{"id":765,"date":"2014-01-07T22:11:56","date_gmt":"2014-01-08T01:11:56","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=765"},"modified":"2018-07-08T19:29:05","modified_gmt":"2018-07-08T22:29:05","slug":"resenha-vulthoom-e-o-ciclo-marciano-de-clark-ashton-smith-sem-spoilers","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/01\/resenha-vulthoom-e-o-ciclo-marciano-de-clark-ashton-smith-sem-spoilers\/","title":{"rendered":"Resenha: Vulthoom e o Ciclo Marciano de Clark Ashton-Smith (Sem <i>Spoilers<\/i>)"},"content":{"rendered":"<p>Clark Ashton-Smith foi um poeta e autor de fic\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica americano, amigo e correspondente de H. P. Lovecraft e de uma penca de outros autores famosos. Apesar de seu ineg\u00e1vel talento, passou a maior parte de sua vida na pequena cidade de Auburn, fazendo trabalhos bra\u00e7ais para sobreviver. Morreu em 1961, sem filhos.<\/p>\n<p>Sobre sua obra, j\u00e1 escrevi <a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/06\/o-cenario-como-elemento-central-da-ficcao-de-clark-ashton-smith-1\">um artigo<\/a> que seria bom ler antes deste.<\/p>\n<p>Vulthoom pertence ao curto ciclo das hist\u00f3rias que Ashton-Smith ambientou em um Marte fant\u00e1stico que deve muito \u00e0 concep\u00e7\u00e3o de Edgar Rice Burroughs (encontrado nos seus romances do ciclo de John Carter). Mas as semelhan\u00e7as ficam na superf\u00edcie: o Marte de Ashton-Smith n\u00e3o \u00e9 como o Barsoom de Burroughs, \u00e9 muito mais sinistro.<\/p>\n<p>Tal como Burroughs, e como a maioria dos escritores de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do in\u00edcio do s\u00e9culo XX, Ashton-Smith concebe um planeta moribundo, com civiliza\u00e7\u00f5es antiqu\u00edssimas e decadentes, que enfrentam com certo estoicismo a lenta exaust\u00e3o dos recursos naturais do planeta. A principal semelhan\u00e7a entre os dois autores, por\u00e9m, est\u00e1 no est\u00e1gio relativamente atrasado da civiliza\u00e7\u00e3o marciana, engessada em uma fase pr\u00e9-capitalista e dominada por regimes desp\u00f3ticos de estilo oriental. Neste cen\u00e1rio, ainda mais considerando que Ashton-Smith ambienta suas hist\u00f3rias em um futuro n\u00e3o muito pr\u00f3ximo, a supremacia tecnol\u00f3gica terrestre \u00e9 aparente.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio marciano recebe de Ashton-Smith um n\u00edvel de cuidado muito maior do que qualquer outro de seus cen\u00e1rios. O autor se d\u00e1 ao trabalho de conceber toda uma cultura para os habitantes do planeta (ou, pelo menos, para os habitantes de sua maior na\u00e7\u00e3o, Ignarh). Esta cultura inclui h\u00e1bitos de vestimenta, sinais de situa\u00e7\u00e3o social, uma religi\u00e3o (baseada na adora\u00e7\u00e3o do sol), mitos (entre os quais o de Vulthoom, o dem\u00f4nio), estilos de constru\u00e7\u00e3o (imaginados levando em conta que uma gravidade bem menor que a terrestre permitira v\u00e3os-livres maiores nas pontes e ab\u00f3bodas) e um idioma do qual conhecemos diversas palavras, entre as quais a mais citada \u00e9 &#8220;Aihai&#8221;, que \u00e9 o nome pelo qual os marcianos chamam seu planeta e a si mesmos, e que passou a ser usado pelos terrestres tamb\u00e9m como adjetivo para tudo que seja marciano (&#8220;religi\u00e3o aihai&#8221;, por exemplo).<\/p>\n<p>Infelizmente Clark Ashton-Smith somente escreveu tr\u00eas hist\u00f3rias ambientadas em Aihai: O Habitante do Abismo (&#8220;The Dweller in the Gulf&#8221;), As Criptas de Yoh-Vombis (&#8220;The Vaults of Yoh-Vombis&#8221;) e Vulthoom. Das tr\u00eas, Vulthoom \u00e9 a mais desenvolvida e a de melhor qualidade (embora Yoh-Vombis seja quase t\u00e3o boa). Em todas estas hist\u00f3rias os terr\u00e1queos, orgulhosos de sua aparente superioridade tecnol\u00f3gica e confiantes de que est\u00e3o se movendo por entre as ru\u00ednas vener\u00e1veis de uma civiliza\u00e7\u00e3o que est\u00e1 em vias de desaparecer, cedendo-lhes a primazia do sistema solar, acabam por se meter em situa\u00e7\u00f5es terr\u00edveis. Na primeira delas os terr\u00e1queos, desconsiderando como meramente supersticioso o medo que os Aihai t\u00eam de certas cavernas profundas, acabam por encontrar criaturas repulsivas que eles certamente n\u00e3o gostariam de ter encontrado. Na segunda, mais uma vez se recusando a seguir os conselhos de seus guias Aihai, eles contraem um parasita que amea\u00e7a todas as vidas humanas em Marte. Por fim, na terceira, ao agirem com excesso de confian\u00e7a, os protagonistas colocam em perigo a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia da humanidade.<\/p>\n<p>Desta forma, podemos entender o ciclo marciano de Ashton-Smith como um coment\u00e1rio sobre o conflito entre dois modelos de civiliza\u00e7\u00e3o opostos: um deles baseado na antiguidade, na religi\u00e3o e na servid\u00e3o; e o outro baseado na inova\u00e7\u00e3o, no secularismo e na democracia. Neste conflito \u00e9 evidente que o modelo antigo \u00e9 o mais fr\u00e1gil, apesar de ter sido o mais duradouro, mas o modelo novo tem sua sobreviv\u00eancia amea\u00e7ada por sua incapacidade de aprender com os erros do modelo antigo. Ao colocar em dois planetas diferentes os seus modelos de civiliza\u00e7\u00e3o, Ashton-Smith exacerba a &#8220;guerra fria&#8221; entre o antigo e o novo, criando uma situa\u00e7\u00e3o na qual o di\u00e1logo entre os povos \u00e9 imposs\u00edvel:<\/p>\n<blockquote><p>\n  Mais agu\u00addamente do que durante o dia, eles perceberam as respira\u00e7\u00f5es contidas e os movimentos tortuosos e discretos de uma vida sempre ines\u00adcrut\u00e1vel pelos filhos de outros planetas. A imensidade entre a Terra e Marte fora atraves\u00adsada, mas quem poderia cruzar o abismo evolucion\u00e1rio entre o terr\u00e1queo e o marciano?<\/p>\n<p>  O povo era bastante amig\u00e1vel a seu modo taciturno. Haviam tolerado a intromiss\u00e3o dos ter\u00adr\u00e1\u00adqueos e permitido o com\u00e9r\u00adcio entre os mundos. Suas l\u00ednguas estavam deci\u00adfradas e sua his\u00adt\u00f3ria era estudada por s\u00e1bios terrestres. Mas parecia que n\u00e3o poderia haver nenhum inter\u00adc\u00e2mbio real de ideias. Sua civi\u00adliza\u00e7\u00e3o envelhecera com\u00adplexamente diversa desde antes do afun\u00addamento da Lem\u00fa\u00adria; suas ci\u00eancias, artes e reli\u00adgi\u00ad\u00f5es eram encanecidas por uma idade incon\u00adce\u00adb\u00ed\u00advel e at\u00e9 o mais sim\u00adples dos costumes era o fruto de for\u00ad\u00e7as e condi\u00e7\u00f5es alie\u00adn\u00ed\u00adgenas.\n<\/p><\/blockquote>\n<p>Ser\u00e1 que n\u00e3o podemos dizer o mesmo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria? Ser\u00e1 que somos capazes de ouvir o que os mil\u00eanios passados t\u00eam a nos dizer? Ou estamos condenados a repetir eternamente os mesmos erros, padecer dos mesmos sofrimentos?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clark Ashton-Smith foi um poeta e autor de fic\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica americano, amigo e correspondente de H. P. 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