{"id":88,"date":"2013-01-13T09:57:00","date_gmt":"2013-01-13T12:57:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=88"},"modified":"2018-11-26T23:06:49","modified_gmt":"2018-11-27T02:06:49","slug":"mascarados-dialogando-de-dia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/01\/mascarados-dialogando-de-dia\/","title":{"rendered":"Mascarados Dialogando de Dia"},"content":{"rendered":"\n<p>O pr\u00e9dio das reparti\u00e7\u00f5es municipais era bonito, hist\u00f3rico, razoavelmente bem depredado e detest\u00e1vel. Entrei pela porta de madeira bruta, entalhada a machado, em busca do departamento de arrecada\u00e7\u00e3o do imposto predial e territorial urbano, onde deveria tentar obter, pela quarta vez em trinta dias, uma certid\u00e3o negativa que me habilitasse a hipotecar a minha pr\u00f3pria casa para poder custear o tratamento da doen\u00e7a terminal de minha mulher. Um dia falarei sobre isso, sobre a obriga\u00e7\u00e3o que temos de dilapidar o futuro dos filhos para fingir que tratamos da morte inevit\u00e1vel dos vivos, tudo porque a sociedade nos culpar\u00e1 se sobrarmos razoavelmente ricos depois de uma desgra\u00e7a na fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Impus ao meu rosto a melhor seriedade que ainda podia fingir, mascarando bem o al\u00edvio de saber que o sofrimento da querida Estela n\u00e3o duraria muito mais, e talvez nem fosse preciso usar a certid\u00e3o. Somente assim, preparado para o luto, eu poderia transitar entre os conhecidos sem olhares reprovadores.<\/p>\n\n\n\n<p>A sala do departamento de arrecada\u00e7\u00e3o era caracterizada pelas cadeiras desconfort\u00e1veis, de madeira nua e irregular, e pelo verniz meloso que estragava as cal\u00e7as de quem se sentasse durante muito tempo. Ainda ter\u00edamos muitos meses a esperar de p\u00e9 at\u00e9 que os pobres pe\u00f5es de roupa suja e costas cansadas fossem curtindo o excesso de verniz at\u00e9 aquela cobertura caramelenta se transformasse numa sebosidade escura e segura. L\u00e1 dentro n\u00e3o havia sen\u00e3o um ventilador, que girava exclusivamente pelo amor de gastar alguma eletricidade, visto que a velocidade de grama crescendo com que girava n\u00e3o servia nem para refrigerar o pr\u00f3prio mecanismo. A sala de espera, dotada do conforto luminoso de amplos janel\u00f5es de vidro que davam para o p\u00f4r do sol, estava separada do gabinete do oficial por uma porta que dava para uma sala refrigerada. O expediente come\u00e7ava ao meio-dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda achei um lugar para me recostar pr\u00f3ximo \u00e0 parede oposta \u00e0 janela. Se fosse atendido r\u00e1pido ainda teria a b\u00ean\u00e7\u00e3o de n\u00e3o ter que aturar o sol das tr\u00eas horas. Teria ficado recostado l\u00e1, em c\u00f4modo sil\u00eancio, se n\u00e3o tivesse entrado o Rog\u00e9rio&nbsp;Justo, que eu n\u00e3o via h\u00e1 tanto tempo que mal lembrava seu rosto. Ele tinha sido um grande amigo de meu pai quando eu era menino, fora respons\u00e1vel por alguns bons presentes que ganhei de anivers\u00e1rio, e por muitas vezes que ele chegou em casa tarde e com cheiro de cacha\u00e7a, para desespero de minha m\u00e3e. Felizmente meu pai nunca chegara sem dinheiro no bolso. Jogava, mas incrivelmente ganhava sempre mais do que perdia, e sempre voltava das noitadas quite com a despesa: o lucro gasto em bebida e salgadinhos. Andava afastado desde que meu pai se tornara abst\u00eamio e ele n\u00e3o, mas ainda se cumprimentavam quando se encontravam pelo mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1vamos ainda nos cumprimentando quando Eleonora Gomes entrou, carregando um grosso envelope nas m\u00e3os. Tinha as unhas pintadas de rosa claro e um par de \u00f3culos em uma arma\u00e7\u00e3o que combinava tanto com elas quanto com o tom dos sapatos, o tipo de luxo que ostenta cuidado obsessivo com a apar\u00eancia. Era uma das conhecidas que fizera em minha carreira de representante comercial. Conhecida apenas. Mantenho dist\u00e2ncia de pessoas complicadas, especialmente as ricas. Levo uma vida simples e bastante sozinha. Gosto assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Achei-a bastante tranquila, apesar da recente perda de uma prima e o seu g\u00eanio, inalterado. Depois de breves minutos alternando entre respond\u00ea-la e ao Rog\u00e9rio, dei-me conta da falta de educa\u00e7\u00e3o que estava cometendo:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Desculpem-me a falta de educa\u00e7\u00e3o, eu nem me lembrei de apresent\u00e1-los. Eleonora, esse \u00e9 o Rog\u00e9rio, amigo de minha fam\u00edlia, l\u00e1 de S\u00e3o Pedro. Rog\u00e9rio, essa \u00e9 a&nbsp;Eleonora, filha do Joaquim Gomes, l\u00e1 de Leopoldina.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles se cumprimentaram cortesmente, com a urbanidade comercial e neutra que se espera nos dias de hoje. Deixei-os \u00e0 vontade para darem continuidade \u00e0 conversa, porque estava mais preocupado com a minha vez na fila do que com qualquer assunto que eles pudessem come\u00e7ar. O sol ia avan\u00e7ando pelo ch\u00e3o, como uma doen\u00e7a que se espalha, e a a fila andava lentamente demais. De vez em quando eu interrompia minha preocupa\u00e7\u00e3o para dar um ou outro empurr\u00e3o no assunto. Numa dessas vezes o empurr\u00e3o funcionou t\u00e3o bem que eles entraram numa conversa que tardou quase meia hora, e me colocou no meio:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Voc\u00ea sumiu de Leopoldina,&nbsp;Eleonora.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Estou agora vivendo em Governador Valadares. Meu marido est\u00e1 trabalhando com minera\u00e7\u00e3o por l\u00e1, temos uma empresa grande, que presta servi\u00e7os \u00e0 Vale do Rio Doce.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Interessante, dizem que aquela regi\u00e3o voltou a crescer bastante nos \u00faltimos dez anos &#8212; comentei, sem nenhuma inten\u00e7\u00e3o especial.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi a deixa para que ela come\u00e7asse a falar sobre as maravilhas de l\u00e1, do pleno emprego, das oportunidades de neg\u00f3cios, do fluxo de pessoas e coisas. Eu at\u00e9 comecei a ter vontade de abandonar o meu emprego e ir para l\u00e1 tamb\u00e9m. Felizmente eu sabia que ela era dada a exageros, especialmente quando falava de si mesmo e de suas infinitas qualidades. A men\u00e7\u00e3o de que o marido estava no ramo de minera\u00e7\u00e3o acabou atraindo Rog\u00e9rio para o assunto:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Eu tamb\u00e9m estou no ramo &#8212; ele disse. Mas claro que n\u00e3o tenho uma empresa grande. Ali\u00e1s, eu n\u00e3o trabalho diretamente com min\u00e9rio, eu alugo caminh\u00f5es para as mineradoras.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Pois \u00e9, menino. L\u00e1 em Valadares o neg\u00f3cio t\u00e1 crescendo t\u00e3o depressa que est\u00e1 faltando caminh\u00e3o. E os que aparecem est\u00e3o cobrando um horror. Meu marido est\u00e1 tentando conseguir 150 caminh\u00f5es trucados para transportar min\u00e9rio, mas se for pagar o pre\u00e7o que andam cobrando ele n\u00e3o vai conseguir ter lucro. Voc\u00ea n\u00e3o conhece, por acaso, quem possa nos arranjar esses caminh\u00f5es?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Uai, eu posso &#8212; disse o Rog\u00e9rio. Eu arranjo esses 150 caminh\u00f5es para voc\u00ea. E eu sei quanto andam pagando por l\u00e1. Eu fa\u00e7o por vinte por cento a menos se me der um contrato.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu me assustei um pouco com a afirma\u00e7\u00e3o do Rog\u00e9rio, que n\u00e3o me parecia ser o dono de tanto caminh\u00e3o, especialmente numa cidade t\u00e3o pequena quanto S\u00e3o Pedro.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Mas, Rog\u00e9rio. Voc\u00ea tem tanto caminh\u00e3o assim, homem? Com cento e cinquenta caminh\u00f5es d\u00e1 para levar embora S\u00e3o Pedro inteira!<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Uai, s\u00f3 eu tenho uns vinte a meu servi\u00e7o, e eu arranjo o resto com amigos, parentes ou conhecidos. F\u00e1cil.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; N\u00e3o vai sobrar um caminh\u00e3o num raio de noventa quil\u00f4metros se voc\u00ea arranjar 150 caminh\u00f5es para ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Rog\u00e9rio ficou um pouco ofendido com a insinua\u00e7\u00e3o. Mas reafirmou que conseguia.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212; Passe o seu telefone, por favor &#8212; pediu a Eleonora.<\/p>\n\n\n\n<p>Rog\u00e9rio n\u00e3o se fez de rogado e cantou o n\u00famero de um telefone m\u00f3vel. Ela tomou nota dele em uma folha avulsa de papel, retirada de dentro da bola, mesmo estando com o pr\u00f3prio celular \u00e0 m\u00e3o. Anotar um telefone num peda\u00e7o avulso de papel \u00e9 desejar perd\u00ea-lo, para ter a desculpa de n\u00e3o ligar. Desculpa talvez desnecess\u00e1ria, pois um n\u00famero citado t\u00e3o depressa talvez estivesse errado.<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1vamos nisso quando chamaram a senha do Rog\u00e9rio para um dos dois guich\u00eas de atendimento, e logo a minha. Sa\u00edmos de l\u00e1, separadamente, para resolver nossos problemas pessoais, deixando Eleonora com o telefone anotado e aquele seu belo sorriso escancarado.<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca soube se ela ligou, ou se o n\u00famero estava certo. Porque eu mesmo n\u00e3o tomei nota dele. S\u00f3 sei que continuou duvidando que haja tanto caminh\u00e3o em S\u00e3o Pedro, ou num raio de noventa quil\u00f4metros. Tanto quanto duvido que&nbsp;Eleonora tenha uso para 150 trucados em seja qual for a empresa de seu marido. Ela \u00e9 dada a exageros, s\u00f3 n\u00e3o contava que a gente de minha terra fosse dada a mais. Com 150 caminh\u00f5es trucados n\u00e3o sobrava nenhuma casa em S\u00e3o Pedro. N\u00e3o sobrava, talvez, nem a Pedreira Velha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pr\u00e9dio das reparti\u00e7\u00f5es municipais era bonito, hist\u00f3rico, razoavelmente bem depredado e detest\u00e1vel. Entrei pela porta de madeira bruta, entalhada a machado, em busca do departamento de arrecada\u00e7\u00e3o do imposto predial e territorial urbano, onde deveria tentar obter, pela quarta vez em trinta dias, uma certid\u00e3o negativa que me habilitasse a hipotecar a minha pr\u00f3pria casa para poder custear o tratamento da doen\u00e7a terminal de minha mulher. Um dia falarei sobre isso, sobre a obriga\u00e7\u00e3o que temos de dilapidar o futuro dos filhos para fingir que tratamos da morte inevit\u00e1vel dos vivos, tudo porque a sociedade nos culpar\u00e1 se sobrarmos razoavelmente ricos depois de uma desgra\u00e7a na fam\u00edlia.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[149],"tags":[81,87,41],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/88"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=88"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/88\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6128,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/88\/revisions\/6128"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=88"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=88"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=88"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}