em\u00edlia enfatiza a lindeza de uma pombinha <em>branca<\/em>. A segunda \u00e9 que <em>o narrador<\/em> quebra a \u201cquarta parede\u201d (se \u00e9 que podemos aplicar este termo aqui) para negar que Nast\u00e1cia pudesse ter prefer\u00eancias est\u00e9ticas. Assim, enquanto Em\u00edlia se sente atra\u00edda pela beleza exterior (portanto \u201cin\u00fatil\u201d) de uma pombinha (animal que as pessoas do S\u00edtio n\u00e3o comem), Nast\u00e1cia somente se interessaria por galinhas, \u00fateis para se preparar para comer. \u00c9 uma forma curiosa de desumanizar a personagem, ou melhor, de animaliz\u00e1-la, ao reduzir suas prefer\u00eancias \u00e0quelas ditadas pelas necessidades b\u00e1sicas. Assim, a negra Nast\u00e1cia n\u00e3o \u00e9 capaz de apreciar a beleza, mas, apenas, de saciar seu apetite.<\/p>\n\n\n\n<p>A d\u00e9cima hist\u00f3ria, \u201cManuel da Bengala\u201d, cont\u00e9m outra oportunidade para Em\u00edlia desumanizar o povo brasileiro. Ao final da narrativa as crian\u00e7as discutem as imperfei\u00e7\u00f5es de uma hist\u00f3ria que, no geral, consideram boa. Em\u00edlia conclui a discuss\u00e3o, ou seja, novamente sua opini\u00e3o fica sem contraponto:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u00c9 o que eu digo \u2014 ajuntou Em\u00edlia. \u2014 <em>O povo<\/em>, coitado, <em>n\u00e3o<\/em> <em>tem<\/em> <em>delicadeza, n\u00e3o tem finuras, n\u00e3o tem arte<\/em>. <em>\u00c9 grosseiro, tosco em tudo que faz<\/em>. Este livro vai ser s\u00f3 das hist\u00f3rias populares do Brasil, mas depois havemos de fazer um s\u00f3 de hist\u00f3rias compostas por artistas, das lindas, cheias de poesia e mimos \u2014 como aquela do Pr\u00edncipe Feliz, do tal Oscar Wilde, que dona Benta nos leu. Aquilo sim. At\u00e9 deixa a gente leve, leve, de tanta finura de beleza!<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Esta opini\u00e3o, escusado dizer, novamente ecoa a representa\u00e7\u00e3o caricata do Jeca, feita por Monteiro Lobato em \u201cUrup\u00eas\u201d. A novidade n\u00e3o \u00e9 esta, \u00e9 que Lobato j\u00e1 faz seu <em>merchandising<\/em> do projeto seguinte, um livro \u201cs\u00f3 de hist\u00f3rias compostas por artistas, das lindas, cheias de poesia e mimos\u201d. Esse an\u00fancio (de um livro que ele n\u00e3o chegou a escrever) \u00e9 feito em um contexo de inferioriza\u00e7\u00e3o das hist\u00f3rias populares brasileiras. A sequ\u00eancia logica \u00e9 simples: o povo n\u00e3o tem arte, tudo que ele faz \u00e9 grosseiro, este livro \u00e9 s\u00f3 de hist\u00f3rias populares do Brasil (portanto, de hist\u00f3rias grosseiras e sem arte), mas haver\u00e1 um com hist\u00f3rias melhores. O exemplo de hist\u00f3ria melhor \u00e9 uma obra de Oscar Wilde \u2014 fato que, novamente, exibe o fasc\u00ednio de Lobato pelo estrangeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir deste ponto Lobato reconta diversas hist\u00f3rias que recebem das crian\u00e7as avalia\u00e7\u00f5es demodo geral positivas. Somente a d\u00e9cima-nona hist\u00f3ria nos traz, em seus coment\u00e1rios, um assunto digno de nota. Este di\u00e1logo a respeito de beijus, iguaria mencionada na hist\u00f3ria que tinham acabado de ouvir:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Mas o pior \u2014 disse Narizinho \u2014 \u00e9 que fiquei com \u00e1gua na boca de vontade de comer os tais beijus. Que ser\u00e1 beiju? Nunca vi isso.<\/p><p>\u2014 \u00c9 mesmo! \u2014 disse dona Benta voltando-se para tia Nast\u00e1cia. \u2014 Est\u00e1 a\u00ed um petisco que voc\u00ea nunca se lembrou de fazer.<\/p><p>\u2014 E sei fazer, sinh\u00e1, sei fazer beijus dos mais gostosos, mas nunca encontro por aqui farinha boa. <em>A da venda do Elias Turco n\u00e3o vale nada \u2014 \u00e9 como o nariz dele.<\/em><\/p><p>\u2014 E eu \u2014 disse Pedrinho \u2014 fiquei com vontade de comer mandioca cozida, da bem enxutinha, com melado de rapadura. Upa! <em>\u00c9 uma coisa da gente lamber os bei\u00e7os<\/em>.<\/p><p>\u2014 <em>Bei\u00e7o \u00e9 de boi \u2014 protestou Em\u00edlia. \u2014 Gente tem l\u00e1bios.<\/em><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A primeira observa\u00e7\u00e3o pertinente aqui \u00e9 o coment\u00e1rio racista de Nast\u00e1cia a respeito do nariz do Elias Turco, reproduzindo o que o povo sempre disse a respeito dos imigrantes do Oriente M\u00e9dio. Esta observa\u00e7\u00e3o dificilmente vem da personagem Nast\u00e1cia, ela filtra do preconceito peculiar de Monteiro Lobato contra esses estrangeiros inferiores.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o que chama mesmo a aten\u00e7\u00e3o aqui \u00e9 que Em\u00edlia censura Pedrinho por ele dizer que a lembran\u00e7a de mandioca com melado lhe d\u00e1 vontade de \u201clamber os bei\u00e7os\u201d. Aqui ela faz quest\u00e3o de dizer que \u201cgente tem l\u00e1bios\u201d, por\u00e9m, no come\u00e7o do livro, a mesma Em\u00edlia, em duas oportunidades, se referiu aos \u201cbei\u00e7os\u201d de Nast\u00e1cia. Por meio deste \u201cato falho\u201d da personagem, <em>alter ego<\/em> do autor, transpira que Lobato n\u00e3o considerava os negros como seres humanos ou, pelo menos, como seres humanos iguais a ele mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Este \u00e9 o Lobato de 1937, oito anos depois do fiasco de \u201cO Presidente Negro\u201d, dezenove anos depois de \u201cUrup\u00eas\u201d e vinte e tr\u00eas anos depois de, inspirado pelos seus desencontros com os jecas, ter escrito \u201cVelha Praga\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Os \u00edndios se tornam o alvo de Lobato na hist\u00f3ria seguinte, \u201cO C\u00e1gado na Festa no C\u00e9u\u201d, quando Narizinho (e n\u00e3o Em\u00edlia) afirma que:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u2014 Pobres \u00edndios! \u2014 exclamou Narizinho. \u2014 Se as hist\u00f3rias deles s\u00e3o todas como essa, s\u00f3 mostram muita ingenuidade. Acho que os negros valem mais que os \u00edndios em mat\u00e9ria de hist\u00f3rias. V\u00e1, Nast\u00e1cia, conte uma hist\u00f3ria inventada pelos negros.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Lembremos que os caboclos, os \u201cjecas\u201d contra quem Lobato se insurgiu no come\u00e7o de sua carreira, eram basicamente mesti\u00e7os de portugueses e \u00edndios. Esse racismo contra o ind\u00edgena n\u00e3o \u00e9 uma novidade, como vimos na an\u00e1lise de \u201cUrup\u00eas\u201d. Nem \u00e9 novidade que Lobato os considere at\u00e9 mesmo inferiores aos negros, haja vista sua opini\u00e3o sobre a musicalidade do caipira e do mulato.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao final da vig\u00e9sima-segunda hist\u00f3ria, \u201cO Macaco e o Coelho\u201d, \u00e9 Dona Benta a respons\u00e1vel pela controv\u00e9rsia. Em um livro que se dedica a colher hist\u00f3rias populares brasileiras, a matriarca do S\u00edtio interrompe-nos para dizer:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u2014 Voc\u00eas precisam ler \u2014 disse dona Benta \u2014 as hist\u00f3rias de macacos que Rudyard Kipling conta naquele livro de <em>Mowgli,o Menino Lobo<\/em>. Esses macacos de Kipling s\u00e3o os Bandarlogs, nome de certos macacos da \u00cdndia. Os outros animais os desprezam, por causa da sua leviandade, da sua falta de seriedade, das suas molecagens. S\u00e3o uns perfeitos louquinhos, os macacos.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Sim, amigo leitor, Dona Benta recomenda ao leitor que est\u00e1 acompanhando uma colet\u00e2nea de hist\u00f3rias de nosso folclore que ele leia as obras de um autor ingl\u00eas que escreveu sobre o folclore da \u00cdndia! Fica at\u00e9 parecendo que Lobato n\u00e3o queria escrever sobre as hist\u00f3rias de nosso folclore, mas que foi obrigado a fazer isso por insist\u00eancia dos editores (nessa \u00e9poca ele j\u00e1 tinha deixado de ser o pr\u00f3prio editor).<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o da desumaniza\u00e7\u00e3o da Tia Nast\u00e1cia retorna na vig\u00e9sima-terceira hist\u00f3ria, \u201cO Macado, o Veado e a On\u00e7a\u201d, em que se discute a matan\u00e7a de carneiros para comer:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u2014 U\u00e9! \u2014 exclamou tia Nast\u00e1cia. \u2014 Pois para que serve carneiro sen\u00e3o para ser comido? Deus fez os bichos cada um para uma coisa. A sina dos carneiros \u00e9 a panela.<\/p><p>Em\u00edlia danou.<\/p><p>\u2014 <em>Bem se v\u00ea que \u00e9 preta e bei\u00e7uda! N\u00e3o tem a menor filosofia, esta diaba<\/em>. Sina \u00e9 o seu nariz, sabe? Todos os viventes t\u00eam o mesmo direito \u00e0 vida, e para mim matar um carneirinho \u00e9 crime ainda maior do que matar um homem. Fac\u00ednora!\u2026<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>N\u00e3o somente Em\u00edlia volta a usar \u201cbei\u00e7uda\u201d como uma inj\u00faria racial, como afirma que Nast\u00e1cia \u00e9 um dem\u00f4nio sem filosofia (sem conhecimento). A associa\u00e7\u00e3o dos negros com o dem\u00f4nio era muito mais antiga que Lobato, estava no imagin\u00e1rio popular desde a \u00e9poca dos descobrimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois desta hist\u00f3ria temos novamente uma sequ\u00eancia elogiada pelas crian\u00e7as e o livro se encaminha para o fim, o que poderia resultar em o leitor ter uma opini\u00e3o final mais positiva sobre nosso folclore. Mas o autor escolhe que n\u00e3o seja assim, ao introduzir duas importantes mudan\u00e7as: 1) Agora \u00e9 Dona Benta que conta as hist\u00f3rias (a partir da trig\u00e9sima-oitava) e 2) S\u00e3o contadas hist\u00f3rias de diversas origens (C\u00e1ucaso, P\u00e9rsia, <em>Congo<\/em>, Canad\u00e1, R\u00fassia, Isl\u00e2ndia) e o livro termina com uma hist\u00f3ria pertencente ao folclore urbano do Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Temos v\u00e1rios problemas aqui. O primeiro \u00e9 que Dona Benta seja a respons\u00e1vel por concluir as \u201cHist\u00f3rias de Tia Nast\u00e1cia\u201d, contando justamente as hist\u00f3rias que as crian\u00e7as consideram as mais bem acabadas e mais elogi\u00e1veis, e o outro \u00e9 que uma obra que o pr\u00f3prio autor prop\u00f4s que fosse uma colet\u00e2nea de narrativas do folclore brasileiro (de que Nast\u00e1cia seria o reposit\u00f3rio) termine com seis hist\u00f3rias estrangeiras e uma (somente) que n\u00e3o pertence ao mesmo tipo de folclore que todas as demais. Um terceiro problema \u00e9 que justamente as duas hist\u00f3rias provenientes de duas regi\u00f5es da \u00c1frica sejam intermediadas pela narradora branca, em vez de Tia Nast\u00e1cia, que, a esta altura, j\u00e1 voltou para a cozinha.<\/p>\n\n\n\n<p>As rea\u00e7\u00f5es das crian\u00e7as a essas sete hist\u00f3rias finais, embora favor\u00e1veis no geral, comportam cr\u00edticas tmab\u00e9m. A primeira destas cr\u00edticas, n\u00e3o surpreendentemente, \u00e9 contra a \u201cHist\u00f3ria dos Macacos\u201d, do folclore do Congo:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u2014 Esta hist\u00f3ria se parece, com as nossas daqui \u2014 disse Narizinho. \u2014 Bem bobinha.<\/p><p>\u2014 <em>Sim, mas que havemos de esperar dos pobres negros do Congo? Sabem onde \u00e9 o Congo?<\/em><\/p><p>\u2014 Sei \u2014 disse Pedrinho. \u2014 \u00c9 quase no centro da \u00c1frica, do lado daquela costa que o senhor Pedro \u00c1lvares Cabral evitou de medo das calmarias. H\u00e1 o Congo Belga e o Congo Franc\u00eas. E sei tamb\u00e9m que c\u00e1 para o Brasil vieram muitos escravos desses Congos.<\/p><p>\u2014 \u00c9 verdade. O pobre Congo foi uma das zonas que forneceram mais escravos para a Am\u00e9rica, de modo que muitas hist\u00f3rias dos nossos negros h\u00e3o de ter as ra\u00edzes l\u00e1.<\/p><p>\u2014 Quem sabe se tia Nast\u00e1cia \u00e9 do Congo? \u2014 lembrou Narizinho.<\/p><p>\u2014 N\u00e3o \u2014 disse dona Benta. \u2014 Nast\u00e1cia \u00e9 neta dum casal de negros vindos de Mo\u00e7ambique.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria \u00e9 classificada de \u201cbobinha\u201d por se parecer com \u201cas nossas daqui\u201d. Uma personagem, que, no contexto, parece ser a Em\u00edlia, observa que n\u00e3o se pode esperar muito dos \u201cpobres negros do Congo\u201d. De alguma forma, sugere-se aqui que os negros tamb\u00e9m n\u00e3o teriam a arte desenvolvida. A boneca ainda pergunta, retoricamente, onde fica o Congo; uma maneira de ironizar a \u00c1frica como terra de \u201cpobres negros\u201d criadores de hist\u00f3rias \u201cbobinhas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, como Tia Nast\u00e1cia retornou \u00e0 cozinha, ela n\u00e3o est\u00e1 presente nem mesmo para estabelecer suas origens. Quando as crian\u00e7as perguntam, \u00e9 Dona Benta, a sua <em>sinh\u00e1<\/em>, quem esclarece quem foram os av\u00f3s de Nast\u00e1cia, vindos de Mo\u00e7ambique. No contexto da hist\u00f3ria, at\u00e9 mesmo a genealogia dos negros est\u00e1 sob controle e intermedia\u00e7\u00e3o dos brancos. E estamos j\u00e1 em 1937, prestes a completar cinquenta anos da emancipa\u00e7\u00e3o dos escravos. Nast\u00e1cia nasceu livre, mas seus pais eram escravos, filhos de escravos.<\/p>\n\n\n\n<h2>Teria Lobato Superado o Racismo?<\/h2>\n\n\n\n<p>Uma das respostas que os defensores de Lobato d\u00e3o \u00e0s cr\u00edticas de seu racismo repousam sobre a sua suposta evolu\u00e7\u00e3o enquanto ser humano. Afinal, todos temos o direito de errar e de evoluir ao longo da vida, tornando-nos pessoas melhores, ou n\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Monteiro Lobato realmente parece ter abandonado certas convic\u00e7\u00f5es, ainda que lentamente, e de fato andou a arrastar simpatias para a esquerda, chegando a namorar o Partido Comunista. Seria isto, por\u00e9m, o indicativo de uma convers\u00e3o real, ou seria mais uma manobra marketeira do autor, empurrado para a esquerda devido ao conflito do petr\u00f3leo?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o podemos analisar um homem como Lobato \u00e0 luz de uma perspectiva \u00fanica de sua obra e de sua personalidade, porque os direcionamentos ideol\u00f3gicos do entre-guerras n\u00e3o eram como os de hoje. Naquele contexto, os EUA eram um modelo revolucion\u00e1rio alternativo ao comunismo e a americanofilia n\u00e3o era incompat\u00edvel com o nacionalismo. Como muitos nacionalistas da \u00e9poca, Lobato via os EUA como um modelo a imitar, n\u00e3o como um l\u00edder a seguir. Ele n\u00e3o colocava o Brasil em subordina\u00e7\u00e3o a uma pot\u00eancia, mas, sim, como um pa\u00eds que poderia obter a igualdade com esta mediante a ado\u00e7\u00e3o das mesmas pol\u00edticas de desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente, aquele pa\u00eds que proporcionava um modelo alternativo e revolucion\u00e1rio para os progressistas era, tamb\u00e9m, o pa\u00eds que perpetuava a discrimina\u00e7\u00e3o racial contra os negros, em que ainda estava em curso o genoc\u00eddio ind\u00edgena (por meio da esteriliza\u00e7\u00e3o for\u00e7ada de toda mulher ind\u00edgena que buscasse assist\u00eancia m\u00e9dica no parto) e ainda propagava antissemitismo e teses de racismo cient\u00edfico para justificar a supremacia branca. Ideologicamente, os EUA eram mais pr\u00f3ximos do nazi-fascismo do que estamos preparados para admitir.<\/p>\n\n\n\n<p>Como Lobato surgiu em um caldo de cultura baseado nesses princ\u00edpios, ver o sucesso dos EUA era ver os resultados pr\u00e1ticos da implementa\u00e7\u00e3o deles. Por isso o refor\u00e7o do racismo de Lobato ao entrar em contato com as quest\u00f5es raciais americanas, isto depois de o autor ter recebido uma li\u00e7\u00e3o em regra a respeito de suas teses eugenistas contra os caipiras paulistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas \u00faltimas obras de Lobato; \u201cO Picapau Amarelo\u201d (1939), \u201cO Minotauro\u201d (1939), \u201cA Reforma da Natureza\u201d (1941), \u201cA Chave do Tamanho\u201d (1942) e \u201cOs Doze Trabalhos de H\u00e9rcules\u201d (1944); vemos uma descri\u00e7\u00e3o mais gentil de Nast\u00e1cia, em que Em\u00edlia j\u00e1 n\u00e3o a agride verbalmente como antes e ela n\u00e3o \u00e9 mais qualificada com ep\u00edtetos racistas (ainda \u00e9 tachada de cr\u00e9dula e simpl\u00f3ria, mas a este ponto seria imposs\u00edvel mudar sua personalidade). Nast\u00e1cia ainda \u00e9 rotulada por sua cor (\u201ca preta\u201d, \u201ca negra\u201d), por\u00e9m adjetivos mais agressivamente racistas n\u00e3o aparecem. Nestas obras, gradualmente o furor contra \u201ca preta\u201d baixa de tom.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso logicamente n\u00e3o quer dizer que Lobato deixou de ser racista, apenas que a batalha pelo higienismo racial deixou de ser a prioridade (al\u00e9m do mais, por ser solteirona e sem filhos, Nast\u00e1cia n\u00e3o era uma amea\u00e7a ao ideal eug\u00eanico, mas um modelo desej\u00e1vel de comportamento para os \u201cinferiores\u201d). Nos \u00faltimos anos de vida a sua obsess\u00e3o se tornou o petr\u00f3leo, sua luta pol\u00edtica se aproxima do nacionalismo e sua escrita agora busca agradar ao p\u00fablico mais amplo poss\u00edvel, a fim de gerar mais direitos autorais e fama, que ele utilizar\u00e1 em prol de sua causa.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso \u00e9 que em obras como \u201cHist\u00f3rias de Tia Nast\u00e1cia\u201d ele faz tantas refer\u00eancias a autores estrangeiros: est\u00e1 fazendo publicidade de seu trabalho como tradutor e as obras que cita s\u00e3o as que ele mesmo traduziu. Por isso em \u201cO Picapau Amarelo\u201d ele traz os persoangens dos contos de fadas para o S\u00edtio: est\u00e1 buscando inserir seu trabalho, em p\u00e9 de igualdade, entre as grandes obras da literatura infantil, como as dos Irm\u00e3os Grimm e de Hans Christian Andersen.<\/p>\n\n\n\n<h2>Conclus\u00f5es<\/h2>\n\n\n\n<p>Por muito tempo prevaleceu a tese de que Lobato teria ficado desgostoso com o p\u00fablico adulto e passado a escrever para crian\u00e7as, em que teve mais sucesso. Esta tese, por\u00e9m, n\u00e3o est\u00e1 de acordo com os fatos da sua biografia: se \u00e9 verdade que ao morrer ele se dedicava \u00e0 literatura infantil; tamb\u00e9m \u00e9 verdade que ainda continuou a escrever e publicar livros para adultos mesmo depois de j\u00e1 ter dado in\u00edcio \u00e0 sua escrita para crian\u00e7as, embora com menos dedica\u00e7\u00e3o. Lobato n\u00e3o teve uma \u201cfase adulta\u201d seguida de uma \u201cfase infantil\u201d; em vez disso, foi um autor prol\u00edfico e de m\u00faltiplos interesses que passou a se dedicar predominantemente a <em>um<\/em> desses interesses depois de ter fracassado em outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas d\u00e9cadas depois de sua morte, Lobato passou a gozar de uma reputa\u00e7\u00e3o acima de quaisquer questionamentos; o que ocorreu, em grande parte, devido ao sucesso do \u201cS\u00edtio do Picapau Amarelo\u201d. Isso permitiu que se formasse uma imagem de um Lobato gentil e tolerante, um pedagogo, uma figura paternal. Esta imagem est\u00e1 muito longe do homem de carne e osso que ele foi: um adepto da eugenia, um simpatizante de ideias perigosamente pr\u00f3ximas do nazismo, um cultuador da influ\u00eancia estrangeira, um racista t\u00e3o literal quanto poss\u00edvel e um <em>proselitista dessas ideias<\/em>. Esta imagem bonachona se manteve, em grande parte, pelo ocultamento de suas obras para adultos. Em nenhuma biblioteca onde houvesse a cole\u00e7\u00e3o do S\u00edtio do Picapau Amarelo haveria tamb\u00e9m um exemplar de \u201cUrup\u00eas\u201d ou de \u201cO Presidente Negro\u201d. Os contos do autor que foram antologizados s\u00e3o os encontrados em \u201cNegrinha\u201d e em \u201cCidades Mortas\u201d. As biografias de Lobato apenas mencionam o personagem Jeca Tatu, mas n\u00e3o se referem a \u201cIdeias de Jeca Tatu\u201d, \u201cJeca Tatuzinho\u201d ou \u201cO Problema Vital\u201d.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft size-medium\"><img loading=\"lazy\" width=\"223\" height=\"300\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/edicoes-223x300.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-7361\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/edicoes-223x300.png 223w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/edicoes-475x640.png 475w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/edicoes-111x150.png 111w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/edicoes-120x162.png 120w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/edicoes.png 542w\" sizes=\"(max-width: 223px) 100vw, 223px\" \/><figcaption>Em 1921 a contracapa da &#8220;Revista do Brasil&#8221; nos mostra que Lobato continuava a republicar &#8220;Urup\u00eas&#8221;, escrevera novas obras sobre a quest\u00e3o racial (&#8220;Id\u00e9ias de Jeca Tatu&#8221; e &#8220;Cidades Mortas&#8221;) e j\u00e1 come\u00e7ara a escrever o S\u00edtio do Picapau Amarelo.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Por mais que se queira separar as duas coisas, a verdade \u00e9 que o mesmo homem escreveu \u201cUrup\u00eas\u201d, \u201cReina\u00e7\u00f5es de Narizinho\u201d, \u201cO Presidente Negro\u201d e \u201cHist\u00f3rias de Tia Nast\u00e1cia\u201d. As ideias expressas por Lobato nos livros do S\u00edtio n\u00e3o s\u00e3o diferentes das mesmas que expressara antes e continuou expressando pela vida inteira, apenas aparecem atenuadas por se tratar de obras voltadas ao p\u00fablico infantil. Assim, em vez da crua descri\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica eug\u00eanica encontrada em \u201cO Presidente Negro\u201d, Lobato apresenta \u00e0s crian\u00e7as o \u201csistema de tia Nast\u00e1cia com os pintinhos\u201d, uma maneira infantilizada de doutrinar a eugenia nos pequenos leitores.<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, h\u00e1 mais semelhan\u00e7a das ideias do \u201cS\u00edtio\u201d com as expressas em \u201cUrup\u00eas\u201d (1918), do que com as ideias mais progressistas que Lobato expressou, por exemplo, em \u201cNegrinha\u201d (1920) e em \u201cJeca Tatuzinho\u201d (1924). Isso d\u00e1 margem para se considerar que Lobato usou a literatura infantil para seguir defendendo ideias que j\u00e1 n\u00e3o podia defender abertamente nos livros para adultos (ele tentou mudar para os EUA e defender essas ideias l\u00e1, mas elas foram consideradas excessivas at\u00e9 mesmo pelos americanos); que ele recuou do debate aberto quando se viu tolhido e preferiu doutrinar mais sutilmente as crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<h2>Outros Textos Meus Sobre Lobato<\/h2>\n\n\n\n<ul><li><a href=\"Lobato:  O Espinho Que Se Recusa a Inflamar\">Lobato:  O Espinho Que Se Recusa a Inflamar<\/a><\/li><li><a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/12\/o-que-fazer-com-a-arte-de-pessoas-execraveis\/\" data-type=\"URL\" data-id=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/12\/o-que-fazer-com-a-arte-de-pessoas-execraveis\/\">O Que Fazer Com a Arte das Pessoas Execr\u00e1veis?<\/a><\/li><li><a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/02\/livros-perigosos-2\/\" data-type=\"URL\" data-id=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/02\/livros-perigosos-2\/\">Livros Perigosos (2)<\/a><\/li><li><a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2015\/04\/ainda-sera-possivel-falar-do-brasil\/\" data-type=\"URL\" data-id=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2015\/04\/ainda-sera-possivel-falar-do-brasil\/\">Ser\u00e1 Ainda Poss\u00edvel Falar do Brasil?<\/a><\/li><\/ul>\n\n\n\n<h2>Refer\u00eancias<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"bibitem\">ABREU, T. Censura e eugenia em \u201cHist\u00f3ria do Mundo para as Crian\u00e7as\u201d, de Monteiro Lobato. <em>Intersemiose<\/em> Revista Digital, ano III, N. 06, Jul\u2013Dez 2014, ISSN 2316 -316X.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibitem\">BALERA, Jos\u00e9 Eduardo Ribeiro; DINIZ, Nilza Maria. A eticidade de pesquisas bioantropol\u00f3gicas de delinqu\u00eancia no cen\u00e1rio cient\u00edfico contempor\u00e2neo. <em>Revista Bio\u00e9tica<\/em>, v. 21, n. 3, p. 536-545, 2013.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibitem\">GOBINEAU, Arthur de. <em>The Inequality of Human Races<\/em>. London: William Heinemann, 1915.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibitem\">HITLER, A. <em>Minha Luta<\/em>. Dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/lelivros.love\/book\/download-mein-kampf-adolf-hitler-epub-mobi-pdf\">https:\/\/lelivros.love\/book\/download-mein-kampf-adolf-hitler-epub-mobi-pdf<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibitem\">KORND\u00d6RFER, A. P. Jeca Tatu, um ilustre opilado: o movimento sanitarista e o combate \u00e0 anciolostom\u00edase na obra de Monteiro Lobato (Brasil, d\u00e9cadas de 1910-1920). <em>Hist\u00f3ria: Debates e Tend\u00eancias<\/em> (Online), vol. 18, n\u00fam. 3, 2018. Universidade de Passo Fundo, Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas, Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria. Dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/www.redalyc.org\/jatsRepo\/5524\/552459257009\/html\/index.html\">https:\/\/www.redalyc.org\/jatsRepo\/5524\/552459257009\/html\/index.html<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibitem\">LOBATO, J. B. M. <em>Hist\u00f3rias de Tia Nast\u00e1cia<\/em>. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1937<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibitem\">LOBATO, J. B. M. <em>A Prop\u00f3sito da Exposi\u00e7\u00e3o Malfatti<\/em>. Dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/pt.wikisource.org\/wiki\/A_prop\u00f3sito_da_exposi\u00e7\u00e3o_Malfatti\">https:\/\/pt.wikisource.org\/wiki\/A_prop\u00f3sito_da_exposi\u00e7\u00e3o_Malfatti<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibitem\">LOBATO, J. B. M. <em>Urup\u00eas<\/em>. S\u00e3o Paulo: Revista do Brasil, 1918. Dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/archive.org\/details\/3394502\">https:\/\/archive.org\/details\/3394502<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibitem\">LOBATO, J. B. M. <em>Jeca Tatuzinho<\/em>. S\u00e3o Paulo: Monteiro Lobato Editora, 1924. Dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/archive.org\/details\/JecaTatuzinho1924\">https:\/\/archive.org\/details\/JecaTatuzinho1924<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibitem\">LOBATO, J. B. M. <em>A Barca de Gleyre<\/em>. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1944<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibitem\">LOBATO, J. B. M. <em>O Presidente Negro<\/em>. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1979, 13\u00aa Edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibitem\">NORDAU, Max Simon. <em>Degeneration<\/em>. London: William Heinemann, 1898. Dispon\u00edvel em http:\/\/www.gutenberg.org\/ebooks\/51161<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibitem\">PENNA, Belis\u00e1rio. <em>Amarell\u00e3o e maleita<\/em>. Rio de Janeiro: Benedicto de Souza, 1928.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibitem\">SILVEIRA, \u00c9der. Sanear para integrar: a cruzada higienista de Monteiro Lobato. <em>Estudos Ibero-Americanos<\/em>, v. 31, n. 1, p. 181-200, jun. 2005.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma tentativa de analisar os aspectos problem\u00e1ticos da obra de Monteiro Lobato, com o objetivo de demonstrar que o autor n\u00e3o era somente um racista em suas convic\u00e7\u00f5es e forma\u00e7\u00e3o, mas que, tamb\u00e9m, fez de sua obra um instrumento de proselitismo de suas ideias. 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