{"id":767,"date":"2014-01-17T19:08:07","date_gmt":"2014-01-17T22:08:07","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=767"},"modified":"2017-08-13T01:04:04","modified_gmt":"2017-08-13T04:04:04","slug":"terceiro-episodio-de-vathek-fanfic-de-clark-ashton-smith","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/01\/terceiro-episodio-de-vathek-fanfic-de-clark-ashton-smith\/","title":{"rendered":"O Terceiro Epis\u00f3dio de Vathek, a Fanfic de Ashton-Smith"},"content":{"rendered":"<p>Foi atrav\u00e9s da mera cita\u00e7\u00e3o deste t\u00edtulo intrigante que eu fiquei sabendo da exist\u00eancia de Clark Ashton-Smith e de sua rela\u00e7\u00e3o com H. P. Lovecraft. Na \u00e9poca eu estava lendo vorazmente todos os textos do c\u00e2none lovecraftiano e a sua rela\u00e7\u00e3o com Ashton-Smith me chamou a aten\u00e7\u00e3o. Infelizmente, por\u00e9m, por ser um texto longo e de linguagem rebuscada, demorei muito a empreender sua leitura. Quando terminei, passei dias estupefacto.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/4314765200_53796bc515.jpg\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/4314765200_53796bc515-186x300.jpg\" alt=\"4314765200_53796bc515\" width=\"186\" height=\"300\" class=\"alignright size-medium wp-image-1236\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/4314765200_53796bc515-186x300.jpg 186w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/4314765200_53796bc515-93x150.jpg 93w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/4314765200_53796bc515.jpg 310w\" sizes=\"(max-width: 186px) 100vw, 186px\" \/><\/a>Em algum momento eu devo publicar neste blogue uma an\u00e1lise da sexualidade m\u00f3rbida que transpira das p\u00e1ginas de Ashton-Smith (diferente do ascetismo lovecraftiano). Este texto \u00e9 um dos que mais contribuem para esta impress\u00e3o: uma hist\u00f3ria de terror sufocante envolvendo personagens absolutamente ador\u00e1veis (n\u00e3o h\u00e1 de fato nenhum &#8220;mocinho&#8221; e nenhum &#8220;vil\u00e3o&#8221; nesta hist\u00f3ria) que cometem atos horr\u00edveis ou se metem em situa\u00e7\u00f5es &#8220;inomin\u00e1veis&#8221;. Incesto, viol\u00eancia, religi\u00e3o (isl\u00e2mica, no caso), feiti\u00e7aria; elementos que completam um universo &#8220;oriental&#8221; constru\u00eddo a base de leituras de enciclop\u00e9dia e de uma edi\u00e7\u00e3o das Mil e Uma Noites.<\/p>\n<p>Mas mesmo depois de lida a hist\u00f3ria, ainda tardou para que as minhas d\u00favidas fossem esclarecidas por completo: quem \u00e9 Vathek? onde est\u00e3o o primeiro e o segundo epis\u00f3dios? existe um quarto epis\u00f3dio? A \u00fanica coisa que consegui entender foi a raz\u00e3o pela qual Lovecraft [elogiou tanto a obra original de William Beckford](http:\/\/ebooks.adelaide.edu.au\/l\/lovecraft\/hp\/supernatural\/chapter5.html).<\/p>\n<p>### Vathek, o Romance ##<\/p>\n<p>Vathek \u00e9 um romance de autoria do ingl\u00eas William Beckford, publicado em 1786 (ou 1787), escrito originalmente em franc\u00eas (mas com uma tradu\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas publicada antes do original). O nome \u00e9 uma germaniza\u00e7\u00e3o (bastante bastarda) do \u00e1rabe Fatiq (atestado desde, pelo menos, o s\u00e9culo XI) &mdash; e o leitor dever\u00e1 se acostumar com esta obscenidade, visto que n\u00e3o havia, na \u00e9poca, uma nota\u00e7\u00e3o fon\u00e9tica convencional para a transcri\u00e7\u00e3o de nomes \u00e1rabes. <\/p>\n<p>O romance \u00e9 uma obra inclassific\u00e1vel de fantasia orientalizante, com forte inspira\u00e7\u00e3o nas Mil e Uma Noites e abundante em refer\u00eancias liter\u00e1rias, s\u00e1tira de costumes e um humor \u00e0s vezes at\u00e9 grosseiro. O apelo ex\u00f3tico garantiu \u00e0 esta obra uma longa influ\u00eancia sobre a fic\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica ocidental. <\/p>\n<p>### Os Epis\u00f3dios de Vathek ##<\/p>\n<p>A obra original e famosa de Beckford se chamava pura e simplesmente &#8220;Vathek&#8221;, sem subt\u00edtulos. Em 1909, cerca de 65 anos ap\u00f3s a morte de Beckford, foram descobertos os manuscritos de outras hist\u00f3rias curtas, os &#8220;epis\u00f3dios de Vathek&#8221;, que contavam hist\u00f3rias ligeiramente relacionadas, segundo o ponto de vista dos infelizes coadjuvantes da hist\u00f3ria original (esta narrada em terceira pessoa por um narrador-onisciente-interveniente). Os Epis\u00f3dios s\u00e3o:<\/p>\n<p>1. A Hist\u00f3ria do Pr\u00edncipe Alasi e da Princesa Firouzkah<br \/>\n2. A Hist\u00f3ria do Pr\u00edncipe Barkiarokh<br \/>\n3. A Hist\u00f3ria da Princesa Zulka\u00efs e do Pr\u00edncipe Kalilah<\/p>\n<p>Destes, os dois primeiros se encontram completos e revisados, mas o terceiro somente existe como um mero rascunho, com v\u00e1rias lacunas e interrompido em meio \u00e0 a\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>### A Interven\u00e7\u00e3o de Ashton-Smith ##<\/p>\n<p>Como todo leitor compulsivo que se torna f\u00e3 de uma obra, Ashton-Smith se sentiu extremamente frustrado ao perceber que o terceiro epis\u00f3dio de Vathek nunca fora terminado por seu autor. Diferente da maioria dos leitores, por\u00e9m, e ajudado pelo fato de o original j\u00e1 estar em dom\u00ednio p\u00fablico, Ashton-Smith p\u00f4de levar a efeito o sonho de muito jovem autor: terminar a obra inacabada de seu autor favorito.<\/p>\n<p>Ashton-Smith se prestou excepcionalmente para isto. Fortemente influenciado pelo pr\u00f3prio Beckford, mas beneficiado por um amplo conhecimento da literatura fant\u00e1stica e ex\u00f3tica, Smith desenvolvera um estilo ir\u00f4nico e sinest\u00e9sico que, se n\u00e3o \u00e9 semelhante ao de Beckford, casa-se bem com o seu. Al\u00e9m disso, a imagina\u00e7\u00e3o exagerada e sens\u00edvel de Ashton-Smith, abastecida pelas informa\u00e7\u00f5es extra\u00eddas da leitura da obra restante de Beckford, permitiu-lhe desenvolver a hist\u00f3ria de uma forma muito pr\u00f3xima ao que o pr\u00f3prio autor teria feito, embora ele provavelmente o fizesse com um estilo diferente.<\/p>\n<p>### Autoria ##<\/p>\n<p>Esta obra tem, de fato, uma autoria compartilhada. Os primeiros par\u00e1grafos s\u00e3o integralmente de Beckford, mas a m\u00e3o de Ashton-Smith vai se manifestando gradualmente em acr\u00e9scimos e dele\u00e7\u00f5es cada vez menos sutis at\u00e9 que, l\u00e1 pelos dois ter\u00e7os, Beckford j\u00e1 n\u00e3o existe e a hist\u00f3ria flui completamente pelas m\u00e3os de Clark Ashton-Smith.<\/p>\n<p>No geral, s\u00e3o de Beckford cerca de dois ter\u00e7os das 19001 palavras utilizadas (em ingl\u00eas) para narrar a hist\u00f3ria e a contribui\u00e7\u00e3o de Ashton-Smith, al\u00e9m de pequenas corre\u00e7\u00f5es (de um original que era um rascunho), inclui apenas o desfecho da hist\u00f3ria, narrado de acordo com as informa\u00e7\u00f5es fornecidas pelo romance Vathek e pelos dois primeiros epis\u00f3dios. N\u00e3o \u00e9 justo, portanto, considerar esta obra como outra coisa que n\u00e3o &#8220;fanfic&#8221;, pois \u00e9 exatamente o tipo de coisa que eu faria se tentasse terminar um dos contos inacabados de Kafka ou se quisesse expandir em forma de novela o argumento de um conto do E\u00e7a de Queir\u00f3s. A fidelidade ao estilo e ao conte\u00fado do original evidenciam a homenagem que Smith buscou render a Beckford e, por tal raz\u00e3o, acho justo considerar-se uma coautoria:<\/p>\n<p>Se voc\u00ea \u00e9 um completista absoluto e n\u00e3o quer ler o terceiro epis\u00f3dio antes de conhecer a sequ\u00eancia dos fatos e mitos:<\/p>\n<p>* [Vathek](http:\/\/www.gutenberg.org\/ebooks\/42401), de William Beckford. Ebooks do Projeto Gutenberg. <sup><a href=\"http:\/\/www.gutenberg.org\/files\/2060\/2060-h\/2060-h.htm\">HTML<\/a><\/sup>.<br \/>\n* [Os Epis\u00f3dios de Vathek](https:\/\/openlibrary.org\/books\/OL7104167M), de William Beckford. Ebook do Archive.org.<br \/>\n* **[O Terceiro Epis\u00f3dio de Vathek](http:\/\/eldritchdark.com\/writings\/short-stories\/217\/the-third-episode-of-vathek): a Hist\u00f3ria da Princesa Zulka\u00efss e do Pr\u00edncipe Kalilah**, de William Thomas Beckford e Clark Ashton-Smith. Vers\u00e3o em <sup>HTML<\/sup> do Projeto Eldritch Dark.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi atrav\u00e9s da mera cita\u00e7\u00e3o deste t\u00edtulo intrigante que eu fiquei sabendo da exist\u00eancia de Clark Ashton-Smith e de sua rela\u00e7\u00e3o com H. P. Lovecraft. Na \u00e9poca eu estava lendo vorazmente todos os textos do c\u00e2none lovecraftiano e a sua rela\u00e7\u00e3o com Ashton-Smith me chamou a aten\u00e7\u00e3o. Infelizmente, por\u00e9m, por ser um texto longo e de linguagem rebuscada, demorei muito a empreender sua leitura. Quando terminei, passei dias estupefacto. 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