{"id":77,"date":"2013-02-18T11:00:00","date_gmt":"2013-02-18T14:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=77"},"modified":"2017-08-13T01:30:55","modified_gmt":"2017-08-13T04:30:55","slug":"a-falta-que-faz-a-profissionalizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/02\/a-falta-que-faz-a-profissionalizacao\/","title":{"rendered":"A Falta Que Faz a Profissionaliza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Semana de Carnaval animada e acabo de tomar conhecimento d<a href=\"http:\/\/litfanbr.blogspot.com.br\/2013\/02\/profissionais-pero-no-mucho\" target=\"_blank\">a mais nova travessura<\/a> do blogue LitFanBR, que costuma esculachar o mercado liter\u00e1rio brasileiro, especialmente o voltado para a chamada \u00abLiteratura Fant\u00e1stica\u00bb \u2014 esse termo gen\u00e9rico para toda obra que inclua coisas que n\u00e3o existem, sejam elas sobrenaturais ou n\u00e3o. Algu\u00e9m, com o pseud\u00f4nimo de Super Choque (imediatamente me veio \u00e0 cabe\u00e7a a imagem de um nerd neg\u00e3o com \u00f3culos de fundo de garrafa e uma fascina\u00e7\u00e3o por uniformes) publicou l\u00e1 um texto que me evocou quatro opini\u00f5es que se parecem bastante com as minhas.<\/p>\n<p><a name=\"more\"><\/a>\u00c0 parte o que \u00e9 opini\u00e3o exclusiva do an\u00f4nimo autor, o texto me fez chegar a quatro conclus\u00f5es com as quais ele talvez concordasse.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/a-falta-que-faz-a-profissionalizacao_jezusek-nieudana-renowacja-fresku-ecce-homo-cecilia-jimenez-.png\" width=\"341\" height=\"341\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1840\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/a-falta-que-faz-a-profissionalizacao_jezusek-nieudana-renowacja-fresku-ecce-homo-cecilia-jimenez-.png 341w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/a-falta-que-faz-a-profissionalizacao_jezusek-nieudana-renowacja-fresku-ecce-homo-cecilia-jimenez--120x120.png 120w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/a-falta-que-faz-a-profissionalizacao_jezusek-nieudana-renowacja-fresku-ecce-homo-cecilia-jimenez--250x250.png 250w\" sizes=\"(max-width: 341px) 100vw, 341px\" \/><\/p>\n<ol type=\"a\">\n<li>A literatura brasileira precisa de mais profissionais.<\/li>\n<li>Autores e editores amadores se desgra\u00e7am mutuamente.<\/li>\n<li>\u00c9 preciso respeitar mais os autores amadores.<\/li>\n<li>Essa situa\u00e7\u00e3o se deve ao tamanho pequeno de nosso mercado e \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o cultural, que restringe ainda mais o p\u00fablico leitor.<\/li>\n<\/ol>\n<p>### A Literatura Brasileira Precisa de Mais Profissionais<br \/>\nVenhamos e convenhamos, n\u00e3o existe nenhum <i>glamour <\/i>em ser amador. Embora eu j\u00e1 tenha dito, <a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/08\/sou-amador-e-sempre-serei\" target=\"_blank\">em outra ocasi\u00e3o<\/a>,\u00a0 que via o amadorismo como uma esp\u00e9cie de liberdade (citando at\u00e9 Clarice Lispector), de fato eu acho que me enganei. O Super Choque disse algo realmente chocante e que me fez reavaliar meus conceitos:<\/p>\n<p>> [\u2026] no Brasil s\u00e3o muito raros os autores profissionais, aqueles que n\u00e3o precisam de outra profiss\u00e3o para seu sustento, que podem dedicar-se integralmente a escrever, que podem respirar literatura em cada hora de seu dia. O amadorismo [\u2026] cobra um pre\u00e7o grande na qualidade das obras e na capacidade do autor para atingir seus objetivos propostos, inclusive pela dificuldade de dedicar-se \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pensando desta forma, o amadorismo n\u00e3o liberta, mas limita. O amador, ao precisar de outra profiss\u00e3o para o seu sustento, acaba tendo restrito o tempo que pode dedicar-se \u00e0 literatura. Isto significa que ele n\u00e3o pode aproveitar livremente o fluxo da inspira\u00e7\u00e3o e nem destinar suas melhores energias \u00e0 sua forma\u00e7\u00e3o e desenvolvimento como autor. De certa forma, podemos dizer que o amador dificilmente conseguir\u00e1 produzir uma obra de grande f\u00f4lego e, se ocasionalmente uma obra amadora possui qualidade, n\u00e3o \u00e9 sem prop\u00f3sito supor que teria uma qualidade ainda maior se o autor tivesse podido pesquisar mais e poli-la melhor.<\/p>\n<p>Um autor amador, preso ao seu emprego, n\u00e3o tem agenda livre para viajar a eventos de divulga\u00e7\u00e3o, para receber rep\u00f3rteres porventura interessados em entrevist\u00e1-lo e nem para buscar contatos. Fica como um avestruz, de cabe\u00e7a enterrada na metaf\u00f3rica areia de sua rotina laboral, enquanto o mundo l\u00e1 fora muda e cresce.<\/p>\n<p>Por essa raz\u00e3o eu acredito que faz sentido o desejo expresso pelo Super Choque de que a nossa literatura tivesse mais profissionais. Uma literatura com mais profissionais \u00e9 uma literatura que coloca objetivos est\u00e9ticos e formais um pouco mais altos, desestimulando aventureiros toscos com suas <i>fanfics<\/i> irrelevantes. Profissionais n\u00e3o apenas se dedicam a escrever as pr\u00f3prias obras, mas tamb\u00e9m a ler e comentar as obras dos outros, o que cria um ambiente favor\u00e1vel \u00e0 cr\u00edtica (e justamente uma das reclama\u00e7\u00f5es babil\u00f4nicas de nossos literatos \u00e9 que <a href=\"http:\/\/rascunho.gazetadopovo.com.br\/a-critica-literaria-existe\/\" target=\"_blank\">a cr\u00edtica liter\u00e1ria n\u00e3o existe<\/a>).<\/p>\n<p>Ora, bolas, n\u00e3o existe porque faltam autores profissionais que a pratiquem e que a exijam. N\u00e3o existe porque, sem autores profissionais para impulsion\u00e1-la, imperam as resenhas encomendadas pelos que se interessam em promover as obras. Propaganda apenas. E propaganda n\u00e3o enxerga os defeitos. Em um ambiente sem cr\u00edtica profissional, porque n\u00e3o h\u00e1 nomes profissionais de peso na academia e de reputa\u00e7\u00e3o na m\u00eddia que possam ousar romper o c\u00edrculo de palmas compradas, toda e qualquer tentativa de apontar defeitos ser\u00e1 recebida com pedras e tochas. Todos querem ser louvados, e qualquer coisa inferior a uma canoniza\u00e7\u00e3o \u00e9 insatisfat\u00f3ria para quem precisa recuperar seu \u00abinvestimento\u00bb na publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero, com isso, menosprezar os amadores (como eu mesmo). N\u00e3o se trata de negar o valor do amador, mas de dizer que, se houvesse mais profissionais, at\u00e9 mesmo a vida do amador seria melhor. Um ambiente cheio de profissionais, e favor\u00e1vel \u00e0 cr\u00edtica isenta, geraria oportunidades melhores de desenvolvimento para o amador, lhe imporia desafios mais dif\u00edceis (e tamb\u00e9m mais gratificantes) e deixaria afastados os apedeutas que colocam v\u00edrgula entre o sujeito e o predicado mas querem publicar trilogias inspiradas nas lendas c\u00e9lticas sem nunca terem ido sequer a Serop\u00e9dica.<\/p>\n<p>Pode ser ingenuidade minha, mas quem quer aprender algo novo a cada dia precisa de um mundo com mais professores e profissionais.<\/p>\n<p>### Autores e Editores Amadores se Desgra\u00e7am Mutuamente<\/p>\n<p>Quando um pa\u00eds se caracteriza tanto, como o nosso, pelo amadorismo, quando ele se generaliza e se cristaliza de tal forma, come\u00e7a a produzir paradigmas em todas as demais partes do sistema. Estamos aqui falando de literatura, por isso deixemos outras \u00e1reas de fora e nos limitemos \u00e0 outra parte deste sistema: o mercado editorial: Temos muitos editores que s\u00e3o t\u00e3o amadores quanto os autores, ou ainda mais.<\/p>\n<p>> [\u2026] deveria ser parte do of\u00edcio do editor oferecer assessoria ao autor. Come\u00e7ando pelo reconhecimento do potencial das obras que tivessem potencial, diferenciando-as das obras meramente derivativas, tolas, egoc\u00eantricas ou irrelevantes. Continuando por uma revis\u00e3o competente, encontrando as contradi\u00e7\u00f5es e os erros e sugerindo seus consertos. Terminando por fazer um livro bacana e entreg\u00e1-lo ao autor conforme contratado. E depois de terminar, a assessoria deveria continuar, oferecendo feedback sobre a recep\u00e7\u00e3o da obra no mercado, informando ao autor eventuais men\u00e7\u00f5es na m\u00eddia, etc.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que ficou meio f\u00e1cil fazer uma editora. H\u00e1 cinquenta anos voc\u00ea precisaria comprar uma m\u00e1quina de composi\u00e7\u00e3o tipogr\u00e1fica car\u00edssima, utilizar os equipamentos de uma gr\u00e1fica para verificar as provas, fazer dezenas de testes com os fotolitos se quisesse botar uma reles ilustra\u00e7\u00e3o. Ficava caro, muito caro. Ent\u00e3o era natural que os envolvidos no mercado editorial fossem pessoas muito preparadas. Era preciso planejar bem, saber onde gastar. Aventureiros faliam em poucos anos.<\/p>\n<p>E havia todo esse trabalho descrito acima pelo Super Choque, porque cada publica\u00e7\u00e3o era um investimento, cada autor era uma fonte de recursos. O dinheiro vinha da venda das obras ao grande p\u00fablico, o que significava que era preciso promover o autor.<\/p>\n<p>Da\u00ed veio a revolu\u00e7\u00e3o inform\u00e1tica e o <i>desktop publishing. <\/i>Hoje em dia praticamente qualquer um consegue formatar um livro, gerar uma prova em PDF de alta resolu\u00e7\u00e3o, corrigir todos os erros antes de gastar uma \u00fanica folha de papel e encomendar os exemplares de uma gr\u00e1fica eletr\u00f4nica, que usa m\u00e1quinas a laser de alta resolu\u00e7\u00e3o, capazes de imprimir corretamente at\u00e9 mesmo fotografias. Ficou t\u00e3o mais barato que aumentou a toler\u00e2ncia ao erro. Pequenas tiragens, que antes eram invi\u00e1veis, se tornaram fact\u00edveis. Ent\u00e3o o apelo comercial de uma obra deixou de ser t\u00e3o relevante e, se um autor conseguir vender duzentos exemplares para sua fam\u00edlia e amigos ent\u00e3o ele j\u00e1 est\u00e1 \u00abno mercado\u00bb, ent\u00e3o proliferam editoras para atender a esse nicho.<\/p>\n<p>Publicar um livro virou algo bem f\u00e1cil e comum porque o autor \u00e9 o pr\u00f3prio mercado. Entendeu? Vou explicar. A editora n\u00e3o precisa vender o autor, ele que se venda. Agente liter\u00e1rio para que se o babaca, digo, o autor, pagar\u00e1 antecipadamente pelos exemplares? Assessoria para qu\u00ea, se, depois de entregue o livro, fodam-se os erros tipogr\u00e1ficos, que o cheque j\u00e1 compensou?<\/p>\n<p>Esse sistema amador de edi\u00e7\u00e3o, voltado para o autor amador e sem no\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma desgra\u00e7a para ambos \u2014 principalmente para o autor. Para o editor eu suponho que o efeito negativo seja a possibilidade de que futuramente se mate a galinha dos ovos de ouro (desvalorizando o livro, em breve ele n\u00e3o ser\u00e1 t\u00e3o lucrativo). Mas o editor amador ou picareta vai fechar seu \u00abselo editorial\u00bb e abrir um a\u00e7ougue, porque tudo \u00e9 s\u00f3 neg\u00f3cio. A pica fica para o editor s\u00e9rio, em um mercado destro\u00e7ado, e para o autor s\u00e9rio, com cara de idiota em um mundo onde todo mundo publicou sua tetralogia sobre N\u00e1rnia.<\/p>\n<p>### Os Amadores Precisam Ser Tratados com Respeito<\/p>\n<p>O que ningu\u00e9m parece enfatizar \u00e9 que o autor amador n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um bolso a ser ordenhado, ele \u00e9 o futuro da literatura. N\u00e3o se conhece nenhum autor profissional que se tenha \u00abamadorizado\u00bb (pelo menos n\u00e3o em pa\u00edses onde existe uma massa cr\u00edtica de profissionais), mas todo profissional \u00e9 um amador que se profissionalizou. A profissionaliza\u00e7\u00e3o ocorre quando algu\u00e9m, que escrevia por esporte ou por terapia, passa a poder sobreviver do que escreve.\u00a0 N\u00e3o se trata apenas de uma mudan\u00e7a de profiss\u00e3o e de status social, mas tamb\u00e9m de modo de pensar e de sentir a literatura.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, quando voc\u00ea maltrata o amador voc\u00ea est\u00e1 chutando aquele que poderia se tornar futuramente um profissional. Em pa\u00edses onde impera o amadorismo, esse chute costuma ser dado por inveja, por receio de que aquele \u00abinsolente\u00bb cres\u00e7a e adquira poder para influenciar. Numa literatura saud\u00e1vel (e a nossa n\u00e3o est\u00e1), o amador \u00e9 tratado com profissionalismo para que aprenda a ser profissional ou, mesmo continuando amador por op\u00e7\u00e3o, aprenda a conviver com cobran\u00e7a de n\u00edvel profissional.<\/p>\n<p>\u00abRespeitar o Amador\u00bb n\u00e3o quer dizer ordenhar o seu ego. N\u00e3o quer dizer amament\u00e1-lo com elogios para que ele n\u00e3o chore. Respeitar quer dizer tratar como adulto. O profissionalismo \u00e9 a idade adulta do escritor. Tratar o amador com profissionalismo \u00e9 respeit\u00e1-lo. Dar-lhe carinho, afeto e um ombro amigo para chorar \u00e9 infantiliz\u00e1-lo.<\/p>\n<p>> N\u00e3o tenho culpa se a qualifica\u00e7\u00e3o de profissionalismo para uma editora foi rebaixada desde os anos 60, a qualidade da nossa literatura atual deve significar que eu n\u00e3o tenho raz\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 mesmo?<\/p>\n<p>A literatura \u00e9 como o p\u00e3o. Para que a massa cres\u00e7a \u00e9 preciso batermos nela. Bons livros podem se tornar \u00f3timos livros formos rigorosos com seus erros. Bons autores podem ser tornar \u00f3timos autores se forem confrontados com suas defici\u00eancias. Isso \u00e9 respeito.<\/p>\n<p>Precisamos xingar mais os nossos autores para que eles criem casca grossa contra cr\u00edticas invejosas. Precisamos cham\u00e1-los mais de ignorantes, apedeutas, semianalfas e rasos; para que eles aprendam que cultura se faz com cultura, e n\u00e3o imitando a primeira porcaria que leram. Precisamos cham\u00e1-los mais de idiotas, para que reflitam sobre o absurdo de seus argumentos furados e seus personagens sem no\u00e7\u00e3o. Precisamos fazer com que tenham <b>medo <\/b>de publicar precocemente suas obras, para que se dediquem mais a escrev\u00ea-las bem, aparar suas arestas, polir suas asperezas. Precisamos conscientizar as pessoas de que n\u00e3o se faz poesia rabiscando chorumelas depois de levar um p\u00e9 na bunda da namoradinha. Nossos poetas adolescentes s\u00e3o umas crian\u00e7as bobas, se comparados com Rimbaud, Manuel Bandeira, Arnaut Daniel e Pushkin. N\u00e3o merecem ser xingados por isso, mas sim porque se recusam a ler a poesia do passado e querem ser respeitados pelas trovas de p\u00e9 quebrado que escrevem (e quem escreve uma trova de p\u00e9 quebrado merece quase ter quebrado o pr\u00f3prio p\u00e9). Precisamos que os nossos autores saibam que escrever \u00e9 algo grande, \u00e9 algo que pode lev\u00e1-los longe. E os que n\u00e3o quiserem ir at\u00e9 l\u00e1, que se contentem com as sobras e sombras, e n\u00e3o atrapalhem a conversa dos adultos na sala.<\/p>\n<p>Tratar os amadores com respeito significa dar-lhes um prop\u00f3sito, em vez de permitir que chafurdem no sentimentalismo barato, na literatura alienada de f\u00e1cil consumo e no egocentrismo.<\/p>\n<p>### Precisamos Combater a Coloniza\u00e7\u00e3o Cultural<\/p>\n<p>Esses problemas todos que foram postos acima resultam da coloniza\u00e7\u00e3o cultural a que somos submetidos \u2014 e os nossos autores t\u00eam parte da culpa por isso. N\u00e3o digo que t\u00eam a culpa toda, sequer a maior parte da culpa, mas parte da culpa. Gastamos tempo demais imitando a cultura pop norte americana e deixamos morrer muitas tradi\u00e7\u00f5es e lendas que n\u00e3o s\u00f3 s\u00e3o importantes para a nossa identidade, mas poderiam ser igualmente interessantes como elementos renovadores da fic\u00e7\u00e3o de terror que n\u00f3s servilmente imitamos. Temos nossas pr\u00f3prias lendas, mas nos maravilhamos com as lendas c\u00e9lticas que j\u00e1 est\u00e3o mais manjadas que batata doce em fogueira de S\u00e3o Jo\u00e3o (se bem que esta \u00e9 outra tradi\u00e7\u00e3o que se perdeu).<\/p>\n<p>Quando falo em coloniza\u00e7\u00e3o cultural eu me refiro ao problema que ela imp\u00f5e: a restri\u00e7\u00e3o de mercado. Com tanto livro estrangeiro sendo republicado aqui (em tradu\u00e7\u00f5es cada vez piores, pois a demanda \u00e9 tanta que n\u00e3o d\u00e1 tempo de traduzir direito) e com tanto autor nacional se fingindo de ianque, o espa\u00e7o que sobra para quem realmente tenta fazer literatura brasileira fica pequeno. Um mercado pequeno limita\u00a0 a profissionaliza\u00e7\u00e3o. Sem profissionaliza\u00e7\u00e3o a literatura nacional n\u00e3o tem voz na m\u00eddia. Combine isso com o ego\u00edsmo de nossos \u00abprofissionais\u00bb, que costumam usar os pr\u00eamios liter\u00e1rios para trocarem condecora\u00e7\u00f5es entre si, em vez de destin\u00e1-los para estimular os novos autores, e voc\u00ea tem um cen\u00e1rio no qual o amador, al\u00e9m de ser continuamente desrespeitado pelo amadorismo de muitos editores e do pr\u00f3prio mercado, ainda v\u00ea uma cerca eletrificada entre sua realidade e a ribalta na qual os nomes consagrados det\u00eam todos os trunfos para colherem reciprocamente os laur\u00e9is liter\u00e1rios.<\/p>\n<p>Parece natural que o jovem autor procure imitar os estrangeiros, n\u00e3o s\u00f3 porque foi programado desde crian\u00e7a com os \u00abenlatados dos USA, de nove \u00e0s seis\u00bb mas porque tem a ilus\u00e3o de que a \u00fanica forma de escapar do beco sem sa\u00edda da literatura nacional \u00e9 conseguir agradar a um editor estrangeiro, e publicar l\u00e1, l\u00e1 longe do alcance da Academia Brasileira de Letras, de Chico Buarque e seus Jabutis, dos professores da USP e suas descobertas de obscuros poetas baianos do s\u00e9culo XIX, dos diversos te\u00f3logos (sic) liter\u00e1rios e suas teogonias.<\/p>\n<p>Se temos um mercado que lambe o saco de tudo que \u00e9 estrangeiro, um establishment liter\u00e1rio que estabelece capitanias heredit\u00e1rias e troca honras entre si, \u00e9 natural que o amador ambicione passar por cima de tudo isso e, se conseguir o Santo Graal de ficar famoso l\u00e1 fora primeiro, mostrar o dedo para tudo isso e dizer toda a sua frustra\u00e7\u00e3o em palavr\u00f5es. Paulo Coelho fez mais ou menos isso. A literatura brasileira teve de engoli-lo inteiro, com casca e tudo, e est\u00e1 engasgada at\u00e9 hoje.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Semana de Carnaval animada e acabo de tomar conhecimento da mais nova travessura do blogue LitFanBR, que costuma esculachar o mercado liter\u00e1rio brasileiro, especialmente o voltado para a chamada \u00abLiteratura Fant\u00e1stica\u00bb \u2014 esse termo gen\u00e9rico para toda obra que inclua coisas que n\u00e3o existem, sejam elas sobrenaturais ou n\u00e3o. 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