{"id":97,"date":"2012-12-03T22:00:00","date_gmt":"2012-12-04T01:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=97"},"modified":"2017-11-02T14:08:23","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:23","slug":"tempo-de-semear-tempo-de-colher","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/12\/tempo-de-semear-tempo-de-colher\/","title":{"rendered":"Tempo de Semear, Tempo de Colher"},"content":{"rendered":"<p>Estas montanhas t\u00eam uma hist\u00f3ria, desde os tempos dos \u00edndios, desde antes do primeiro portugu\u00eas cortar a primeira \u00e1rvore. Eles vieram, viveram, morreram, viram o mal que havia e se foram, ficaram apenas alguns pobres puris isolados, entocados quase como bichos. Vieram os emboabas a caminho das minas, tentaram fixar-se aqui, mas n\u00e3o ficou nenhuma vila, queimaram todas as casas, sumiram no tempo como se nunca tivessem pousado, e a estrada real passou ao largo.<\/p>\n<p>Minha av\u00f3 costumava me contar que toda esta regi\u00e3o era pac\u00edfica e silenciosa at\u00e9 a segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo, que ela mesma viveu numa casinhola entre \u00e1rvores, beijada pela sombra fria da mata. Mas veio o caf\u00e9, veio a guerra, a estrada de ferro, vieram as armas. Mataram os \u00edndios, abriram clareiras, come\u00e7aram a produzir. Mas em pouco tempo a terra negou seu seio, os cafezais feneceram, os fazendeiros faliram. O povo restou pobre, em uma terra mais seca e nua. Os trilhos de ferro recuaram, abandonando esta\u00e7\u00f5es ilhadas nas montanhas.<\/p>\n<p>Nasci aqui, sentindo esse vento seco e duro que cresta a alma e corta a cara, que arranca as folhas das \u00e1rvores, como se tentasse arrancar os homens da terra. Mas eles s\u00f3 sair\u00e3o quando chegar a hora da colheita. Toda vez que eu olhava os morros erodidos, as encostas peladas, a terra retalhada com cercas e dividida em lotes de cores diferentes eu me sentia c\u00famplice dessa viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Este ano, por\u00e9m, come\u00e7ou diferente. O cheiro do ar foi outro desde o in\u00edcio, os dias foram encolhendo, as noites ficando mais frias e quando eu olhava as bordas dos morros cortadas contra as nuvens eu tinha calafrios, temendo que essa Hora maldita estivesse a caminho.<\/p>\n<p>Nas primeiras semanas eu me senti assim, sozinho. N\u00e3o tinha coragem de falar com ningu\u00e9m, porque desde menino tivesse essa fama de sens\u00edvel, de fresco, de fr\u00e1gil. Nem os calos duros em minhas m\u00e3os, nem minhas botinas armadas com arame, nem o cheiro forte da terra em meu corpo conseguiram apagar as impress\u00f5es que os outros tiveram de mim no dia em que sa\u00ed de mim e disse aquelas coisas que ningu\u00e9m nunca ousou repetir.<\/p>\n<p>Mas quando o outono come\u00e7ava a envelhecer, notei que n\u00e3o era mais o \u00fanico. Podia pressentir que os jovens estavam irrequietos  que os velhos estavam mais abatidos. Alguns sonhando em voar, outros querendo dobrar definitivamente as asas. Ent\u00e3o senti voltando a mim a sensa\u00e7\u00e3o, e os cheiros, que me abateram naquela tarde de crian\u00e7a. Eu pressenti a proximidade do escuro, eu enxerguei as dobras do destino direcionando o correr de nossas vidas para o canto da mesa, para a ca\u00e7apa inevit\u00e1vel. Senti a Presen\u00e7a pela primeira segunda vez, mas n\u00e3o tive medo nem \u00f3dio, aliviei-me de toda irrita\u00e7\u00e3o e adorei aquela \u00e9poca do ano.<\/p>\n<p>Os Gon\u00e7alves ent\u00e3o apareceram com a not\u00edcia de que estavam indo embora. Eles tinham uma fazenda grande, com v\u00e1rias casas, currais, tulhas, silos e cocheiras. Tinham feito um trabalho bonito, por vinte ou trinta anos, desde que o velho Nhonh\u00f4 Gon\u00e7alves chegara de Itaperuna cheio de dinheiro, que as m\u00e1s l\u00ednguas diziam ser mal havido, e comprora a terra de um colono antigo, que eu nem chegara a conhecer. Eles trabalharam muito, fizeram render o seu dinheiro, tinham vacas, tinham milharais, canaviais, um pomar que dava gosto. Ent\u00e3o veio aquela seca longa do ano retrasado, emagrecendo o gado, matando o milho plantado, prejudicando a cana. E justo quando a seca acabava apareceu a praga da erva roxa nos pastos, intoxicando os animais famintos que comiam tudo.<\/p>\n<p>Perderam muito dinheiro, tiveram que vender as vacas boas enquanto valiam alguma coisa, muitas morreram vacas de fome, muitas ficaram vacas maninas, cresceram bezerros de pelo ru\u00e7o, novilhas de tetas murchas.  Um gado sem valor, em uma terra que precisava ser ro\u00e7ada de novo, com uma praga que ningu\u00e9m sabe de onde veio, como se o pr\u00f3prio dem\u00f4nio tivesse passado semeando.<\/p>\n<p>Agora est\u00e3o finalmente vendendo, e \u00e9 uma tristeza ver os garotos com os olhos cheios de \u00e1gua, tentando sorrir enquanto p\u00f5em pre\u00e7o naquilo que nada paga. Dizem que v\u00e3o comprar caminh\u00f5es, ganhar a vida no transporte de carga. Enquanto eles falam eu escuto um vento soprando forte, um vento que arranca folhas das \u00e1rvores. O vento que anuncia que chegou o tempo de colher. Os dias continuaram encolhendo, as noites ficando frias. Colheita no inverno, colheita mais amarga. Os jovens irrequietos, os velhos andando de cabe\u00e7a baixa. Eu sei que a escurid\u00e3o est\u00e1 mais perto, alguma presen\u00e7a est\u00e1 aqui. Parece que o clima mudou, mas eu n\u00e3o estou mais gostando dessa \u00e9poca do ano.<\/p>\n<p>Sempre vivi nesta casa de fazenda. Hoje fazem dez anos que meu pai morreu. Foi num agosto ventoso como esse, talvez ali eu tenha ouvido esse vento pela primeira vez. Herdei esta terra, estas cercas, estas pobres vacas, companheiras de meu infort\u00fanio, pobres reses que eu nunca consegui vender. N\u00e3o sei bem do que eu vivo, o leite que tiro mal d\u00e1 para comer. Tenho a heran\u00e7a de uma tia rica, o \u00f3dio de uma mulher que me deixou. Faz muito tempo que n\u00e3o tenho medo, muito tempo que n\u00e3o sentia nada mau. Tinha aprendido a conviver com esta terra, deixar crescer o mato, receber a chuva, proteger a ave, abrigar o bicho. Dizem na cidade que eu tamb\u00e9m virei meio bicho, s\u00f3 porque n\u00e3o consegui cortar a \u00e1rvore que nasceu debaixo do Mustang que ficava na garagem. Garagem que j\u00e1 caiu de podre porque n\u00e3o a uso: por que me enjaular entre dobras de ferro e produzir fuma\u00e7a ruidosa pelo mundo? Vou a p\u00e9 aonde vou, e sempre \u00e9 perto. Dizem na cidade que a lucidez tamb\u00e9m me deixou.<\/p>\n<p>Os Gon\u00e7alves eram meus \u00faltimos amigos. Catarina a \u00faltima mulher que n\u00e3o me achava louco. Teria sido minha esposa se eu quisesse, me ajudaria a cuidar de meus coqueiros, meus horta, minhas laranjeiras, de todos esses p\u00e1ssaros que pousam na varando cada silenciosa tarde. Eles me d\u00e3o uma m\u00fasica melhor que qualquer r\u00e1dio.<\/p>\n<p>Ficar\u00e1 um buraco em forma de Catarina em minha vida. Um buraco na forma de cada amigo que vai embora, na forma de deus que nunca vi, na forma de cada alegria irrepetida que nunca descobri.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o esta tarde veio o homem de longe, com cabelos penteados, camisa branca de riscado roxo. Enverga botinas pontiagudas, sem esporas, porque sua montaria \u00e9 dessas de que n\u00e3o gosto.<\/p>\n<p>Ele me falou de coisas que n\u00e3o entendo \u2014 como dinheiro, eucaliptos e carros. Fala em derrubar estas espertas, angicos, paineiras, jenipapos, imba\u00fabas e ip\u00eas. No lugar de todas estas cores e perfumes diferentes, uma \u00e1rvore apenas h\u00e1 de imperar, com sua resina roxa, seu aroma doce.<\/p>\n<p>&#8220;Apenas oito anos&#8221;, ele diz, &#8220;e pode-se vender a um pre\u00e7o exorbitante. T\u00e3o exorbitante, ali\u00e1s, que eu estou disposto a contratar agora a venda, para proteg\u00ea-lo da possibilidade de que em oito anos tanta gente tenha plantado que o pre\u00e7o nem seja mais exorbitante. Aproveite esta oportunidade \u00fanica na vida, est\u00e1 na hora de ganhar dinheiro outra vez, sacudir a poeira desta terra adormecida.&#8221;<\/p>\n<p>Eram palavras bonitas, mas eu s\u00f3 consegui me fixar nas listras roxas de sua camisa, pensar nas folhas roxas da praga que matou o gado dos Gon\u00e7alves e vai levando embora Catarina. Nada de bonito pode vir de algu\u00e9m que usa roxo. Cor de morte, cor de hematoma, cor de luto de homem, pois homem n\u00e3o se veste de vi\u00fava.<\/p>\n<p>&#8220;Uma terra t\u00e3o grande normalmente a gente oferece em parceria, mas se o senhor preferir podemos fazer-lhe um pre\u00e7o muito bom por seus cento e vinte alqueires.&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o venderei a terra, nem plantarei eucaliptos. Tenho trinta anos e ainda tenho alguns mognos para ajudar a crescer. Espero um dia estender minha rede entre os dois jacarand\u00e1s que plantei na entrada do terreiro, como sentinelas a bloquear a entrada de qualquer carro.<\/p>\n<p>&#8220;Sua propriedade vai ficar isolada entre todas as outras, \u00fanica ilha de mato e pasto sujo num mar de montanhas verdejantes de reflorestamento.&#8221;<\/p>\n<p>Que seja, mas h\u00e1 uma beleza nas ilhas. As \u00fanicas que eu conhe\u00e7o s\u00e3o as que existem no rio, que eu costumo contemplar quando vou \u00e0 cidade receber alguma venda, verificar a renda que me legou a minha tia e fazer minhas compras. S\u00e3o peda\u00e7os bonitos de terra que resistem no meio do rio, deixando a \u00e1gua passar ao largo, a turbul\u00eancia ir embora. Resistem \u00e0 enchente at\u00e9. Que seja, minha fazenda ser\u00e1 uma ilha. E eu o habitante feliz, Robinson Cruso\u00e9 eternamente a espera de que n\u00e3o me resgatem dela. Espero viver muito, tenho de me cuidar. Enquanto estiver vivo talvez consiga proteger o trinca-ferro, o m\u00e3o pelada e a pre\u00e1.<\/p>\n<p>Que sopre o vento o quanto quiser. Que leve embora as folhas doentes das \u00e1rvores. Pode ser o tempo de colheita delas, mas as folhas vivas, que ainda bebem a seiva da terra, estas n\u00e3o v\u00e3o ser arrancadas pelo primeiro vento.<\/p>\n<p>Quando ele foi embora eu senti a escurid\u00e3o mais perto do que nunca. Senti uma presen\u00e7a estranha aqui por perto. Estava perto da noitinha, mas eu n\u00e3o tinha medo. Faz muito tempo que n\u00e3o acontece nada estranho, esta terra nunca me fez mal. Nunca fizera mal aos \u00edndios que ficaram, os que a entenderam.<\/p>\n<p>Mas o calafrio continuou, uma sensa\u00e7\u00e3o de algo forte caminhando entre os galhos emaranhados, algo acinzentado, peludo e frio. N\u00e3o tenho medo, mas n\u00e3o saio \u00e0 noite quando pressinto isso. Fico na varanda contemplando o escuro, e o escuro me contemplando com seus olhos amarelos, que \u00e0s vezes piscam. Acho que o estranho n\u00e3o deveria ter sido t\u00e3o ousado, n\u00e3o a ponto de vir aqui em carro convers\u00edvel.<\/p>\n<p>Os grunhidos que ouvia longe, contidos, pareceram mais perto. Os olhos n\u00e3o estavam me olhando enquanto eles estalavam na noite. Ouvi o motor de um carro acelerar ao m\u00e1ximo, bater contra a minha porteira com a for\u00e7a de quebr\u00e1-la, mas por felicidade desapareceu pela estrada aos poucos. Pude ouvir o motor um longo tempo, como se a dist\u00e2ncia n\u00e3o aliviasse o p\u00e9 do estranho de camisa roxa. Que nunca mais voltou, nem voltaria sob a mira de uma espingarda.<\/p>\n<p>Ele talvez n\u00e3o saiba, mas n\u00e3o deveria ter falado comigo t\u00e3o r\u00edspido. Todos me chamam de louco, mas ningu\u00e9m me incomoda. N\u00e3o desde que o filho do Gracindo, aquele idiota, veio tentar ca\u00e7ar minhas capivaras. Eu o proibi, adverti, implorei, mas ele me estapeou, abusando de sua for\u00e7a e me chamando de maricas. Entrou na mata e n\u00e3o voltou. Sua m\u00e3e s\u00f3 o viu de novo embrulhado em pl\u00e1stico preto, uma fotografia ampliada colada no lugar do rosto.<\/p>\n<p>Tentaram me acusar, mas n\u00e3o havia como associar minhas m\u00e3os com aquelas marcas, meus dentes com aqueles nacos de carne arrancada. Mataram uma pobre on\u00e7a nestas redondezas e deram o caso por terminado. Isso \u00e9 o que a pol\u00edcia diz, mas ningu\u00e9m nunca mais entrou na minha terra pensando em ca\u00e7ar. O povo daqui \u00e9 mais esperto que esses pol\u00edcias que vem de Ub\u00e1 ou Muria\u00e9, e n\u00e3o entendem a l\u00edngua da terra. A diferen\u00e7a \u00e9 que eu, diferente do povo, n\u00e3o tenho medo. N\u00e3o vou me deixar levar.<\/p>\n<p>Os Gon\u00e7alves foram embora hoje. Estava l\u00e1 na despedida, barbeado pela primeira vez em meses. Uma cena de fazer chorar, os pobres homens, despossu\u00eddos de suas vidas, condenados a vagar no mundo conduzindo m\u00e1quinas, a maldi\u00e7\u00e3o da terra. Catarina estava entre eles, parecia mais triste que todo mundo. N\u00e3o fui o \u00fanico a notar que lhe haviam dado rem\u00e9dio outra vez, e amarrado suas m\u00e3os e p\u00e9s.<\/p>\n<p>Voltei para casa triste, sentindo a vida me escapar. Sentei na varanda olhando a noite, ouvindo os curiangos no terreiro, e sentindo falta dos olhos amarelos que me acompanhavam nestas solid\u00f5es frequentes.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ouvi de novo o grunhido, e tampouco tive medo. Tanto faz \u00e0 vida, se a gente morre tarde ou cedo. Mas a fera n\u00e3o tentou morder, nem veio junto a mim. Apareceram os seus olhos, amarelos, na penumbra do terreiro. E no dia seguinte eu encontrei na horta um len\u00e7o arrebentado, como se tivesse amarrado os punhos de algu\u00e9m.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estas montanhas t\u00eam uma hist\u00f3ria, desde os tempos dos \u00edndios, desde antes do primeiro portugu\u00eas cortar a primeira \u00e1rvore. Eles vieram, viveram, morreram, viram o mal que havia e se foram, ficaram apenas alguns pobres puris isolados, entocados quase como bichos. 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