{"id":7406,"date":"2021-02-08T19:05:00","date_gmt":"2021-02-08T22:05:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=7406"},"modified":"2021-02-08T19:05:03","modified_gmt":"2021-02-08T22:05:03","slug":"a-invisibilidade-do-brasil-e-seus-mitos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2021\/02\/a-invisibilidade-do-brasil-e-seus-mitos\/","title":{"rendered":"A Invisibilidade do Brasil e Seus Mitos"},"content":{"rendered":"\n<p>A recente estreia da s\u00e9rie &#8220;Cidades Invis\u00edveis&#8221; na Netflix movimentou as redes sociais na primeira semana de fevereiro de 2021 com uma s\u00e9rie de pol\u00eamicas sobre a escolha dos atores e elementos da trama que parecem inconsistentes com os mitos folcl\u00f3ricos brasileiros em que os personagens foram baseados. Acredito, no entanto, que o momento exige uma reflex\u00e3o bastante madura sobre o caso, para que a brasilidade n\u00e3o perca uma oportunidade interessante para recuperar espa\u00e7o na cultura &#8220;pop&#8221;, onde esteve, por tanto tempo, impedida de entrar devido \u00e0 massacrante influ\u00eancia da cultura de massas importada.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando falamos do folclore brasileiro, \u00e9 imposs\u00edvel esquecer quatro autores fundamentais do folclorismo nacional: Corn\u00e9lio Pires, S\u00edlvio Romero, Lu\u00eds da C\u00e2mara Cascudo e Jo\u00e3o Sim\u00f5es Lopes Neto. Cada um a seu modo, registraram os mitos e lendas do Brasil, dando-lhes forma liter\u00e1ria respeitosa. Cascudo, principalmente, foi o autor de um <em>Dicion\u00e1rio do Folclore Brasileiro<\/em> que \u00e9 uma obra essencial para quem deseja estudar o tema. Infelizmente, a primeira refer\u00eancia que a maioria tem em rela\u00e7\u00e3o ao nosso folclore \u00e9 um autor que n\u00e3o tinha nenhum respeito pelo povo brasileiro e sua cultura tradicional: Monteiro Lobato.<\/p>\n\n\n\n<p>A obra de Monteiro Lobato \u00e9 uma verdadeira cruzada contra a brasilidade disfar\u00e7ada de nacionalismo. O autor at\u00e9 mesmo deve a sua fama a textos em que qualificou o homem do campo, o caipira, de parasita, comparando-o a criaturas como o bicho-de-p\u00e9 e o cogumelo orelha-de-pau. No primeiro caso, por atrapalhar o Brasil a andar e no segundo, por destruir o pa\u00eds para se alimentar de seu apodrecimento. Chegou a chamar o caipira de &#8220;fazedor de desertos&#8221; e seu projeto modernizador &#8220;nacionalista&#8221; se baseava a tecer loas ao &#8220;italiano&#8221;. O estranho nacionalismo da direita brasileira, o nacionalismo que prop\u00f5e um futuro melhor para o pa\u00eds, mediante a substitui\u00e7\u00e3o do povo.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora Lobato tenha feito amplo uso de personagens folcl\u00f3ricos (especificamente retirados do folclore da regi\u00e3o sudeste, ainda que tamb\u00e9m ocorram em outras regi\u00f5es), f\u00ea-lo de maneira caricata e infantilizada. Nisso propriamente n\u00e3o h\u00e1 nenhum mal, uma vez que estas obras foram escritas para crian\u00e7as &#8212; o problema foi que estas obras se tornaram uma esp\u00e9cie de refer\u00eancia de nosso folclore, a ponto de muitas vezes, ao pesquisarmos sobre esses seres, as primeiras imagens que a ferramenta de busca retorna s\u00e3o ilustra\u00e7\u00f5es de livros de Lobato. Com isso, o folclore brasileiro se tornou ref\u00e9m da maneira como Lobato o imaginou, apesar de ser muito mais amplo e profundo do que isso.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"800\" height=\"523\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/folclore-brasileiro-800x523.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7407\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/folclore-brasileiro-800x523.jpg 800w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/folclore-brasileiro-250x164.jpg 250w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/folclore-brasileiro-120x79.jpg 120w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/folclore-brasileiro-768x502.jpg 768w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/folclore-brasileiro.jpg 963w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption>Iara, Negrinho do Pastoreio, Boitat\u00e1, Cuca, Curupira, Saci, Boto Cor-de-Rosa, Lobisomem, Mula-Sem-Cabe\u00e7a. Todos infantilizados e baseados na imag\u00edstica lobatiana (mesmo os que n\u00e3o s\u00e3o citados pelo autor). O apagamento da origem ind\u00edgena da Iara e do Curupira, aliado ao embranquecimento do &#8220;Negrinho&#8221;, bem como a imagem do Lobisomem europeu e de uma Cuca inspirada na personagem do S\u00edtio do Picapau Amarelo: retrato do sequestro do folclore brasileiro pela influ\u00eancia de Lobato.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>A longo prazo, a sombra de Lobato fez com muita gente visse o folclore &#8212; e especialmente os seres m\u00edsticos nele presentes &#8212; de uma maneira desrespeitosa, como se fossem apenas &#8220;coisa de crian\u00e7a&#8221;. De certa forma, Lobato teria ficado feliz com esse resultado, porque ele pensava que as nossas tradi\u00e7\u00f5es eram uma mera idiotice:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u2014 Essas hist\u00f3rias folcl\u00f3ricas s\u00e3o bastante bobas \u2014 disse ela. \u2014\u00a0<em>Por isso \u00e9 que n\u00e3o sou \u201cdemocr\u00e1tica!\u201d Acho o povo muito idiota<\/em>\u2026<\/p><p>[&#8230;]<\/p><p>\u2014 Eu tamb\u00e9m acho muito ing\u00eanua essa hist\u00f3ria de rei e princesa e botas encantadas \u2014 disse Narizinho. \u2014\u00a0<em>Depois que li o Peter Pan, fiquei exigente<\/em>. Estou de acordo com Em\u00edlia.<\/p><p>\u2014 Pois eu gostei da hist\u00f3ria \u2014 disse Pedrinho \u2014 porque me d\u00e1 ideia da mentalidade do nosso povo.\u00a0<em>A gente deve conhecer essas hist\u00f3rias como um estudo da mentalidade do povo<\/em>.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Afinal, a marca de nosso povo n\u00e3o era a criatividade, mas a ignor\u00e2ncia:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u2014 Sim \u2014 disse dona Benta. \u2014 N\u00f3s n\u00e3o podemos exigir do povo o apuro art\u00edstico dos grandes escritores. O povo\u2026 Que \u00e9 o povo?\u00a0<em>S\u00e3o essas pobres tias velhas, como Nast\u00e1cia, sem cultura nenhuma<\/em>, que nem ler sabem e que outra coisa n\u00e3o fazem sen\u00e3o ouvir as hist\u00f3rias de outras criaturas igualmente ignorantes, e pass\u00e1-las para outros ouvidos, mais adulteradas ainda.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ou que nosso folclore n\u00e3o poderia render hist\u00f3rias t\u00e3o boas quanto as escritas pelos autores estrangeiros que Lobato ganhava dinheiro para traduzir:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u2014 Mudan\u00e7as que as deixam sem p\u00e9 nem cabe\u00e7a \u2014 insistiu Em\u00edlia. \u2014 Essa do Sargento Verde, por exemplo. \u00c9 t\u00e3o idiota que um s\u00e1bio que quiser estud\u00e1-la acabar\u00e1 tamb\u00e9m idiota. Eu, francamente, passo essas tais hist\u00f3rias populares. Gosto mais \u00e9 das de Andersen, das do autor do Peter Pan e das do tal Carroll, que escreveu Alice no Pais das Maravilhas. Sendo coisas do povo, eu passo\u2026<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Outro exemplo:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u00c9 o que eu digo \u2014 ajuntou Em\u00edlia. \u2014\u00a0<em>O povo<\/em>, coitado,\u00a0<em>n\u00e3o<\/em>\u00a0<em>tem<\/em>\u00a0<em>delicadeza, n\u00e3o tem finuras, n\u00e3o tem arte<\/em>.\u00a0<em>\u00c9 grosseiro, tosco em tudo que faz<\/em>. Este livro vai ser s\u00f3 das hist\u00f3rias populares do Brasil, mas depois havemos de fazer um s\u00f3 de hist\u00f3rias compostas por artistas, das lindas, cheias de poesia e mimos \u2014 como aquela do Pr\u00edncipe Feliz, do tal Oscar Wilde, que dona Benta nos leu. Aquilo sim. At\u00e9 deixa a gente leve, leve, de tanta finura de beleza!<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Para esse grande &#8220;nacionalista&#8221;, o povo n\u00e3o tem imagina\u00e7\u00e3o, tem apenas pobreza:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u2014 Bom \u2014 disse Em\u00edlia. \u2014 Esta j\u00e1 est\u00e1 mais bem arranjadinha. Mas eu noto uma coisa: as hist\u00f3rias populares parecem que s\u00e3o uma s\u00f3, contada de mil maneiras diferentes.\u00a0<em>Falam tanto na tal imagina\u00e7\u00e3o do povo e eu n\u00e3o vejo nada disso. Vejo apenas uma grande pobreza<\/em>.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Quando isolamos estas cita\u00e7\u00f5es de <em>Hist\u00f3rias de Tia Nast\u00e1cia, <\/em>fica parecendo que, para Lobato, destruir o imagin\u00e1rio popular brasileiro e substitu\u00ed-lo pelas obras estrangeiras (traduzidas por ele, claro) seria mais uma forma de &#8220;progresso&#8221;,  uma higieniza\u00e7\u00e3o cultural do pa\u00eds. Talvez por causa disso \u00e9 que se fa\u00e7a t\u00e3o pouco para preservar os mitos e lendas de nosso folclore. Por causa desse descaso, o sarrafo fica baixo para quem queira trabalhar os temas na cultura pop. Isto permite que certos trabalhos de m\u00e1 qualidade pare\u00e7am melhores que s\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda por causa desse abandono, temos que ter cuidado ao criticar quem faz alguma coisa no tema, mesmo que fa\u00e7a mal. Uma rea\u00e7\u00e3o negativa pode afugentar futuros investimentos na \u00e1rea. De modos e maneiras que o simples fato de surgir um produto cultural baseado em nosso folclore e que <em>foge \u00e0 influ\u00eancia infantilizadora de Monteiro Lobato<\/em> \u00e9 uma coisa a se comemorar &#8212; por mais que a qualidade da obra vacile. <\/p>\n\n\n\n<p>Acredito que o surgimento de uma s\u00e9rie sobre os personagens de nosso folclore seja muito importante para n\u00f3s, enquanto na\u00e7\u00e3o que busca sua identidade. O interesse popular por esta s\u00e9rie &#8212; mesmo que ela seja ruim &#8212; pode ser o come\u00e7o de um ciclo de trabalhos melhores. N\u00e3o h\u00e1 desservi\u00e7o em se trazer visibilidade, porque visibilidade traz debate e debate realimenta a visibilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo a m\u00e1 qualidade pode n\u00e3o ser um problema s\u00e9rio. Sabemos muito bem que os grandes temas da literatura foram criados a partir de obras originais que nem sempre foram das melhores. O mito do vampiro, por exemplo, n\u00e3o tem em <em>Dr\u00e1cula<\/em>, de Bram Stoker, um precursor irretoc\u00e1vel. Em geral, a qualidade \u00e9 fruto da maturidade da forma art\u00edstica ou do tema. Os precursores s\u00e3o, muitas vezes, lembrados apenas por serem precursores. Gon\u00e7alves de Magalh\u00e3es est\u00e1 a\u00ed para nos provar exatamente isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, a s\u00e9rie tem problemas, muitos deles relacionados ao maior problema de nossa produ\u00e7\u00e3o cultural, que \u00e9 o filtro do Eixo Rio-S\u00e3o Paulo, e \u00e0 atitude brasileira predominante nos dias de hoje, que nos leva a encarar como <a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/10\/brasil-um-pais-exotico\/\" data-type=\"URL\" data-id=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/10\/brasil-um-pais-exotico\/\">ex\u00f3ticos<\/a> os elementos de nossa pr\u00f3pria tradi\u00e7\u00e3o. No c\u00f4mputo geral, por\u00e9m, eu acho que a s\u00e9rie \u00e9 mais positiva que negativa. Devemos aproveitar a oportunidade para fazer mais coisas sobre o tema, consolid\u00e1-lo em nosso imagin\u00e1rio &#8212; e no imagin\u00e1rio internacional, se a s\u00e9rie for bem-sucedida.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto ao boato de que Draccon est\u00e1 envolvido, se for verdade isto explicar\u00e1 metade dos defeitos da s\u00e9rie, mas n\u00e3o explicar\u00e1 nenhuma de suas qualidades&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A recente estreia da s\u00e9rie &#8220;Cidades Invis\u00edveis&#8221; na Netflix movimentou as redes sociais na primeira semana de fevereiro de 2021 com uma s\u00e9rie de pol\u00eamicas sobre a escolha dos atores e elementos da trama que parecem inconsistentes com os mitos folcl\u00f3ricos brasileiros em que os personagens foram baseados. Acredito, no entanto, que o momento exige uma reflex\u00e3o bastante madura sobre o caso, para que a brasilidade n\u00e3o perca uma oportunidade interessante para recuperar espa\u00e7o na cultura &#8220;pop&#8221;, onde esteve, por tanto tempo, impedida de entrar [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":7407,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[310,57],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7406"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7406"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7406\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7408,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7406\/revisions\/7408"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7407"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7406"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7406"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7406"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}