{"id":83,"date":"2013-01-23T19:00:00","date_gmt":"2013-01-23T22:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=83"},"modified":"2017-11-02T14:08:22","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:22","slug":"matem-se","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/01\/matem-se\/","title":{"rendered":"Matem-se"},"content":{"rendered":"<p>Segundo me contou o meu amigo, tamb\u00e9m escritor, Emerson Teixeira Cardoso, ele trocou correspond\u00eancia com Eugene Ionescu quando era jovem. Ao ouvir isso, fiquei excitado e lhe perguntei que grandes revela\u00e7\u00f5es o mestre do absurdo lhe fizera, pois ele e alguns amigos tinham justamente um grupo de teatro amador em nossa Cataguases natal, na \u00e9poca da suposta correspond\u00eancia.<\/p>\n<p>Bem, era um grupo mais do que amador, tamb\u00e9m autodidata, que encenava pe\u00e7as diversas na base do amor e do instinto. Certa vez, enquanto ensaiavam para a montagem de &#8220;Rinoceronte&#8221;, calharam de ter a ideia de escrever ao ent\u00e3o famoso dramaturgo em Paris. N\u00e3o sei como conseguiram o endere\u00e7o, mas conseguiram, e um dos membros do grupo sabia franc\u00eas, coisa que se sabia naquela \u00e9poca muito mais do que hoje.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s v\u00e1rias hesita\u00e7\u00f5es sobre o conte\u00fado, que acabou sendo um trabalho escrito a muitas m\u00e3os, enviaram uma carta c\u00e2ndida, em que se apresentavam como um grupo de teatro amador, localizado no interior do Brasil, em uma cidade que tinha, \u00e0 \u00e9poca, cerca de 30 mil habitantes. Depois de enfatizarem que tudo o que sabiam de teatro haviam aprendido nos livros que haviam lido sobre o assunto e nas pe\u00e7as que haviam ousado encenar, descreviam com min\u00facias as dificuldades por que passavam e a incompreens\u00e3o que enfrentavam (e apesar de tudo uma pe\u00e7a teatral daquelas deve ter tido mais p\u00fablico em 1969 do que teria hoje, na mesma cidade, j\u00e1 crescida e mais &#8220;desenvolvida&#8221;). A carta conclu\u00eda com uma pergunta ao dramaturgo, como se ele fosse uma esp\u00e9cie de or\u00e1culo: &#8220;o que devemos fazer?&#8221;<\/p>\n<p>A resposta de Ionescu veio quase tr\u00eas meses depois, quando a pe\u00e7a j\u00e1 tinha sido apresentada todas as duas ou tr\u00eas vezes que poderia ser. Era uma frase \u00fanica, seca, isolada no centro de uma folha de papel of\u00edcio:<\/p>\n<div style=\"text-align: center\">\n<span lang=\"fr\">\u00ab tuez-vous \u00bb<\/span><\/div>\n<p>Todos ficaram evidentemente perplexos com t\u00e3o formid\u00e1vel imperativo, sutil como uma chifrada de rinoceronte. N\u00e3o sei se meu amigo j\u00e1 desenvolveu uma teoria sobre as motiva\u00e7\u00f5es do conselho de Ionescu, ou mesmo se existe uma raz\u00e3o para ele, al\u00e9m do mau humor de um exilado que devia receber centenas de cartas de f\u00e3s cada dia. Mas, de fato, tendo refletido sobre o enigma da frase, ainda mais pela carga de gravidade que a exiguidade lhe empresta, desenvolvi uma teoria:<\/p>\n<p>Ionescu, ao tomar conhecimento da exist\u00eancia, no interior do Brasil, de um grupo de pessoas que se dedicava a estudar teatro a partir de livros e montar precariamente as pe\u00e7as escritas por dramaturgos como ele, deve ter se sentido bastante incomodado com a pergunta que ainda hoje n\u00e3o quer calar em mim quando vejo algo equivalente: o que essa gente pensa que est\u00e1 fazendo?<\/p>\n<p>Vivem em uma realidade distante, para ele incompreens\u00edvel, em nada explic\u00e1vel pelas vari\u00e1veis da Europa do p\u00f3s-guerra; enfrentam tantas restri\u00e7\u00f5es que praticamente os impedem de ter acesso a cultura &#8212; e  ainda mais sob o tac\u00e3o de uma ditadura. Est\u00e3o inseridos em uma sociedade que de forma alguma valoriza seu esfor\u00e7o, compreende seu trabalho ou se solidariza com suas inquieta\u00e7\u00f5es. E no fim das contas o que fazem \u00e9 tosco e improvisado, pelo autodidatismo. E \u00e9 tamb\u00e9m prec\u00e1rio, porque a escassez de meios lhes obriga a improvisar, deformando a concep\u00e7\u00e3o do autor. E todos os aplausos s\u00e3o de amigos e parentes.<\/p>\n<p>Diante de tal realidade, o que fazer sen\u00e3o matar-se?<\/p>\n<p>Afinal, voc\u00ea j\u00e1 vive de costas para a cultura de seu pa\u00eds &#8212; ou a falta dela &#8212; e busca ingenuamente a aprova\u00e7\u00e3o de um autor que, mesmo talentoso, est\u00e1 em outro continente e em outro s\u00e9culo. Voc\u00ea j\u00e1 se anulou, voc\u00ea j\u00e1 foi calado pela ditadura, voc\u00ea est\u00e1 imitando modelos estrangeiros porque eles, e somente eles, s\u00e3o seguros. Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 metaforicamente morto, s\u00f3 falta o realismo.<\/p>\n<p>Se j\u00e1 est\u00e1 morto assim, matar-se mais n\u00e3o \u00e9 uma viol\u00eancia nova. Acabe o servi\u00e7o mal come\u00e7ado. Mate-se.<\/p>\n<p>Este &#8220;matar-se&#8221; adquire um sentido libertador. Ionescu n\u00e3o sabia se os jovens se matariam por sua frase, mas eles n\u00e3o se mataram. O conselho os libertou, ou deveria ter libertado. Pelo menos deveria ter libertado da idolatria a Ionescu e lhes mandado escrever de volta:<\/p>\n<div style=\"text-align: center\">\n<span lang=\"fr\">\u00ab je tuerai vous \u00bb<\/span><\/div>\n<p>Ou, num n\u00edvel acima de compreens\u00e3o e liberdade:<\/p>\n<div style=\"text-align: center\">\n<span lang=\"fr\">\u00ab je survivrai \u00bb<\/span><\/div>\n<p>Porque a vingan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 liberdade. Mas a sobreviv\u00eancia \u00e9 uma grande rebeldia.<\/p>\n<p>Pensando desta forma, quer tenha Ionesco pensado assim ou n\u00e3o, o conselho adquire um car\u00e1ter de  or\u00e1culo, e os jovens cataguasenses acabaram tendo na m\u00e3o o que esperavam, apenas n\u00e3o da forma que queriam.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Segundo me contou o meu amigo, tamb\u00e9m escritor, Emerson Teixeira Cardoso, ele trocou correspond\u00eancia com Eugene Ionescu quando era jovem. 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