{"id":79,"date":"2013-02-10T16:46:00","date_gmt":"2013-02-10T19:46:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=79"},"modified":"2017-11-23T21:16:46","modified_gmt":"2017-11-24T00:16:46","slug":"continuamos-comprando-espelhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/02\/continuamos-comprando-espelhos\/","title":{"rendered":"Continuamos Comprando Espelhos"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 preciso, absolutamente, discorrer sobre as virtudes de nosso sistema educacional. Mesmo porque, tal discurso n\u00e3o seria suficiente para preencher uma postagem. Suficiente para botar a Indon\u00e9sia no chinelo e galgando um honroso 36\u00ba lugar mundial, gra\u00e7as ao fato de n\u00e3o haver dados sobre a maioria dos pa\u00edses, a nossa educa\u00e7\u00e3o goza de um status de praga do Egito, apesar de, <a href=\"http:\/\/www.campanhaeducacao.org.br\/?idn=276\">segundo nosso governo<\/a>, estar &#8220;no caminho certo&#8221;. Com alguma boa vontade, querendo crer que ele tem raz\u00e3o, eu diria que demos os primeiros passos, os primeiros dois passos, de uma jornada equivalente \u00e0 conquista da \u00cdndia por Alexandre, com a esperan\u00e7a de que dar\u00e1 certo, ao contr\u00e1rio do famoso epis\u00f3dio hist\u00f3rico. Alexandre pelo menos sabia onde ficava a \u00cdndia, receio, por\u00e9m, que as pessoas que gerem nosso sistema educacional tenham apenas uma vaga ideia.<\/p>\n<p>\u00c9 com certa vergonha que esclare\u00e7o isso, mas dado o n\u00edvel m\u00e9dio de analfabetiza\u00e7\u00e3o do p\u00fablico neste pa\u00eds (75% de pessoas sem suficiente dom\u00ednio da leitura), \u00e9 sempre bom alertar que, no par\u00e1grafo acima, a \u00cdndia \u00e9 empregada uma vez como met\u00e1fora.<\/p>\n<p>Tal como o \u00edndio ficava fascinado por espelhos e imaginava virtudes para o pequeno objeto luminoso que n\u00e3o compreendia, n\u00f3s, como verdadeiros botocudos, continuamos querendo solu\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas para nossos problemas, e gostamos mais das que brilham do que das que funcionam. Damos mais valor a espelhos e contas do que a facas. E agora <span class=\"removed_link\" title=\"http:\/\/www.rodrigovianna.com.br\/outras-palavras\/aulas-enlatadas-e-os-rumos-da-educacao\">o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o descobriu outra f\u00f3rmula m\u00e1gica<\/span>.<\/p>\n<p>Nosso sistema educacional \u00e9 t\u00e3o absurdo que eu duvido que ele tenha chegado a este ponto por uma evolu\u00e7\u00e3o natural das coisas. Ele s\u00f3 pode ser defeituoso de prop\u00f3sito, porque n\u00e3o faltaram, em nossa hist\u00f3ria, iniciativas grandes que poderiam nos ter feito avan\u00e7ar muito.<\/p>\n<p>A ditadura de Vargas criou o sistema p\u00fablico de ensino, excelente, mas n\u00e3o se deu prosseguimento com a implanta\u00e7\u00e3o de escolas modelo pelo pa\u00eds. Se uma quantidade suficiente delas tivesse sido criada, a massa cr\u00edtica de pessoas esclarecidas que sairiam delas teria tido um efeito a impulsionar por mais estruturas semelhantes. O MoBrAl dos militares, apesar dos ran\u00e7os ideol\u00f3gicos, poderia ter erradicado o analfabetismo e dado ensino prim\u00e1rio a quase toda a popula\u00e7\u00e3o. \u00c0s favas com as ideologias, muitos pa\u00edses do mundo s\u00f3 erradicaram o analfabetismo sob o tac\u00e3o de ditas, duras ou brandas (Turquia de Atat\u00fcrk, URSS, Alemanha de Bismarck, China de Mao, Vietn\u00e3 comunista, Cuba castrista). Mesmo que os militares tivessem as piores inten\u00e7\u00f5es, se o MoBrAl cumprisse seu fim esse pa\u00eds seria outro, porque n\u00e3o h\u00e1 nada mais revolucion\u00e1rio do que alfabetizar um povo (leiam MacLuhan).<\/p>\n<p>Ent\u00e3o \u00e9 evidente que todas as iniciativas educacionais no Brasil sempre foram sabotadas, especialmente quando pareciam &#8220;no caminho certo&#8221;. Para cada passo \u00e0 frente, um ou dois para os lados, ou para tr\u00e1s. E quando surgia alguma voz iluminada trazendo ideias originais (\u00f3, o horror!) vinha a seguir uma onda de idolatria cega de modelos importados. Tivemos Paulo Freire pouco antes de importarmos o sistema americano de &#8220;high school&#8221; (devidamente tropicalizado com a remo\u00e7\u00e3o de suas virtudes, como o per\u00edodo integral, as aulas de artes, a educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica e o \u00f4nibus escolar amarelo).<\/p>\n<p>Em uma coisa, por\u00e9m, todos os idealizadores de nosso sistema educacional sempre tiveram em comum: \u00e9 uma excelente ideia reformar. Nem bem voc\u00ea come\u00e7a a se acostumar com a divis\u00e3o do sistema educacional em prim\u00e1rio, admiss\u00e3o, secund\u00e1rio e terci\u00e1rio vem uma reforma e cria o primeiro grau e o segundo. E quando j\u00e1 estavamos acostuados a contar oito s\u00e9ries e mais tr\u00eas surge o segundo grau t\u00e9cnico, com primeiro ano b\u00e1sico, fazendo o secund\u00e1rio ter quatro anos. Ao longo de todo esse tempo, enquanto os intelectuais se ocupavam fazendo reformas e tentando reconectar fios nas cabe\u00e7as dos alunos, vicejou a ind\u00fastria do cursinho, que ensinava aos egressos dessas escolas-laborat\u00f3rio o m\u00ednimo necess\u00e1rio para entrarem numa faculdade e se manterem l\u00e1.<\/p>\n<p>A ideia de reformar faz sentido, se voc\u00ea quer proteger o pr\u00f3prio traseiro. Se nada est\u00e1 funcionando, v\u00e3o procurar demitir primeiro quem &#8220;n\u00e3o est\u00e1 fazendo nada&#8221;, ent\u00e3o pare\u00e7a ocupado andando de um lado para outro com uma planilha de dados na m\u00e3o e dando marteladas a esmo, de vez em quando propondo demolir uma parede ou comprar um mesa nova. Essa faina d\u00e1 a impress\u00e3o de que voc\u00ea tem um projeto, um prop\u00f3sito. Mais que isso, a impress\u00e3o de que voc\u00ea \u00e9 <em>\u00fatil<\/em> para o funcinoamento da coisa, enquanto o faz-nada que s\u00f3 fica tentando entender o que n\u00e3o est\u00e1 funcionando \u00e9 um c\u00e2ncer do sistema que precisa ser logo operado.<\/p>\n<p>E d\u00e1-lhe reforma educacional. Foram cinco durante a Rep\u00fablica Velha, quatro durante a ditadura de Vargas, quinze anos de debates at\u00e9 se chegar \u00e0 primeira Lei de Diretrizes e Bases (1961), tr\u00eas reformas durante o regime militar, e pelo menos duas (tr\u00eas ou quatro, dependendo de como voc\u00ea conte) desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o. Quinze reformas educacionais em 123 anos de Rep\u00fablica. Uma m\u00e9dia de uma reforma educacional a cada oito anos. Praticamente ningu\u00e9m nesse pa\u00eds se formou sem &#8220;sofrer&#8221; uma reforma educacional. Eu nem mencionei as mudan\u00e7as que n\u00e3o foram implementadas atrav\u00e9s de reformas constitucionais ou leis ordin\u00e1rias. Se formos contar as mudan\u00e7as efetivadas atrav\u00e9s de portarias do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (e seus equivalentes passados) a gente chega ao absurdo n\u00famero de 52 mudan\u00e7as estruturais na nossa educa\u00e7\u00e3o em 123 anos de Rep\u00fablica. E os nossos alunos tiram notas ruins porque s\u00e3o burros, n\u00e3o \u00e9 mesmo?<\/p>\n<p>H\u00e1 momentos em que penso que n\u00e3o importa muito se estamos mesmo indo na dire\u00e7\u00e3o certa. Gostaria que simplesmente f\u00f4ssemos por tempo suficiente em alguma dire\u00e7\u00e3o, <em>qualquer dire\u00e7\u00e3o<\/em>, para termos como saber se \u00e9 a dire\u00e7\u00e3o certa. A impress\u00e3o que tenho, ao estudar a hist\u00f3ria de nossa educa\u00e7\u00e3o, \u00e9 que rodopiamos no mesmo lugar, babando para qualquer novidade surgida nos Estados Unidos, na Alemanha, na Fran\u00e7a, no Jap\u00e3o, na URSS ou na puta-que-o-pariu. E d\u00e1-lhe ensino t\u00e9cnico, construtivismo, escola nova, gin\u00e1sios, vestibulares, interdisciplinaridade, behaviorismo, m\u00e9todo Kumon, etc. Queremos ser tudo, ter tudo. Queremos que a nossa educa\u00e7\u00e3o empregue todas as teorias educacionais do mundo. O que equivale a querermos que nosso carro seja ao mesmo tempo <em>pick-up<\/em>, perua, carro de passeio, esportivo e compacto.<\/p>\n<p>Quando \u00e9 que vamos parar com essa mania de mexer na m\u00e1quina? Quanto tempo at\u00e9 algum iluminado ter a ideia de que, talvez, quem sabe, possivelmente, o nosso sistema educacional, seja ele qual for, funcionaria se simplesmente os professores pudessem trabalhar em paz? N\u00e3o precisa reinventar a roda, mudar a distribui\u00e7\u00e3o de s\u00e9ries, criar nomenclaturas. Vamos simplesmente dar forma\u00e7\u00e3o s\u00f3lida aos mestres-escola, pagar-lhes sal\u00e1rios razo\u00e1veis, oferecer-lhes cursos peri\u00f3dicos de reciclagem, dar seguran\u00e7a e estrutura \u00e0s escolas. Depois que tivermos feito isso por uns dez ou vinte anos, no m\u00ednimo, e esgotado o potencial de crescimento org\u00e2nico do sistema, tosco que seja, vamos pensar em aperfei\u00e7oamentos metodol\u00f3gicos. Vamos primeiro consertar o motor e lanternar direito esse calhambeque, depois a gente compra bancos de couro, pneus radiais e, quem sabe, turbine a m\u00e1quina.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 preciso, absolutamente, discorrer sobre as virtudes de nosso sistema educacional. Mesmo porque, tal discurso n\u00e3o seria suficiente para preencher uma postagem. 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