{"id":7436,"date":"2021-02-15T19:16:16","date_gmt":"2021-02-15T22:16:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=7436"},"modified":"2021-02-15T19:16:18","modified_gmt":"2021-02-15T22:16:18","slug":"por-uma-mitologia-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2021\/02\/por-uma-mitologia-brasileira\/","title":{"rendered":"Por uma &#8220;Mitologia Brasileira&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p>Trabalhando o projeto nacional brasileiro versus um programa deliberado de extin\u00e7\u00e3o da nacionalidade. Reflex\u00f5es surgidas diante da apropria\u00e7\u00e3o de elementos culturais folcl\u00f3ricos pela cultura popular.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"introdu\u00e7\u00e3o\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>O termo \u201cmitologia brasileira\u201d encontra resist\u00eancias not\u00e1veis das mais diversas origens. Temos a resist\u00eancia acad\u00eamica, que destaca inexistir um conjunto coerente de mitos abrangendo a totalidade do territ\u00f3rio nacional. Temos a resist\u00eancia das minorias \u00e9tnicas, que desejam preservar, quanto poss\u00edvel, a integridade de suas tradi\u00e7\u00f5es face \u00e0 sua \u201capropria\u00e7\u00e3o\u201d pela brasilidade coletiva. Temos a resist\u00eancia da modernidade, que estranha o conceito, por ter estado afastada de suas origens.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel falar do pa\u00eds que \u00e9 nosso sem desagradar a algu\u00e9m que se v\u00ea mais dono de cada elemento supostamente pertencente ao todo. Para qualquer tentativa de se abordar a hist\u00f3ria e cultura do Brasil enquanto na\u00e7\u00e3o haver\u00e1 um grupo que se ofenda e que se&nbsp;<em>defenda<\/em>, acusando a proposta com v\u00e1rios termos carregados, incluindo \u201capropria\u00e7\u00e3o cultural\u201d, \u201cracismo\u201d, \u201cepistemic\u00eddio\u201d, \u201capagamento\u201d, \u201cwhitewashing\u201d etc. De uns tempos para c\u00e1, falar do Brasil passou a ser controverso. O Brasil do passado \u00e9 um pa\u00eds cada vez mais anatematizado, cada vez mais perdido. O brasileiro n\u00e3o quer ajustar as contas com suas origens, quer forjar uma nova identidade, passar uma borracha sobre quem&nbsp;<em>foi<\/em>&nbsp;e come\u00e7ar a preparar um&nbsp;<em>devir<\/em>&nbsp;proposital.<\/p>\n\n\n\n<p>Este artigo procurar\u00e1 abordar essas resist\u00eancias e compreender de que maneira ainda poderemos trabalhar o conceito de nacionalidade.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"questionando-a-brasilidade\">Questionando a Brasilidade<\/h2>\n\n\n\n<p>O termo \u201cmitologia\u201d se refere ao conjunto das cren\u00e7as de determinado povo. Desta maneira, negar a exist\u00eancia de uma \u201cmitologia brasileira\u201d \u00e9 negar a exist\u00eancia de um \u201cpovo brasileiro\u201d. Isto n\u00e3o quer dizer, de maneira alguma, que uma mitologia brasileira (a partir de agora sem as aspas) deva incluir qualquer elemento. Deve ser poss\u00edvel discutir a pertin\u00eancia dos supostos elementos desta mitologia sem negar a exist\u00eancia desta enquanto categoria.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das raz\u00f5es pelas quais se nega a exist\u00eancia de um povo brasileiro consiste, justamente, em dizer que h\u00e1 \u201cpovos brasileiros\u201d e que estes n\u00e3o possuem quaisquer elementos compartilhados, sobre os quais se possa argumentar a exist\u00eancia de uma mitologia comum. Acontece que propor a exist\u00eancia de uma pluralidade de \u201cpovos brasileiros\u201d n\u00e3o nega a exist\u00eancia de uma brasilidade comum a esses povos, por mais problem\u00e1tica que tenha sido a constru\u00e7\u00e3o dessa identidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O questionamento da brasilidade, por sua vez, parte de duas dire\u00e7\u00f5es: a) o questionamento da exist\u00eancia de uma identidade nacional brasileira comum \u2014 e, portanto, de quaisquer caracter\u00edsticas comuns adjetiv\u00e1veis \u2014 e b) o questionamento da originalidade dos elementos caracter\u00edsticos (nacionais ou regionais) que nos particularizam. O primeiro questionamento \u00e9 o mais simples, \u00e9 o que vimos acima. O segundo, por\u00e9m, envolve o \u201ccomplexo de vira-latas\u201d, ao negar que o povo brasileiro tenha criado, ou mesmo se apropriado, de elementos valiosos capazes de definir sua cultura. Algo que ecoa as palavras de Monteiro Lobato, pela boca de Em\u00edlia:&nbsp;<em>Falam tanto na tal imagina\u00e7\u00e3o do povo e eu n\u00e3o vejo nada disso. Vejo apenas uma grande pobreza.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Cito estes elementos aqui para situar o leitor. Para que saiba&nbsp;<em>onde<\/em>&nbsp;p\u00f5e os p\u00e9s quando nega a exist\u00eancia de uma identidade nacional. Para que saiba pisar com cuidado, mesmo ao fazer questionamentos v\u00e1lidos sobre a cultura nacional.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"folclore-versus-mitologia\">Folclore Versus Mitologia<\/h2>\n\n\n\n<p>Se mitologia corresponde a um conjunto comum de cren\u00e7as, o termo folclore \u00e9 bem mais abrangente e se refere ao conjunto de pr\u00e1ticas culturais. Diversamente da mitologia, \u201cfolclore\u201d n\u00e3o precisa corresponder a uma identidade nacional exatamente porque dentro de uma mesma identidade nacional pode haver elementos folcl\u00f3ricos regionais. H\u00e1 elementos folcl\u00f3ricos portugueses, por exemplo, que s\u00e3o caracter\u00edsticos do sul do pa\u00eds. Esta circunst\u00e2ncia em nada prejudica a identidade nacional portuguesa. Por esta raz\u00e3o \u00e9 que o termo \u201cfolclore\u201d \u00e9 menos carregado que \u201cmitologia\u201d. Aqueles que negam a exist\u00eancia de uma mitologia brasileira n\u00e3o se ocupam de negar a exist\u00eancia de um folclore brasileiro porque \u00e9 um termo que n\u00e3o repercute politicamente.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"a-brasilidade-como-resqu\u00edcio\">A Brasilidade como Resqu\u00edcio<\/h2>\n\n\n\n<p>Durante o s\u00e9culo XX o Brasil atravessou um processo brutal de urbaniza\u00e7\u00e3o. Entre 1930 e 1990, a percentagem de popula\u00e7\u00e3o rural caiu de mais de 70% para os atuais 15%. Ainda que, metodologicamente, os munic\u00edpios de baix\u00edssima densidade demogr\u00e1fica devessem ser todos classificados como zona rural, isto ainda n\u00e3o daria nem 25% de popula\u00e7\u00e3o rural.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse movimento demogr\u00e1fico aconteceu em menos de duas gera\u00e7\u00f5es e n\u00e3o foi somente um deslocamento local, mas envolveu a migra\u00e7\u00e3o interestadual e interregional, trazendo nordestinos e nortistas para o sudeste e o centro-oeste, sulistas para o centro-oeste e o norte, mineiros para o Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos dizer que a transforma\u00e7\u00e3o social e econ\u00f4mica do Brasil causou o fraturamento da estrutura cultural e familiar das regi\u00f5es de onde partiam os migrantes, mas, principalmente, levou \u00e0 recria\u00e7\u00e3o de estruturas diferentes nos locais aonde se instalaram esses migrantes, levando suas contribui\u00e7\u00f5es culturais.<\/p>\n\n\n\n<p>Por um lado, isto ame\u00e7ou a sobreviv\u00eancia do folclore, dilu\u00eddo em um mar de influ\u00eancias \u2014 inclusive a estrangeira, que passa a impactar a partir dos anos 1970. Por outro lado, no entanto, provocou o cruzamento dos caminhos dos elementos folcl\u00f3ricos originais e possibilitou a reinven\u00e7\u00e3o de alguns deles no contexto urbano. O folclore rural brasileiro pode ter sido amea\u00e7ado, mas a cultura urbana tamb\u00e9m produz o seu folclore e, quero crer, tamb\u00e9m a sua mitologia.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"a-brasilidade-como-empecilho\">A Brasilidade como Empecilho<\/h2>\n\n\n\n<p>Os elementos culturais origin\u00e1rios de nossas antigas culturas rurais passaram a sofrer a influ\u00eancia da cultura de massas, o que, de certa forma, os fortaleceu, os descaracterizou e os debilitou, mas, tamb\u00e9m, os recriou e poderia permitir a sua sobreviv\u00eancia em um novo contexto.<\/p>\n\n\n\n<p>Aconteceu, por\u00e9m, um projeto deliberado de destrui\u00e7\u00e3o da cultura nacional, iniciado a partir dos anos 1970, que foi a principal causa do enfraquecimento da brasilidade. Tal projeto consistiu no enfrentamento da cultura de resist\u00eancia pela ditadura militar. A fim de calar vozes de autores, compositores e artistas que traziam questionamentos pol\u00edticos vistos como inaceit\u00e1veis; mais do que meramente censurar a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica, a ditadura passou a estimular a importa\u00e7\u00e3o de cultura estrangeira, vista como isenta de questionamentos. Entre o in\u00edcio dos anos 1970 e meados dos anos 2010 foi extremamente raro que um canal de televis\u00e3o aberta passasse um filme nacional. A m\u00fasica popular brasileira passou a enfrentar o pop internacional, que imperava de maneira mais clara nas FM.<\/p>\n\n\n\n<p>O influxo da cultura pop anglo-americana em quase tempo real criou um desejo inconsciente de \u201catualiza\u00e7\u00e3o\u201d e gradualmente criou a sensa\u00e7\u00e3o de que seria preciso \u201cavan\u00e7ar\u201d, \u201cacertar o passo\u201d com o mundo. Politicamente isto se consolida no discurso de Fernando Collor de Mello, em 1989, prometendo levar o Brasil ao \u201cPrimeiro Mundo\u201d. Nesse contexto, uma produ\u00e7\u00e3o cultural calcada na brasilidade n\u00e3o seria somente \u201carriscada\u201d politicamente e controversa, mas, tamb\u00e9m, descolada do fluxo internacional de ideias em que o Brasil tentava se inscrever.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"a-brasilidade-como-apropria\u00e7\u00e3o-cultural\">A Brasilidade como Apropria\u00e7\u00e3o Cultural<\/h2>\n\n\n\n<p>Historicamente, o conceito de brasilidade \u00e9 um projeto colonialista&nbsp;<em>porque o Brasil<\/em>&nbsp;surge a partir de uma col\u00f4nia. Seria ing\u00eanuo supor que algum elemento de nossa identidade teria outra origem.<\/p>\n\n\n\n<p>O projeto colonial traz a cultura portuguesa, que procura implantar \u00e0 for\u00e7a, e absorve, nem sempre de bom grado, elementos da cultura ind\u00edgena e africana. Este conjunto de influ\u00eancias, em que o elemento ib\u00e9rico comparece como hegem\u00f4nico e intermediador, se caracteriza, portanto, pela \u201capropria\u00e7\u00e3o cultural\u201d no seu sentido mais apropriado.<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e3o corretos os ind\u00edgenas e negros quando reclamam da apropria\u00e7\u00e3o e do embranquecimento de seus mitos no contexto da \u201ccultura brasileira\u201d. Reclamam com justa indigna\u00e7\u00e3o que sua contribui\u00e7\u00e3o n\u00e3o recebe o devido reconhecimento. Estarem corretos e reclamarem com justi\u00e7a n\u00e3o lhes d\u00e1 raz\u00e3o irrestrita, por\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>A cultura brasileira resultante desta intera\u00e7\u00e3o, ainda que for\u00e7ada, dos colonizadores e colonizados n\u00e3o \u00e9 a mera soma destas influ\u00eancias. As trocas culturais s\u00e3o dial\u00e9ticas: ningu\u00e9m leva nada sem deixar um pouco e a mera troca j\u00e1 muda o car\u00e1ter do que se traz e do que se entrega.<\/p>\n\n\n\n<p>Um bom exemplo disso \u00e9 o mito da \u201cIara\u201d, que pode muito bem ser caracterizado como pertencente a uma \u201cmitologia brasileira\u201d, ainda que originado dos povos ind\u00edgenas. A \u201cm\u00e3e d\u2019\u00e1gua\u201d das religi\u00f5es ind\u00edgenas era uma criatura primordial, isenta de sedu\u00e7\u00e3o sexual e de motiva\u00e7\u00e3o assassina em rela\u00e7\u00e3o aos humanos. Nos tempos coloniais s\u00f3 se registra o mito do Ipupiara, uma criatura que virava os barcos e devorava os passageiros, e da Cobra Grande, tamb\u00e9m chamada de Boi\u00fana e de outros nomes. A sedu\u00e7\u00e3o sexual associada \u00e0 Iara proviria do mito amaz\u00f4nico do boto (originalmente havia-os de ambos os sexos), mas \u00e9 muito mais prov\u00e1vel que o mito europeu da sereia tenha sido superposto ao da Cobra Grande ou do Ipupiara pelos portugueses. Desta forma, a Iara enquanto sereia fluvial sedutora que atrai os homens para o fundo de lagos e rios para ali afog\u00e1-los \u00e9 um produto criado pela intera\u00e7\u00e3o de portugueses e ind\u00edgenas. \u00c9 um mito brasileiro, ainda que tenha ra\u00edzes ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse tipo de situa\u00e7\u00e3o, \u00e9 complicado falar de embranquecimento ou de apropria\u00e7\u00e3o cultural. Embranquecimento \u00e9 representar Iemanj\u00e1 como uma mulher branca. Apropria\u00e7\u00e3o cultural \u00e9 um termo mais difuso e que sugere o \u201croubo\u201d de elementos espec\u00edficos de uma cultura por outra majorit\u00e1ria. Os portugueses n\u00e3o embranqueceram a Iara porque foram os brasileiros (mesti\u00e7os e\/ou brancos) que a criaram como \u00e9. Tampouco os portugueses se apropriaram da Iara porque uma criatura tal como ela n\u00e3o existia na mitologia ind\u00edgena.<\/p>\n\n\n\n<p>A Iara \u00e9, por conseguinte, um elemento que evidencia a exist\u00eancia de uma esfera cultural \u201cbrasileira\u201d que surgiu das trocas culturais entre portugueses, ind\u00edgenas e africanos.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"a-brasilidade-como-projeto-nacional\">A Brasilidade como Projeto Nacional<\/h2>\n\n\n\n<p>O grande mito nacional brasileiro \u00e9 expresso no ideal das \u201cTr\u00eas Ra\u00e7as\u201d. Este mito n\u00e3o surgiu espontaneamente: ele foi criado pelo Estado Novo (1937\u20131945) como uma estrat\u00e9gia de propaganda pol\u00edtica. Subitamente o estado brasileiro come\u00e7ou a propagar um ideal nacional que se superpunha aos ideais regionais.<\/p>\n\n\n\n<p>O ideal das tr\u00eas ra\u00e7as procurava passar uma borracha sobre os aspectos question\u00e1veis da coloniza\u00e7\u00e3o e celebrava o produto final: o mesti\u00e7o, visto como o \u201chomem brasileiro\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Ruy Barbosa foi ministro no governo de Campos Salles, mandou queimar toda a documenta\u00e7\u00e3o do Arquivo Nacional que se referia \u00e0 escravid\u00e3o, segundo ele \u201cpara apagar esta mancha da hist\u00f3ria da P\u00e1tria\u201d. A propaganda estadonovista leva isto um passo \u00e0 frente ao propor a mesti\u00e7agem como o pr\u00f3prio ideal.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 sem controv\u00e9rsias esta proposta, porque ela justamente ecoa a pol\u00edtica nacional de \u201cembranquecimento\u201d do pa\u00eds, levada a efeito desde a independ\u00eancia. Criada pelo Imp\u00e9rio e mantida pela Rep\u00fablica, esta pol\u00edtica tentava trazer colonos brancos para os postos chave da economia nacional, ao tempo em que expulsava dos centros urbanos os elementos indesej\u00e1veis \u2014 no caso, os negros.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao celebrar a mesti\u00e7agem, o Estado Novo tentava diminuir a viol\u00eancia dessas pol\u00edticas do passado e ingenuamente propunha, de certa forma ecoando Gilberto Freyre, que a constru\u00e7\u00e3o da nacionalidade n\u00e3o se faria por meio de uma guerra civil, mas atrav\u00e9s do amor entre os diferentes.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"a-mitologia-brasileira-celebraria-a-brasilidade-mesti\u00e7a\">A Mitologia Brasileira Celebraria a Brasilidade Mesti\u00e7a<\/h2>\n\n\n\n<p>Quando falamos de uma \u201cmitologia brasileira\u201d estamos, logicamente, validando a exist\u00eancia deste povo mesti\u00e7o vislumbrado pelo ideal estadonovista. O brasileiro mesti\u00e7o incopora elementos das diversas culturais de que descende, cria e refabula uma tradi\u00e7\u00e3o que soma as anteriores e que se soma a elas.<\/p>\n\n\n\n<p>A mitologia brasileira \u00e9 a express\u00e3o deste povo mesti\u00e7o, resultante do pr\u00f3prio processo de mesti\u00e7agem, com suas opress\u00f5es e viol\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>O passado do Brasil n\u00e3o \u00e9 bonito e a cultura que ele produziu n\u00e3o \u00e9 leve nem sofisticada: \u00e9 a express\u00e3o de um projeto de poder e \u00e9 o reflexo desse projeto nas inst\u00e2ncias aut\u00f4nomas da vida do povo. Nossa cultura transmite nossos medos ancestrais, nossos traumas, as dores de nosso parto enquanto povo. Racista, intolerante, preconceituosa, violenta, complexa e carente de uma unidade nacional exatamente porque o projeto colonial n\u00e3o a propunha.<\/p>\n\n\n\n<p>Encarar a brasilidade envolve acertar as contas com esse passado. Muitos receiam-no, recusam-se a aceitar seus antepassados cujas m\u00e3os foram sujas de terra e de sangue. Preferem falar de elfos e imaginar alguma terra estrangeira. Fogem espiritualmente do Brasil porque n\u00e3o aceitam que s\u00e3o descendentes desse projeto colonial. Preferem esquec\u00ea-lo do que lhe sublimar em uma nova constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m a hist\u00f3ria do Brasil n\u00e3o se limita a esses elementos negativos. Mesmo que se limitasse, deixar de falar deles n\u00e3o diminuiria sua gravidade e nem suas consequ\u00eancias para o presente. Em vez de negarmos nossa cultura, dever\u00edamos melhor compreend\u00ea-la para que tenhamos modelos para mud\u00e1-la naquilo que possa ser melhorada.<\/p>\n\n\n\n<p>As \u00fanicas coisas que podem influir decisivamente sobre o futuro s\u00e3o a\u00e7\u00f5es coordenadas \u2014 e muito disso j\u00e1 tem sido feito. S\u00f3 pe\u00e7o que, em nome da boa causa da igualdade racial, n\u00e3o ataquemos a identidade nacional desta forma. Especialmente na literatura. Escrever sobre um fato n\u00e3o \u00e9 endoss\u00e1-lo. Romancear um fato n\u00e3o \u00e9 o mesmo que dizer que ele \u00e9 correto. Aquilo que faz parte do passado precisa ser mostrado e n\u00e3o apagado. N\u00e3o podemos limpar o passado do pa\u00eds fingindo que nele n\u00e3o forma cometidos os atos que efetivamente foram cometidos, e n\u00e3o podemos considerar que as refer\u00eancias a este passado s\u00e3o necessariamente criminosas \u2014 ou tornaremos cada vez mais dif\u00edcil a defesa de uma identidade nacional brasileira frente a essa avalanche de conte\u00fado de massa que nos chega de fora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Trabalhando o projeto nacional brasileiro versus um programa deliberado de extin\u00e7\u00e3o da nacionalidade. 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