{"id":740,"date":"2014-01-03T21:48:01","date_gmt":"2014-01-04T00:48:01","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=740"},"modified":"2017-11-02T14:08:16","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:16","slug":"desencontro-marcado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/01\/desencontro-marcado\/","title":{"rendered":"Desencontro Marcado"},"content":{"rendered":"<div class=\"TOC\" markdown=\"0\">Um dos mais antigos contos meus, datado de 2000 ou 2001 e recuperado de um arquivo perdido numa pasta esquecida de um HD que eu nem sabia que tinha mais. Um conto escrito para uma pessoa que nunca mais verei (a mo\u00e7a da banca de jornais \u00e9 algu\u00e9m que conheci, h\u00e1 muito tempo, em uma pra\u00e7a que n\u00e3o existe mais, em S\u00e3o Jo\u00e3o Nepomuceno).<\/div>\n<p>Fiz as malas \u00e0 noite, enquanto todos dormiam, para a definitiva volta para casa. A noite de sexta n\u00e3o fora como de costume, mas o mesmo gosto de sempre estava em minha boca, aquele amargo met\u00e1lico que antecede a azia, aquela sensa\u00e7\u00e3o de secura nos dentes que fica depois da bebedeira. A \u00fanica janela de meu quarto dava para uma \u00e1rea interna onde estendiam as roupas lavadas. Os len\u00e7\u00f3is brancos eram uma paisagem calma e as cal\u00e7as e camisas de todos os h\u00f3spedes me acenavam simplesmente sem simpatia.<\/p>\n<p>Quando amanheceu depois de um sono dif\u00edcil, desci as escadas carregando malas grandes e uma tentativa de sorriso: nunca \u00e9 f\u00e1cil voltar para casa, nem mesmo como vencedor. \u00c0 mesa para o caf\u00e9, tentei n\u00e3o dar not\u00edcia dos meus arrependimentos \u2013 pretendia esquecer definitivamente tudo quando, definitivamente, estivesse em casa. Despido de maiores emo\u00e7\u00f5es, sofri outro  e me pus na rua antes que a chuva eliminasse minha capacidade de sair.<\/p>\n<p>Uma chuva  e fria que escorria pelo cal\u00e7amento de pedras negras emba\u00e7ando os meus \u00f3culos e me fazendo franzir a testa. Em algum lugar por perto algu\u00e9m deixara um hino evang\u00e9lico rodando num toca-discos, ou talvez alguma coisa irreconhec\u00edvel dos anos setenta. A luz rala do sol varava as nuvens e cintilava nas enxurradas.<\/p>\n<p>Descansei as malas num banco da pra\u00e7a patriarcal cercada de lojas sem gra\u00e7a e cheia de homens velhos com suas cal\u00e7as de tecido fino com furos de brasas de cigarros de palha, de mulheres gordas e precocemente envelhecidas arrastando crian\u00e7as , de meninas desengon\u00e7adas tentando imitar a moda do Rio de Janeiro, de homens de dentes podres usando roupas sujas e exibindo sorrisos grossos diante de mulheres f\u00fateis que fingiam n\u00e3o v\u00ea-los. \u00c9 uma apar\u00eancia de morte esta das cidades do interior nos dias de chuva, sobretudo quando se chega, mas tamb\u00e9m quando se est\u00e1 indo embora.<\/p>\n<p>Um casal de m\u00e3os dadas vinha pelo cal\u00e7amento e levemente me cumprimentou: conhecidos em vias de esquecimento j\u00e1 sumindo no ar, ao vivo, diante de mim.<\/p>\n<p>Fl\u00e1via me aguardava com o seu sorriso gradeado por um aparelho. Outra vez fugiram as palavras. Como falar da falta que ficaria? E as poucas frases que eu consegui soaram como discursos, incapazes de sentimento. Eu via m\u00e1goa nela a turvar sensivelmente o sorriso comercial que apresentava-me. Com que desculpa ia embora? Com que coragem ficaria? Depois de tudo que dissera eu me sentia o mesmo menino desastrado que quebrara a lou\u00e7a portuguesa da av\u00f3.<\/p>\n<p>Abriria in\u00fameras vezes a minha boca sem conseguir corresponder \u00e0 necessidade do instante. Portanto n\u00e3o ousei tentar coisa alguma. Subitamente veio me tomando a repulsa que me ordenara fugir. Apesar disso, pleno de boas inten\u00e7\u00f5es, tentei lhe dar meu \u00faltimo sorriso, que falhou e soube, ent\u00e3o, que jamais se sabe como dar adeus: um n\u00f3 formou-se na garganta que em v\u00e3o tentara desculpar-se, e o calor subiu-me ao rosto porque os olhos dela eram enormes, negros e \u00famidos. Engoli em seco e olhei o solo, mais envergonhado e s\u00f3 do que jamais houvera sido.<\/p>\n<p>Era tudo muito simples. A vida me tocava em frente e eu n\u00e3o tinha autonomia para ficar.<\/p>\n<p>Mordi o n\u00f3 de um dedo, olhei para cima e para os lados&#8230; o mundo pareceu ser t\u00e3o subitamente maior que tudo que eu era&#8230; Por isso carreguei do ch\u00e3o as minhas malas, murmurei um ineficiente consolo enquanto prometi voltar sempre e segui pela cal\u00e7ada de pedrinhas. N\u00e3o, n\u00e3o era preciso que eu dissesse coisa alguma.<\/p>\n<p>Meus sapatos batendo contra o ch\u00e3o, eu os ouvia como se o som passasse por dentro de mim para chegar aos meus ouvidos, meus cabelos iam sendo aos poucos acamados pela \u00e1gua rala da pouca chuva que restava. Sob a grande amendoeira da outra pra\u00e7a algu\u00e9m varria folhas secas e n\u00e3o havia por perto conhecidos e muitos menos algum bar aberto onde eu pudesse embriagar minha raz\u00e3o at\u00e9 passar a \u00e2nsia de gritar que eu sentia.<\/p>\n<p>Desconfortavelmente sentado em um banco de rodovi\u00e1ria, esperando pela \u00faltima vez o meu \u00f4nibus, perguntei que dose letal de \u00e1lcool me fizera perder meu resto de ju\u00edzo e que benef\u00edcio adviria daquela maldade que eu fazia a quem s\u00f3 me queria ter. Os passarinhos das \u00e1rvores cantavam estranho, como se sempre tivessem estado nelas esperando pela minha chegada e a crueldade intensa do sil\u00eancio matinal foi rompida finalmente pelo resfolegar do primeiro carro que agrediu os meus ouvidos com sua partida seca e hesitante. Ent\u00e3o o \u00f4nibus chegou devagar, soltando ar dos freios como se tossisse. Entrei e o cobrador me desejou bom-dia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos mais antigos contos meus, datado de 2000 ou 2001 e recuperado de um arquivo perdido numa pasta esquecida de um HD que eu nem sabia que tinha mais. Um conto escrito para uma pessoa que nunca mais verei (a mo\u00e7a da banca de jornais \u00e9 algu\u00e9m que conheci, h\u00e1 muito tempo, em uma pra\u00e7a que n\u00e3o existe mais, em S\u00e3o Jo\u00e3o Nepomuceno). Fiz as malas \u00e0 noite, enquanto todos dormiam, para a definitiva volta para casa. 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